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Brazilian Journal of Psychiatry

Print version ISSN 1516-4446On-line version ISSN 1809-452X

Rev. Bras. Psiquiatr. vol.21 n.1 São Paulo Jan./Mar. 1999

https://doi.org/10.1590/S1516-44461999000100015 

Livros


Luto: estudos sobre a perda na vida adulta
Por Colin Murray Parkes. 1998. São Paulo:Summus Editorial. 291 páginas. ISBN 85-323-0581-4

 

O lançamento do livro, Luto: estudos sobre a perda na vida adulta, pela primeira vez traduzido para o português, apresenta Colin Murray Parkes, psiquiatra britânico que vem se dedicando a estudar as questões que envolvem o luto. Seu trabalho teve início no final da década de 1950 em estreita colaboração com John Bowlby. Parkes fez parte da equipe de pesquisadores no Instituto Tavistock de Relações Humanas até 1992, ano da morte de Bowlby. O livro de Parkes nos ajuda a identificar e entender as raízes do pesar, os danos causados pelo luto e as maneiras de ajudar os enlutados a emergir desse sofrimento. Apresenta de forma atualizada as questões presentes na experiência de perda por morte, além de apontar de maneira mais resumida para outros tipos de perda, como o divórcio, o desemprego, a esterilidade/infertilidade e as perdas envolvidas na recuperação de um câncer.

Os exemplos e as referências da literatura permitem ao leitor compreender os diferentes caminhos da experiência de ter um vínculo rompido por morte e as conseqüências dessa experiência, em âmbito somático, social, emocional e cultural. O luto é entendido por Parkes como uma importante transição psicossocial, com impacto em todas as áreas de influência humana. Outra importância do livro é que seu conteúdo é acessível a médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais e àqueles que têm contato com pessoas enlutadas. A obra tem como objetivo principal oferecer um entendimento abrangente sobre o luto e seu processo, permitindo que vários profissionais possam prestar uma ajuda mais efetiva.

Os primeiros capítulos, basicamente conceituais, expõem o luto numa visão muito próxima ao modelo de doença, em que Parkes apresenta o luto como evento traumático, sua relação com a doença mental, e nos mostra as mudanças de atitude que ocorrem na sociedade quando morre uma pessoa. Neste sentido, Parkes ressalta o importante papel da pesquisa, a fim de compreender melhor os meios pelos quais o luto pode levar a distúrbios psiquiátricos e para iniciar programas de prevenção e tratamento. Mais adiante, o autor desenvolve de maneira abrangente toda a dimensão do processo de luto. Descreve as dores, o choro, a procura, as imagens do morto e as distorções na percepção do enlutado. Apresenta também a discussão do aparecimento dos sonhos de enlutamento, do entorpecimento, dos mecanismos de evitação da perda, do esquecimento seletivo, e o surgimento dos movimentos de aproximação e afastamento. Aborda também os sentimentos que envolvem raiva e culpa, as manifestações de protesto, amargura e de auto-acusação. Essa parte é finalizada com a discussão sobre a recuperação do processo de luto, apresentando a obtenção de uma nova identidade do enlutado. Discute as transições psicossociais por que passa o enlutado, as mudanças de concepções, a reorganização e a mudança nos papéis familiares.

Um capítulo importante é dedicado ao Luto Atípico, em que o autor levanta a discussão a respeito das pessoas enlutadas que "desmontam" após uma perda e são encaminhadas para atendimento psiquiátrico. Aponta para as formas apresentadas no luto crônico, as formas do luto adiado, os ataques de ansiedade e de pânico, as auto-acusações, e o surgimento de sintomas somáticos. Os três capítulos seguintes destinam-se a uma ampla descrição dos Determinantes do luto. Inicialmente, Parkes discute o envolvimento do enlutado com o morto, ressaltando a força e a segurança do apego, a confiança e as circunstâncias de uma relação particular. Em seguida, o autor traz um estudo detalhado da relação entre o processo de luto e o tipo de morte. Levanta a discussão a respeito das mortes naturais em contrapartida às mortes inesperadas, violentas ou múltiplas. Apresenta também uma categoria de luto que causa problemas especiais, como o luto não autorizado, que designa perdas que não podem ser abertamente apresentadas. Os capítulos seguintes são dedicados às possibilidades de ajudar a enlutado. Destaca o papel da família, dos amigos e os aportes da cultura nos primeiros apoios ao enlutado. Apresenta também o papel dos grupos de ajuda mútua, dos grupos de apoio, o papel dos religiosos, o papel da equipe médica e chega à assistência especializada do luto patológico.

No último capítulo, Parkes considera em que extensão o luto pela morte de uma pessoa se assemelha às reações a outros tipos de perda, como o divórcio, o desemprego, a migração forçada, a morte de um animal de estimação, a esterilidade/infertilidade e as perdas envolvidas na recuperação de um câncer. O apêndice apresenta uma seção com dados científicos e técnicos que baseiam muitas das afirmações expostas nos capítulos anteriores.

O livro de Colin Murray Parkes constitui-se então numa importante contribuição para a compreensão das situações que envolvem o luto, transmitindo de maneira clara e sensível esse inevitável processo emocional.

 

José Alvaro Marcolino
Setor de Psicoterapia, Departamento de Psiquiatria
e Psicologia Médica da Faculdade de Ciências
Médicas da Santa Casa de São Paulo

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