Open-access COMPARAÇÃO ENTRE MÉTODOS DE AVALIAÇÃO DE CERCOSPORIOSES DO AMENDOIM [CERCOSPORA ARACHIDICOLA HORI E CERCOSPORIDIUM PERSONATUM (BERK. & CURT.) DEIGHTON] EM DIFERENTES ESTÁDIOS DE DESENVOLVIMENTO DA CULTURA *

Comparative methods to evaluate early and late peanut leaf spots [Cercospora arachidicola Hori and Cercosporidium personatum (Berk. e Curt.) Deighton] at different crop growth stages

RESUMO

Utilizando cultivar de amendoim de ciclo curto (100-110 dias), foram realizados experimentos visando selecionar métodos para avaliação da incidência conjunta das cercosporioses causadas por Cercospora arachidicola e Cercosporidium personatum. Nas três primeiras amostragens, realizadas aproximadamente aos 45, 60, 75 dias após a emergência, foram testados os seguintes métodos de avaliação: número de lesões, número de lesões/número total de folíolos, número de lesões/número de folíolos infectados, porcentagem de folíolos com lesões, índice visual, porcentagem de área foliar infectada e índice de intensidade de infecção. Na quarta amostragem, efetuada na data da colheita, foi determinada a porcentagem de folhas remanescentes nas hastes. Uma maior precisão nas avaliações, com redução dos coeficientes de variação, foi verificada na terceira amostragem (75 dias) porém, um maior número de correlações significativas entre os métodos testados e a produção foi obtido nas duas primeiras amostragens (45 e 60 dias). De uma forma geral, todos os métodos mostraram-se eficientes, entretanto, os que utilizaram dados de porcentagem de folíolos infectados e o índice de intensidade de infecção foram, além de práticos, os de maior precisão.

PALAVRAS-CHAVE:
Métodos de avaliação; Cercospora arachidicola; Cercosporidium personatum.

SUMMARY

Using a short-cycle peanut cultivar (100-110 days) experiments were carried out to select methods to evaluate early and late leaf spots. Disease incidence was estimated at 4 different peanut growth stages (45, 60, 72 and 102 days after emergence) using the following me• thods: number of lesions, number of lesions/total number of leaflets, number of lesions/ number of infected leaflets, percentage of infected leaflets, level of visual damage, percentage of infected foliar area, a index of infection intensity and number of persistent leaves at the yield date. At the time of the 3rd estimation (75 days) the results showed a higher precision and a reduced coefficient of variation, but in the I st and 2nd estimations (45 and 60 days) a better correlation coefficient was obtained with the data of yield. As a general result all methods showed to be efficient, however, the percentage of infected leaflets and a index of infection intensity were more practical and precise.

KEY-WORDS:
Evaluation methods; Cercospora arachidicola; Cercosporidium personatum,

INTRODUÇÃO

Dentre as principais doenças fúngicas da parte aérea do amendoim (Arachis hypogaea L.), destacam-se a mancha castanha causada por Cercospora arachidicola Hori e a pinta preta causada por Cercosporidium personatum (Berk. & Curt.) Deighton [sin.; Cercospora personata (Berk. & Curt.) Ell. & Ev.], as quais são também, em conjunto, denominadas "cercosporioses do amendoim".

Ambas as espécies acarretam uma desfolha prematura das plantas e perdas significativas da produção (4, 5 ,9, 10). O número de lesões produzidas aumenta gradativamente no decorrer do ciclo da cultura, chegando a haver coalescência das mesmas, o que dificulta sobremaneira as avaliações da incidência destes agentes em experimentos conduzidos a nível de campo.

As cercosporioses do amendoim têm sido freqüentemente avaliadas através da contagem de lesões existentes nas folhas, quer diretamente (3, 4, 6, 8), quer pelo emprego posterior de uma escala correspondente de valores (5). Também tem sido utilizado e mesmo preconizado, por alguns autores, o método de contagem das folhas caídas da haste principal (6, 8, 9, 11, 13, 14).

MORAES (12) verificou que a avaliação da incidência de C. arachidicola, através do número de lesões por folíolo e diâmetro médio das lesões, pode apresentar resultados diferentes, sendo mais indicado o uso do método de porcentagem de área foliar infectada, a qual considera tanto o número como o diâmetro médio das lesões.

A comparação entre métodos de avaliação foi feita por SOAVE et alii (14), os quais concluíram que o número de folhas com lesões não deve ser utilizado, e que foram eficientes os métodos da contagem de lesões das folhas das hastes principais, da razão entre o número total de lesões e o número de folhas com lesões e da contagem das folhas caídas. Este último método foi considerado também o mais rápido e prático, tal como já preconizara MILLER (11).

Ainda, na literatura, são encontrados outros métodos empregados nas avaliações, como a determinação do número ou da porcentagem de folhas infectadas (8, 9, 14), a porcentagem de folíolos caídos (9, 13), diâmetro médio das lesões (12), índice visual (9, 10), estimativa da área foliar infectada (2, 9, 12) e peso da parte aérea (4, 10), utilizando-se, nas amostragens, folhas tomadas ao acaso ou folhas existentes em hastes cortadas ao nível do solo,

Um novo índice de intensidade de infecção de plantas, cuja transformação angular se pode utilizar em análise de variância, foi proposto por AMARAL (1), o qual, entretanto, não foi ainda empregado na avaliação de cercosporioses do amendoim.

Este trabalho foi efetuado com o objetivo de selecionar métodos práticos, rápidos st e eficientes para avaliação da incidência das cercosporioses do amendoim, em função do estádio de desenvolvimento das plantas por ocasião das amostragens, visando facilitar principalmente os trabalhos conduzidos a nível de campo.

MATERIAL E MÉTODOS

os experimentos foram instalados no ano agrícola 1981/82, em Jaboticabal e Herculândia, dois importantes municípios produtores de amendoim do Estado de São Paulo.

Com a finalidade de obter nos experimentos parcelas com diferentes níveis de incidência de doença e verificar, assim, a sensibilidade dos métodos de avaliação, foi utilizado o seguinte esquema de tratamento: a) tiofanato metílico 20% + chlorothalonil 50% PM (2,0 kg/ha); b) acetato de trifenil estanho 20% PM (1,5 kg/ha); c) enxofre 80% PM (2,5 kg/ha); d) benomyl 50% PM (0,4 kg/ha); e) testemunha (sem pulverização). O delineamento estatístico empregado foi de blocos ao acaso com 5 repetições, sendo efetuado um total de 4 aplicações de fungicidas, aos 30, 45, 60 e 75 dias após a emergência.

No plantio, utilizou-se o cultivar Tatu53, numa densidade de 18 sementes por metro linear de sulco. As parcelas foram constituídas de 3 linhas úteis e 1 linha bordadura nas laterais, de 4,0m de comprimento, com espaçamento de 0,6m entre linhas, estando as extremidades das parcelas separadas por 0,5m, sem plantio.

Foram realizadas 4 amostragens, em diferentes estádios de desenvolvimento da cultura, correspondendo aproximadamente aos 45, 60, 75 e 102 dias após a emergência, nas duas localidades. As três primeiras amostragens foram efetuadas coletando-se da parte inferior das plantas, ao acaso, 10 folhas da primeira e 10 folhas da terceira linha útil (total de 20 folhas/parcela). A quarta amostragem, realizada na data da colheita, constou do corte de 15 hastes principais ao nível do solo da segunda linha útil da parcela.

Para avaliação da produção, foram arrancadas manualmente todas as plantas das três linhas úteis de cada parcela, separadamente, e anotou-se o peso das vagens produzidas, após sua completa secagem em estufas. Foram testados os seguintes métodos de avaliação da incidência conjunta das cercosporioses do amendoim (C. arachidicola e C. personatum):

  • I - Número de lesões: contagem do total de lesões existentes nas folhas;

  • II - Número de lesões por folíolo: divisão do número total de lesões (método I) pelo número total de folíolos existentes;

  • III - Número de lesões por folíolo infectadot divisão do número total de lesões (método I) pelo número de folíolos infectados;

  • IV - Porcentagem de folíolos com lesões: das folhas amostradas, foi anotado o número de folíolos com e sem lesões, transformando-se posteriormente estes dados em porcentagem;

  • V Índice visual: adotando-se uma escala de notas de 0 a 5, onde 0 corresponde à ausência de lesões nas folhas e 5, o número máximo de lesões;

  • VI - Porcentagem de área foliar infectada: comparando-se a área lesionada das folhas com uma escala diagramática, modificada de JAMES (7);

  • VII - Índice de intensidade de infecção; adotando-se como NO = número de folíolos sem lesões; NI = número de folíolos com 1 lesão; N2 = número de folíolos com 2 ou 3 lesões; N3 - número de folíolos com 4 ou mais lesões, conforme AMARAL (1);

  • VIII - Porcentagem de folhas remanescentes: das hastes amostradas, foram anotados o número de folhas presentes e o número de cicatrizes correspondentes às folhas caídas, transformando-se posteriormente estes dados em porcentagem.

Os métodos 1, 11, 111, IV, V, VI e VII foram empregados nas três primeiras amostragens, enquanto que o método VIII foi utilizado somente na quarta amostragem.

Para efeito de análise estatística, os dados obtidos através dos diferentes métodos foram assim transformados: x para o método I, arco seno % para os métodos IV, V, VI e VIII e, de acordo com a metodologia proposta por AMARAL (1), para o método VII. Os dados de produção, bem como os dos métodos II e III, foram analisados sem transformações, empregando-se os testes F e de Tukey ao nível de 5% de probabilidade.

Nas três primeiras amostragens, foram analisadas correlações entre os métodos testados e a produção, e entre estes métodos e a porcentagem de área foliar infectada, Na última amostragem, as correlações foram analisadas entre a produção e a porcentagem de folhas remanescentes.

RESULTADOS

As análises estatísticas efetuadas com os dados obtidos através dos diferentes métodos de avaliação e os efeitos dos produtos químicos na incidência das cercosporioses e na produtividade estão expressos nas tabelas 1, 2, 3 e 4, correspondendo, respectivamente, às amostragens efetuadas aproximadamente aos 45, 60, 75 e 102 dias após a emergência.

Observa-se que a precisão dos dados aumenta da primeira para as últimas amostragens, com uma diminuição dos coeficientes de variação em todos os métodos analisados. Da mesma forma, nas últimas amostragens, o controle das cercosporioses, devido ao emprego dos produtos químicos, torna-se mais evidente, apresentando maior diferenciação entre os fungicidas.

Nas tabelas 5, 6 e 7 encontram-se os valores dos coeficientes de correlação calculados entre as médias do método da porcentagem de área foliar infectada e os demais métodos de avaliação, verificando-se valores significativos para todas as comparações, com exceção do método III (número de lesões / número de folíolos infectados) na primeira amostragem, e do método IV (porcentagem de folíolos com lesões) na terceira amostragem.

Quanto às correlações entre os métodos testados e a produção, observa-se que um maior número de comparações significativas foi obtido nas duas primeiras amostragens; na terceira amostragem, as correlações não foram estatisticamente significativas na sua maioria, com exceção, em Jaboticabal, do método VI (porcentagem de área foliar infectada) e, em Herculândia, do método V (índice visual). As correlações entre estes métodos de avaliação e a produção são sempre negativas, demonstrando que a incidência da doença acarretou perdas na produção.

TABELA 1
Dados médios da incidência de Cercospora arachidicola e Cercosporidium personatum obtidos por diferentes métodos de avaliação. Primeira amostragem (45 dias após emergência).
TABELA 2
Dados médios da incidência de Cercospora arachidicola e Cercosporidium personatum obtidos por diferentes métodos de avaliação. Segunda amostragem (60 dias após a emergência.
TABELA 3
Dados médios da incidência de Cercospora arachidicola e Cercosporidium personatum obtidos por diferentes métodos de avaliação. Terceira amostragem (75 dias após a emergência).

Na tabela 8, correspondente à quarta amostragem, observa-se que as correlações entre o método VIII (porcentagem de folhas remanescentes) e a produção são significativas e positivas, o que era esperado.

DISCUSSÃO

Os resultados obtidos nas duas localidades indicam que os métodos testados, de um modo geral, são válidos (valor de r quase sempre próximo de 1) e que apresentam boa correlação com o método de determinação da porcentagem de área foliar infectada.

A menor variabilidade dos resultados, com a conseqüente diminuição dos valores dos coeficientes de variação nas últimas amostragens, deve-se ao aumento e à progressão da doença no experimento com o decorrer do tempo, tornando a incidência mais homogênea em todas as parcelas.

Considerando apenas os valores dos coeficientes de variação das avaliações, temse o método IV ( % de folíolos infectados) como o de maior precisão. Porém, na terceira avaliação, quando se obteve menor variabilidade dos dados, as correlações estudadas com este método não são significativas. Conforme SOAVE et alii (14), sob condições de severa ocorrência da doença, o número de folhas com lesões é pequeno, pelo fato de as folhas lesionadas caírem, ficando as mais novas, que não apresentam lesões; no presente, trabalho, embora tenham sido utilizados dados de porcentagem de for líolos com lesões, os resultados alcançados corroboram estas conclusões, já que na primeira e segunda amostragens (aos 45 e 60 dias), com menor incidência da doença e, portanto, com menor desfolha das plantas, as correlações são significativas.

TABELA 4
Avaliação da incidência de Cercospora arachidicola e Cercosporidium personatum pelo método VIII (porcentagem de folhas remanescentes ao final do ciclo) e dados médios de produtividade de amendoim. Quarta amostragem (102 dias após a emergência).

Avaliações através de métodos que utilizam a contagem de lesões existentes nas folhas (métodos I, II e III) são consideradas muito trabalhosas e pouco práticas (14) e demonstraram que são de difícil execução quando o número de lesões é elevado e há coalescência das mesmas.

A adoção de métodos com apreciações visuais (método V), estipulando notas em função da incidência da doença, embora práticos e eficientes, são subjetivos, e verificouse que depende muito da experiência de cada avaliador, o que dificulta sua reprodutibilidade e as comparações de trabalhos executados por diferentes autores.

Foram de fácil execução os métodos de determinação da porcentagem da área foliar infectada (método VI), comparando-se a área foliar lesionada das folhas amostradas com uma escala padronizada, e o método proposto por AMARAL (método VII), embora este último seja trabalhoso no que se refere à preparação dos dados para análise estatística.

Métodos de avaliação que consideram o número de folhas caídas ou, inversamente, o de folhas remanescentes, como foi empregado nesta pesquisa (método VIII), embora práticos, rápidos e adotados por vários autores (6, 8, 9, 11, 13, 14), têm contrasi o fato de não considerarem o efeito de outras doenças que podem ocorrer e que causam também queda de folíolos e folhas, além de não permitir um acompanhamento epidemiológico da doença no início do ciclo da cultura, quando a incidência dos fungos é geralmente baixa, não acarretando desfolhas.

TABELA 5
Coeficientes de correlação obtidos en tre médias do método de porcentagem de área infectada e a produção com as dos demais métodos de avaliação. Primeira amostragem (45 dias após emergência).
TABELA 6
Coeficientes de correlação obtidos entre médias do método de percentagem de área infectada e a produção com as dos demais métodos de avaliação. Segunda amostragem (60 dias após a emergência).
TABELA 7
Coeficientes de correlação obtidos entre médias do método de porcentagem de área infectada e a produção com as dos demais métodos de avaliação. Terceira amostragem (75 dias após a emergência).

Os resultados alcançados indicam que a avaliação de controle das cercosporioses, utilizando nos experimentos variedade de amendoim de ciclo curto (100-110 dias) é melhor correlacionada com a produtividade, quando as amostragens são realizadas até aproximadamente aos 60 dias após a emergência. Avaliações realizadas 75 dias após a emergência não apresentaram, na sua maioria, correlações significativas com os dados da produção (Tab. 7), possivelmente pelo fato de que a produtividade das plantas é menos afetada pela incidência de doenças nos estádios finais do seu ciclo.

TABELA 8
Coeficientes de correlação obtidos entre médias do método de porcentagem de folhas remanescentes e a produção. Quarta amostragem (aproximadamente 102 dias após a emergência).

Embora os métodos empregados permitam determinar com segurança a eficiência dos diferentes produtos químicos, verificouse que, utilizando amostragens de folhas ao acaso, resultados discordantes podem ser obtidos em função da localização das folhas, pelo fato de a incidência da doença ser mais severa quanto mais baixa for a posição da folha na planta (folhas mais velhas). Portanto, em experimentos para avaliação de controle das cercosporioses, bem como da resistência varietal, além da época da amostragem, deve ser especificada também a idade ou posição de inserção da folha na haste.

CONCLUSÕES

Nas condições em que foram conduzidos os experimentos pode-se concluir o seguinte:

  1. De uma forma geral, todos os métodos empregados na avaliação das cercosporioses são válidos (valores de r próximos de 1);

  2. O método que utiliza a porcentagem de folíolos com lesões e o índice de intensidade de infecção são práticos e de maior precisão (menor coeficiente de variação). São também práticos e facilmente reprodutíveis por diferentes avaliadores os métodos baseados na determinação da porcentagem de área foliar infectada e da porcentagem de folhas remanescentes ao final do ciclo, sendo que este último, entretanto, não separa os efeitos de outras doenças;

  3. Métodos que utilizam a contagem das lesões existentes nas folhas (número de lesões, número de lesões por folíolo e número de lesões por folíolo infectado) mostram-se muito trabalhosos e de difícil execução, notadamente no final do ciclo da cultura, quando há coalescência das lesões; enquanto que o método de índice visual, por ser subjetivo e depender dos critérios de cada avaliador, dificulta as comparações de trabalhos executados por diferentes autores;

  4. Quando se utiliza variedade de amendoim de ciclo curto (100-110 dias), a avaliação da incidência das cercosporioses pode ser melhor correlacionada com a produção quando as amostragens são realizadas até, aproximadamente, 60 dias após a emergência das plântulas.

AGRADECIMENTOS

Os autores consignam seus agradecimentos aos Pesquisadores Científicos BC. Barros, I.M.G. de Almeida e V. Rossetti, pela revisão do texto e sugestões apresentadas.

  • *
    Trabalho apresentado no XVIII Congresso Brasileiro de Fitopatologia, Fortaleza, CE, 1985.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jan-Dec 1986

Histórico

  • Recebido
    01 Nov 1985
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