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Scientiae Studia

Print version ISSN 1678-3166On-line version ISSN 2316-8994

Sci. stud. vol.7 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2009

https://doi.org/10.1590/S1678-31662009000100009 

ENTREVISTA

 

Entrevista com Andrew Feenberg*

 

 

Pablo Rubén MaricondaI; Fernando Tula MolinaII

IProfessor Titular de Filosofia da Ciência do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo, Brasil. ariconda@usp.br
IIInvestigador Adjunto del Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (Conicet), Profesor Asociado de la Universidad Nacional de Quilmes, Argentina. ftulamolina@gmail.com

 

 

Andrew Feenberg detém atualmente a Cátedra Canadense de Pesquisa em Filosofia da Tecnologia, da Escola de Comunicação da Universidade Simon Fraser, em Vancouver. No início da década de 1980, na Califórnia, teve papel destacado na criação e desenvolvimento do primeiro programa de educação on line, assunto ao qual dedicou ampla literatura, definindo os limites e as possibilidades desse formato educacional enquanto lugar para a interação pedagógica por meio da escrita. Na última década, destacou-se com a publicação de uma série de trabalhos ligados à filosofia da tecnologia, dentre os quais Questioning technology (1999), onde argumenta que o desenho tecnológico é central para as estruturas sociopolíticas democráticas, mostrando como a tecnologia se transforma no âmbito em que se desenrola a vida cotidiana, Transforming technology (2002), no qual revê e atualiza sua "teoria crítica da tecnologia", reexaminando as relações entre tecnologia, racionalidade e sociedade e, por fim, Heidegger and Marcuse (2005), no qual estuda as conexões entre esses dois pensadores do século XX que desenvolveram concepções deterministas da racionalidade tecnológica.

A primeira questão é sobre sua relação com Marcuse. Você estudou com ele, poderia falar dessa época e da influência dele sobre suas ideias?

Vim para a Universidade da Califórnia em 1965 e Marcuse havia acabado de chegar. A primeira coisa que fiz foi pedir a ele que me ensinasse O ser e o tempo de Heidegger. Então, passamos a nos encontrar toda semana para discutir Heidegger e tudo que lembro é que tínhamos grandes debates sobre o significado desse livro tão obscuro. Depois, fiz outros cursos com ele e tivemos uma boa relação. Escrevi minha dissertação de PhD sobre Lukács com ele. Marcuse teve uma grande influência sobre nós, da nova esquerda, mas foi uma influência paradoxal. Basicamente, o que ele estava dizendo em 1964, em One dimensional man [O homem unidimensional], era que nenhuma oposição era possível, e nós lemos nenhuma oposição é possível com o sentido de precisamos nos opor! Ele provocou a oposição ao dizer que ela não era mais possível. Esse é o paradoxo do pensamento distópico.

Em 1968, eu era estudante em Paris. Marcuse chegou a Paris para a conferência da Unesco sobre Marx, exatamente quando os estudantes estavam começando a rebelar-se e então ele estava lá no início dos eventos de maio 68. Ele estava muito impressionado pelo espírito utópico de maio. Lembre-se, a principal palavra de ordem era l'imagination au pouvoir, a imaginação no poder, todo poder à imaginação, não todo poder aos soviets! Marcuse escreveu um livro que depois veio a chamar-se An essay on liberation [Um ensaio sobre libertação], que é seu livro mais otimista e no qual ele considera muito seriamente os movimentos da nova esquerda. O que penso que aconteceu, mais tarde, foi que as pessoas da nova esquerda tornaram-se desiludidas e, assim, elas também desiludiram-se com Marcuse e sua reputação caiu. Agora, estamos tentando reviver seu pensamento porque estamos novamente em um período de crise, tal como o que inspirou suas ideias no final de 1960 e na década de 1970. A tremenda popularidade de Habermas, Adorno e outros corresponde a um período de relações planas, fechadas e congeladas na esfera política, mas agora isso acabou e a contínua excitação em relação a esses pensadores é realmente difícil de entender, exceto, talvez, por algum tipo de inércia. Eles realmente não têm muito a nos dizer neste momento da história, pelo menos em minha opinião, mas penso que Marcuse tem. Acho que a principal questão que Marcuse nos faz focalizar é a possibilidade da mudança tecnológica como base para uma nova civilização. É isso que tento desenvolver em meu próprio pensamento; não sou marcuseano em sentido ortodoxo, nem estou preocupado em simplesmente buscar a leitura correta de cada linha de seu texto. Estou interessado em desenvolver a ideia de ciência e tecnologia alternativas, que ele foi uma das principais pessoas a propor, nos anos 1960 e 1970.

Suas ideias são uma revitalização das de Marcuse, mas existem algumas diferenças. Quais são elas?

Penso que estou tentando continuar a linha de pensamento que ele começou, mas devem existir grandes diferenças, porque estamos em um tempo diferente. Uma das últimas falas de Marcuse foi sobre ecologia; em outras palavras, quando a ecologia tornou-se uma grande questão ele já tinha mais de 70 anos. Agora, experimentamos mais 30 anos de atenção aos temas ecológicos e sabemos muito mais sobre esse movimento. Houve também grandes mudanças na sociologia e na filosofia da tecnologia, grande desenvolvimento no estudo empírico da mudança técnica e da inovação. Portanto, temos que integrar essas experiências e conhecimentos em qualquer teoria da mudança tecnológica que desenvolvermos hoje.

Que caminho o levou à filosofia e, sobretudo, à filosofia da tecnologia?

É uma questão complicada. Eu sou americano, nasci na cidade de Nova York, mas estudei na França. Então, eu estava interessado naquilo que chamamos na América "filosofia continental". Trata-se da filosofia tradicional predominante fora do mundo de fala inglesa, fenomenologia, marxismo... Eu não podia ver como ser um "filósofo continental" vindo da América, mas estava especialmente interessado nas teorias políticas desenvolvidas pela Escola de Frankfurt. Certas coisas aconteceram em minha vida que abriram o caminho. Nos fins de 1970 e início de 1980, trabalhei em muitos institutos de pesquisa. Um deles estava envolvido com pesquisa médica, com experimentação com seres humanos; outro instituto de pesquisa desenvolvia sistemas de educação on line. Essas experiências com tecnologias atuais intersectaram-se, de algum modo, ao que eu havia aprendido com Heidegger, Marcuse e outros pesquisadores da tecnologia. Então, comecei a ver que isso era algo que eu podia fazer, uma autêntica possibilidade para mim.

 

 

Você defende a teoria crítica para tratar da tecnologia em oposição ao determinismo e ao substantivismo. Quais suas razões para isso?

Quando eu trabalhava com computadores, tinha muitos contatos de alto nível no mundo dos negócios; conheci muitas pessoas importantes. Certa vez, o vice-presidente da segunda maior companhia de computadores do mundo levou-me para almoçar e perguntou qual era minha visão sobre o futuro da computação pessoal. Eu disse para mim mesmo: se eu, um estudante de Marcuse, sou um especialista no futuro da tecnologia falando com esse vice-presidente, então ninguém sabe nada! A tecnologia não pode ser determinista se ninguém consegue prever o futuro. As teorias deterministas são simplesmente o que chamamos em inglês "just so story" ["estória de porque é assim"]. Rudyard Kipling escreve essas estórias, todas se desenrolam assim: 'por que as girafas têm pescoço comprido? Porque elas se esticam em direção às folhas mais altas e cada geração de girafas estica um pouco mais seu pescoço e, assim, elas acabaram como as vemos hoje'. Você pode criar qualquer estória que quiser para mostrar porque as coisas têm que ser do modo como se tornaram. O determinismo é somente uma estória feita para mostrar porque as coisas têm que ser como são. Na realidade, há sempre escolhas e alternativas.

Quanto ao substantivismo...

Essa é uma questão diferente, porque é um argumento distópico vindo de Heidegger e Marcuse. No pensamento deles, a tecnologia domina tudo. O que vimos no final de 1970 e no início de 1980 com a ecologia, os computadores, os avanços médicos foi que o sistema era muito mais fraco do que eles tinham pressuposto. Há um lugar para a agência humana que as teorias deterministas e substantivistas eliminam. Elas fazem parecer que a tecnologia tem sua própria lógica de desenvolvimento, mas nós descobrimos que podemos agir e mudar a tecnologia, portanto essas teorias não podem ser verdadeiras.

Uma de suas principais ideias é a de 'código técnico'. Como você chegou a esse conceito?

A diferenciação das sociedades modernas permite que as disciplinas técnicas existam ao lado das disciplinas científicas, das atividades artísticas e assim por diante; essa diferenciação é a principal característica das sociedades modernas. Mas isso não está completo. A sociologia funcionalista ortodoxa e as teorias dos sistemas estão erradas em pensar que essa diferenciação é total. Ao invés disso, há muitos movimentos de interpenetração entre pensamento, pressões sociais, forças políticas e mudanças econômicas nas esferas diferenciadas. Eu queria pensar sobre um deles, a relação entre ações públicas na esfera técnica - movimentos e políticas etc. - e disciplinas técnicas, que corporificam aquelas intenções em divisas e sistemas. E precisamos um modo de pensar sobre isso: como, por exemplo, a demanda das pessoas com necessidades especiais por vias adaptadas para circular pela cidade em cadeiras de rodas é representada em uma especificação técnica para as calçadas. As traduções entre uma demanda pública, que é baseada em um interesse ou um conceito de direitos humanos, e uma especificação técnica ocorrem frequentemente nas sociedades modernas. Eu desenvolvi o conceito de 'código técnico' para falar desse processo de tradução. Ele é o modelo do conteúdo veiculado, de um lado, no discurso dos movimentos sociais e, de outro, nas especificações técnicas.

A teoria crítica depende da participação democrática. Como você imagina essa participação hoje em dia?

Bem, precisamos evitar esquemas formalistas. Nós não vamos pedir à população que vote no tipo de automóvel que deseja para o ano que vem. Penso que a maior parte da participação é informal. Parte dela é, com certeza, legalista, para forçar as pessoas a obedecer a lei ou a pagar pelos danos que fizeram. Há outro âmbito de participação pública, que toma a forma de movimentos de protesto e controvérsias na esfera pública. Existem, ainda, consultas organizadas pelos governos, que eles chamam 'júris de cidadãos' ['citizens juries'] em certos países. Na Holanda e na Noruega, por exemplo, reúnem-se pequenos grupos de cidadãos com especialistas, para que eles sejam informados sobre tecnologias específicas. Há muitas modalidades de intervenção e penso que todas juntas estão criando uma esfera pública técnica, na qual a tecnologia torna-se mais um tema sobre o qual as pessoas falam no discurso político. Não há mais um Deus, a quem se deve obedecer.

 

 

Qual a sua opinião sobre as discussões no Fórum Mundial Ciência e Democracia?

Estou surpreso que tenha levado oito anos para que se pensasse nisso, pois a única coisa que todos os diferentes movimentos, de todas as partes do mundo, têm em comum é a tecnologia. Portanto, eles deveriam ter falado sobre isso desde o primeiro dia! Provavelmente, eles foram bloqueados por certos tipos de oposição que são polêmicos, tais como pensar na ciência e na tecnologia como completamente incorporadas às atividades neoliberais e imperialistas. De fato, como eu sei por minha própria experiência, há muitas coisas acontecendo; não é tudo um grande bloco do mal. Espero que os organizadores comecem agora a atrair pessoas das profissões técnicas e científicas que adotam atitudes contestatórias. Acho que seria de extraordinária ajuda para conferir consistência e unidade às preocupações do Fórum Social Mundial.

Você acredita que o problema da relação entre tecnologia e democracia é diferente no Norte e no Sul? Essas regiões estão discutindo os mesmos problemas quando tratam de ciência e democracia?

Não penso que seja fundamentalmente diferente, mas, com certeza, o contexto político é muito diferente. Todos os códigos técnicos dominantes foram desenvolvidos nos países avançados e, então, os países em desenvolvimento tratam de importar a tecnologia e as disciplinas técnicas. Por certo, esse é um enorme recurso, muito barato de adquirir, em comparação a fazer sua própria descoberta do modo como purificar a água, ou construir estradas ou automóveis, ou encontrar antibióticos. O custo da oportunidade de fazer coisas de modo autóctone é muito mais alto, então deve haver importação e transferência de tecnologia e de conhecimento científico, mas deve haver também adaptação local, e ali onde não há, você terá problemas. O principal modo de corrigir tais problemas é por meio de algum tipo de processo público. Se o sistema político democrático é fraco, então os problemas não poderão ser corrigidos. O caso mais extremo é a Rússia, onde eles transferiram a tecnologia sem as adaptações necessárias e destruíram o país e a saúde da população, porque se você protestasse... banido para a Sibéria! Não havia feedback e um sistema sem feedback vai perder a cabeça. A democratização de muitos países, especialmente na América Latina, abre possibilidades de mudança e adaptação que são realmente essenciais. Isso não aconteceu ainda na China. Eles têm infinitos problemas. De fato, o feedback político é expresso na China por agitações, espancamento de policiais, ataque aos representantes do partido e então exércitos policiais vêm para restaurar a ordem. É um sistema terrível. O que estamos ouvindo nesta conferência sobre a Índia é muito melhor.

Isto nos leva a nossa última pergunta. Você acredita que a América Latina tem um papel específico a desempenhar nas alternativas atuais às tendências dominantes?

A América Latina é provavelmente o último lugar onde o marxismo é ainda uma tradição viva. Isso é muito importante, porque penso que Marx ainda não perdeu a atualidade, apesar de ser essa a opinião geral nos países desenvolvidos. Existe, ainda, um tremendo potencial para entender a sociedade na tradição marxista e isso é algo único que a América Latina traz para a discussão. Eu gostaria que houvesse mais traduções de textos do espanhol e do português para o inglês e o francês.

Havia muito mais comunicação na década de 1960. Agora, a cultura da América Latina foi posta no gueto, com exceção dos escritores - todo mundo lê Garcia Marques e Borges -, mas os debates intelectuais e políticos não estão disponíveis. Penso que se eles se tornassem disponíveis, teriam impacto nas discussões no Norte.

 

 

* Entrevista realizada no Centro Cultural de Belém do Pará, em 27 de janeiro, durante o I Fórum Mundial Ciência e Democracia, realizado como parte das atividades do Fórum Social Mundial 2009. Traduzida por Sylvia Gemignani Garcia.

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