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Scientiae Studia

Print version ISSN 1678-3166

Sci. stud. vol.4 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2006

https://doi.org/10.1590/S1678-31662006000100003 

ARTIGOS

 

O legado hipocrático e sua fortuna no período greco-romano: de Cós a Galeno

 

The hippocratic legacy and its fortune in the greco-roman period: from Cós to Galen

 

 

Regina Andrés Rebollo

Doutora em Filosofia pelo Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo, Brasil. haniger@usp.br

 

 


RESUMO

Este artigo discute o legado de Hipócrates e do Corpus hippocraticum (CH) no período compreendido entre os séculos v e iv a.C. até o período greco-romano, com Galeno, em ii d.C. Na primeira parte, faço uma descrição das obras que integram o CH e uma síntese das concepções médicas nele contidas. Na segunda parte, apresento a fortuna do legado no período alexandrino e os seus primeiros comentadores. Por último, o papel de Galeno na transmissão e na difusão do legado hipocrático é discutido com base no conjunto de sua obra e de suas concepções, parte delas herdadas diretamente do CH.

Palavras-chave: Hipócrates. Corpus hippocraticum. Medicina alexandrina. Medicina greco-romana. Galeno. Hipocratismo galênico.


ABSTRACT

This article discusses Hippocrates' legacy and that of the Corpus hippocraticum (CH) in the period between v and iv centuries a.C. and Galen in the ii century d.C. In the first part, I make a description of the works that compose the CH and a resume of the medical conceptions that it contains. In the second part, I present the fortune of the legacy in the Alexandrine period and its first comments. Finaly, Galen's role in the transmission and in the difusion of the Hippocratic legacy is discussed in view of the totality of his works and conceptions, which are in part directly inherited from the CH.

Keywords: Hippocrates. Corpus hippocraticum. Alexandrine medicine. Greco-Roman medicine. Galen. Galenic hippocratism.


 

 

INTRODUÇÃO

A coleção dos tratados médicos hipocráticos é uma realização coletiva, no interior da qual coexistem significativas diferenças teóricas e de orientação prática, suficientes para que se possa afirmar uma pluralidade de doutrinas e concepções médicas que, longe de espelhar um sistema teórico coerente e acabado, é o registro de uma diversidade oriunda de vários autores, diversos compiladores e inúmeras edições. Tal diversidade de doutrinas e concepções foi, ao longo da posteridade, exaustivamente glosada, interpretada e comentada, em um esforço do espírito que resultou na própria construção da medicina ocidental.

No período helenístico, na cidade de Alexandria, surgiram os primeiros comentários críticos à coleção hipocrática, em parte, como resultado de novas descobertas anatômicas e, em parte, em virtude da pluralidade do pensamento filosófico (platonismo, aristotelismo, epicurismo e estoicismo) e das escolas ou seitas médicas (dogmatismo, empirismo, metodismo e pneumatismo). A partir de então, o Corpus hippocraticum (CH) serviu quer como modelo de atuação e conduta médicas, quer como exemplo dos erros que deviam ser urgentemente corrigidos pelas descobertas e novas concepções. É, ainda, no interior das discussões entre os médicos dogmáticos e os empíricos que vemos surgir as primeiras interpretações metodológicas que, ao longo da posteridade, separaram aqueles que acreditavam que a teoria (logos) servia como ponto de partida do raciocínio médico daqueles que sustentavam que tal papel somente poderia ser executado pela experiência ou observação empírica.

A segunda e historicamente mais importante interpretação do legado hipocrático foi realizada pelo trabalho de exegese de Galeno, ainda hoje considerado o maior intérprete de Hipócrates, mesmo levando-se em consideração a sua forte impregnação doutrinal. Além de comentar os principais tratados da coleção hipocrática, Galeno foi o primeiro compilador dos comentadores anteriores. Com ele, Hipócrates e os tratados hipocráticos foram conhecidos à luz de sua filosofia natural, ela própria um esforço monumental para reconciliar Hipócrates, Platão e Aristóteles. Esse esforço resultou no hipocratismo galênico e reinou até o século xv, quando médicos e filósofos, influenciados pelos humanistas, passaram a exigir obras "puras", livres de comentários e interpretações.

 

 

1 O LEGADO HIPOCRÁTICO

Na tentativa de refazer parte do caminho percorrido pelas obras do CH, escolhi dois aspectos que considero essenciais em seu modo de transmissão e difusão: o ensino teórico e prático da medicina e a produção de material escrito, lembrando que o ensino e a história dos textos muitas vezes se confundem. Qual teria sido a fortuna do legado hipocrático após o seu apogeu no final do século v e primórdios do século iv a.C.?

A maior parte dos tratados da coleção hipocrática, que agrupam aqueles considerados fundamentais para o pensamento médico que compôs a tradição futura, surgiu entre os anos 420 e 350 a.C., embora alguns sejam bem anteriores e outros bem posteriores.1 A tabela 1 fornece uma idéia, bastante provável, da cronologia das obras que compõem o CH tal como estabelecida por Jouanna (cf. Gourevitch, Grmek & Pellegrin, 1994, p. 11-2).

 

 

 

 

Tais tratados foram, muito provavelmente, utilizados como material de ensino e orientação prática e teórica, numa época em que a literatura científica começou a substituir o ensino oral (cf. Gual, 1983, p. 11). O conhecimento médico tradicional era transmitido a uma linhagem masculina familiar. Hipócrates (460 a.C.-ca. 370 a.C.) é um bom exemplo do modo como, nessa época, a medicina foi ensinada. Além de praticála, ao mesmo tempo a ensinava, ou melhor, a ensinava praticando, além de contribuir com vários escritos especializados.2 Como não havia estabelecimentos públicos para a formação e o recrutamento de médicos, a transmissão do saber era feita, num primeiro momento, no interior das próprias famílias. Com o tempo, discípulos sem vínculo consangüíneo puderam usufruir desse tipo de formação especializada. Assim, Hipócrates foi formado pelo pai, Heraclides, e o avô, Hipócrates i, ambos médicos asclepíades da Ilha de Cós, e posteriormente ele mesmo reuniu um bom número de aprendizes, entre eles, seus filhos Tessalo (pai de Hipócrates iii) e Dracon (pai de Hipócrates iv). Hipócrates pertenceu à escola de Cós, pois sua família descendia diretamente dos Asclepíades de Cós.3 No entanto, cabe lembrar que, no final do século v e primórdios do século iv a.C., uma escola nada mais era do que um centro localizado numa cidade ou um mestre que fornecia ensinamentos aos seus filhos e discípulos. É nesse sentido que se pode falar da escola de Cós, onde Hipócrates se formou.

O ensino da medicina seguia a tradição grega do aprendizado técnico, uma vez que a medicina era uma techné, um saber teórico voltado para a arte manual. A maneira como tais ofícios eram ensinados permanece obscura. Alguns elementos são mais conhecidos do que outros e o que se sabe pode ser resumido em poucas palavras. O aprendiz era um cidadão livre. No caso de filho ou neto, ou mesmo de um aprendiz sem laços de sangue, devia seguir um mestre e freqüentar a sua escola. Quando o médico pretendia estabelecer-se numa cidade para clinicar, o nome do professor era a única exigência solicitada pela assembléia para a comprovação da formação médica. Segundo Jouanna (cf. 1992, p. 33), nascido de uma linhagem duplamente ilustre, Podaliro e Heracles, Hipócrates recebeu a educação que era adequada às crianças que vinham do meio aristocrático. Mas, diferentemente da maior parte das crianças nobres, o seu futuro já estava fortemente determinado pelo meio médico familiar. Desse modo, por pertencer a uma família de origem aristocrática recebeu, antes da formação médica, a educação formal grega.

No caso da medicina, a formação era teórica, prática e itinerante, pois a perícia clínica exigia a visitação a diferentes lugares, nos quais o médico adquiria conhecimento das diversas doenças e de novos medicamentos e, ao mesmo tempo, tentava estabelecer-se. Fora do meio familiar, a aprendizagem, bem como o atendimento, eram remunerados e envolviam um forte comprometimento moral e pessoal do aluno. Três pequenos discursos atestam as relações de aprendizado nessa época: Juramento, Lei eSobre a decência. No Juramento, são descritos três tipos de ensinamento: (1) o preceptor (parangelliê), um conjunto de regras e preceitos relativos à atuação ou conduta do médico no exercício da profissão; (2) o ensino médico oral (akroésis), algumas vezes acompanhado de escritos e anotações; (3) o ensino das questões médicas particulares (loípé máthésis), voltadas para a clínica (cf. Gual, 1983, p. 78, nota).

A transmissão oral, quer teórica ou prática, de pai para filho ou de mestre para aprendiz, não estava apenas circunscrita às questões de caráter médico, e algumas noções de filosofia natural e retórica eram também ensinadas (cf. Jouanna, 1992, p. 34). Segundo Entralgo (cf. 1982, p. 29-31), provavelmente eram ensinados os primeiros rudimentos de anatomia (feita com pequenos animais, em geral macacos da região da Ásia Menor), semiologia, farmacologia e cirurgia. Existem pouquíssimas informações sobre o currículo ou o conteúdo programático do aprendizado médico de então, antes e durante a formação médica. Galeno (129 ca.-210 d.C.), no primeiro parágrafo do Livro ii, Capítulo 1, da obra Procedimentos anatômicos, relata que as crianças que pertenciam a uma linhagem médica aprendiam a ler, escrever e dissecar ao mesmo tempo. Embora não se possa contar com informações históricas mais precisas do conteúdo oferecido na formação médica os próprios tratados do CH revelam os temas e os problemas que eram estudados. Se partirmos do pressuposto de que tais escritos foram, desde o seu primeiro surgimento, utilizados como material didático, ou seja, manuais, teremos, então, condições de avaliar a possível formação do médico da época.

Toda a literatura médica do CH foi produzida em jônico, a língua científica do período, embora Hipócrates e a maior parte dos escritos fossem de Cós, onde imperava o dialeto dórico. No seu interior, dois gêneros principais de literatura médica são encontrados: um dedicado aos especialistas e outro ao grande público. Este último era composto por conferências e discursos de divulgação, propaganda e convencimento, escritos por médicos oradores ambulantes, preocupados com a importância pública da profissão numa época em que o ensino e a prática da medicina não eram regulamentados. Muito provavelmente, a produção literária médica contemplava as diversas modalidades da prática e os seus respectivos profissionais, a saber, o demiourgós, o technités e o médico orador ambulante ou viajante.

O demiourgós era um funcionário eleito pela Assembléia a serviço da comunidade e diferia do technités (também chamado queirotechnes e queironax), o artesão da cura ou aquele que domina a arte de curar no sentido prático, pois o demiourgós, além do domínio da arte, investigava a natureza humana, dedicando-se às questões de filosofia natural. O médico orador ambulante, antes de estabelecer-se numa cidade, proferia discursos de convencimento e propaganda, levando consigo anotações e manuais para consulta pessoal, pois, nessa época, não existiam bibliotecas especializadas fora dos grandes centros culturais e de ensino. Alguns tratados são claramente anotações, para o ensino e a memorização de noções fundamentais, reunidas num único texto a partir de outros escritos, tais como os Aforismos. Além dos tratados profissionais, encontrase no CH vários escritos dirigidos a um público profano mais culto, que buscava um tipo de formação cultural geral (paidéia). Não se pode esquecer, ainda, um fenômeno típico dessa época, os médicos iatrosofistas, especializados em utilizar a palavra a serviço da arte médica. De fato, no interior do CH, existem muitos discursos em defesa da medicina (por exemplo, Sobre a arte médica) ou contra a impregnação da medicina pela filosofia (por exemplo, Sobre a medicina antiga). Tais médicos, assim como os sofistas, buscavam alguma remuneração e fama mundana e, em alguns casos, tais discursos serviam à propaganda pessoal, numa época em que o médico, para estabelecer-se numa cidade, precisava convencer a população a contratá-lo.

Uma classificação geral dos tratados que compõem o CH permite identificar nove assuntos de interesse e discussão dos médicos hipocráticos.

 

 

A classificação de Jouanna e Magdelaine (1999, p. 14-16), bem mais recente, reorganiza os documentos da seguinte forma:

 

 

Sem esquecer as diferenças doutrinárias, a pluralidade de autores e a cronologia que se estende do século v a.C. ao período greco-romano, é possível retirar desse conjunto de escritos os conceitos fundamentais gerais que forneceram os instrumentos teóricos e práticos para a atuação médica, tais como o conhecimento da natureza do corpo e de suas alterações na doença, a maneira de reconhecer e tratá-las, a identificação das suas causas, a formação ideal (moral e intelectual) do médico e sua conduta no atendimento clínico e, por fim, o domínio dos instrumentos e das técnicas de intervenção dos casos cirúrgicos e ortopédicos, conhecimento mais do que essencial numa época de atletas e esportistas contumazes.

1.1 AS IDÉIAS E OS CONCEITOS CENTRAIS DA COLEÇÃO HIPOCRÁTICA5

Pode-se afirmar que a base da medicina hipocrática repousa nas suas concepções fisiológicas e anatômicas. Porém, a demarcação entre a anatomia e a fisiologia é, nessa época, bastante tênue, uma vez que se dissecava muito pouco e o corpo e suas partes eram, por esse motivo, rudemente conhecidos. A fisiologia contida no CH deriva de uma anatomia teorizada, fortemente comprometida com a filosofia natural do final do século v e primórdios do século iv a.C.

A idéia da natureza do corpo ou da physis particular do corpo está na base da medicina hipocrática. A physis do corpo é uma realização particular da physis universal e, enquanto tal, é compreendida como princípio originário e organizador do corpo. Ela fornece a forma do corpo (eidos ou idea), isto é, o seu aspecto próprio ou particular e o seu comportamento (virtudes ou propriedades chamadas dynameis). Enquanto princípio organizador do corpo, a physis projeta no ser as qualidades da harmonia, da ordem e da beleza, regendo a morfologia e as funções normais do corpo e de suas partes. Mas a physis também rege a doença e os seus sintomas, e é por esse motivo que a doença era, para a maior parte dos autores do CH, um fato natural e não sagrado.

A ação da physis se dá ou por necessidade e fatalidade natural (ananké e moira) ou pelo acaso (tyché). A ananké pode ser entendida como a necessidade invencível dos movimentos e das propriedades do cosmo ou, simplesmente, a necessidade da natureza. Moira, para os gregos, é o destino natural que obriga todos os seres, sejam divinos ou sublunares, a não ultrapassar o seu próprio limite. Mas a physis pode também agir ao acaso, natural e acidentalmente, quando, por exemplo, as nuvens se movimentam no céu ou as águas nos rios. Pelo acaso podem ocorrer doenças, acidentes sintomáticos particulares e mudanças favoráveis ou desfavoráveis para o doente. A alteração da physis pode ainda ser uma conseqüência inesperada (acidental) de ação humana deliberada, resultado das intervenções médicas e terapêuticas como, por exemplo, as reações inesperadas que podem surgir após a administração de um medicamento. Assim, a physis possui dois modos de agir: um necessário e outro contingente. Aquilo que ocorre por necessidade ou fatalidade divina não permite a ação ou intervenção humana. Já aquilo que ocorre acidentalmente pode ser evitado e suprimido por uma techné, tal como a medicina (cf. Rebollo, 2003). Existem doenças determinadas pela necessidade e doenças determinadas pelo acaso (assim como curas que ocorrem ou necessariamente ou acidentalmente). Tal concepção de base orienta a terapêutica hipocrática e voltaremos a ela mais adiante.

Cada objeto natural possui a sua própria dynamis ou um conjunto delas, além de fazer parte da dynamis do todo ou do universo. Assim, uma vez considerada a principal propriedade da physis,6 ela é objeto de observação e controle do médico hipocrático. As diversas dynameis subdividem-se em (i) dynamis da totalidade do indivíduo humano, isto é, do corpo e da alma; (ii) dynamis da idade e do sexo; (iii) dynamis de cada órgão que manifesta uma atividade vital geral ou particular; (iv) dynamis das atividades e hábitos humanos; (v) dynamis dos alimentos; (vi) dynamis dos medicamentos; (vii) dynamis dos sintomas e das doenças; (viii) dynamis das estações, dos climas e das regiões.

No interior do CH, as dynameis são concebidas de três maneiras distintas: (1) como princípio de movimento (virtudes ou forças operativas) causado por forças qualitativas elementares (o quente, o frio, o úmido, o seco, o doce, o amargo, o salgado etc.); (2) como resultado da quantidade e intensidade de ação dessas forças qualitativas elementares; e (3) como resultado da interação entre matérias elementares (água, fogo, ar e terra) (cf. Entralgo, 1982, p. 74). Por exemplo, no Sobre as carnes e no Sobre o parto de oito meses, são mencionados os quatro elementos de Empédocles (ar, água, terra e fogo); no Sobre o regime i, somente participam a água e o fogo; no Sobre os ventos, somente o ar; no Sobre a arte médica, somente o fogo; no Sobre a medicina antiga, asqualidades do quente, frio, seco, úmido, salgado, doce etc.; por fim, no Semanas, as dynameis são apenas os contrários decorrentes do calor e do frio. Em alguns casos, como no Sobre o regime i, a água e o fogo combinam-se com os contrários quente e frio (cf. Entralgo, 1982, p. 82). A maior parte dessas concepções serviu como pano de fundo da teoria humoral, uma vez que cada humor resulta na interação de tais dynameis ou virtudes operativas.

Nos tratados Sobre a natureza do homem e Dos humores, a doutrina humoral é sistematizada com maior clareza. Os elementos primários constituintes do corpo são a água, o fogo, o ar e a terra. Tais elementos geram as qualidades (quente, frio, seco e úmido) que, organizadas em pares, dão origem aos quatro humores (chymós). Todas as partes líquidas e sólidas do corpo são compostas por uma mistura ou mescla (krásis) de tais humores. As doenças dependerão, na sua maioria, de uma discrasia ou desequilíbrio entre a composição natural de tais humores. Os autores do CH derivaram de tal teoria uma nosologia que correlacionou as faixas etárias, as estações do ano e os temperamentos humanos, fornecendo com isso a base da terapêutica hipocrática.

 

 

Quanto à composição dos humores no corpo humano, Entralgo (cf. 1982, p. 149) aponta quatro esquemas conceituais distintos: (1) o esquema da escola de Cós, presente nas obras Sobre a natureza do homem e Dos humores, que define os quatro humores em sangue (haima), pituíta ou fleugma (plégma), bile negra (mélaina cholé) e bile amarela (xanthé cholé) (cf. tabela 4); (2) o esquema cnidiano, presente nas obras Da geração, Da natureza da criança, Das doenças iv, no qual participam o sangue, a pituíta, a bile e a água (hydróps); (3) o esquema cnidiano ou coico, presente nas obras Sobre a doença sagrada, Prognóstico e Epidemias i e iii, que considera a pituíta, a bile e o sangue; (4) por fim, em certos tratados cnidianos clínicos, nos quais são mencionados apenas os humores pituíta e bile.

 

 

Como cada humor possui a sua própria dynamis (sua qualidade operativa ou força), o médico hipocrático, para estabelecer o diagnóstico, deve avaliar sua quantidade e sua intensidade no organismo e, em seguida, estabelecer a relação com o aspecto ou a forma específica (eidos) do paciente, isto é, o sexo, a idade, os tipos temperamentais e as raças.

1.2 AS CONCEPÇÕES FISIOPATOLÓGICAS E ANATOMOPATOLÓGICAS

A vida, para os médicos do CH, é um tipo especial de movimento (kínesis). Os humores e as partes do corpo misturam-se entre si e estão mutuamente ordenados segundo a constituição do indivíduo. A unidade orgânica é mantida pelas simpatias e conexões (sympateia) entre as diferentes partes do corpo. Três órgãos (o coração, o pulmão e o cérebro) e dois agentes principais (o calor congênito e os alimentos, entre eles, o ar ou pneuma, os líquidos e a comida propriamente dita) mantêm essa unidade harmoniosa e equilibrada das partes do corpo. O calor reside no ventrículo esquerdo do coração e mantém a vida do corpo. O pneuma (ar respirado e gases exalados) alimenta, impulsiona, refresca e vivifica, sendo ainda responsável pela inteligência e a fonação. O ar entra pela boca, segue para o nariz e, através dos etmóides, sobe à cabeça. Da cabeça, desce para o ventre, passa pelos pulmões e artérias e, destas, espalha-se pelo corpo. A parte "mais ativa" do pneuma produz, no cérebro, a inteligência. Ao sair do cérebro em direção ao esôfago, e deste em direção ao ventre, traquéia e coração, o pneuma cumpre uma função refrigeradora. Essa imagem do sistema vascular, embora confusa, explica o trânsito do pneuma ao pulmão e ao coração. No coração e nos pulmões, o pneuma, misturado ao sangue, alimenta o calor gerado, ao mesmo tempo em que refresca as suas partes. Por meio dos vasos (phlébes) do cérebro e do pulmão, o pneuma se dirige às diferentes partes do corpo, permitindo a sua vivificação e o seu movimento. Os vasos servem como respiradouros do corpo, permitindo que o pneuma o vivifique e o refresque e, sobretudo, que possa ser exalado, uma vez que o pneuma não pode ficar nele preso ou detido. Assim, os vasos atraem e expulsam o ar, explicação que será contestada posteriormente por Galeno, que constatou que as artérias contêm sangue e não ar.

A deglutição e a digestão incorporam os alimentos líquidos e sólidos no corpo, bem como explicam a sua composição material e, conseqüentemente, o seu equilíbrio humoral. O processo básico da digestão é a cocção (pépsis). O sangue e todas as partes do corpo são gerados pelos alimentos: o homem é nutrido pelo semelhante (homoion, homoió); a nutrição é assimilação (homoiosis) e predomínio (epikratéia). O predomínio explica a digestão como o domínio das dynameis dos órgãos digestivos sobre as dynameis dos alimentos; a assimilação é explicada pelo princípio de que o semelhante se reúne ao semelhante para alimentar, incrementar e dar vigor a cada parte do corpo. Assim, cada parte do corpo possui uma atração específica (hélkein), isto é, uma capacidade de atrair para si aquilo que lhe convém.

Quanto aos humores, a sua separação é feita no ventre pelo processo de cocção e é por esse motivo que a dieta é tão fundamental para a manutenção da saúde. O produto da cocção digerido, isto é, dominado pelas dynameis do órgão digestivo, é "atraído" e "assimilado" pelas veias aos seus órgãos reguladores e de origem: a pituíta ou fleuma segue para a cabeça; o sangue segue para o coração; a bile amarela segue para a vesícula biliar e o fígado e a bile negra para o baço.

A physis geral de cada homem que é, em última instância, determinada pela figura (skhéma) e pelas potências (dynameis), serve ao médico hipocrático à caracterização dos tipos constitucionais, formados pelos dois gêneros (sexo), por grupos étnicos e pelos temperamentos. Por exemplo, os homens são mais secos e quentes e as mulheres mais frias e úmidas (Sobre o regime); os europeus e os asiáticos são tipos constitucionais distintos, pois são gerados em distintos meios geográficos físicos (clima, temperatura etc.) e político-sociais (Ares, águas e lugares). A idade, a compleição (gordos ou magros, fortes e fracos) e certas características físicas, tais como a pele seca e esticada ou a pele úmida e macia, articulações rígidas ou flexíveis e outras definem os tipos constitucionais, sendo os mais importantes os pituitosos (ou fleumáticos), os melancólicos, os sangüíneos e os coléricos. Há também os tipos constitucionais especiais, o esplênico (descrito em Ares, águas e lugares) e o tísico (descrito em Epidemias, Aforismos, Sobre a doença sagrada, Prænotiones coacæ e Predições). Cada tipo leva a uma propensão geral e a uma disposição morbosa especial para as doenças,7 conforme se pode ver na tabela 5.

 

 

A saúde é um estado habitual, uma diathesis da physis, cuja estrutura é constituída pela boa ordem ou o perfeito equilíbrio da mistura (krasis) das dynameis dos humores. O equilíbrio das dynameis depende da isonomia entre elas, isto é, da ausência do domínio de uma sobre as outras. A doença é uma desproporção dos humores (dyscrasia), quando há escassez ou excesso de pelo menos um deles ou quando um deles não se mistura com os outros. Tal desproporção pode causar ou um depósito no local da separação (apóstasis ou hipóstasis) ou uma evacuação do humor separado (kénósis), quer para fora do corpo, quer para o seu interior (metástasis). O ar também pode ser um fator causal das doenças, especialmente os miasmas das doenças epidêmicas (Sobre os ventos). Nas discrasias, o humor pode entrar em putrefação (sépsis) e a mistura humoral transforma-se em pus (pìon). Muitas vezes, o calor do corpo, por meio da cocção, "cozinha" ou "fermenta" os humores de maneira curativa natural (mais tarde chamada vis medicatrix naturæ). Quando isso acontece, na fase crítica (krísis) da doença, dois sintomas podem surgir: a febre e a inflamação.

Enquanto alterações do equilíbrio dinâmico do corpo, as doenças possuem duas causas principais: uma causa geral interna (aitía), que explica o princípio fisiológico do processo da doença, e uma causa específica, particular e ocasional externa (próphasis), que explica a razão imediata da doença. No sentido de aitía, a doença surge quando a physis do homem é derrotada pela força do todo ou quando a dynamis do homem é mais fraca que a dynamis do todo. Aqui, a doença é um tipo de violência que se opõe ao estado natural do corpo. As causas internas reúnem disposições específicas relacionadas com a "espécie" animal (o homem, o gato, a ave etc.); os tipos étnicos; sexo e idade; a disposição dos órgãos; as doenças hereditárias e congênitas; a herança; e a influência do meio na constituição ou na formação dos tipos constitucionais.

No sentido de próphasis, a causa natural é concebida como aquele fenômeno externo perceptível que antecede imediatamente o processo morboso, ou o seu fator desencadeante. Tais causas podem ter origem na alimentação deficiente ou inadequada, no pneuma (como alimento do corpo), em ações do meio tais como tensões e pressões (traumas), no excesso de repouso ou de esforço; na temperatura, estação e clima, nos venenos e miasmas, nos parasitas ou vermes e, por fim, em causas psíquicas.

1.3 AS CONCEPÇÕES TERAPÊUTICAS

O médico hipocrático atuava com os sentidos (aísthèsis), a inteligência (nous, diánoia, gnómé, sýnesis, phrónésis) e as mãos (kheir) (cf. Entralgo, 1982, p. 65). A partir dos sentidos, percebia e distinguia na physis três aspectos da realidade: o aspecto ocasional (katástasis), o modo ou aspecto habitual típico (trópos) e o aspecto específico (eidos, idéè) (cf. Entralgo, 1982, p. 66). O aspecto ocasional era fornecido aos sentidos num dado momento: o ambiente que circundava o doente (ano, estação, moradia, cidade etc.), a manifestação aparente das diversas doenças e o aspecto observável do corpo humano e de suas partes. O aspecto habitual típico, quer de uma doença, do corpo ou de suas partes, era o seu modo ou procedimento habitual de ser, aquilo que estava previsto ser de tal modo. O aspecto específico era a maneira particular e única de um ser ou fenômeno, tais como a forma específica de cada espécie animal, a forma humana determinada pelo esqueleto ósseo, os tipos constitucionais humanos determinados pela origem geográfica, como o europeu, asiático etc., os tipos vigorosos ou fracos, o saudável e o doentio, modos ou formas de adoecimento e o aspecto próprio de cada um dos humores, dos alimentos e das doenças.

Em Sobre a dieta, lê-se que, com os olhos, o ouvido, o nariz, a língua, a boca, o tato e as vias do pneuma (o hálito), o médico chega ao conhecimento da doença (cf. Hipócrates, 1849a, p. 496). O autor do tratado Dos lugares no homem afirma que a physis é a arché do logos do médico (cf. Hipócrates, 1849b, p. 278) e o autor do Sobre a medicina antiga sustenta que a medida (metron) do saber médico é a sensação do corpo (cf. Hipócrates, 1839, p. 589). Assim, a experiência sensorial que capta os três aspectos acima descritos fornecerá ao logos (razão, palavra e raciocínio) os elementos para a ação médica. Aqui repousa um princípio central no CH: a physis do corpo é o logos da medicina, realidade a partir da qual o conhecimento médico nasce e se estrutura. Para curar é preciso conhecer a physis e o seu modo de agir, sua ordem própria de ação, ou dito de outra maneira, curar implica reconhecer na physis do corpo as suas alterações a partir dos sinais observáveis, os aspectos ocasional, típico e específico.

Quanto à utilização das mãos, lembremos que a medicina é uma techné e, como todas as outras technai, exige maestria e o uso de instrumentos, como o domínio das técnicas cirúrgicas e de bandagens. O médico hipocrático, a partir da experiência sensorial, raciocina e intervém manualmente.

O tratamento hipocrático, isto é, a cura, quer produzida pela arte médica ou pela própria natureza (vis medicatrix naturæ), foi para os médicos hipocráticos uma restauração da saúde (hygíeia), ou melhor, um retorno da physis do doente ao seu estado original. A physis poderia sarar espontaneamente (automátou) sem a utilização de medicamentos, quer por necessidade, por exemplo, as febres de outono que são curadas pela primavera; quer por acaso, quando uma doença acidentalmente elimina outra. Quando isso não era possível, o médico devia intervir e proceder à cura artificial, introduzindo recursos terapêuticos artificiais. Contudo, mesmo nesse caso, o médico apenas ajudava a physis a curar-se e o seu limite de intervenção era definido por ela. Três princípios gerais guiavam o médico hipocrático: (i) ser útil ao doente, isto é, favorecer e não prejudicar (o futuro primum non nocere); (ii) abster-se dos casos incuráveis, isto é, reconhecer os limites da arte frente àquilo que é necessário na natureza; e (iii) atacar terapeuticamente as causas da doença (cf. Entralgo, 1982, p. 307). O tratamento orientava-se pela utilização de ações e medicamentos contrários (to enantíón, mais tarde contraria contrariis curantur); semelhantes (tó hómoion, mais tarde similia similabus curantur) e dessemelhantes (tó anómoion, a futura alopatia).

De uma maneira geral, os recursos terapêuticos apresentados nos tratados hipocráticos são as dietas, os medicamentos e a cirurgia. O termo díaita, regime de vida ou totalidade dos hábitos do corpo e da alma, foi provavelmente uma invenção pitagórica que buscava a purificação ou a catarse do corpo. Diversos tratados da coleção hipocrática se dedicam ao tema, entre eles Do regime nas doenças agudas, de grande penetração na medicina medieval e moderna, os tratados Sobre o regime, Do regime salutar e Sobre a medicina antiga. A dieta e o regime de vida eram indicados para ajudar a physis do corpo a recuperar o seu próprio equilíbrio natural e consistia em uma mudança de orientação em relação à alimentação (comidas, bebidas, o ar ou pneuma), na prescrição de exercícios físicos (ginástica, passeios, descansos e banhos), na consideração da atividade profissional e do grupo social ao qual pertencia o paciente, na peculiaridade da região (situação geográfica e clima) e nos nómoi da cidade em que o paciente vivia (vida social e política). Tais elementos eram considerados de acordo com a idade, o sexo, os hábitos e a compleição (cf. Entralgo, 1982, p. 320).

O uso de medicamentos e a prática da cirurgia, diferentemente da dieta, pois mais tardia, remontam aos tempos homéricos. Os medicamentos (phármaka) eram concebidos como toda substância exterior ao corpo capaz de produzir sobre este uma modificação favorável ou desfavorável. Distinto dos alimentos e das dietas, os medicamentos eram um segundo recurso do médico hipocrático (cf. Entralgo, 1982, p. 327). Classificados em purgantes e não-purgantes, o seu efeito residiria na sua dynamis própria, capaz de esfriar ou esquentar, secar ou umedecer e contrair ou relaxar. A purgação podia ser uma expulsão violenta, uma evacuação suave ou uma paulatina digestão da matéria pecante. A purgação não se concentrava apenas no tubo digestivo, pois podiase purgar também o cérebro, o baço, o pulmão, as carnes e as veias. Os purgantes podiam "purgar por cima", no caso dos eméticos, ou "por baixo", no caso dos purgantes intestinais. Tais medicamentos eram indicados para purgar a cabeça e o útero, para a depuração do baço e por serem diuréticos, entre outros usos (cf. Entralgo, 1982, p. 328). O heléboro, a mandrágora, o cominho, o anis, o manjericão, o louro, a briônia, a centaurea, o trevo, o hipérico, a malva, a arruda, a sálvia, o cobre e o enxofre, bem como diversas substâncias de origem mineral, animal e vegetal são citadas pelos médicos doCH.10 Alguns alimentos eram também utilizados para fins terapêuticos, como a tisana procedente do cozimento da cevada triturada, o hidromel (água e mel), o oximel (mistura de vinagre, água e mel), o leite, o vinho, os clisteres com manteiga, mel e sal, as cocções de acelga e de nabo, a cebola e o alho, utilizados largamente como diuréticos.

A cirurgia tinha grande importância na medicina hipocrática. Diversos tratados relatam técnicas de intervenção cirúrgica, fundamentalmente ortopédica (luxações, fraturas e articulações), curativa (feridas, fístulas, úlceras e hemorróidas) e evacuante (abscessos, pústulas, trepanação e nefrostomias). São os tratados mais antigos do CH, a maior parte produzida no fim do séc. v e começo do séc. iv a.C., e reúnem as obras Articulações, Fraturas, Da oficina do médico, Sobre as feridas na cabeça, Instrumentos de redução (Mochlique), Da natureza dos ossos, Sobre o parto de oito meses e Sobre o parto de sete meses, Da excisão dos fetos ou Embriotomia, Dos músculos e Das feridas. Em tais tratados, o uso adequado do olho, isto é, da visão, e da mão no domínio das técnicas cirúrgicas ou a destreza manual do médico são profusamente exaltados. No tratado Da oficina do médico, são descritas as condições necessárias para uma boa intervenção cirúrgica e a conduta médica mais adequada a cada caso. Seu autor procura descrever detalhadamente qual é a melhor posição do médico e do paciente, a indumentária no caso das intervenções cirúrgicas, a iluminação do ambiente, a disposição dos assistentes e as regras para a colocação correta das bandagens e dos curativos. Um número significativo de instrumentos e aparatos técnico-cirúrgicos foi criado pelos médicos hipocráticos, entre eles, facas e lâminas, sondas, cautérios, bandagens, talas, estacas, tornos, espaldeiras e aparatos de redução, como a famosa "cadeira de Hipócrates" indicada para corrigir luxações e fraturas, ventosas e espéculos retais e vaginais.

 

 

2 A TRANSIÇÃO GRECO-ROMANA

Qual foi a sorte dos escritos hipocráticos após a morte de Hipócrates por volta de 370 a.C. quando então o núcleo essencial da coleção já tinha sido produzido? Após a partida de Hipócrates para o norte da Grécia e para a cidade de Tessália, por volta de 419 e 416 a.C., seu genro e antigo discípulo Políbio, para certos comentadores o provável autor do tratado Sobre a natureza do homem, ficou à frente da escola de Cós zelando pela continuidade do ensinamento médico. Com isso, a transmissão de pai para filho ou de mestre para aprendiz foi perpetuada até o período helenístico e romano por Xenofão, médico do imperador Cláudio e último representante da escola de Cós (cf. Jouanna, 1992, p. 82). Nessa época, nascia uma nova tradição médica nas cidades de Alexandria e Pérgamo, cujos representantes mais famosos foram Herófilo, Erasístrato e Galeno. A grande tradição da escola de Cós foi, a partir de então, paulatinamente substituída por esses novos centros. Mas, apesar disso, a medicina hipocrática continuou a exercer grande influência no pensamento médico ocidental, pois suas obras foram recolhidas e comentadas pelos eruditos da biblioteca de Alexandria e exaustivamente glosadas por Galeno. O trabalho de filologia dos médicos alexandrinos no século iii a.C. é o primeiro passo conhecido na conservação e transmissão dos tratados do CH. Graças ao cuidado e à conservação dos rolos de papiro na Biblioteca de Alexandria, vários tratados originários das escolas de Cós, Cnido, talvez da Sicília e de outras escolas do sul da Itália foram ali recolhidos e reunidos (cf. Gual, 1983, p. 16). Embora uma boa parte pertencesse a autores anônimos, a totalidade dos textos preservados recebeu um único título: "Hipócrates". Esse material é fundamental para a história da transmissão do CH, pois foi a primeira "coleção", de que se tem notícia, merecedora de comentários e glosas.

 

 

2.1 O CORPUS HIPPOCRATICUM E SEUS PRIMEIROS COMENTADORES11

Ctésias, Dexippo e Apolônio (v e iv a.C.), os dois últimos "alunos de Hipócrates", são as referências mais antigas relacionadas de alguma maneira com Hipócrates e o CH. Segundo Daremberg (1870, p. 146), Ctésias, médico da escola de Cnido e historiador, teria criticado um procedimento para a luxação da coxa relatado no Do regime nas doenças agudas de Hipócrates. Dexippo deixou alguns escritos: um livro sobre medicina e dois sobre prognóstico, ambos comentados por Menon, discípulo de Aristóteles, no papiro conhecido como Anonymus Londinensis 12.8 (cf. Smith, 2002, p. 180).

Um século mais tarde, surgiu Diócles de Caristo (iv-iii a.C.), figura importante na construção da futura tradição dos comentadores hipocráticos.12 No livro apócrifo Introductio, sive Medicus de Galeno, que se encontra no manuscrito K 14.683 (cf. Smith, 2002, p. 181-2), o nome de Diócles se reúne a uma lista de médicos lógicos ou dogmáticos,13 entre eles o próprio Hipócrates, Diócles, Praxágoras, Herófilo, Erasístrato, Mnesiteu de Atenas e Asclepíades de Bitínia. Considerado pelas histórias da medicina que nos chegaram "segundo no tempo e na fama depois de Hipócrates", Diocles foi glosado e comentado por Galeno e Oribásio e é uma das melhores fontes para a medicina da Atenas clássica tardia. Por exemplo, Cornélio Celso (ca. 25-50 a.C.), no De medicina, um dos primeiros relatos de história da medicina do período antigo, posiciona Diócles como seguidor direto de Hipócrates: "após os primeiros filósofos, vieram Hipócrates, Diócles, Praxágoras, Crisipo, Herófilo e Erasístrato; mais tarde, vieram os empíricos, bem mais tarde, Asclepíades de Bitínia e, então, os metódicos" (Celso, apud Smith, 2002, p. 181-2).14 Embora não tenha sido um comentador de Hipócrates ou dos tratados hipocráticos, Diócles escreveu sobre três assuntos controversos que o relacionam diretamente aos tratados do CH: como colocar a costela no lugar, sobre verminoses ou parasitoses e sobre os períodos das febres de cinco, sete e nove dias (cf. Smith, 2002, p. 187).

O trabalho sistemático dos glosadores e comentadores alexandrinos teve início com Herófilo de Alexandria (que comentou o tratado hipocrático Prognóstico) e seus discípulos, Baquio (Bacchius) de Tanagra e Filino de Cós, fundador da escola ou seita empírica.15 Herófilo, junto com Erasístrato e Asclepíades de Bitínia (i a.C.) foram, antes de Galeno, os médicos mais influentes da Antigüidade. Herófilo (possivelmente aluno de Praxágoras de Cós) e Erasístrato foram considerados pela historiografia antiga de Cornélio Celso, Galeno e Sorano de Éfeso (ca. séc. i e ii d.C.) os mais importantes representantes da escola lógica ou dogmática. Essa alcunha, que foi originalmente utilizada pelos primeiros médicos da escola empírica, Filino de Cós e Serapião, e posteriormente perpetuada por Cornélio Celso e Galeno, atravessou os séculos. Segundo tal historiografia, os médicos lógicos ou dogmáticos buscavam uma explicação lógica e racional para as causas da saúde e das doenças. Procurar pelas causas ou razões dos estados de saúde e doença extrapolava a mera observação e constatação dos processos mórbidos, pois implicava no estabelecimento de um sistema médico amplo e coerente que pudesse dar conta de todos os fenômenos vitais observados, e não apenas aplicar uma terapêutica. Nesse sentido, o médico lógico ou dogmático privilegiava a explicação em detrimento da observação empírica. O exemplo maior da medicina em questão foi a redução dos fenômenos vitais a uma única teoria médica, a teoria humoral. Segundo Smith (cf. 2002, p. 199), os primeiros dogmáticos não foram nem seguidores de Hipócrates nem seus oponentes, trabalhando de maneira independente dos tratados hipocráticos. Por isso, a tradição dos comentadores que foi posteriormente chamada de "tradição hipocrática" não teria surgido com os dogmáticos, mas mais tarde, com Zeuxis, médico empírico, no interior das disputas entre as duas escolas ou seitas, adogmática e a empírica.

No século ii a.C., existia em Pérgamo um centro de estudos médicos onde havia sido fundada uma grande biblioteca rival de Alexandria. Os trabalhos de erudição feitos por seus professores e médicos são apenas indiretamente conhecidos, com exceção do comentário de Apolônio de Citium ao Articulações, provavelmente um médico da seita empírica do século i a.C. que já intitulava Hipócrates "o divino" (cf. Jouanna, 1992, p. 490). Segundo Erotiano (54-68 d.C.), Apolônio escreveu 18 livros contra Heraclides e 3 livros contra Baquio (cf. Smith, 2002, p. 214). Nessa época, entre 225 e 50 a.C., teve início um movimento de reação à medicina dogmática, empreendido pela escola empírica. A objeção central dos empíricos consistia em que a medicina dos dogmáticos era praticada em abstrato, longe do leito do paciente e dos fatos relacionados com a saúde e as doenças. Os empíricos recusavam-se a buscar as causas das doenças e, sobretudo, a tentar encontrá-las por meio de observações anatômicas, pois acreditavam que a fisiologia se alterava no momento da inspeção, impedindo qualquer afirmação consistente. Buscavam, além disso, elaborar um diagnóstico localizado, priorizando os sintomas. Privilegiando a experiência em detrimento da razão ou da teoria, os empíricos recuperaram os primeiros tratados médicos hipocráticos, os cirúrgicos, reunidos na Biblioteca de Alexandria e que tinham sido creditados em bloco a Hipócrates. Apontavam o Epidemias e certos escritos terapêuticos como modelo de prática e conduta médicas genuinamente hipocráticas. Os empíricos, dessa forma, podem ser considerados os primeiros intérpretes do CH (cf. Smith, 2002, p. 178). Assim, é no interior das disputas entre os dogmáticos e os empíricos, nos séculos ii e i a.C., que as obras do CH foram comentadas. Os empíricos utilizaram alguns tratados do CH (por exemplo, Epidemias, Aforismos, Preceitos e Sobre a medicina antiga) como modelo para demonstrar os erros dos dogmáticos. Glaucias (ii a.C.), Zeuxis (ii a.C.) e Heraclides de Tarento (i a.C.)16 são os mais famosos empíricos citados por Erotiano (54-68 d.C.) (cf. Jouanna, 1992, p. 626, nota). Filino de Cós, teórico do empirismo médico, assim como seu discípulo Serapião, escreveu seis livros de lexicografia contra Baquio, discípulo de Herófilo e médico dogmático.

Baquio de Tanagra (ca. 275-200 a.C.) foi o primeiro editor e glosador de Hipócrates. Focando apenas o vocabulário médico do CH e aparentemente pouco interessado no seu conteúdo filosófico e científico, Baquio compôs em três livros um glossário dos termos hipocráticos mais difíceis, baseando-se em vinte livros pertencentes ao CH: Prognóstico, Predições, Aforismos, Dos humores, Epidemias I e IV, Dos lugares no homem, Sobre a oficina do médico, Articulações, Sobre os instrumentos de redução (Mochlique), Sobre as feridas na cabeça, Do regime nas doenças agudas, Das doenças I e Sobre a arte médica. Especula-se que ele possa ainda ter consultado o Ares, águas e lugares e o Da natureza da criança. Quem nos informou do glossário de Baquio, perdido desde muito, foi Erotiano, que citou ainda Xenócrito e Calímaco como importantes glosadores anteriores a Baquio.

O segundo importante comentador de Hipócrates e do CH, depois de Baquio, foi Erotiano (54-68 d.C.), que viveu na época de Nero no século i d.C. Ao produzir um dicionário para quem quisesse ler o CH, Erotiano elaborou a lista mais antiga das obras de Hipócrates consideradas autênticas. Partindo de Baquio, citou 29 tratados e 38 livros no seu Compêndio das expressões hipocráticas. A organização e a classificação dos tratados segundo Erotiano, muito provavelmente seguindo a ordem dos verbetes apresentados por Baquio, foram posteriormente recuperadas pela famosa edição de Foes no século xvi. Apresentamos, na tabela abaixo, a classificação de Erotiano (Jouanna, 1992, p. 96):

 

 

Na passagem da Roma republicana para o Império, entre os séculos i a.C. e i d.C., as escolas dogmática e empírica são criticadas e reinterpretadas pelos médicos da época e o resultado foi o surgimento de duas novas seitas, os metódicos e os pneumatas.

Asclepíades de Bitínia (i a.C.),17 possivelmente influenciado pelo atomismo de Epicuro, revisa e corrige a medicina teórica e prática de Hipócrates, ou melhor, dos tratados hipocráticos, bem como dos dogmáticos e dos empíricos. Embora tenha se autodenominado um dogmático, afastou-se tanto dos dogmáticos quanto dos empíricos, procurando racionalizar a medicina. Segundo Asclepíades, o empirismo médico sem teoria era um contra-senso, e as teorias dos dogmáticos eram erradas e inadequadas, pois não consideravam os fatos relacionados com os diferentes estados de saúde e de doença. Asclepíades idealizou uma fisiologia racional que descrevia os estados de saúde e de doença como o fluxo e o influxo da matéria no corpo. Nessa fisiologia lógica, o corpo era composto por vários átomos de tamanhos distintos que constantemente se moviam no seu interior através de passagens de vários tamanhos; a constrição de tais passagens causaria inflamação, assim como um excesso de afrouxamento levaria à perda de vitalidade. Asclepíades escreveu Refutações contra Erasístrato e comentou dois tratados do CH, Aforismos e Cirurgia. Com ele foi iniciada a tradição, posteriormente continuada pelos metódicos, de que Hipócrates, embora tivesse muito a oferecer, deveria ser revisto pela nova metodologia. Embora os metódicos tenham partido da fisiologia de Asclepíades, repudiaram o seu dogmatismo e a sua utilização de medicamentos perigosos. A filosofia médica de Asclepíades pode ser considerada um novo dogmatismo, com fortes críticas à terapêutica contida no CH, tais como a noção dos dias críticos das doenças, o uso de purgantes, clisteres e certas preparações medicamentosas (cf. Smith, 2002, p. 222-5).

A escola metódica, como ficou mais tarde conhecida, embora considerasse Hipócrates venerável, acreditava que a medicina derivada dos tratados hipocráticos deveria ser atualizada e corrigida. Dos metódicos, o mais famoso é Sorano de Éfeso (ca. séc. i e ii d.C.)18 que, além de criticar os tratados ginecológicos, derivou dos tratados hipocráticos Preceitos, Sobre as doenças II e III, Afecções e Aforismos uma catalogação crítica dos seus predecessores em relação à definição e ao tratamento das doenças.

A escola pneumática desenvolveu a base lógica de sua medicina de maneira independente da tradição hipocrática, isto é, sem a preocupação de corrigir ou atribuir dogmas a Hipócrates. O objetivo central dos pneumáticos parece ter sido revisar a medicinadogmática. Credita-se aos pneumáticos a tradição de cunhar Hipócrates como "o pai da medicina". A influência dos pneumáticos na tradição hipocrática pode ser medida pelos comentários de Galeno, que atribuiu a Hipócrates aquilo que, de fato, era afirmado pelos pneumáticos, os quais, por sua vez, posicionavam-se como herdeiros da tradição alexandrina e não hipocrática. Os médicos dessa seita reescreveram a medicinadogmática de acordo com o estoicismo (daí a importância do pneuma), uma filosofia natural que partia de duas concepções centrais: a unidade cósmica e a simpatia entre os seus componentes. Ateneu, o seu fundador,19 acreditava que o cosmo era contínuo. A matéria elementar, sob a ação das qualidades (quente, frio, úmido e seco), produziria o mundo visível; a mistura precisa das qualidades determinaria o que uma coisa é e, com a mudança da mistura, todas as coisas poderiam transformar-se em outras; o pneuma no cosmo e no corpo manteria as coisas unidas, bem como o seu funcionamento. Uma mudança no pneuma causaria uma mudança na mistura (temperamento) dos seres animados ou inanimados. A saúde foi concebida como a mistura apropriada da natureza de cada coisa, chamada eucrasia; o afastamento da natureza ou do seu equilíbrio natural traria a doença, a dissolução e a morte, chamada discrasia (cf. Smith, 2002, p. 231). Ateneu escreveu Sobre a saúde (Boethemata, 30 livros), no qual tratou dos temperamentos humanos, da importância das estações e dos lugares, dos alimentos, da idade na saúde e na doença e dos medicamentos. Entre os mais importantes pneumatas, pode-se citar Arquigenes, cuja terapêutica foi bastante influente, bem como os seus estudos sobre o pulso e as febres; Agatino, o eclético, professor de Arquigenes, que ao expandir as doutrinas de Ateneu, incluiu elementos dos metódicos e dos empíricos; e Leônidas, o cirurgião. O pneumata Areteu da Capadócia, em i d.C., escreveu sobre semiologia e terapêutica das doenças agudas e crônicas, baseando-se nos tratados hipocráticos.

Na Antigüidade tardia, a arte médica foi divulgada nas primeiras enciclopédias latinas de Cornélio Celso e Plínio, o velho, cujos relatos históricos sobre a medicina do século i d.C. são fontes importantes sobre os escritos hipocráticos e o conhecimento médico da época. O Da medicina de Cornélio Celso (ca. 25-50 d.C.) e a História natural de Plínio, o velho, (ca. 24-79 d.C.) são peças fundamentais na difusão e na transmissão do CH. A primeira fazia parte de um trabalho enciclopédico que incluía a agricultura, a retórica e a ciência militar, partes infelizmente perdidas, nas quais foram recolhidas as concepções da medicina da época de Tibério, entre 14 e 37 d.C. Celso resumiu o conhecimento corrente sobre as doenças e a terapêutica a partir do ponto de vista da medicina dogmática, fornecendo, dessa forma, uma versão da história da medicina que via Hipócrates como "o aluno de Demócrito que separou a medicina da filosofia" (cf. Smith, 2002, p. 227). Celso apresentou uma nova versão de Hipócrates como pai da medicina, estudante de filosofia e fonte da medicina dogmática que os empíricos equivocadamente teriam modificado. Para argumentar em seu favor, Celso fez uso de vários tratados hipocráticos, o Epidemias ii, Predições ii, Regime ii, Aforismos e Prognóstico.

Plínio, o velho, considerado o maior divulgador da ciência do período, foi uma figura central da ciência romana. Na introdução da História natural, Plínio afirma que ele e seus ajudantes leram com atenção dois mil volumes de mais ou menos 100 autores e que desses escritos extraíram vinte mil fatos (cf. Lindberg, 2002, p. 188). Os temas tratados incluíam cosmologia, astronomia, geografia, antropologia, zoologia, botânica e mineralogia. Ao descrever as grandes etapas da história da medicina, Plínio, assim como Celso, atribuiu a Hipócrates um lugar especial como verdadeiro fundador da arte e da ciência médicas. Mas diferentemente de Celso, que via a inspiração da medicina hipocrática na chamada "medicina filosófica", Plínio afirmou a importância da medicina religiosa para Hipócrates. Uma compilação de caráter médico daHistória natural foi feita no século iv d.C., o Medicina Plinii, amplamente consultada no período medieval.

Por volta do início do século ii d.C., no período da Segunda Sofística, importante movimento de renascimento cultural que ocorreu na época de Adriano (117-138 d.C.),20 surgem as duas primeiras edições literárias do CH: a de Dioscórides, o jovem, e a de Artemidoro Capitão. Tais edições acarretaram uma mudança significativa na tradição dos escritos hipocráticos, pois influenciaram a leitura que Galeno fez um século mais tarde dos tratados contidos no CH. A tradição manuscrita medieval basear-se-á quase inteiramente nos textos de Artemidoro Capitão. Ambos autores alteraram a linguagem original escrita em jônico para o dialeto de Cós. Além disso, os copistas introduziram nos novos manuscritos comentários pessoais marginais de Dioscórides sobre a autoria dos textos. Dioscórides pode ser considerado o primeiro comentador que se preocupou em dar um sentido ao material fragmentado e disparatado do CH (cf. Smith, 2002, p. 236). Ambos serviram como base textual das versões latinas e árabes que surgiram nos séculos seguintes. Embora hoje perdidas, são conhecidas pelos comentários de Galeno que, na obra Comentários à natureza do homem (i, 2) e no Epidemias vi (parte árabe) critica os dois autores por terem tido excessiva liberdade com o texto e por terem eliminado freqüentemente as lições antigas para substituí-las por suas próprias conjecturas (cf. Jouanna, 1999, p. 60, nota 143, p. 626, nota 5). Rufus de Éfeso (i e ii d.C.),21 médico contemporâneo de Dioscórides, também comentou vários tratados de Hipócrates. Sua obra, que foi posteriormente utilizada na Escola de Salerno, resumiu os primeiros comentários empíricos do CH.

 

3 GALENO E O HIPOCRATISMO GALÊNICO22

Galeno é considerado o maior comentador do CH e o seu enorme trabalho de exegese foi fundamental para a transmissão e a difusão do legado hipocrático no mundo ocidental e oriental. Escritor prolífico, o médico de Pérgamo produziu uma vasta obra que, traduzida e interpretada pelos sírios e árabes, fundou uma longa tradição médica muçulmana. Revertida para o latim, tal obra foi sistematicamente utilizada nos manuais das primeiras escolas de medicina em Salerno, na Itália, e Montpellier, na França, fornecendo a base teórica e conceitual da medicina medieval. No Renascimento, suas obras forneceram elementos para a grande revolução anatômica que teve início com Vesálio e findou com Harvey.

Galeno (129-ca. 210 d.C.) nasceu em Pérgamo, na Ásia Menor (hoje Turquia), na época um grande centro médico de culto e cura, onde estava sendo construído o templo de Asclépio, talvez por seu próprio pai, o famoso arquiteto Nikon. Entre os anos 129 e 144, Nikon, que exerceu forte influência moral e intelectual sobre o filho, o iniciou nos estudos de matemática e geometria. A partir de 144, aos 14 anos, ainda na cidade de Pérgamo, Galeno estudou filosofia com professores estóicos e platônicos. Em 146, aos 16 anos, por decisão paterna, passou a estudar medicina com um médico que pertencia ao grupo de Costúnio Rufo, o principal responsável pela construção do templo de Asclépio. De 147 a 151, estudou anatomia com Satyro, respeitado anatomista da época. Após a morte de seu pai, durante os anos 151 e 152, seguiu para Esmirna, onde estudou medicina com Pelops e filosofia com Albino.

 

 

É dessa época o seu primeiro escrito: um tratado composto por três livros sobre o movimento do pulmão e do tórax. De 152 a 157, seguiu para Corinto e Alexandria, capital científica do mundo helenístico e latino, onde deu continuidade ao aprendizado médico com importantes anatomistas, entre eles Heracleiano e vários comentadores do CH. Na obra Sobre a ordem dos meus próprios livros, Galeno (§3, passagens 57-8), cita os comentadores de Hipócrates anteriores a si próprio, entre os quais muitos de seus antigos professores, contra os quais ele invariavelmente tem objeções (cf. Singer, 1997, p. 26-7): Pelops, Numesiano, Sabino, Estratônico, Rufo de Éfeso, Quinto, Lyco, Satyro e Aeficiano. Nessa época, escreveu tratados de fisiologia e anatomia, como a primeira edição dos Procedimentos anatômicos e deu início a sua obra Demonstração lógica.

Galeno retornou a Pérgamo aos 29 anos, em 157, e entre os anos 158-161, assumiu o prestigioso posto de médico de gladiadores. Nos dois anos seguintes, seguiu para Roma, onde foi médico do imperador Marco Aurélio. De 163 a 168, voltou a Pérgamo para cumprir o serviço militar, retornando novamente a Roma em 169, convocado para acompanhar Marco Aurélio e suas tropas nas campanhas da Germânia. De 169 até 175, foi médico de Comodo, filho de Marco Aurélio, e, de 175 até 192, exerceu o prestigioso posto de médico da corte imperial romana. Em 192, o grande incêndio de Roma destruiu a maior parte de seus manuscritos, obrigando Galeno a retirar-se para Pérgamo, onde passou a reescrever os seus textos perdidos.

3.1 OS ESCRITOS DE GALENO23

De 162 a 166 d.C., Galeno promoveu diversos debates públicos e demonstrações anatômicas, adquirindo fama e respeitabilidade com a prática clínica e os vários escritos médicos e filosóficos, entre eles, os seis primeiros livros de Sobre as opiniões de Hipócrates e Platão; o primeiro livro Da utilidade das partes do corpo, ambos dedicados ao peripatético Boethus; Sobre os ossos para iniciantes; Sobre o pulso para iniciantes; Sobre a anatomia das veias e artérias e Sobre a anatomia dos nervos.

Quando retornou a Roma, em 169, permanecendo até 192 d.C., dos 40 aos 65 anos, Galeno produziu os seus mais importantes tratados e vários comentários ao CH. Entre 169 e 175, escreveu: Os elementos segundo Hipócrates e Platão; Misturas; Sobre as faculdades naturais; Spermata; A função da respiração; os livros restantes (ii-xvii) do Da utilidade das partes do corpo; Sobre a melhor constituição do nosso corpo; Sobre a boa condição; a maior parte dos trabalhos sobre o pulso; os livros restantes (vii-ix) do Sobre as opiniões de Hipócrates e Platão; Dieta de emagrecimento; a primeira parte da sua principal obra farmacológica Misturas e a propriedade dos medicamentos simples; a obra terapêutica Método de cura, composta por 14 livros (Megatechne ou Methodus medendi); Questões de saúde; os trabalhos sobre classificação e o diagnóstico das doenças e prática clínica Para Glauco, sobre o método de cura; Para Thrasyboulos e o Exercício com uma pequena bola; e boa parte dos comentários hipocráticos.

Em 176, Galeno atinge o auge de sua fama, sendo apoiado pela elite romana e pelo imperador Marco Aurélio. Nessa época, publica o Prognóstico. De 176 a 180, Galeno escreve vários comentários a Hipócrates. De 180 a 192, escreve a maior parte da sua obra sobre dieta e regime de vida: Sobre a propriedade dos alimentos; o último livro dasQuestões de saúde; Sobre a ordem dos meus livros; e os seus últimos comentários aos textos hipocráticos Sobre a natureza do homem e Ares, águas e lugares.

Entre 193 e as datas prováveis de sua morte, por volta de 210 d.C., Galeno escreveu A dependência da alma ao corpo; A formação do embrião; Sobre a arte médica; trabalhos de caráter clínico e farmacológico, como os últimos livros do Método de cura e a obra Misturas e a propriedade dos medicamentos simples; dois trabalhos de farmacologia; e o Sobre meus próprios livros. É neste último que Galeno descreve os seus 25 comentários aos tratados hipocráticos. Na apresentação, lembra que tais escritos tinham sido originalmente anotações feitas como forma de exercício para uso e consulta particular (Galeno, 1997, p. 15). Tais anotações foram paulatinamente crescendo e acabaram organizadas por assuntos, percorreram a obra e o sistema médico de Hipócrates, esclarecendo as passagens difíceis e apresentando as suas principais conclusões. Embora critique os comentadores anteriores, apresentando "os seus erros" de interpretação, Smith (2002) afirma que Galeno muitas vezes os criticou "de memória" ou "por ouvir dizer". Nesse conjunto de escritos encontram-se os seguintes comentários aos tratados hipocráticos: Sobre os dias críticos; Sobre as crises; Sobre a apnéia; Método de cura (14 livros); Aforismos (7 livros); Fraturas (3 livros); Articulações (4 livros); Prognóstico (3 livros); Do regime nas doenças agudas (5 livros); Sobre as feridas; Sobre as feridas da cabeça; Epidemias i (3 livros), Epidemias ii (6 livros), iii (3 livros) e vi (8 livros); Dos humores (3 comentários); Sobre os alimentos (4 comentários); Predições (3 comentários); Da natureza do homem (2 comentários); Sobre a oficina do médico (3 comentários); Ares, águas e lugares (3 comentários sob o título Sobre as moradias, as águas, as estações e os países).

Além disso, com a intenção de demonstrar a autenticidade de certos textos hipocráticos, escreveu Sobre o regime nas doenças agudas segundo Hipócrates; Explicação de palavras raras ou Glossário; Contra Lyco (crítica à passagem §I, 14 dos Aforismos: "os seres que crescem possuem mais calor inato"); Contra Juliano (o metódico); e, por fim, o pequeno texto O bom médico é também filósofo.

Dois tratados discutem Hipócrates e Platão: Sobre os elementos segundo Hipócrates e Platão e Sobre a doutrina de Hipócrates e Platão (9 livros).

No Fraturas, Galeno descreveu o seu próprio método exegético: o principal objetivo do comentador é esclarecer aquilo que não está claro no texto, ou porque não está bem redigido ou porque o leitor não tem condições ou capacidade de compreendêlo. Segundo o próprio Galeno, os comentários dirigiam-se a um público de nível médio com uma certa experiência, não para os neófitos e tampouco para os especialistas. Além disso, declara não ser tarefa do comentador provar se as coisas ditas são falsas ou verdadeiras, nem defender o texto das interpretações sofistas, como era usual na exegese da época. Para ele, a exegese não devia limitar-se unicamente à apresentação definitiva das concepções dos autores (cf. Smith, 2002, p. 125). Dessa forma, Galeno introduz nos seus comentários as suas próprias idéias buscando aquilo que será, a partir de então, feito por todos aqueles que buscavam conciliar o pensamento antigo com as novas descobertas anatômicas e as novas concepções filosóficas. Cada comentário era composto por duas partes principais, o texto de Hipócrates e o comentário de Galeno. Na maior parte das vezes, Galeno interpreta o pensamento contido nos tratados hipocráticos à luz de suas próprias concepções e, desde então, a sua contribuição para a difusão do pensamento hipocrático é marcada pela força de seu pensamento e de suas concepções particulares.

Galeno copiava o texto original de Hipócrates (lemmes) e, em seguida, fazia o comentário, que consistia em uma explicação das palavras raras ou das passagens mais difíceis e, ao mesmo tempo, na exposição da doutrina. Por exemplo, no comentário ao texto cirúrgico Fraturas, Galeno parafraseia o autor nas passagens consideradas obscuras, fornecendo informações anatômicas e fisiológicas que esclarecem os procedimentos cirúrgicos. Conservados em grego e em árabe, os comentários de Galeno chegaram à posteridade latina transmitindo um Hipócrates inteiramente construído a partir do seu próprio ponto de vista filosófico e médico, alinhado com o estoicismo e marcado por Platão e Aristóteles. Assim, Galeno é, ao mesmo tempo, o maior difusor da medicina e do pensamento de Hipócrates, bem como aquele que imprimiu uma nova leitura ao legado hipocrático que será, a partir de então, guia e orientação para a medicina até o século xviii.

Um exemplo curioso é fornecido por Jouanna (cf. 1992, p. 507) ao apresentar a contribuição das traduções de Hunayn ibn Isháq, médico árabe do século ix, para a transmissão do hipocratismo galênico. Ao verter os textos médicos hipocráticos para o siríaco e o árabe, Isháq utilizou os comentários de Galeno. Estes eram constituídos pela alternância das "palavras de Hipócrates" (usando a terminologia própria de Isháq) e dos comentários de Galeno às mesmas palavras. Na tradição árabe, os tratados hipocráticos serão recompilados extraindo-se as "palavras de Hipocrates" e mantendo-se apenas os comentários de Galeno. Esse será o Hipócrates conhecido a partir de então, quer no mundo árabe ou latino, até o século xv, quando médicos humanistas passam a exigir os textos originais gregos, livres de tradução e glosa.

3.2 GALENO E A TRANSMISSÃO DO PENSAMENTO HIPOCRÁTICO

Galeno comenta os tratados do CH quase 600 anos após o seu surgimento. Entre Hipócrates e Galeno, surgiram Platão, Aristóteles, os médicos alexandrinos e romanos e além disso, na época de Galeno, céticos, pirrônicos, estóicos e epicuristas dividiam o cenário dos debates filosóficos. Sem a intenção de negar a Galeno a importância da sua filosofia médica, pode-se considerar o seu sistema uma síntese criativa e original de vários elementos herdados.

Galeno absorve alguns elementos da filosofia platônica, retendo a idéia das três almas sediadas no fígado, no coração e no cérebro. No entanto, diferentemente de Platão e aproximando-se dos estóicos, com exceção da alma racional, duas almas são mortais. No Timeu,24 Platão concebe três almas: uma alma imortal racional alojada na cabeça, responsável pelo pensamento; uma alma mortal e de baixos instintos alojada no fígado, responsável pelas funções vegetativas, e uma alma mortal intermediária entre o fígado e a cabeça, alojada no coração, responsável pelos altos instintos. Essas almas controlariam o corpo que, por sua vez, é composto pelos quatro elementos, ar, fogo, terra e água, cada um dos quais representado por uma figura geométrica determinada. A alma racional, sediada na cabeça, e a alma mortal ou apetitiva, sediada no fígado, emitiriam ordens para o coração, considerado o centro que comanda o corpo, bem como sede do calor inato e, ao mesmo tempo, responsável por sua refrigeração. O sistema vascular, uma verdadeira rede de irrigação, permitiria que o sangue irrigasse o corpo, à maneira do fluxo e do refluxo do mar, nutrindo, aquecendo e animando. O sangue proviria dos alimentos e a saúde foi concebida como um duplo equilíbrio: entre os quatro elementos que compõem o corpo e entre o corpo e a alma. Platão parte das concepções biológicas contidas no CH, mas diferentemente da orientação naturalista da maior parte dos autores do CH, Platão introduz a idéia das almas divinas.

De Aristóteles, Galeno reteve aspectos do seu hilemorfismo, tais como a predominância da forma sobre a matéria. Mas, para Galeno, a alma não era concebida como princípio motor do corpo, e sim como o resultado último da matéria corporal. Em Aristóteles (cf. Ross, 1971 [1923]; Daremberg, 1994; Preus, 1975), os animais possuem uma alma, considerada o princípio motor que anima o ser vivo e fornece o seu movimento. Aristóteles concebeu três almas ou, pelo menos, três faculdades distintas da alma: a alma nutritiva, própria dos animais e vegetais, responsável pela vida vegetativa (fisiologia e geração animal); a alma sensitiva, própria dos animais, responsável pela vida de relação, sensibilidade, motricidade e desejo; e a alma racional, própria do homem, responsável pelo pensamento. Como para Aristóteles todo ser definido é constituído por matéria e forma, inseparáveis uma da outra, a forma dos seres vivos é concebida como a reunião dos aspectos morfológicos e qualitativos da matéria viva. Uma vez que a alma é a causa formal do corpo, isto é, a forma adulta a ser atingida por meio de seu desenvolvimento, ela é também a sua causa final. Além disso, sendo a causa formal e final do ser adulto completo, a alma é também a forma da saúde ou, pelo menos, do estado ideal do corpo, que Aristóteles, seguindo a orientação da medicina hipocrática, concebe como o equilíbrio dos elementos e, conseqüentemente, dos humores. Além disso, a alma ligada ao corpo é, ao mesmo tempo, forma e princípio de movimento. Sediada no coração, ela anima o corpo por meio do calor e do pneuma. O pneuma, ar vivificante respirado pelo nariz e pela pele, refrigera o corpo e fornece-lhe vida.

A fisiologia básica de Aristóteles reduz-se à nutrição e à refrigeração. Na nutrição, a cocção transforma o alimento em sangue com a ajuda do fígado e do calor natural do corpo; o sangue nutre e recompõe os tecidos compondo a matéria corporal. Esse trabalho de irrigação é feito através dos vasos do corpo. O cérebro é um órgão frio e sua função é refrigerar o sangue quente que sai do coração e sobe ao cérebro na forma de exalação. No cérebro, os vapores serão resfriados e condensados, descendo para o corpo; com isso, o calor do sangue é moderado. Discordando de Platão e Hipócrates, Aristóteles considera que o cérebro não é a sede do pensamento e da sensibilidade, papel reservado ao coração, onde a alma está localizada. A função do pulmão, assim como em Platão e no CH, é dupla: moderar o calor do coração e alimentar a chama do fogo para que não se apague.

Dos estóicos, Galeno conserva a idéia de uma providência onisciente e racional que regula o mundo, criando, dessa maneira, uma ordem preestabelecida. A conciliação do finalismo aristotélico e do determinismo providencial dos estóicos permitiu a Galeno elaborar uma teoria que buscou compreender o que cada parte do corpo é (historia) e qual é a sua função (usus e utilitas) no sistema fisiológico como um todo (Galeno, 1979, 1968). Cada parte do corpo é um instrumento, uma ferramenta independente que possui uma utilidade bem definida, a qual justifica a sua existência e a sua estrutura (anatômica), chamada historia. Cada órgão é feito para cumprir uma função determinada (usus) que tem uma utilidade ou propósito particular (utilitas). O corpo é posto em movimento graças a um conjunto de propriedades providenciais, as faculdades naturais. Verdadeiros princípios vitais (e não puramente mecânicos) dirigem as ações corporais. Assim, a famosa seqüência historia-actio-usus-utilitas completa-se com a explicitação da ação (actio) das faculdades naturais. Fusão entre as dynameis da fisiologia hipocrática e o estoicismo, as faculdades naturais são identificadas com a ação "simpática" (sympateia) que reúne as partes do corpo, os elementos, os humores, os alimentos e os órgãos. O corpo é uma máquina que cumpre funções graças às faculdades naturais. Estas, por sua vez, são de dois tipos: aquelas que agem sobre todo o corpo e aquelas que são particulares a cada órgão. Podem ser atrativas, retentoras, expulsivas, sangüificadoras, neurificadoras etc. E cada uma dessas faculdades pode compreender outras, como a faculdade nutritiva, que é, ao mesmo tempo, alteradora, aglutinadora, retentora, aumentativa etc.

Assim, cada processo fisiológico tem uma faculdade natural que o explica. Em outras palavras, a faculdade natural é uma explicação da capacidade das partes. Ela substitui o calor e a alma nutritiva de Aristóteles na explicação do funcionamento do corpo, ocupando o lugar de um princípio ativo de transformação. Há aqui uma retomada da filosofia médica hipocrática, pois a faculdade natural nada tem a ver com a alma das concepções platônica e aristotélica. No entanto, como vimos, no CH não há uma elaboração refinada na explicação da ação e do movimento das partes, pois que ela se resume à idéia de atração e simpatia. Assim, pode-se pensar que o conceito de faculdade natural é uma das maneiras pela qual Galeno, sem se afastar da fisiologia hipocrática, fornece uma explicação mais elaborada do funcionamento do corpo.

Além das faculdades naturais, Galeno postula a existência de almas ou espíritos, princípios materiais produzidos no corpo. De um modo geral, a fisiologia de Galeno é determinada pela necessidade de produção desses espíritos naturais, vitais e animais (psíquicos), respectivamente responsáveis pela nutrição, refrigeração e vivificação corporal e pela sensibilidade, movimento e pensamento. O fígado é arché das veias e principal órgão no processo de sangüificação. O coração é fonte e sede do calor inato que, resfriado pelo ar que penetra nos pulmões, espalha-se pelas artérias do corpo. O cérebro é arché dos nervos e o principal órgão da sensibilidade, do movimento e do pensamento, onde são formados os espíritos animais.

É na patologia e na terapêutica de Galeno que se pode perceber claramente uma restauração da autoridade hipocrática. Embora não retenha a idéia de uma natura medicatrix, tão cara aos hipocráticos, e, nas explicações das doenças, a teoria humoral ocupe um espaço menor, contrabalançado pela consideração das lesões orgânicas locais, Galeno reproduz o esquema das qualidades e dos temperamentos já sugeridos no CH seis séculos antes (tabela 4), aperfeiçoando-o. No entanto, Galeno sofistica a teoria humoral e introduz uma novidade. Ao comentar o livro iii dos Aforismos, que reúne a discussão sobre as estações do ano e as idades do homem, Galeno aproveita para fazer derivar a sua particular teoria dos temperamentos (kraseis). Classificando as doenças em oito tipos de discrasias, das quais quatro são discrasias simples, que podem ocorrer numa única das quatro qualidades, e quatro são discrasias compostas que podem ocorrer entre duas qualidades ao mesmo tempo, por exemplo, seco-quente, seco-frio, úmido-quente e úmido-frio. A terapêutica galênica manteve a importância e a supremacia dos regimes de vida (dietas) praticados pelos médicos hipocráticos, entendendo que a qualidade dos alimentos deveria ser contrária à doença ou favorecer os humores. Os medicamentos seguiram a mesma lógica, sendo utilizados a partir de suas qualidades aquecedoras, refrigeradoras, secativas, hidratantes, sangüíneas, pituitosas, biliosas e outras.

A transmissão da interpretação galênica do CH pode ser verificada no conteúdo dos manuais e dos "catecismos médicos" utilizados amplamente a partir do século ix d.C., tais como o Isagoge ou Líber Isagogarum de Joahnitius (Hunain ibn Isháq) (cf. Jacquart & Micheau, 1996, p. 45-54), uma introdução ao Tegni de Galeno, que invariavelmente abria os florilegia Articellae e Ars medicina25 e o Cântico ou Poema à medicina de Avicena (cf. Avicena, 1956), ambos leituras obrigatórias nas escolas médicas do mundo oriental e ocidental. Neles, uma síntese da medicina galênica é ensinada com recurso à memorização. O Isagoge, na forma de perguntas e respostas, o Poema à medicina de Avicena, em versos. O conteúdo de tais manuais atesta a transmissão do legado hipocrático via Galeno, pois seus autores reproduzem, como é, por exemplo, o caso de Isháq, o sistema galênico sem qualquer intervenção, sistema este construído a partir dos comentários aos seus predecessores, entre eles os autores do CH. Essa literatura foi utilizada nas universidades ocidentais por sete séculos, do ix ao xvii, constituindo-se no manual de medicina mais editado e copiado pelos estudantes e, com isso, o veículo mais importante na transmissão do legado hipocrático-galênico.

 

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1 Para uma análise detalhada da cronologia dos escritos hipocráticos cf. Littré, 1839-1861; Smith, 2002 [1979]; Vegetti, 1976; Gual; Nava; Férez & Alvarez, 1983; Jones, 1998 e Lloyd, 1991.
2 A "questão hipocrática", ou seja, a discussão de quais tratados teriam, de fato, sido escritos por Hipócrates não está resolvida. Entralgo (1982, p. 40), seguindo Littré (1839-1861, v. 1, p. 434 ss), afirma, com uma certa ressalva, que os tratados Sobre a medicina antiga, Prognóstico, Aforismos, Epidemias I e III; Do regime nas doenças agudas; Ares, águas e lugares; Articulações; Fraturas; Instrumentos de redução (Moschlique) e Juramento, por diversas evidências históricas, seriam os mais prováveis escritos de Hipócrates. Jouanna (1992, p. 88-98) faz uma excelente análise da "questão hipocrática" e é muito mais cauteloso, preferindo evitar qualquer paternidade hipotética sobre certos tratados hipocráticos.
3 Duas grandes famílias reivindicavam para si a descendência direta do deus Asclépio, a família da Ilha de Cós e a família de Cnido. Tais famílias ficaram conhecidas pela tradição, principalmente devido a Galeno, como as "escolas de Cós e Cnido". Afirma a tradição que Asclépio, filho de Apolo e aprendiz do centauro Quíron, teve dois filhos com Epiona, filha de Heracles: Podaliro e Macaon. Hipócrates, segundo a maior parte de seus biógrafos antigos, descendia diretamente de Podaliro, cujos descendentes subdividiram-se nas duas grandes famílias, a de Cós e a de Cnido. É por tal motivo que os médicos de Cnido também eram chamados de médicos asclepíades. Para um detalhamento maior, cf. Jouanna, 1992, p. 13-33.
4 Trata-se dos 53 escritos hipocráticos organizados em 10 volumes por Littré, 1839-1861.
5 Limito-me aqui a apresentar sucintamente as idéias centrais contidas no CH. Para um detalhamento maior, sugiro os autores Jouanna & Magdelaine, 1999; Jouanna, 1992; Gual, 1983; Lloyd, 1978; Vegetti, 1976; Littré, 1839-1861 e Entralgo, 1982.
6 A physis pode ser entendida como o resultado da realização ou da manifestação das dynameis.
7 A classificação dos tipos constitucionais no CH não foi tão precisa e sistemática como aquela formulada por Galeno. Na verdade, os médicos hipocráticos aplicavam tais ordenações de maneira bastante particular.
8 Para um detalhamento maior, conferir Entralgo, 1982, p. 158-63.
9 Como aponta Entralgo (1982, p. 158-63), os tipos melancólico e sangüíneo são menos característicos.
10 Cf. Index of foods and drugs, 1992, p. 344-54.
11 O objetivo desta parte restringiu-se a apresentar os comentadores que, de alguma maneira, estão relacionados com a transmissão do legado hipocrático. Assim, não pretendi apresentar detalhadamente os autores médicos e a medicina do período compreendido entre iii a.C. e ii d.C. Para aqueles que estão particularmente interessados na história da medicina dessa época, sugiro as seguintes leituras: os capítulos vii e viii de Daremberg, 1870; o estudo sobre a tradição hipocrática na Antigüidade tardia feito no terceiro capítulo do livro homônimo de Smith (2002 [1979]); a obra clássica de Fraser, 1972; Brock, 1977 e Irby-Massie & Keyser, 2002.
12 Um dos mais importantes estudos sobre Diócles de Caristo é de Jaeger, 1938.
13 Com o sentido de nomear aqueles médicos que seguiam uma orientação hipocrática mais teórica de busca pela causa das doenças, o termo médico lógico (logikos) ou dogmático (dogmatikoi) foi primeiramente utilizado pelos médicos empíricos em oposição a sua filosofia médica, que é posterior a Diócles. Como logo veremos, o termo foi posteriormente perpetuado por Galeno.
14 Para a obra de Aulus Cornelius Celsus, cf. De medicina, traduzido em três volumes por Spencer (Celsus, 1971 [1935-1938]).
15 Os termos "escola" ou "seita" foram cunhados por Galeno no tratado Sobre as seitas para os iniciantes, ao caracterizar as diferentes filosofias médicas da Antigüidade: "o nome das três seitas são universalmente conhecidos, dogmáticos, empíricos e metódicos" (cf. Galeno apud Singer, 1997, p. 4).
16 Segundo Galeno (Smith, 2002, p. 210), Heraclides e Zeuxis (que teria comentado o livro 3 do Epidemias) foram os primeiros comentadores do CH da Antigüidade tardia. Glaucias teria sido um glossógrafo anterior a Heraclides e Zeuxis.
17 As fontes mais antigas para Asclepíades e os médicos metódicos e empíricos são Celso, Plínio, o velho, Sorano de Éfeso, o metódico, e Galeno. Galeno o comenta nos oito livros As opiniões de Asclepíades e no pequeno tratado Asclepíades e a substância da alma (Cf. Vallance, 1990).
18 Para a obra de Sorano, cf. Temkin, 1956; Hanson & Green, 1994.
19 Que, segundo Galeno, se autodenominou dogmático, mas rejeitou a filosofia médica de Asclepíades e teria, ainda, utilizado a autoridade de Aristóteles, de Teofrasto e dos estóicos. A passagem que segue baseia-se no relato de Smith, 2002, p. 230-1.
20 Representada principalmente pelos neo-retóricos Filostrato, Élio Aristides e Díon Crisóstomo.
21 Para a obra de Rufo de Éfeso, cf. a edição de Daremberg & Ruelle, 1973 [1879].
22 Minha intenção nesta parte do artigo não é esgotar uma apresentação do sistema médico e filosófico galênico, limitando-me a apontar a sua filiação hipocrática e o seu modo de transmissão via comentários e textos. Para conhecer a obra de Galeno e sua difusão cf. Galeno, 1854-1856; 1964; Siegel, 1970; Ballester, 1972; Temkin, 1973; Smith, 2002 [1979]; Nutton, 1981; Moraux, 1985; Lloyd, 1991, particularmente, "Galen on Hellenistics and Hippocrateans: contemporary battles and past authorities"; Daremberg, 1994; Debru, 1996 e Singer, 1997.
23 Um relato cronológico das obras de Galeno pode ser encontrado em Singer, 1997, p. 15-6.
24 Cf. Platão, 1999, p. 95-220. Para a influência platônica em Galeno, cf. Lacy,1972.
25 Nos séculos xi e xii, a coleção Articellae ("pequena arte") foi composta pelos textos hipocráticos Aforismos, Prognóstico e Sobre o regime nas doenças agudas, comentados por Galeno; o De urinis de Teófilo; o De Pulsibus de Filareto; o Tegni (Microtegni ou Ars medica ou ainda Ars parva) de Galeno e o Isagoge de Johannitius. No século xiii, acrescentouse à coleção os tratados De dietis, De febribus e De urinis de Isaac Israeli, médico de origem e tradição judaica, e oAntidotarium de Nicolai. Na França, a coleção, chamada Ars medicina, reuniu os seguintes textos: Os Aforismos, Prognóstico e Sobre o regime nas doenças agudas de Hipócrates, comentados por Galeno; o Tegni de Galeno; o Isagoge de Johannitius; o Viaticum de Constantino, o africano; o De urinis de Teófilo; o De pulsibus de Filareto; os tratadosDe dietis, De febribus e De urinis de Isaac Israeli e os versos de Giles de Corbeille. Cf. Pesenti, 1992; Boyle, 1998.

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