RESUMO
O experimento foi realizado no período de março de 1980 a fevereiro de 1984, na Estação Experimental de Campinas, do Instituto Biológico, quando foram necropsiados 96 bovinos (2 por mês), sendo um com idade variando de 4 •a 10 meses e o outro entre 6 a 10 anos. É descrito o encontro dos seguintes helmintos gastrintestinais: Trichuris discolor, Haemoncus contortus, Trichostronolus axei, Ostertagia spp., Cooperia punctata, C. curticei, C. pectinata, Stronoloides papillog¿s, Oesophagostomum radiatum e Moniezia spp. São descritas as contagens de cada nematóide envolvido e apresentado o bioclimatográfico da região de Campinas, construído com o número total de nematóides encontrados e com a média das temperaturas máximas. Com os dados obtidos, concluiu-se que o número total de helmintos cresceu com o aumento do índice pluvial e da temperatura. O gênero Coopeña recebeu maior influência das temperaturas máximas. De acordo com o bioclimatogtáfico da região, os meses com maior potencial de transmissão são janeiro, fevereiro, março e agosto.
PALAVRAS-CHAVE:
Epizootiologia; verminose gastrintestinal; helmintos; variação estacional.
SUMMARY
During a four-years period, from March 1980 to February 1984 the authors studied the epizootiolow of gastro-intestinal nematodes parasites of cattle. The experiment was made in the Experimental Station of Campinas, State of São Paulo. For the necropsy of two animals a month, one 4 to 10 months old and the other 6 to 10 years old, 96 animals were examined. The following gastro-intestinal nematodes were found: Trichuris discolor, Haemoncus contortus, Trichostronolus axei, Ostertagia spp., Cooperia punctata, C. curticei, C. pectinata, Stronoloides papillosus, Oesophagostomum radiatum and Moniezia spp. The worm burden of these nematodes and the bioclimatograph of the region of Campinas are shown. Based on these data the authors concluded that worm burden increased with the gowth of the mean monthly rainfall and the temperature. fte maximum temperatures was influential on the genus Cooperia. The bioclimatograph of the region showed that the months with optimum conditions for pasture transmition were January, February, March and August.
KEY-WORDS
Epizootiology; gastro-intestinal verminosis; helminths; seasonal fluctuation.
INTRODUÇÃO
Reconhece-se de longa data a importância das parasitoses gastrintestinais e as perdas económicas que as mesmas determinam. O rebanho bovino brasileiro é o quarto do mundo e, de acordo com técnicos do Ministério da Agricultura, apresenta uma perda anual de 20% de seu desfrute devido às doenças, sendo que, dentre elas, as parasitoses ocupam o segundo lugar.
Em vários países, uma gama enorme de pesquisadores tem se preocupado com a flutuação estacional dos diversos helmintos, citandose entre eles, DURIE (7, 8 e 9), FORSYTH (11), GORDON (12), PULIAR (25), RIEK et alii (26), todos na Austrália; LEVINE (16), nos Estados Unidos; MORGAN et alii (20), na Inglaterra; SMITH (29), no Canadá; UENO et alii (31), na República Dominicana e REINECKE (27), na África do Sul. Em nosso país, foram realizados poucos trabalhos sobre epizootiologia, principalmente com relação a bovinos. Citam-se os trabalhos de MELO & BIANCHN (18), MELO (17) e MELO & GOMES (19), em Mato Grosso do Sul; COSTA et alii (3, 4, 5 e 6); GUIMARÃES (14) e GUIMARÃES et alii (15), em Minas Gerais; PINHEIRO (24), no Rio Grande do sul e PIMENTEL NETO (22), no Rio de Janeiro. No Estado de São Paulo, alguns autores abordam o problema, porém os trabalhos ainda são escassos e não se tem, por ora, idéia da real situação da ocorrência estacional dos helmintos gastrintestinais. Em nosso Estado, citam-se os trabalhos de COSTA et alii (1, 2) e FENERICH et dii (10).
O presente trabalho tem como objetivos: 1. obter dados epizootiológicos da verminose gastrintestinal na região de Campinas; 2. determinar os meses com maior potencial de transmissão.
MATERIAL E MÉTODOS
O experimento foi realizado na Estação Experimental de Campinas, do Instituto Biológico, cujo solo é do tipo latossolo vermelho-amarelo e está situada à latitude de 22o54' sul, longtude de 45°C5' oeste e altitude média de 660 metros. Segundo classificação internacional de Coppên, o tipo de clima da região é Cwa subtropical de altitude.
Foram usados 96 bovinos, dois animais por mês, durante o período de março de 1980 a fevereiro de 1984. A idade desses animais foi variável, sendo um deles de 4 a 10 meses e o outro de 6 a 10 anos. Eram colocados, por um período de 30 dias, em baias cimentadas e lavadas diariamente, a fim de evitar reinfestações. Nesses locais, a alimentação consistia de cana-de-açúcar picada, silagem de sorgo e ração concentrada. Era feita uma desvermifugação no primeiro dia e, no 10.odia, eram colhidas as fezes que, levadas ao laboratório, eram examinadas para a detecção de ovos de helmintos que, se presentes, faziam com que os animais sofressem novo tratamento anti-helmíntico. Decorridos esses 30 dias, os animais eram colocados em pasto de capim Napier (Pennisetum purpureum), juntamente com o rebanho da propriedade. Aí ficavam por outros 30 dias, quando então eram levados para outra baia cimentada, nas mesmas condições higiênicu anteriores e com a mesma alimentação, porém sem que se administrasse qualquer tipo de vermffugo. Permaneciam nesse local por cerca de 20 a 25 dias, quando eram sacrificados e deles retirados os tratos gastrintestinais que, no laboratório, eram abertos e processados segundo técnica descrita por PIMENTEL NETO (23). Os vermes adultos eram identificados segundo a classificação de YAMAGUTI (32). As fezes colhidas, na primeira baia e no momento da necropsia, eram submetidas à técnica de GORDON & WHTLOCK (13) para a contagem de ovos e ao método descrito por ROBERTS & O'SULLIVAN (28), para a obtenção de larvas infestantes, as quais eram identificadas segundo critérios estabelecidos por NIEC (21). Os dados de temperaturas máximas e mínimas foram obtidos por um termo-higrógrafo de marca René Graaf, instalado na própria área do experimento. Os índices pluviais foram obtidos por pluviômetro de De Ville, instalado na sede da Estação Experimental de Campinas, a cerca de 300 metros do local do experimento.
RESULTADOS
- Foram observados os seguintes helmintos: Trichuris discolor, Haemoncus contortus, frichosfronulus axei, Ostertagia spp, Cooperia punctata, C. curticei, C. pectinata, Strongyloides papillosus, Oesophagostomum radiatum e Moniezia spp. As contagens encontram-se resumidas na tabela 1. Cumpre ressaltar que o gênero Moniezia não figura na referida tabela, em primeiro lugar por não ter sido quantificado e, em segundo, por não representar problema tanto na patogenia quanto na epizootiologia. O Stronoloides papillosus ocorre em animais com idades variando até 9 a 10 meses, segundo GUIMARÃES et alii (15), sendo falha por esse motivo, sua epizootiologia; porém foi de ocorrência regular, dentro dos limites esperados, em baixas quantidades, pois deve-se levar em conta que os dados apresentados referem-se à média aritmética daqueles obtidos com animais novos e animais adultos dentro de cada mês. Assim é que não foi constatada sua presença nos meses de abril a agosto.
Continuando o exame da tabela 1, nota-se que o helminto mais encontrado foi a Cooperia (total de 479.980 helmintos), com as seguintes espécies em ordem decrescente de quantidade: C. punctata (348.292 helmintos), ocorrendo todos os meses e em grande qüantidade; C. curticei (105.209 helmintos), também ocorrendo todos os meses e, finalmente, C. pectinata (26.479 helmintos), que ocorreu nos meses de março e abril, sendo que, nesse último, a contagem foi alta (26.446 helmintos). Seguese em ocorrência o Trichostrongylus axei (220.208 helmintos), que atingiu um pico no mês de fevereiro (63.400 helmintos) e em março a quantidade obtida foi a metade (30.602 exemplares); em abril, chegou a um índice baixo (173 helmintos), sendo nula sua ocorrência em maio; aumentou de junho a agosto (11.746, 11.896 e 20.806, respectivamente), em setembro diminuiu para 13.240 helmintos, experimentou uma elevação em outubro, quando foi de 23.713 helmintos; em novembro, a contagem foi de 5.966 helmintos e, a partir daí, subiu até o mês de fevereiro, quando atingiu o pico. Haemoncus contortus foi de ocorrência baixa .com um total de 7.044 exemplares), menor do que era esperado, sendo que o mês de maior ocorrência foi agosto (1.526 exemplares) e nula em fevereiro. Oesophagostomum radiatum também foi de baixa ocorrência (total de 8.526 helmintos), tendo um pico fio mês de outubro (3.106 exemplares) e em abril apresentou apenas 66 exemplares. Foi observada uma Emea de Ostertagia spp. no mês de novembro de 1980.
Distribuição mensal dos helmintos encontrados no período de março de 1980 a fevereiro de 1984, na Região de Campinas, Estado de São Paulo - Brasil.
Na tabela 2 são fornecidos os dados médios de temperaturas máximas e mínimas e índices pluviais da região de Campinas durante o período em estudo. O mês que apresentou maior índice pluvial foi janeiro, com 315,0mm sendo que julho atingiu a menor média, de 23,34mm; as médias das temperaturas máximas foram maiores em fevereiro (31,37°C) e meno res em agosto (27,20°C); já as médias das temperaturas mínimas foram maiores em março (18,97 °C) e menores em julho (11,96 °C.
A figura 1 mostra a variação mensal dos helmintos encontrados, obtida do número total, conforme os dados da tabela 1. Assim, o mês de maior incidência de helmintos na região, foi fevereiro, com 130.032 e, o de menor, foi março, com 87.495 helmintos.
Na figura 2, estão colocados graficamente os dados mostrados na tabela 2, para melhor visualização.
A figura 3 mostra o bioclimatográfico da regilío construído com a média das temperaturas máximas obtidas durante o período em estudo, segundo SWAN (30), e com o número total de helmintos encontrados.
DISCUSSÃO
Em trabalho realizado no município de Jaboticabal, Estado de São Paulo, COSTA et alii (1) verificaram a predominância do gênero Cooperia seguida por Haemoncus. Na região de Campinas, como foi visto, encontrouse predomínio de Cooperia (somatória de C punctata, C pectinata e C curticez), seguido por Trichostrongylus axei e Haemoncus contortus, em baixa ocorrência. Isto talvez se deva ao fato de, no presente trabalho, ter sido usada a média ·aritmética dos helmintos encontrados em bezerros e em adultos. Devido também a isto, a ocorrência de Stronuloides papillosus foi relativamente baixa, enquanto os mesmos autores citados obtiveram contagens mais elevadas de ovos por grama de fezes em bezerros de um a três meses de idade, em virtude da predominância de ovos de Strongyloides spp.
Variação mensal da quantidade total de helmintos encontrados, durante o período de março de 1980 a fevereiro de 1984, na região de Campinas - Estado de São Paulo - Brasil.
Dados metereológicos obtidos das temperaturas médias mensais e índices pluviais mensais no período de março de 1980 a fevereiro de 1984, na Região de Campinas, Estado de São Paulo. - Brasi).
Dados meteorológicos médios registrados na Região de Campmas, Estado de São Paulo - Brasil, no período de março de 1980 a fevereiro de 1984. Indice pluvial = -; Temperatura máxima = - - - -; Temperatura mínima = - .-.-
DURIE (9), na Austrália, observou também a predominância do gênero Cooperia em todas as estações do ano, sendo que frichostronolus axei foi abundante durante o inverno até o início do verão e Haemoncus placei, mais abundante do fim do verão até o inverno. Oesophagostomum radiatum ocorreu relativamente, em pequeno número, em todas as epocas, o que concorda com os resultados aqui descritos, apesar de que sua ocorrência foi maior do que a de H. contortus.
Pela análise das figuras 1 e 2, nota-se que, com a elevação das temperaturas, principalmente da temperatura máxima e do índice pluvial, houve concomitantemente um acréscimo na quantidade total de vermes, o que concorda com os dados de DURIE (9). Fato este que se torna claro quando se observa os meses de novembro a fevereiro, quando se assinalou um pico no número total de helmintos. A menor carga parasitária deu-se no mes de março, quando o índice pluvial atingiu um de seus mais baixos índices. O mês de agosto apresentou níveis altos de ocorrência de helmintos, porém, o índice pluvial foi baixo nesse período e a temperatura máxima média teve uma elevação, esse fato pode ser explicado pela presença de Cooperia spp. (somatória de C. punctata, C. curticei e C. pectinata), que teve nesse mês uma de suas mais altas ocorrências (Tab. 1), o que aumentou o número total de helmintos
Analisando-se a figura 3, que mostra o bioclimatográfico da região de Campinas, vê-se que o potencial de transmissão está situado nos meses de janeiro, fevereiro, março e agosto.
CONCLUSÕES
Pelos dados obtidos, pode-se concluir que:
1) na região de Campinas, Estado de São Paulo, ocorrem os seguintes helmintos: frichuris discolor, Haemoncus contortus, Trichostrongylus axei, Cooperia punctata, Cooperia curticei, Cooperia pectinata, Strongyloides papillosus, Oesophagostomum radiatum e Moniezia SPP.;
2) em ordem decrescente de quantidades, os vermes que mais ocorrem são: Cooperia spp. (somatória de C. punctata, C. curticei e C. pectinata) e Trichostronolus axei; seguem-se: Oesophagostomum radiatum, Trichuñs discolor, Haemoncus contortus e Strongyloides papillosus;
Bioclimatográfico da Região de Campinas, Estado de São Paulo - Brasil, no período de março de 1980 a fevereiro de 1984, usando-se a média das temperaturas máximas. Z Potencial ae Iransmissão.
3) o gênero OJoperia teve seu pico no mês de fevereiro e a ocorrência mais baixa em maio; Trichostrongylus axei teve seu pico em fevereiro e ocorrência mais baixa em maio (quando foi nula); Oesophagostomum radiatum, com pico em julho e menor ocorrência em abril; Trichuris disco/ar, com pico em setembro e ocorrência mais baixa em dezembro; Haemoncus contortus, com pico em agosto e ocorrência mais baixa em fevereiro (quando foi nula); Strongylvides papillosus, ocorrência mais alta em janeiro, não ocorrendo de abril a agosto;
4) o número total de helmintos cresceu com o aumento do índice pluvial e da temperatura;
5) o gênero OJoperia é mais influenciado pelas temperaturas máximas do que pelo índice pluvial;
6) pelo bioclimatográfico (Fig. 3), nota-se que os meses que apresentam maior potencial de transmissão na região de Campinas, Estado de São Paulo, são: janeiro, fevereiro, março e agosto.
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem ao Sr. Valentin Perdoaneli sua dedicação, boa vontade e trabaUto, permitindo que toda a parte de campo pudesse seguir de acordo com o planejamento inicial, desde a manutenção dos animais nas baias e no pasto, até as necropsias. Agradecem, também, ao pessoal auxiliar de campo da Estação Ex. perlmental de Campinas do Instituto Biológico, que não mediu esforços pàra que o experimento tivesse êxito.
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