Open-access PRESENÇA DE ANTICORPOS CONTRA O VÍRUS DA RINOTRAQUEÍTE INFECCIOSA DOS BOVINOS / VULVOVAGINITE PUSTULAR INFECCIOSA (IBR/IPV) EM CAPIVARAS (HYDROCHOERUS HYDROCHOERIS, LIN.)*

Presence of antibodies against infectious bovine rhinotracheitis infectious pustular vulvovaginite virus (IBR/IPV) in water hogs (Hydrochoerus hydrochoeris, Lin.)

RESUMO

Os resultados apresentados neste trabalho foram provenientes da análise, por micro-hemaglutinação passiva, de 44 soros de capivaras, (Hydrochoerus hydrochoeris, Lin.) do município de Poconé-MT., dos quais 72,7% foram positivos ao vírus IBR/IPV com títulos variando de 1:2 a 1:128.

A importância destes resultados é discutida não só levando em consideração o fato de que a etiopatogenia nesses animais silvestres (fonte de carne e couro), em uma região de criação de rebanhos bovinos, é ainda desconhecida, como também por ser diferente dos resultados encontrados pelos mesmos autores em rebanhos bovinos e bubalinos no Estado de São Paulo.

PALAVRAS-CHAVE
- Capivaras; rinotraqueíte infecciosa dos bovinos; vulvovaginite pustular infecciosa; teste de micro-hemaglutinação passiva.

SUMMARY

The results presented in this article originated from the analysis, by passive micro-hemagglutination, of forty four (44) water hogs sera (Hydrochoerus hydrochoeris, Lin.) from Poconé, Mato Grosso. 72,7% of the sera were positive to the IBR/IPV virus with antibody levels ranging from to 1:128.

The relevance of these results is discussed not only considering that the etiopatogeny on these wild animals (source of meat and hide), in regions of cattle breeding is still unknown, as well as that these results were different from those previously found by the authors in cattle and water buffaloes herds of São Paulo State.

KEY-WORDS
- Water hogs; infectious bovine rhinotracheitis; infectious pustular vulvovaginitis; passive micro-hemagglutination teste.

INTRODUÇÃO

A demonstração de vírus patogênicos conhecidos em diferentes espécies de animais silvestres, tem sido feita através de testes sorológicos (1 ,5 ,20) ou de isolamento do vírus em doenças de ocorrência natural ou induzida por imuno-supressores (2 ,11 ,17). A preocupação destes estudos epidemiológicos é antecipar o risco de uma exposição do homem ou de animais domésticos a doenças específicas, uma vez que existe a possibilidade de que alguns destes animais serviriam como reservatórios silenciosos do vírus, podendo eventualmente causar surtos de doenças em rebanhos susceptíveis quando do contato direto destes animais com doentes ou pelo consumo de carcaças contaminadas (13 ,18). A prevalência de anticorpos contra o vírus IBR/IPV em diversas espécies de animais silvestres, tem sido comprovada também através de testes sorológicos e isolamento de vírus. Esta virose já foi demonstrada como sendo largamente difundida não só nos rebanhos bovinos e bubalinos como também em ruminantes, carnívoros e roedores domésticos e silvestres (2 ,6,9,10,18). Apesar de vários animais de laboratório serem normalmente refratários à infecção experimental com este vírus (2), a mesma já foi induzida experimentalmente em espécies silvestres, obtendo-se soroconversão e excreção de vírus (14,16), ainda que na maioria das vezes, sem sintomas clínicos aparentes.

A capivara (Hydrochoerus hydrochoeris) é o maior mamífero roedor vivente, sul-americano, que pode alcançar o porte de um porco adulto, pesando às vezes mais de 50kg de peso vivo. Vivem em grandes bandos, principalmente no Pantanal do Mato Grosso, onde são encontradas ocupando os mesmos campos de criação de bovinos. Sua domesticação e criação vem sendo estimulada para produção de carne e também de couro para exportação (3 ,21).

O objetivo deste trabalho foi verificar a presença de anticorpos, em soros de capivaras, contra o vírus IBR/IPV, contribuindo ao estudo da distribuição deste vírus em animais silvestres e da patologia nesta espécie animal de importância econômica emergente.

MATERIAL E MÉTODOS

Vírus - Foi utilizada para os testes a amostra IBR-LA, cedida pelo "Institut für Mikrobiologie und Infektion Krankheiten der Tiere" - Munique - Alemanha e mantida no laboratório através de passagens sucessivas em culturas de linhagens primárias de testículo bovino.

Amostra de soros - Foram testadas 44 amostras de soro de capivaras e 8 amostras de soro de vacas, provenientes de animais da região Transpantaneira, no município de Poconé-MT. Todos os soros provinham de animais clinicamente sadios. Os soros foram inativadas a 560C durante 30 minutos e estocados a -200C. Para remoção das aglutininas inespecíficas, os soros foram absorvidos com hemácias de carneiro formalinizados e taninizados, a 370C por 30 minutos, em banho-maria, numa concentração de 10%.

Teste de hemaglutinação passiva (MHP) Utilizou-se a técnica de Vengris e Maré modificada, já descrita anteriormente (8). A 0,05ml das diluições seriadas do soro, adicionou-se 0,05ml de suspensão de hemácias de carneiro formalinizadas, taninizadas e sensibilizadas com o vírus, diluídas a em P BS pH 7,2 - 0,15M adicionada de 0,1% de gelatina. As leituras foram feitas após 16 horas a 40C. Os títulos de anticorpos foram expressos como log2 da recíproca da maior diluição aglutinante do soro. Foram considerados reagentes soros com títulos superiores ou iguais

Para comodidade de análise, a progressão geométrica 1:2, 1:4, . 1:2n foi expresso na progressão aritmética da razão de 0,30 (aproximação de logarítimo decimal de 2); 0,60; 0,90 ....n + 0,30. Dentro desta anotação, foi calculada a mediana dos títulos de anticorpos encontradas.

RESULTADOS

Do total de 44 soros de capivaras, foi demonstrado, através do teste de MHP, a presença de anticorpos aglutinantes contra o vírus IBR/IPV em 32 amostras, ou seja, em 72,7%, de acordo com a tabela l . A figura 1 representa a distribuição de freqüência dos títulos de anticorpos dos soros reagentes. O maior título encontrado foi de 1: 128 (2,10 em log). A mediana calculada nesta distribuição é de 0,75, correspondendo a uma diluição do soro de 1:5,62.

FIGURA 1
Distribuição em J da freqüência das amostras de soro de capivara.

TABELA 1
Proporção de animais reagentes ao vírus IBR/IPV pelo teste de MHP
TABELA 2
Distribuição das amostras de soro de capivara reagentes ao vírus IBR/IPV obtidos no teste de micro-hemaglutinação passiva (MHP)

Das 8 amostras de soro de vacas, somente 3 foram reagentes ao vírus IBR/IPV, apresentando títulos de 1:2.

DISCUSSÃO E CONCLUSÕES

A presença de soros reagentes indica que uma certa percentagem das capivaras esteve exposta a um agente que pode ser idêntico ou relacionado ao antígeno IBR/LA usado como padrão nos testes de micro-hemaglutinação passiva. Como é conhecido, alguns herpesvírus de mamíferos possuem antígenos neutralizantes comuns, a presença destes resultaria em títulos maiores que 1:4. No presente estudo, a metade dos animais reagentes apresentou títulos superiores a 1:8, o que poderia indicar uma possível incidência de um herpesvírus natural de capivara, com determinantes antigênicos comuns ao herpesvírus bovino IBR/IPV. Das 8 amostras de soro coletadas de vacas da mesma região, somente 3 (37,5%) apresentaram reação positiva ao vírus. Para o estudo da atividade neutralizante a quantidade de soro das amostras recebidas não foi suficiente. Em alguns casos, entre os animais silvestres, a prevalência de reagentes a diversos patógenos, pode ser correlacionada com a estabelecida na população da criação animal (20). Neste estudo, observou-se uma incidência muito maior de soros reagentes (72,7%) do que era esperada, sendo a mesma, inclusive, não só maior do que aquelas verificadas nos soros de vacas da mesma região, como também do que a prevalência de soros reagentes a esta virose, encontrada pelos autores em bovinos e bubalinos no Estado de São Paulo (7,15).

Estes dados não descartam a possibilidade das capivaras terem entrado em contato com o vírus IBR/IPV e, apesar de não manifestarem a doença clinicamente, apresentaram todavia anticorpos aglutinantes contra este antígeno, como resultado de uma infecção inaparente. Pesquisas realizadas com capivaras demonstraram que, estas desenvolveram anticoFpos específicos contra o vírus da estomatite vesicular, quando inoculadas com este vírus, sem no entanto, apresentarem sintomas clínicos da doença ou viremia (10). Hedger et Hamblin não observaram sintomas clínicos nas diversas espécies animais reagentes ao vírus IBR/IPV, em um inquérito sorológico realizado em território africano (6). IKUNO et alii observaram que o mesmo ocorre também com búfalo em relação ao vírus da IBR/IPV (7). Por outro lado, existem espécies animais muito sensíveis ao vírus IBR/IPV, como foi demonstrado em cangambás, os quais inoculados com este vírus, desenvolveram uma infecção sistêmica fatal (14). Em outras espécies, como o gnu, no qual nunca foi observada uma doença semelhante ao IBR/IPV, este vírus adaptou-se tão bem ao trato genital, que o mesmo perdeu sua habilidade de produzir a forma respiratória da doença (16). Sabe-se, atualmente, que em todos os herpesvírus apenas algumas glicoproteínas são importantes para a resposta imune do hospedeiro. As amostras IBR e IPV apresentam em seu genoma diferenças não identificáveis nos testes de neutralização com soro hiperimune de coelho, sendo que este soro detecta maior número de antígenos do que o soro hiperimune ou convalescente de bovino (4). Estudos comparativos entre herpesvírus isolados de veados com outros herpesvírus, comprovaram que houve uma neutralização cruzada, total, entre as amostras isoladas de veado com herpesvírus de eqüino tipo I (12).

As capivaras utilizadas nesta pesquisa foram capturadas "in loco", sangradas e novamente soltas. Todas eram sadias, não apresentando sintoma clínico da doença, o mesmo ocorrendo com as vacas, sangradas nas mesmas condições. Apesar de utilizarem as mesmas áreas de pastagens de bovinos, não existiu contato direto entre os animais, possuindo ambos preferências alimentares diferentes (3). Não se conhece o hábito das capivaras ingerirem carcaças de animais mortos, o que poderia servir como fonte de infecção. Também não se conhecem vetores desta virose, cujo contágio é feito sempre através de contato direto, principalmente no caso da IPV, que é uma doença venérea. Fica portanto, difícil estabelecer um meio de transmissão responsabilizando as capivaras como possíveis portadoras e/ou transml.ssoras desta virose, específica da espécieina, embora nnuito disseminada entre diversas 011 tras espécies animais. A pequena quantidade recebida de amostras de soro bovino não é sigmficativa, sendo que dos 8 animais, somente 3 apresentaram respostas positivas.

Como ambas as amostragens foram feitas ao acaso e todos os animais aparentemente eram sadios, pode-se tentar adiantar a possibilidade de que esta virose esteja menos disseminada no rebanho da região Transpantaneira quando comparada com o Estado de São Paulo. Entretanto, é importante fazer estudos mais detalhados, como isolamento do vírus destes animais e susceptibilidade das capivaras à inoculação experimental com o vírus IBR/IPV.

  • *
    Trabalho apresentado no 120 Encontro de Pesquisas Veterinárias - Jaboticabal SP., 05. I I .87.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jan-Dec 1987
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