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Open-access Rastreamento do Câncer de Canal Anal: Integração de Evidências

O rastreio do câncer de canal anal evoluiu de hipótese controversa para prática focada em grupos de alto risco na última década. O ensaio Anal Cancer/ High-Grade Squamous Intraepithelial (HSIL) Outcomes Research Study (ANCHOR study) demonstrou que tratar a lesão intraepitelial de alto grau anal (LIEAG) reduz em mais de 50% a incidência de câncer anal, consolidando a justificativa para programas estruturados.1 Em 2024, o consenso da International Anal Neoplasia Society (IANS) publicou o primeiro guideline global com recomendações explícitas de quem, quando e como rastrear o câncer anal.2 Posteriormente, outras diretrizes clínicas correlatas da American Society for Colposcopy and Cervical Pathology/ National Institutes of Health (ASCCP/ NIH) e estudos de desempenho apoiaram o uso de citologia anal, teste de human papillomavirus (HPV) de alto risco com genotipagem (especialmente o HPV 16) e anuscopia de alta resolução (AAR) na confirmação diagnóstica, além do exame digital anorretal [Digital Ano-Rectal Examination (DARE)], como medida simples e de baixo custo.3-5

Do ponto de vista biológico, a história natural do câncer anal guarda paralelos com a do câncer de colo uterino: o HPV oncogênico integra-se à célula e promove superexpressão das oncoproteinas E6/E7, favorecendo transformação celular e progressão de lesões precursoras até carcinoma escamoso — subtipo predominante (85%) — coexistindo com menores proporções, o adenocarcinoma, melanoma, linfoma, tumor estromal gastrointestinal (GIST) e tumores neuroendócrinos.6,7

A incidência global permanece menor que 2/100.000 pessoas-ano, mas em ascensão em vários países e faixas etárias.8 No Brasil, a magnitude exata é incerta por agregação do ânus junto aos tumores colorretais nos registros de informação, sugerindo subestimação. Em estudo realizado no nordeste brasileiro observou-se uma prevalência de 12% de câncer anal em mulheres com neoplasia cervical.9 Ressalta-se ainda, que há evidências de tendência de mortalidade em crescimento e subnotificação por codificação e acesso desigual.10

Os principais fatores de risco para câncer de canal anal, independente do gênero, incluem idade maior que 40 anos, tabagismo, imunossupressão (incluindo o HIV e transplantes), práticas sexuais com maior exposição mucosa e verrugas anogenitais. Entre as mulheres, incluem história de HPV cervical de alto risco persistente, LIEAG/câncer cervical e vulvar.11,12

O consenso IANS categoriza grupos de risco recomendando o rastreamento do câncer anal em mulheres trans HIV positivas com idade igual ou maior que 35 anos; em homens que fazem sexo com homens (HSH) HIV positivo ou negativo e mulheres HIV positivas com idade igual ou maior que 45 anos; em transplantados a partir de dez anos do transplante; e história de LIEAG/câncer vulvar após um ano do diagnóstico.2

As melhores práticas para rastreio do câncer de canal anal variam dependendo do ambiente de saúde, população alvo e dos recursos disponíveis. O DARE é útil para detecção de massas/tumores precoces, porém apresenta baixa sensibilidade para LIEAG, mas alta especificidade quando realizado por examinadores treinados.13 A citologia anal é a técnica mais difundida, com alta sensibilidade entre 70% e 90% e moderada especificidade, entre 40% e 65% em populações de alto risco. Tanto a citologia convencional como a citologia em base líquida (LBC) são empregadas no rastreio das lesões precursoras anais. Entretanto, a LBC reduz amostras insatisfatórias e permite realização do teste de reação em cadeia da polimerase (PCR) para HPV e outros biomarcadores.5

A PCR para HPV de alto risco com genotipagem (especialmente o HPV 16) é a que apresenta a maior sensibilidade e melhor estratificação de risco e quando associada a imunohistoquímica com p16/Ki-67 podem aumentar especificidade.14 Destaca-se que a auto-coleta anal para HPV surge como alternativa viável para ampliar cobertura em pessoas resistentes à realização de exames.15 A AAR com biópsia é considerada padrão-ouro diagnóstico para LIEAG anal, entretanto requer expertise e estrutura ambulatorial adequada.2

O prognóstico do câncer anal é geralmente bom e melhora com a detecção precoce, com uma taxa de sobrevida em cinco anos de aproximadamente 70% no geral, sendo maior para a doença localizada. No entanto, o estágio em que o câncer é diagnosticado é o fator mais significativo, sendo a sobrevida menor, se compromete linfonodos próximos (58% a 61%) ou órgãos distantes (30% a 36%).

Concluindo, em cenários com AAR limitada, recomenda-se protocolo faseado: inicialmente incorporar DARE na rotina, adotar citologia e/ou HPV de alto risco com genotipagem para HPV 16, conforme capacidade laboratorial, e organizar fluxos de referência para AAR. A formulação de políticas exige reconhecer o subregistro, aprimorar os sistemas de vigilância e registro de informação e priorizar a qualificação profissional.

Referências bibliográficas

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  • 15 Nyitray AG, Hernandez AL, Salmeron J, Abrahamsen M, Abrahamsen M, Wilson B, et al Home-based self-sampling vs clinician sampling for anal precancer screening: The Prevent Anal Cancer Self-Swab Study. Int J Cancer 2023; 153 (4): 843-53.
  • À convite da Editora Chefe:
    Lygia Vanderlei

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • correct
    19 Fev 2026
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