Resumo
Introdução Estudantes da área da saúde, especialmente da Odontologia, estão expostos a elevada carga acadêmica e emocional, o que os torna mais suscetíveis a sintomas de ansiedade, depressão e estresse.
Objetivo Esta pesquisa analisa a relação entre sexo e sintomas de ansiedade, depressão e estresse em estudantes de odontologia da Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL-MG). Estudos anteriores demonstram que os universitários apresentam níveis elevados de estresse, especialmente em cursos da área da saúde, devido à pressão acadêmica, carga horária extensa, necessidade de habilidades práticas e contato direto com pacientes, sendo o sexo feminino o mais afetado.
Material e método Delineamento observacional transversal, com amostragem não probabilística por conveniência, envolvendo 164 estudantes do 5º ao 9º período. Foi aplicado um questionário contendo a DASS-21, a Escala Hospitalar de Ansiedade e Depressão (HAD) e um questionário sociodemográfico. As análises estatísticas incluíram frequências relativas, teste do qui-quadrado e teste de Mann-Whitney com correção de Monte Carlo, considerando significância de p ≤ 0,05.
Resultado Indica-se predominância feminina na amostra (73,8%), com maior prevalência de diagnóstico de ansiedade/depressão (55,4% contra 32,6% nos homens) e uso de medicação (53,7% contra 34,9%). Sintomas como “sensação de medo sem motivo”, “sensação de entrar em pânico” e “dificuldade para relaxar” tiveram posições médias significativamente mais elevadas também no grupo feminino. Em contrapartida, a “sensação de que algo terrível vai acontecer” foi mais intensa nos homens.
Conclusão Evidenciaram-se diferenças significativas na manifestação dos sintomas entre os sexos, com destaque para a maior intensidade e prevalência no sexo feminino. Os achados reforçam a necessidade de intervenções específicas, como estratégias de apoio psicológico e programas de prevenção voltados principalmente a alunas de odontologia.
Descritores:
Estudantes; ansiedade; depressão; sexo
Abstract
Introduction Students in health-related fields, especially Dentistry, are exposed to a high academic and emotional workload, which makes them more susceptible to symptoms of anxiety, depression, and stress.
Objective This research analyzed the relationship between sex and symptoms of anxiety, depression, and stress among dentistry students at the Federal University of Alfenas (UNIFAL-MG). Previous studies have shown that university students show high levels of stress, especially in health-related courses, due to academic pressure, extensive workload, the need for practical skills, and direct patient contact, with female students being the most affected.
Material and method Cross-sectional observational design with a non-probabilistic convenience sample, involving 164 students from the 5th to the 9th semester. The questionnaire applied included the DASS-21, the Hospital Anxiety and Depression Scale (HAD), and a sociodemographic questionnaire. Statistical analyses covered relative frequencies, the chi-square test, and the Mann-Whitney test with Monte Carlo correction, at a significance level of p ≤ 0.05.
Result Predominance of female participants (73.8%), with a higher prevalence of anxiety/depression diagnosis (55.4% versus 32.6% in men) and medication use (53.7% versus 34.9%). Symptoms such as “feeling fearful without reason,” “feeling panicked,” and “difficulty relaxing” showed significantly higher mean ranks in the female group. Conversely, the “feeling that something terrible is about to happen” was stronger among men.
Conclusion Significant differences were found in symptom manifestation between sexes, with greater intensity and prevalence among women. The findings reinforce the need for specific interventions, such as psychological support strategies and prevention programs, particularly aimed at female dentistry students.
Descriptors:
Students; anxiety; depression; sex
INTRODUÇÃO
Estudantes universitários relatam níveis mais elevados de estresse em comparação com pessoas de outras faixas etárias, principalmente devido à maior vulnerabilidade a sintomas de depressão e ansiedade ao longo de sua trajetória acadêmica1,2. Estudantes de graduação demoram a procurar ajuda psiquiátrica, um comportamento influenciado por fatores como saúde geral precária, falta de sintomas físicos e o estigma em relação a problemas de saúde mental3. A graduação em odontologia é considerada um dos cursos universitários mais estressantes devido à pressão acadêmica, competitividade e à carga horária do curso. Uma vez que precisam mais do que meramente atender requisitos teóricos, os estudantes tendem a vivenciar um estresse mais prolongado em comparação a outras áreas acadêmicas. Além da necessidade de se desenvolverem habilidades práticas clínicas e a capacidade de ter um relacionamento positivo com os pacientes, questões pessoais também podem afetar o futuro odontólogo, o que intensifica o impacto negativo4,5.
O estresse é uma resposta psicofisiológica a estímulos externos, a qual, no contexto educacional, manifesta-se como uma sobrecarga mental. Esse estresse excessivo pode causar esgotamento, aumentando a vulnerabilidade a transtornos de ansiedade e depressão1. Níveis elevados de estresse impactam negativamente tanto a saúde física quanto o comportamento dos estudantes, contribuindo para problemas como má qualidade do sono, aumento do consumo de álcool, sedentarismo e hábitos alimentares inadequados. No entanto, é importante destacar que nem todo estresse é prejudicial, podendo, em algumas situações, ser uma resposta adaptativa1,2,5.
No nível cognitivo, a ansiedade desencadeia sensação de desconforto, perda de controle, preocupação constante, hiperexcitação, tensão, medo, insegurança, dificuldade em tomar decisões, presença de pensamentos negativos sobre si mesmo e sobre o próprio comportamento em relação aos outros. Essas manifestações dificultam o estudo, a concentração e a aprendizagem. Já o transtorno depressivo é um distúrbio comum que se manifesta como desconforto e perda de interesse e prazer na vida diária. Pessoas com depressão apresentam tristeza, insônia e incapacidade de aproveitar a vida, o que afeta sua saúde física e a vida cotidiana3, o que pode agravar os quadros sintomatológicos. O aumento da carga de trabalho, a sobrecarga emocional e a necessidade de competências técnicas são os principais motivos para os elevados níveis de estresse entre estudantes, sendo que pessoas do sexo feminino tendem a apresentar sintomas depressivos mais elevados quando comparados às do sexo masculino6,7.
Estudos sobre ansiedade e depressão são fundamentais para que se compreendam esses transtornos8. Para garantir a identificação e intervenção precoces em indivíduos suscetíveis, é essencial um diagnóstico preciso que permita tratamento imediato, prevenção e gerenciamento do estresse. Nesse contexto, a implementação de estratégias de apoio psicológico em escolas de odontologia se torna imprescindível, evidenciando a importância de se abordar essa questão de forma eficaz9. Nesse sentido, o objetivo deste estudo é examinar a relação entre sexo e os sintomas de ansiedade e depressão em estudantes de odontologia da Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL-MG), levando em consideração as crescentes responsabilidades acadêmicas e as barreiras ao acesso ao apoio psicológico.
MÉTODO
Conforme os princípios éticos inerentes a uma pesquisa envolvendo seres humanos, este trabalho foi submetido ao Comitê de Ética da Universidade Federal de Alfenas, Minas Gerais, sendo aprovado sob o seguinte número de parecer 6.582.817. O estudo seguiu uma abordagem observacional transversal e utilizou um delineamento amostral não probabilístico por conveniência. A amostra foi composta d voluntários com idades entre 18 e 35 anos, matriculados do quinto ao nono período do curso de odontologia da Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL-MG). Os participantes foram agrupados de acordo com o período em que estavam matriculados no momento da coleta de dados. A Universidade Federal de Alfenas oferta 50 vagas por período no curso de odontologia. Assim, considerando os atendimentos clínicos realizados do 5º período (primeiro período de atendimento clínico) ao 9º período (último período da formação acadêmica), o número potencial de participantes seria de aproximadamente 250 estudantes. Contudo, devido a possíveis perdas relacionadas a reprovações e abandono do curso, especialmente intensificadas durante a pandemia de COVID-19, estimou-se que o número efetivo de participantes fosse inferior a esse total, o que foi confirmado posteriormente.
Os participantes preencheram um questionário estruturado por meio da plataforma Google Forms. O questionário foi dividido em três seções, correspondentes às subescalas de depressão, ansiedade e estresse da DASS-21, juntamente com a versão adaptada da Escala Hospitalar de Ansiedade e Depressão (HAD-OMS). Além dessas subescalas, o questionário incluiu itens sobre dados demográficos e informações relativas às atividades clínicas dos participantes. O recrutamento dos participantes seguiu a técnica de seleção intencional, na qual os alunos foram convidados a participar de forma simultânea e dentro do mesmo grupo correspondente ao período do curso. O convite e a coleta de dados ocorreram presencialmente, durante uma aula de uma disciplina escolhida, levando em consideração o momento mais adequado para a aplicação do questionário, de forma que os alunos matriculados em períodos diferentes não conseguissem compartilhar informações entre si, já que o questionário foi aplicado no mesmo momento entre os diferentes períodos. O link para o questionário autoexplicativo foi disponibilizado por meio de um QR code, que foi compartilhado pelos pesquisadores no momento da coleta. Assim, os aplicadores não intervieram para esclarecer dúvidas, buscando garantir respostas mais espontâneas e livres de influência externa. Essa escolha de desenho de estudo foi primordial para minimizar ao máximo a possibilidade de viés no trabalho. Houve algumas perdas amostrais decorrentes da ausência de alunos no dia da aplicação, mas sem comprometimento significativo da amostra final. Ao todo, participaram da pesquisa 164 estudantes dos períodos mencionados.
Após a coleta de dados, foi estruturado um banco de dados com as respostas dos participantes no software Microsoft Excel 365, a partir do qual se realizaram a verificação e o pré-processamento, em momentos distintos, por dois integrantes da equipe, garantindo a integridade dos dados. Em seguida, os dados foram inseridos no software de análise estatística IBM SPSS Statistics, em que foram conduzidas as análises estatísticas. Foram realizadas análises de frequência relativa, estatística descritiva e teste de qui-quadrado, além do teste de Mann-Whitney para comparar duas amostras independentes, uma vez que não seguem uma distribuição normal, mas sim distribuições assimétricas, como os sintomas de ansiedade e depressão observados neste estudo.
O teste de Mann-Whitney com correção de Monte Carlo foi utilizado devido ao desbalanceamento de sexo identificado no teste de qui-quadrado, a fim de minimizar possíveis vieses. A escolha desse teste também se justifica pela natureza não paramétrica dos dados de sintomas (como ansiedade, depressão e estresse), que não seguem uma distribuição normal. A aplicação da correção de Monte Carlo garante maior precisão estatística em cenários com distribuições complexas, proporcionando intervalos de confiança robustos e confiáveis. Além disso, o teste de Mann-Whitney é adequado para comparar variáveis categóricas binárias (como sexo) com variáveis ordinais (como os níveis de sintomas de ansiedade e depressão), fornecendo dados de posições médias que podem ser usados para entender como se apresentam as distribuições da intensidade e da frequência dos sintomas intergrupos.
Os resultados da análise foram considerados estatisticamente significativos sob um valor de p de ≤ 0,05, indicando uma diferença significativa na distribuição dos sintomas entre os sexos sob o nível de confiança de 95%. Os dados foram interpretados com base nos valores de U e Z, que refletem a magnitude das diferenças nas distribuições dos grupos, assim como na análise dos pesos, para verificar a tendência dos sexos em relação aos sintomas.
RESULTADO
Como descrito na Tabela 1, a maioria dos participantes da pesquisa foi do sexo feminino (N=121, 73,8%), enquanto o sexo masculino contou com 43 participantes, representando 26,2% da amostra. O quinto período teve a maior representação (N=43), enquanto o oitavo período apresentou o menor número de alunos, contando com 28 indivíduos. Essa distribuição demográfica evidencia a necessidade de se investigar o impacto do sexo nas respostas de estresse, ansiedade e depressão entre os alunos, especialmente considerando o elevado número de mulheres que participaram do estudo. No que diz respeito à escolaridade, a maior parte dos alunos possuem ensino superior incompleto, sendo 83,7% dos homens e 91,7% das mulheres, o que é esperado, dado que se encontram na fase final de formação acadêmica de um curso de bacharelado. Em relação à etnia, há uma maioria de participantes autodeclarados brancos, sendo 62,8% das mulheres e 58,1% dos homens, seguidos de pardos (30,2% dos homens e 28,9% das mulheres) e pretos (11,6% dos homens e 8,3% das mulheres). Por fim, a idade média dos estudantes é de aproximadamente 24,6 anos, com médias muito próximas entre os sexos (25,26 anos para homens e 24,36 anos para mulheres) e uma concentração maior de estudantes jovens na faixa de 21 a 25 anos, refletindo o perfil típico de alunos universitários em período clínico. Esses dados fornecem uma base sólida para contextualizar as análises de sintomas de ansiedade, depressão e estresse, permitindo uma interpretação das variáveis psicossociais considerando o perfil sociodemográfico dos participantes. Outro aspecto avaliado foi a recorrência de diagnósticos de ansiedade ou depressão entre os alunos, cujos resultados apontam para uma diferença estatisticamente significativa no diagnóstico de ansiedade/depressão entre os sexos (p = 0,038), reforçada pela diferença entre as posições médias dos grupos, conforme a Tabela 2. Além disso, a análise descritiva apontou que a proporção de mulheres que receberam o diagnóstico (55,4%) foi substancialmente maior que a de homens (32,6%). Em seguida, nota-se que 53,7% das mulheres fazem ou já fizeram uso de medicação para tratamento de ansiedade ou depressão, em contraste com 34,9% dos homens, havendo significância estatística (p = 0,034). Observa-se que, dentre os homens, um indivíduo fez ou faz uso de medicação sem ter sido diagnosticado com um dos transtornos mentais supracitados, enquanto entre as mulheres esse número sobe para três.
Comparação dos sintomas de ansiedade, depressão e estresse entre os sexos em estudantes de odontologia da UNIFAL-MG
O teste de Mann-Whitney com correção de Monte Carlo foi utilizado para avaliar diferenças significativas considerando um intervalo de confiança de 95% e 10.000 simulações. Conforme a Tabela 2, o uso de medicamentos para o controle dos sintomas de ansiedade e depressão foi mais prevalente entre as mulheres, que apresentaram uma posição média de 86,55, em contraste com a média de 71,10 para os homens. O valor de p foi 0,034, com intervalo de Monte Carlo entre 0,021 e 0,027, também indicando uma diferença estatisticamente significativa. Esses resultados sugerem que as mulheres apresentam uma maior tendência à adoção de medicação para o tratamento desses sintomas.
As posições médias (PM) refletem a intensidade média com que os sintomas foram percebidos por cada grupo, sendo a significância estatística avaliada por meio do valor de p obtido pela simulação bilateral de Monte Carlo. Entre os sintomas avaliados, observa-se que as mulheres apresentam posições médias mais elevadas para a maioria dos sintomas, com exceção da “sensação de medo como se algo terrível estivesse para acontecer”, para a qual os homens, curiosamente, apresentaram uma posição média de 102,09, enquanto as mulheres representaram 75,54 (valor-p = 0,002). Sintomas como “sensação de entrar em pânico” (PM masculina = 62,83; PM feminina = 89,49; p = 0,001) e “sensação de medo sem motivo” (PM masculina = 58,42; PM feminina = 91,06; p = 0,000) se destacaram com diferenças altamente significativas, sugerindo que as mulheres experienciam uma percepção mais intensa de ansiedade em relação a esses sintomas. De forma geral, as estudantes do sexo feminino apresentam posições médias mais elevadas em comparação aos homens em quase todos os sintomas depressivos, apontando para uma manifestação de maior intensidade entre as mulheres. Em se tratando dos sintomas de estresse, observa-se que as mulheres apresentaram posições médias mais elevadas em diversos deles, refletindo também uma maior intensidade na percepção de estresse em comparação aos homens.
Entre os sintomas analisados, destaca-se a “dificuldade para me acalmar”, com uma PM de 66.37 para os homens e 88.23 para as mulheres (p = 0,005). Esse resultado sugere que, frente às demandas acadêmicas, as estudantes do sexo feminino apresentam maior dificuldade de retornarem ao estado de equilíbrio emocional após episódios de estresse. Outro sintoma relevante é a “dificuldade para relaxar”, também com diferenças significativas entre homens (PM = 65.74) e mulheres (PM = 88.45; p = 0,005). Além disso, a “sensação de palpitações no coração” apresentou uma PM de 63.20 para os homens e 89.36 para as mulheres, com um valor-p altamente significativo (p = 0,001). Esse achado reflete a maior prevalência de sintomas fisiológicos de estresse, como taquicardia ou arritmia percebida, em estudantes do sexo feminino, possivelmente relacionadas à resposta exacerbada ao estresse crônico.
Embora algumas variáveis, como “sensação de agitação” (PM masculina = 73.34; PM feminina = 85.76; p = 0,119) e “sensação de estar tenso(a)” (PM masculina = 73.58; PM feminina = 85.67; p = 0,127), não tenham alcançado significância estatística, as posições médias mais elevadas entre as mulheres indicam uma tendência geral de maior percepção de estresse nesse grupo. Esses resultados destacam a importância de estratégias específicas para o gerenciamento do estresse no contexto acadêmico, considerando as diferenças de sexo na manifestação dos sintomas.
Por fim, a Figura 1 apresenta um panorama de todas as variáveis que obtiveram índice de significância (p-valor) menor ou igual a 0,05, indicando correlação estatisticamente significativa entre as variáveis de agrupamento (sexo) e as variáveis resposta (sintomas de ansiedade, depressão e estresse) obtidas a partir da aplicação dos questionários HAD e DAAS-21 aos estudantes de odontologia da UNIFAL-MG.
Comparação das posições médias por sexo em variáveis com correlação estatisticamente significativa.
DISCUSSÃO
Entre os sintomas mais evidentes, destacam-se aqueles com posições médias consistentemente maiores no sexo feminino, como “sensação de palpitações no coração”, “dificuldade para relaxar” e “dificuldade para me acalmar”, indicando maior intensidade percebida desses sintomas nas mulheres. Da mesma forma, sintomas relacionados à autoimagem, como “sensação de não ter valor como pessoa” e “sentimento de estar depressivo ou sem ânimo”, também apresentam disparidades significativas. No panorama geral masculino, observa-se que, embora as posições médias sejam inferiores em quase todas as variáveis, a “sensação de medo como se algo terrível estivesse prestes a ocorrer” apresentou maior intensidade no grupo masculino, configurando-se como uma exceção aos demais padrões. Já no panorama feminino, verifica-se um padrão de maior intensidade generalizada em variáveis relacionadas tanto a sintomas físicos (como palpitações e dificuldade de relaxar) quanto emocionais (como sensação de inutilidade e depressão).
Um estudo qualitativo revelou que os estudantes de odontologia escolhem essa carreira com base em uma combinação de interesses pessoais, aspirações profissionais e benefícios percebidos, como prestígio social, segurança no emprego, flexibilidade e boas perspectivas financeiras10. No entanto, embora a escolha seja atraente, a experiência acadêmica de muitos estudantes é marcada por diversos desafios, sendo o estresse uma das condições mais frequentemente reportadas. Estudantes de diferentes origens enfrentam barreiras variadas, e fatores externos muitas vezes influenciam o seu envolvimento e desempenho acadêmico11,12. Além disso, outros autores evidenciam que o estresse é uma das questões de saúde mais prevalentes entre os estudantes universitários, especialmente em áreas de formação na saúde, como a odontologia13. Esses estudantes apresentam prevalência mais acentuada de sinais e sintomas de estresse moderado e grave quando comparados a estudantes de outras áreas14.
Os achados deste estudo corroboram evidências previamente reportadas ao revelarem que o sexo feminino apresenta maior vulnerabilidade emocional diante das exigências acadêmicas, particularmente em um curso tão exigente quanto a odontologia. Um exemplo notável é a diferença observada no sintoma “sentimento de estar depressivo ou sem ânimo”, em que a posição média (PM) das mulheres foi significativamente superior à dos homens, com um valor-p altamente significativo. Essa disparidade pode ser explicada por fatores socioculturais, incluindo as pressões sociais e acadêmicas impostas às mulheres, especialmente em profissões que exigem altos níveis de resiliência emocional. O sintoma “sensação de não ter valor como pessoa” evidenciou uma diferença ainda mais acentuada, com PM masculina consideravelmente menor que à feminina, apontando uma discrepância significativa na percepção de autoestima entre os sexos.
O estresse persistente e elevado está associado a uma diminuição no desempenho acadêmico, uma vez que afeta diretamente as funções executivas, comprometendo a capacidade de aprendizado no curto prazo e prejudicando o desempenho acadêmico ao longo do curso15. Freitas et al.14 corroboram esses achados ao afirmarem que altos níveis de estresse entre estudantes estão relacionados a uma qualidade de vida reduzida, com impactos psicológicos significativos que se traduzem em sentimentos de desmotivação e vazio existencial. Em nosso estudo, evidenciamos que sintomas de desmotivação, como a “ausência de desejo por qualquer coisa” e “sensação de que a vida não tem sentido”, são mais prevalentes entre as mulheres, sugerindo que a saúde mental do sexo feminino é mais impactada pelas pressões acadêmicas. Outros estudos também identificaram que o estado de saúde mental autorrelatado está intimamente relacionado ao sexo, ao ambiente acadêmico e ao estilo de vida dos alunos, com mulheres apresentando escores de ansiedade mais altos16,17. Esses achados reforçam a necessidade de intervenções focadas no ambiente acadêmico e na promoção de hábitos saudáveis, particularmente entre as estudantes do sexo feminino.
Por outro lado, os homens demonstraram uma tendência a exibir maior “sensação de animação”, embora essa diferença não tenha alcançado significância estatística. Embora a falta de significância sugira uma variação não conclusiva entre os sexos, pode-se inferir que as respostas emocionais dos homens podem se expressar de maneira diferente das mulheres. Além disso, os homens apresentaram menor frequência de sintomas relacionados à “sensação de estar lento para pensar e fazer as coisas”, sugerindo que a lentidão cognitiva pode ser mais pronunciada entre as mulheres.
Um estudo recente identificou que dentistas no Reino Unido enfrentam altos níveis de estresse, ansiedade e esgotamento, o que compromete tanto o bem-estar dos profissionais quanto a segurança dos pacientes, além de que intervenções psicoeducacionais têm se mostrado eficazes na redução desses sintomas, sublinhando, assim, a importância de estratégias de suporte emocional tanto para dentistas quanto para estudantes de odontologia18.
Em concordância com Plessas et al.18, entende-se que abordagens psicoeducacionais direcionadas a grupos mais vulneráveis, como as estudantes de odontologia do sexo feminino, podem ser cruciais para o aprimoramento das capacidades de enfrentamento diante dos desafios exigidos pela formação acadêmica. Os achados deste estudo enfatizam a importância de estratégias personalizadas de suporte emocional e treinamento, que podem melhorar tanto o ensino quanto a prática clínica, além de promover o bem-estar geral dos graduandos, levando em consideração diferenças de sexo nas experiências acadêmicas. Ademais, a implementação de intervenções direcionadas a grupos mais vulneráveis, como as mulheres, é crucial para melhorar a qualidade de vida no ambiente universitário. Nesse sentido, enfatiza-se a relevância de pesquisas que abordem tal contexto para que estudantes e profissionais da área se interessem mais em entender como a ansiedade relacionada a procedimentos odontológicos pode impactar a vida do profissional e, por consequência, o atendimento ao paciente.
CONCLUSÃO
Os resultados deste estudo demonstram que o sexo feminino apresenta maior vulnerabilidade a uma gama de sintomas de estresse e ansiedade no curso de odontologia, incluindo manifestações físicas e emocionais, em comparação com o sexo masculino.
AGRADECIMENTOS
Agradecemos especialmente à Liga Acadêmica de Odontologia Integrada da Universidade Federal de Alfenas, Minas Gerais, por todo o apoio durante a realização do estudo, em especial aos integrantes Davi Figueiredo Valadares e Jhiullia Luize Oliveira Freire que colaboraram com a elaboração do banco de dados previamente à análise estatística.
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Como citar:
Domingues CAM, Mazzola T, Amaro EEF, Renó AM, Rozendo DMM, Lopes CS, et al. Relação entre sexo e sintomas de ansiedade, depressão e estresse em estudantes de Odontologia. Rev Odontol UNESP. 2025;54:e20250030. https://doi.org/10.1590/1807-2577.20250030
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DISPONIBILIDADE DE DADOS
Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.
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Editor: Lia Borges Custódio
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