Ao Editor,
Lemos com grande interesse o artigo de Leite et al.1, intitulado “Expressão dos níveis plasmáticos de MMP-2, MMP-9, TIMP-1 e TIMP-2 em pacientes com aneurisma da aorta abdominal”, publicado no Jornal Vascular Brasileiro. O estudo aborda uma temática de elevada relevância na cirurgia vascular, especialmente no que diz respeito ao papel de biomarcadores circulantes no seguimento pós-reparo endovascular de aneurismas (EVAR). Os autores merecem reconhecimento pelo desenho prospectivo, pelo acompanhamento de 6 meses e pela inclusão de um grupo controle, que contribui para a robustez metodológica do trabalho. A demonstração de níveis aumentados de metaloproteinases de matriz (MMPs) e inibidores teciduais de metaloproteinases (TIMPs) após EVAR, independentemente da presença de endoleak, oferece uma importante perspectiva sobre a resposta biológica à exclusão endovascular do aneurisma. Conforme já apontado por McMillan e Pearce2, níveis elevados de MMPs estão associados à degradação da parede aórtica, e o presente estudo amplia esse conhecimento para o contexto pós-EVAR.
Os autores também reforçam, em consonância com Hellenthal et al.3, que biomarcadores plasmáticos ainda possuem limitações na acurácia diagnóstica para detecção de endoleaks, sendo a angiotomografia computadorizada o principal exame de imagem de acompanhamento. No entanto, a observação de que MMP-2 e TIMP-1 aumentaram significativamente, mesmo na ausência de endoleaks, sugere que esses marcadores podem refletir um processo inflamatório ou de remodelamento da parede aórtica, e não apenas a persistência de pressurização do saco aneurismático. Um ponto interessante do estudo de Leite et al.1 foi a utilização de oito tipos distintos de endopróteses, o que pode induzir variabilidade na resposta inflamatória sistêmica, mas também reflete a prática clínica real e reforça a aplicabilidade externa dos achados. A análise de eventuais diferenças de resposta inflamatória entre os modelos, embora não tenha alcançado significância estatística, poderia ser ampliada em estudos futuros.
Apesar das contribuições relevantes, alguns pontos merecem reflexão e aprimoramento. Um acompanhamento mais prolongado (além de 6 meses) poderia esclarecer se as elevações desses biomarcadores persistem ou se normalizam, e se estão associadas à endoleaks tardios ou ao aumento do saco. O controle de fatores de confusão, como aterosclerose e inflamação crônica, sobretudo, permitiria melhor especificidade na interpretação dos resultados. Cabe destacar que condições como aterosclerose, doenças autoimunes, neoplasias e uso de medicamentos anti-inflamatórios também podem influenciar os níveis de MMPs e TIMPs. A ausência de controle para essas variáveis, apontada pelos próprios autores, limita a precisão da associação entre os biomarcadores e o EVAR em si. Embora o número de pacientes seja adequado, o baixo número de endoleaks observados (n = 10) limita o poder estatístico para análises mais detalhadas. Assim, seria interessante investigar também se diferentes tipos de endopróteses utilizados influenciam a resposta inflamatória e os níveis de biomarcadores, considerando variações na força radial e nos mecanismos de vedação.
Em suma, o trabalho de Leite et al. constitui uma importante contribuição à literatura sobre o seguimento molecular após EVAR. Os achados reforçam a necessidade de novos estudos multicêntricos, com amostras maiores, acompanhamento prolongado e incorporação de biomarcadores emergentes, como miRNAs e citocinas inflamatórias (Tenorio et al.)4, que podem melhorar a vigilância pós-operatória.
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Como citar:
Medrado VSS, Silva DSO, Santos LA, Nascimento LMS, Mendes R, Tenório PP. Expressão dos níveis plasmáticos de metaloproteinases e seus inibidores em pacientes com aneurisma da aorta abdominal. J Vasc Bras. 2025;24:e20250135. https://doi.org/10.1590/1677-5449.202501351
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Fonte de financiamento:
Nenhuma.
REFERÊNCIAS
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1 Leite TF, Silva ER, Gomes K, Tirapelli DPC, Joviliano EE. Expressão dos níveis plasmáticos de MMP-2, MMP-9, TIMP-1 e TIMP-2 em pacientes com aneurisma da aorta abdominal. J Vasc Bras. 2025;24:e20240163. http://doi.org/10.1590/1677-5449.202401631 PMid:40521351.
» http://doi.org/10.1590/1677-5449.202401631 -
2 McMillan WD, Pearce WH. Increased plasma levels of metalloproteinase-9 are associated with abdominal aortic aneurysms. J Vasc Surg. 1999;29(1):122-7, discussion 127-9. http://doi.org/10.1016/S0741-5214(99)70363-0 PMid:9882796.
» http://doi.org/10.1016/S0741-5214(99)70363-0 -
3 Hellenthal FA, Ten Bosch JA, Pulinx B, et al. Plasma levels of matrix metalloproteinase-9: a possible diagnostic marker of successful endovascular aneurysm repair. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2012;43(2):171-2. http://doi.org/10.1016/j.ejvs.2011.10.014 PMid:22172237.
» http://doi.org/10.1016/j.ejvs.2011.10.014 -
4 Tenorio EJR, Braga AFF, Tirapelli DPDC, Ribeiro MS, Piccinato CE, Joviliano EE. Expression in whole blood samples of miRNA-191 and miRNA-455-3p in patients with AAA and their relationship to clinical outcomes after endovascular repair. Ann Vasc Surg. 2018;50:209-17. http://doi.org/10.1016/j.avsg.2018.01.086 PMid:29518510.
» http://doi.org/10.1016/j.avsg.2018.01.086
Ao Editor,
Li a carta “Expressão dos níveis plasmáticos de metaloproteinases e seus inibidores em pacientes com aneurisma da aorta abdominal”. Em primeiro lugar, agradeço as observações, e tenho alguns comentários a fazer.
Diante da obrigação de vigilância dos pacientes submetidos ao tratamento endovascular de aneurisma de aorta abdominal (AAA), há necessidade de se desenvolverem métodos não invasivos, a fim de identificar os endoleaks e indicar intervenção precoce. Atualmente, os exames de vigilância ainda são dependentes do diagnóstico imagiológico do médico observador, bem como da plataforma de análise e mensuração do exame.
As metaloproteinases de matriz (MMPs) constituem uma família de enzimas com atividade proteolítica geneticamente relacionadas, cuja atividade é dependente de zinco. O tecido aneurismático caracteriza-se pela elevação da atividade elastolítica e colagenolítica, resultante do aumento da produção de enzimas proteolíticas em comparação ao tecido aórtico normal. Na presente casuística, não houve diferença entre as atividades de MMP-2 e MMP-9 após 6 meses de pós-operatório entre pacientes com e sem endoleak nesse período. Entretanto, houve aumento das MMP-2 e MMP-9 antes e após o tratamento endovascular1.
As razões para essa discrepância podem, em parte, estar relacionadas a diferenças nas populações estudadas, ao manuseio distinto de amostras de sangue, à avaliação dos métodos ou à permanência do tecido aneurismático. Realmente, o viés relacionado a outras doenças não vasculares, ou até mesmo à própria aterosclerose, podem ser fatores de imprecisão dos resultados dos biomarcadores. Identificar uma maneira de mitigar o efeito confundidor traria uma compreensão mais fornida da fisiopatologia dos aneurismas, assim como melhor sensibilidade e especificidade no screening de endoleaks. Portanto, estudos multicêntricos que incorporem diferentes marcas de endopróteses, e, se possível, a comparação com o tratamento cirúrgico aberto, poderiam fornecer mais informações sobre a fisiopatologia e o manejo completo com exclusão do saco aneurismático, além de permitir um seguimento mais prolongado da dosagem desses marcadores.
Em outra publicação de Leite et al.2, os miR-21 e miR-181b foram identificados no sangue total de pacientes sem aneurismas, com AAA e com endoleak. Observou-se aumento significativo de suas expressões antes do tratamento endovascular, quando comparados ao grupo controle. Após 6 meses do procedimento, verificou-se redução significativa dessas expressões em relação ao grupo estudo, sugerindo que a exclusão do saco aneurismático altera a expressão dos miRNAs. Entretanto, entre os pacientes que apresentaram endoleak, não houve diferença estatística. Adicionalmente, as expressões de miR-21 e miR-181b não demonstraram correlação com a anatomia, o diâmetro do aneurisma ou os diferentes tipos de endopróteses utilizados no tratamento endovascular dos AAAs.
Diante da cascata de reações relacionadas ao miR-21, balões expansíveis ou endopróteses com eluição de drogas contendo pré-miR-21 poderiam representar uma ferramenta promissora para estimular a proliferação celular na parede da aorta em pacientes com AAA. Em relação ao miR-181b, a utilização de uma droga anti-miR-181b reduz a expressão de SIRT1 (sirtuína 1) e HO-1 (heme oxigenasse-1), promovendo maior elasticidade e menor rigidez da parede vascular, o que também poderia configurar uma estratégia terapêutica promissora para pacientes com fatores de risco para aterosclerose e aneurismas2.
Portanto, embora o potencial clínico dos biomarcadores seja promissor, ainda existem desafios a serem superados antes de sua implementação prática. Entre eles, destacam-se: a necessidade de padronização dos métodos, com o desenvolvimento de protocolos uniformes para coleta, processamento e análise de miRNA, MMP e TIMP; a validação clínica em estudos multicêntricos de larga escala; além da integração com a prática clínica e da garantia de acessibilidade a todos os pacientes, com ferramentas viáveis para aplicação rotineira.
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Fonte de financiamento:
Nenhuma.
REFERÊNCIAS
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1 Leite TF, Silva ER, Gomes K, Tirapelli DPC, Joviliano EE. Expressão dos níveis plasmáticos de MMP-2, MMP-9, TIMP-1 e TIMP-2 em pacientes com aneurisma da aorta abdominal. J Vasc Bras. 2025;24:e20240163. http://doi.org/10.1590/1677-5449.202401631 PMid:40521351.
» http://doi.org/10.1590/1677-5449.202401631 -
2 Leite TFO, da Silva ER, Evelyn K, Tirapelli DPC, Joviliano EE. Expression of plasma levels of miRNA-181b and miRNA-21 in patients with abdominal aortic aneurysms and their effect on clinical outcome after endovascular treatment. J Endovasc Ther. 2025;15266028251314352. http://doi.org/10.1177/15266028251314352 PMid:39878154.
» http://doi.org/10.1177/15266028251314352
