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Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil

Print version ISSN 1519-3829On-line version ISSN 1806-9304

Rev. Bras. Saude Mater. Infant. vol.19 no.3 Recife Jul./Sept. 2019  Epub Sep 16, 2019

https://doi.org/10.1590/1806-93042019000300005 

ARTIGOS ORIGINAIS

Compreensão sobre o trabalho da doula em uma maternidade do Vale do Jequitinhonha - MG

Patrícia de Oliveira Lima1 
http://orcid.org/0000-0002-2163-3048

Marcos Luciano Pimenta Pinheiro2 
http://orcid.org/0000-0001-9939-1045

João Luiz de Miranda3 
http://orcid.org/0000-0001-8241-6461

Helisamara Mota Guedes4 
http://orcid.org/0000-0001-9848-4936

Herlon Fernandes de Almeida5 
http://orcid.org/0000-0002-7801-7553

1,5Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri. Rodovia MGT 367 Km 583. Diamantina, MG, Brasil. CEP: 39.100-000. Email: patricia.enfermeiraobstetra@gmail.com

2,3Departamento de Ciências Básicas. Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri. Diamantina, MG, Brasil.

4Departamento de Enfermagem. Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri. Diamantina, MG, Brasil.


Resumo

Objetivos:

analisar a compreensão das puérperas, das doulas e da equipe assistencial sobre a presença da doula durante o processo de parturição das gestantes.

Métodos:

trata-se de estudo qualitativo, utilizando como instrumento de coleta de dados entrevistas semiestruturadas. O critério de saturação foi utilizado para limitar a amostra e procedida a Análise de Conteúdo.

Resultados:

foram entrevistados 19 participantes, sendo 10 da equipe de saúde, 5 das doulas e 4 das puérperas. Após análise, foram identificadas três categorias, sendo elas: presença da doula durante o trabalho de parto das gestantes e seus significados, acompa-nhamento da doula durante o trabalho de parto das gestantes e suas melhorias, a influência da doulagem na formação acadêmica. A presença das doulas trouxe para a parturiente segurança, apoio, humanização e acompanhamento do processo de parto. Para a equipe trouxe conforto e tranquilidade. As doulas pontuaram benefícios na formação acadêmica.

Conclusões:

foi possível reconhecer a doula como parte do cuidado humanizado, prover subsídios para uma reflexão do seu trabalho, além de revelar a influência da prática da doulagem para formação acadêmica das doulas universitárias.

Palavras-chave Humanização da assistência; Trabalho de parto; Doulas

Abstract

Objectives:

to analyze the understanding of puerperae, doulas and the care team about the presence of a doula during the pregnant women's parturition process.

Methods:

this is a qualitative study, using semi-structured interviews as a data collection instrument. The saturation criterion was used to limit the sample and proceed to the Content Analysis.

Results:

19 participants were interviewed, 10 were the health team, 5 were doulas and 4 were puerperae. After the analysis, three categories were identified: the doula's presence during the pregnant women's labor and their meaning, the doula's follow up during the pregnant women's labor and its improvements, the influence of doulagem in the academic formation. The presence of doulas brought to the parturient security, support, humanization and follow-up on childbirth process. The team brought comfort and tranquility.The doulas scored benefits for academic training.

Conclusions:

it was possible to recognize doula as part of the humanized care, to provide subsidies for a reflection of her work, and to reveal the influence of the practice of doulagem for academic formation of doulas at university.

Key words Humanization care; Labor; Doulas

Introdução

Nos últimos anos, a atenção à saúde da mulher vem avançando com a introdução de programas de assistência humanizada, como a estratégia do Ministério da Saúde denominada Rede Cegonha, que visa à integração dos profissionais de saúde e o empoderamento da mulher como usuária.1

O ingresso de doulas no cenário de parto vem demonstrando na literatura como um elo equipe/gestante, favorecendo o protagonismo da parturiente e corroborando com uma assistência humanizada e acolhedora.2

O Ministério da Saúde define doula como uma acompanhante, com ou sem treinamento específico que presta constante apoio à gestante e seu compa-nheiro/acompanhante durante o trabalho de parto, não necessitando de formação técnica na área da saúde.3 Seu objetivo é esclarecer a respeito da evolução do trabalho de parto, aconselhar as posições mais confortáveis durante as contrações, utilizar métodos não farmacológicos de alívio da dor, promover técnicas de respiração e relaxamento, proporcionar contato físico e oferecer apoio psicológico.3,4

O apoio social e físico da doula durante o trabalho de parto mostra, também, uma redução de custos.5 Uma pesquisa realizada internacionalmente mostrou que mulheres que receberam apoio das doulas apresentaram menores taxas de parto prematuro e cesárea.5 Além disto, representam uma economia em relação ao custo-benefício, já que a cesárea custa mais caro do que o parto normal.6

A inserção da doula no ambiente hospitalar na maternidade em estudo foi uma das estratégias desenvolvidas pela equipe assistencial em parceria com uma Instituição de Ensino Superior (IES) local, visando traçar caminhos para humanizar a assistência à mulher durante o processo de parturição.

Considerando que a presença da doula visa alcançar a humanização da assistência à mulher durante o processo de nascimento do seu bebê, o objetivo desse estudo foi analisar a compreensão dos envolvidos no momento da parturição das gestantes sobre a inserção da doula nesse contexto.

Métodos

Trata-se de um estudo descritivo, de abordagem qualitativa, realizado em uma maternidade de um hospital do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, que foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa sob o parecer 1104982, CAAE 42859515.6.0000.5108.

O hospital é uma entidade filantrópica de refe-rência macrorregional, com público de atendimento tanto do Sistema Único de Saúde (SUS) como de convênios diversos e particulares. Nesta instituição, um projeto de inserção de doulas, em caráter pioneiro na região vem sendo implementado.

Na cidade onde foi realizado o presente estudo, as doulas têm como foco de atuação o atendimento voluntário hospitalar durante o trabalho de parto, parto e amamentação. A equipe atuante é composta por acadêmicas dos diversos cursos da área da saúde de uma Instituição de Ensino Superior (IES). Antes de atuarem, elas participavam de um curso de capacitação, etapa de um projeto de extensão da IES.

A coleta de dados foi realizada no período de julho a setembro de 2015. Para a produção dos dados empíricos foram realizadas 19 entrevistas semiestruturadas, sendo 10 da equipe assistencial da maternidade, 5 das doulas acadêmicas dos cursos de gra-duação de uma instituição de ensino atuantes no cenário do estudo e 04 de puérperas que receberam o acompanhamento das doulas.

Para definir o número de sujeitos entrevistados, foi usada a saturação de dados a fim de cessar a inclusão de novos participantes. Assim que os dados coletados apresentaram redundância, segundo os pesquisadores, entendeu-se que já havia a compreensão do fenômeno investigado.7

O roteiro de entrevista foi formulado com questões previamente elaboradas com o fim de alcançar o objetivo do estudo.

As puérperas, que aceitaram participar da pesquisa, foram escolhidas a partir dos critérios de inclusão: estar internada na maternidade, entre 24h e 72h após nascimento do seu filho, e receber acompanhamento de doula durante seu trabalho de parto. Não houve restrição quanto ser primíparas ou multíparas, adolescentes (se menores de idade, os responsáveis permitiram a participação delas na pesquisa) ou adultas, analfabetas ou alfabetizadas. Não houve distinção de raça, religião e tipo de internação (SUS, convênio ou particular).

A equipe que atuava diretamente na assistência da maternidade era composta por quatro enfermeiros, quatorze técnicos de enfermagem, seis médicos obstetras, quatro médicos pediatras e uma assistente social, totalizando vinte e nove profissionais. Para participar do estudo foram selecionados profissionais da maternidade que vivenciaram pelo menos um trabalho de parto das gestantes com a presença de uma doula.

Na equipe das doulas possuíam integrantes que eram estudantes de uma instituição de ensino de graduação dos cursos de enfermagem, fisioterapia e nutrição. Quanto ao critério de inclusão, foi definido estar atuante no cenário de estudo.

Utilizou-se análise de conteúdo, fundamentada na análise temática de Bardin, por meio de gravação e transcrição das entrevistas, pré-análise com leitura superficial e organização inicial do material; leitura com profundidade e exploração; codificação dos dados; tratamento dos dados e interpretação.8

Com o intuito de categorizar os resultados, foram atribuídos letras e números aos trechos dos depoimentos apresentados. A letra E representou a categoria de membros da equipe, a letra D a categoria das doulas e a letra P a categoria das puérperas.

Resultados

Foram entrevistados 19 participantes, sendo 4 puérperas, 10 profissionais da saúde (três médicos obstetras, três enfermeiros e quatro técnicos de enfermagem) e 5 doulas.

A partir da análise das entrevistas, foi possível apreender as seguintes categorias: 1. Presença da doula durante o trabalho de parto das gestantes e seus significados; 2. Acompanhamento da doula durante o trabalho de parto das gestantes e suas melhorias; 3. A influência da doulagem na formação acadêmica.

1. Presença da doula durante o trabalho de parto das gestantes e seus significados

Pode-se perceber nas entrevistas uma relação estreita entre o acompanhamento das doulas e os significados de acolhimento, acompanhamento, apoio e humanização, conforme a seguir:

“[...] a gestante tem mais segurança porque tem uma pessoa ali do lado dela o tempo todo” (E3).

“[...] ela ficou comigo, me deu apoio, segurou minha mão, foi ótimo” (P1).

“Então o trabalho da doula vem para fazer esse trabalho mais de humanização, da segurança, conforto, passar carinho para a gestante e também para o familiar” (E8).

“Para mim esse significado da Doula é para poder ajudar ela a fazer o que ela sente vontade de fazer, dar apoio. Questão de humanização mesmo” (D2).

Observou-se que a presença da doula nos pré-partos oferece um conforto para a equipe, por ter uma pessoa o tempo todo ao lado das gestantes, orientando-as quanto às atividades não farmacoló-gicas de alívio da dor e, que na possibilidade de qualquer intercorrência, a doula seria um elo entre a equipe e a gestante.

“O que eu percebo é uma tranquilidade para gestante porque você tem uma pessoa que está acompanhando ela o tempo todo e é uma tranquilidade para equipe. Você sabe que tem alguém que você poderá ir lá periodicamente e que qualquer problema vai poder estar te chamando e tudo” (E1).

“Na verdade, a equipe por mais que ela esteja inteirada do trabalho de parto, ela não tem disponibilidade e tempo para acompanhar todo o trabalho de parto” (E5).

2. Acompanhamento da doula durante o trabalho de parto das gestantes e suas melhorias

Nas entrevistas com as puérperas, pode-se observar que todas negaram necessidades de melhorias nesse quesito.

“Até então, comigo foi tudo excelente. Não acho que deve ter melhora alguma” (P3).

“Na minha opinião foi ótima, foi mais do que melhor. Não reparei nada que ficou faltando” (P4).

Contudo, os membros da equipe e das doulas relataram a falta de recursos físicos e humanos, como detalhado nas falas a seguir:

“A questão física e de material. Só tem uma bola, não tem uma banheira, não tem banquinho próprio para o parto” (D3).

“Eu acho questão de espaço mesmo. Tumultuado” (E7).

Destaca-se nos relatos das doulas a falta de valorização do seu trabalho por parte dos membros do hospital.

“Eu acho que deveria haver um incentivo maior por parte do hospital da participação das doulas. E enfim, acho que deveria ter uma valorização maior” (D4).

O fato das doulas do cenário de estudo serem voluntárias e em sua maioria composta por universitárias foi visto como desvantagem já que prejudica a assiduidade e periodicidade frente a priorização para as atividades acadêmicas.

“Eu acho que poderia ter doulas mais frequentes. Elas ajudam bem. O ponto negativo é quando não tem doulas” (E1).

“Em relação as doulas mais assiduidade e vir mais vezes. Porque eu fiz o curso, mas por questão de tempo eu não consegui exercer” (E6).

“Eu acho que a inserção de doulas em todos os plantões. Pelo menos uma. Eu acho que dessa forma, a gente chegaria num ponto bom do vínculo com a gestante no trabalho de parto. Então a inserção das doulas em todos os plantões seria essencial” (E10).

3. A influência da doulagem na formação acadêmica

Essa categoria surgiu pelo fato das doulas serem acadêmicas e vem descortinar fatores interligados ao ensino em saúde. Percebe-se nas publicações da área uma escassez de informação sobre a formação acadêmica das doulas, até porque as doulas identificadas não pertenciam a classe de estudantes e sim a uma classe de mulheres mais experientes, que muitas vezes relembrava a figura de uma mãe.

Os relatos das doulas trouxeram reflexões sobre o curso e a influência de se exercer a doulagem para a formação acadêmica. Exercer o papel de doula foi fundamental para estreitar a relação entre a teoria vivenciada nas dependências da instituição de ensino e em um dos cenários de prática.

“Ser doula me ensinou muito. Isso contribui até hoje com minha formação acadêmica porque eu aprendi a ter empatia, aprendi a ser humana, aprendi a respeitar a opinião, respeitar a vida das pessoas, a vida particular delas. ” (D2)

Pode-se destacar que o curso de doula e a doulagem, realizado pelas voluntárias, foi visto como uma ferramenta para minimizar ainda mais essa complexidade, fortalecendo a práxis da huma-nização na formação acadêmica.

D4: “A gente tem que ter esse companheirismo com o paciente. Estabelecer essa confiança entre paciente e profissional. Você ver que a humanização é essencial para um bom trabalho em saúde.”

D3: “Para mim a doulagem tem um significado de amor, humanização, companheirismo. Eu vou levar isso para toda minha formação e para minha profissão.”

Discussão

Durante as entrevistas percebeu-se que doze, dos dezenove entrevistados, desconheciam sobre o que era a doula e quais suas funções, antes de presenciar uma doula na maternidade em estudo. Esse resultado revelou que é um tema novo e pouco discutido na região.

Um estudo realizado na Flórida, demonstra a presença da doula em partos normais como uma ação já implementada, ao contrário de algumas realidades brasileiras.9 Além disso, revelou que as gestantes acompanhadas por essa categoria, apresentaram uma percepção de redução significativa da dor e dos medos do parto.9

A presença de um acompanhante, seja membro da família, doula, amigo, ou mesmo um profissional que acompanhe a mulher no pré-parto e no parto, diminui significativamente o sofrimento da parturiente, as dores e o uso de procedimentos desnecessários.2

A Lei nº 11.108, de 08 de abril de 2005, regulamenta o direito à presença de acompanhante durante o trabalho de parto, parto e pós-parto imediato, no âmbito do SUS. Dessa forma, envolver o familiar durante o trabalho de parto pode ser uma ótima estratégia para a realização de atividades não farmacológicas de alívio da dor, onde a falta de recursos humanos das equipes assistenciais das maternidades é uma realidade.10

A humanização é uma característica apontada pelos entrevistados em que todos os profissionais deveriam ter ao lidar com seus pacientes. Investir sobre este tema no cuidado, principalmente no campo do ensino e na formação profissional, torna-se cada vez mais necessário.11

De acordo com Silva et al.,11 refletir sobre a assistência humanizada é pensar, sobretudo, no direito de liberdade de escolha da mulher, na integralidade de práticas benéficas à saúde do binômio mãe/filho, no respeito aos direitos das usuárias, na valorização do conhecimento popular e na amplitude de modalidades terapêuticas que podem ser associadas a assistência convencional.

Outro resultado observado nas entrevistas foi a falta de recurso físico e humano. Este estudo corrobora com Silva et al.,11 identificando que muitas doulas apontam como principal obstáculo em sua prática, a deficiência na estrutura dos hospitais para a realização das suas atividades, o que acarreta na invisibilidade dos seus trabalhos.

A maternidade em estudo possui chuveiro e bola em número reduzido em relação a demanda de atendimentos para o trabalho da equipe assistencial e das doulas nas práticas de alívio da dor de forma não farmacológica. A maternidade tem em média cento e vinte partos/mês, sendo que em vários dias é notório mais de três mulheres em trabalho de parto ao mesmo tempo.

Vale ressaltar, que a falta desses materiais impossibilita o desenvolvimento de algumas das atividades direcionadas ao trabalho de parto, realizando, portanto, outras formas de aliviar a dor como a deambulação, a musicoterapia, a troca de posições, a respiração ou até mesmo a quietude e o silêncio de acordo com cada vínculo estabelecido.

Os relatos das doulas mostraram sentimento de desvalorização do seu trabalho por parte dos membros do hospital. Fato também observado em outros estudos, onde as dificuldades evidenciadas no campo de atuação estão relacionadas à falta de conhecimento dos profissionais e parturientes, resultando na desvalorização da tarefa realizada por elas.10,11

Estudos realizados nas cidades de Fortaleza (CE) e de Campinas (SP), concluíram que muito precisa ser feito para que o papel das doulas seja reco-nhecido e validado em diferentes segmentos da sociedade. A presença destas é restrita nas maternidades, mesmo que trabalhem de forma voluntária ou contratada pela parturiente.12

Apesar da desvalorização percebida pelas doulas as equipes desejam que elas estejam presentes em todo momento da assistência na maternidade, destacando algumas vezes como estratégia essencial para a efetivação do vínculo e da segurança.

Outro resultado apontado foi sobre o exercício da doulagem como um campo de prática rico para acadêmicos. Passar por essa experiência, pode ser considerada uma estratégia pedagógica, que possibilitará vivenciar as experiências de humanização do parto, adotando metodologias ativas e propondo reformulações curriculares.

Conforme Freitas et al.,13 as atividades docentes em saúde são carentes de formação direcionada para o exercício da prática. Os professores associam essa deficiência relatando dificuldades nos espaços de formação que não comportam toda a discussão e instrumentalização necessárias aos saberes docentes fundamentais e ao favorecimento do processo de ensino-aprendizagem em saúde.13

A criação de espaços humanizados de ensino-aprendizagem é complexa e determinada por numerosos fatores que envolvem o modelo técnico-assistencial e pedagógico.13,14 As percepções de humanização, em sua maioria, limitam-se ao conceito sintoma, principalmente em momentos de impotência perante os sofrimentos decorrentes da dominância do social ou mesmo do tecnicismo.14

Considera-se como limitação do estudo o fato das entrevistas terem sido realizadas apenas com as doulas acadêmicas, pois era a equipe atuante no momento da pesquisa. Este desenho permitiu compreender uma particularidade da região, por outro lado subentende-se que o relato das doulas não acadêmicas poderiam trazer dados diferentes.

Considerações finais

O objetivo proposto do trabalho foi alcançado, pois através dos relatos pode-se analisar a compreensão das puérperas, das doulas e da equipe assistencial sobre a presença da doula durante o trabalho de parto na maternidade de um hospital do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, além de identificar a influência do exercício da doulagem para a formação das doulas acadêmicas.

O trabalho da doula revelou significados ine-rentes a uma assistência humanizada e acolhedora, traçando assim, um caminho para que as equipes assistenciais das maternidades, juntamente com os gestores e demais envolvidos nos processos de atendimento às gestantes, reflitam sobre a relevância da presença das doulas nesses cenários. Pode-se constatar que em algumas maternidades, como no Hospital Sofia Feldman em Belo Horizonte - MG, a doula já faz parte da equipe hospitalar, sendo remunerada pelo seu trabalho institucionalmente.

Em síntese, foi possível com o estudo reconhecer a doula como parte do cuidado humanizado proporcionado às gestantes em trabalho de parto, parto e pós-parto, além de prover subsídios para a reflexão do seu trabalho.

Para a formação acadêmica, a prática da doulagem foi notória e exerceu grande influência. É revelador que esta prática possa ser vista como uma estratégia de ensino, em que objetivará trabalhar o conteúdo a humanização no percurso de formação do ensino em saúde.

A humanização vai além do saber científico e tecnológico. Perpassa pelo conhecimento empírico, além das experiências profissionais, sociais, fami-liares e individuais. É um agrupamento de características humanas que irão influenciar notoriamente na qualidade da assistência prestadas às famílias durante o processo do nascimento.

References

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4 Brasil. Ministério da Saúde (MS). Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos. Diretriz Nacional de Assistência ao Parto Normal. Relatório de Recomendação. Brasília: MS. 2016. [Acesso em 10 de mar de 2016]. Disponível em: http://conitec.gov.br/images/Consultas/2016/Relatorio_Diretriz-PartoNormal_CP.pdfLinks ]

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10 Brasil. Lei nº 11.108, de 08 de abril de 2005. Altera a Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990, para garantir às parturientes o direito à presença de acompanhante durante o trabalho de parto, parto e pós-parto imediato, no âmbito do Sistema Único de Saúde - SUS. Diário Oficial República Federativa do Brasil 2005. [Acesso em 10 de out de 2018]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_ 03/_Ato2004-2006/2005/Lei/L11108.htmLinks ]

11 Silva FD, Chernicharo IM, Fereira MA. Humanização e desumanização: a dialética expressa no discurso de docentes de enfermagem sobre o cuidado. Esc Anna Nery (impr). 2011 [Acesso em 10 de mar de 2016]. 15 (2): 306-13. [ Links ]

12 Silva RM, Jorge MF, Matsue RY. Ferreira ARJ, Barros NF. Uso de práticas Integrativas e complementares por Doulas em maternidades de Fortaleza (CE) e Campinas (SP). Saúde Soc. 2016; 25 (1): 108-20. [ Links ]

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Recebido: 21 de Fevereiro de 2018; Revisado: 26 de Abril de 2019; Aceito: 03 de Maio de 2019

Contribuição dos autores

Lima PO e Miranda JL participou na elaboração e desenho do estudo, metodologia, coleta de dados, interpretação e análise dos dados, escrita e revisão do artigo. Pinheiro MLP realizou escrita e revisão do artigo. Almeida HF contribuiu na escrita, revisão e formatação do artigo. Guedes HM auxiliou na análise dos dados, escrita e revisão do artigo. Todos os autores aprovaram a versão final do manuscrito.

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