Caro Editor,
O estudo publicado por Schmid et al., intitulado “Sexual dysfunction after open abdominal aortic aneurysm repair: 16 years’ experience in a quaternary center and literature review”, destacou como o reparo cirúrgico do aneurisma da aorta abdominal (AAA) pode causar disfunção sexual (DS), incluindo ejaculação retrógrada e disfunção erétil (DE), em pacientes submetidos a diferentes técnicas de reconstrução aórtica1 .
A DS pode ter causas psicológicas, orgânicas ou medicamentosas, sendo a principal causa orgânica de origem vasculogênica, ligada a lesões ateroscleróticas, disfunção cavernosa ou insuficiência veno-oclusiva. Estudos como os de Donato et al.2 e Meller et al.3 indicaram que a DE compartilha fatores de risco com a doença arterial coronariana (DAC), a doença arterial periférica (DAP) e as doenças da artéria carótida2,3 .
Hipercolesterolemia, hipertensão arterial sistêmica (HAS), tabagismo e aterosclerose contribuem para a DE vasculogênica2,4 . Esses fatores podem ter influenciado os resultados de Schmid et al.1 , pois o grupo analisado incluía pacientes com HAS, dislipidemia, tabagismo e diabetes melito, com fatores de risco variados. Apesar de buscar estabelecer uma relação causal entre as comorbidades, a heterogeneidade dos fatores de risco, incluindo psicológicos, não foi completamente abordada.
A realização do estudo em um único centro limitou a generalização dos resultados, além da exclusão de pacientes sem acompanhamento regular, o que pode ter gerado viés de seleção. A análise estatística adotada foi adequada, porém faltaram ajustes para fatores como idade, comorbidades e tempo de seguimento, essenciais para interpretar corretamente a maior prevalência de DE em pacientes com by-pass aorto-bifemoral e ejaculação retrógrada com by-pass aorto-aórtico. Ademais, a ausência de um grupo-controle dificultou a interpretação dos resultados.
Outrossim, estudos como o de Dariane et al.5 sugerem que o reparo endovascular de aneurisma (EVAR) pode reduzir a DS em comparação à cirurgia aberta de AAA, devido a menor lesão nervosa e menores alterações no fluxo sanguíneo pélvico. A DS pode ser causada por distúrbios de excitação, orgasmo, ejaculação, DE ou fatores vasculares3-5 . O benefício do EVAR na preservação da função sexual deve-se à proteção dos nervos, mas complicações como fibrose e inflamação podem prejudicá-la5 .
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Como citar:
Medrado VSS, Teixeira ES, Kamitani HZ et al. Análise da disfunção sexual após reparo de aneurisma de aorta abdominal com o tipo de técnica cirúrgica adotada. J Vasc Bras. 2025;24:e20240161. https://doi.org/10.1590/1677-5449.202401611
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Fonte de financiamento: Nenhuma.
Referências
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1 Schmid BP, Muce MV, Bocos RG, Menezes FH. Sexual dysfunction after open abdominal aortic aneurysm repair: 16 years’ experience in a quaternary center and literature review. J Vasc Bras. 2024;23:e20230135. http://doi.org/10.1590/1677-5449.202301352 PMid:38433984.
» http://doi.org/10.1590/1677-5449.202301352 -
2 de Donato G, Pasqui E, Gargiulo B, et al. Prevalence of erectile dysfunction in patients with abdominal aortic aneurysm: an exploratory study. Front Cardiovasc Med. 2022;9:847519. http://doi.org/10.3389/fcvm.2022.847519 PMid:35295261.
» http://doi.org/10.3389/fcvm.2022.847519 - 3 Meller SM, Stilp E, Walker CN, Mena-Hurtado C. The link between vasculogenic erectile dysfunction, coronary artery disease, and peripheral artery disease: role of metabolic factors and endovascular therapy. J Invasive Cardiol. 2013;25(6):313-9. PMid:23735361.
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4 Raffort J, Lareyre F, Clément M, Hassen-Khodja R, Chinetti G, Mallat Z. Diabetes e aneurisma da aorta: estado atual da arte. Cardiovasc Res. 2018;114:1702-13. http://doi.org/10.1093/cvr/cvy174 PMid:30052821.
» http://doi.org/10.1093/cvr/cvy174 -
5 Dariane C, Javerliat I, Doizi S, et al. Sexual dysfunction after elective laparoscopic or endovascular abdominal aortic aneurysm repair in men. Prog Urol. 2020;30(2):105-13. http://doi.org/10.1016/j.purol.2019.12.003 PMid:31959570.
» http://doi.org/10.1016/j.purol.2019.12.003
Carta Resposta: disfunção sexual após correção aberta de aneurisma da aorta abdominal: 16 anos de experiência em um centro quaternário e revisão da literatura
AutoriaSCIMAGO INSTITUTIONS RANKINGSOs autores agradecem o comentário recebido e se sentem honrados com a oportunidade de discutir os achados do artigo de forma ainda mais aprofundada.
A ausência de um grupo-controle é uma limitação intrínseca ao desenho do estudo, assim como a inclusão de pacientes de um único centro, conforme destacado na seção de Discussão e na carta ao editor1 .
Do mesmo modo, a ausência da estratificação dos fatores de risco entre os grupos submetidos às diferentes técnicas de reconstrução aórtica pode representar uma limitação adicional. Entretanto, entre os pacientes incluídos no estudo, a hipertensão arterial foi notada em 99% e o tabagismo, em 92%, o que contempla a quase totalidade dos indivíduos em análise como predispostos a arteriopatias.
Além disso, a falta de pareamento dos fatores psicogênicos envolvidos na disfunção erétil, conforme levantado na carta ao editor, pode ser um fator confundidor a ser considerado. Porém, trata-se de um fator causal menos provável em uma coorte de pacientes submetidos a correção aberta de aneurisma de aorta abdominal, com interferência anatômica clara na circulação arterial pélvica e no plexo nervoso hipogástrico.
Ainda cabe ressaltar que a amostra do estudo incluiu pacientes acompanhados entre 1995 e 2000, período em que os conceitos de preservação da artéria hipogástrica ainda estavam em construção. Como destacado no comentário enviado, outros estudos ratificam o reparo endovascular do aneurisma de aorta abdominal como uma técnica com menor incidência de disfunção sexual quando comparada ao reparo aberto, além de reafirmarem a importância da manutenção das artérias hipogástricas2-4 .
Finalmente, ressaltamos a importância da abordagem da disfunção sexual durante o aconselhamento pré-operatório como uma complicação em potencial nos pacientes candidatos ao reparo aberto do aneurisma de aorta. Além disso, é relevante investigar a possível influência do tipo de configuração da reconstrução aórtica no tipo de disfunção sexual apresentado.
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Fonte de financiamento: Nenhuma.
Referências
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1 Schmid BP, Muce MV, Bocos RG, Menezes FH. Sexual dysfunction after open abdominal aortic aneurysm repair: 16 years’ experience in a quaternary center and literature review. J Vasc Bras. 2024;23:23. http://doi.org/10.1590/1677-5449.202301352 PMid:38433984.
» http://doi.org/10.1590/1677-5449.202301352 -
2 Fatima J, Correa MP, Mendes BC, Oderich GS. Pelvic revascularization during endovascular aortic aneurysm repair. Perspect Vasc Surg Endovasc Ther. 2012;24(2):55-62. http://doi.org/10.1177/1531003512468036 PMid:23196714.
» http://doi.org/10.1177/1531003512468036 -
3 Arenas Azofra E, Iglesias Iglesias C, Canga Gonzalez C, et al. Midterm results of endovascular versus open surgical repair for infrarenal abdominal aortic aneurysms in low surgical risk patients. J Vasc Surg. 2022;75(6):1897-903. http://doi.org/10.1016/j.jvs.2021.10.047 PMid:34793922.
» http://doi.org/10.1016/j.jvs.2021.10.047 -
4 Regnier P, Lareyre F, Hassen-Khodja R, Durand M, Touma J, Raffort J. Sexual dysfunction after abdominal aortic aneurysm surgical repair: current knowledge and future directions. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2018;55(2):267-80. http://doi.org/10.1016/j.ejvs.2017.11.028 PMid:29292207.
» http://doi.org/10.1016/j.ejvs.2017.11.028
