Open-access MONITORAMENTO DA POPULAÇÃO DE MARIPOSA ORIENTAL GRAPHOLITA MOLESTA (BUSCK, 1916) (LEPIDOPTERA: OLETHREUTIDAE) PELA UTILIZAÇÃO DE FEROMÔNIO SEXUAL SINTÉTICO

Monitoring Grapholita molesta (Busck, 1916) (Lepidoptera: Olethreutidae) by synthetic pheromone.

RESUMO

Este trabalho relata os resultados do monitoramento da população de Grapholita molesta (Busck, 1916) com feromônio sexual sintético, efetuado em campo experimental cultivado com pessegueiro, de fins de agosto de 1983 a agosto de 1986. De um modo geral, os picos populacionais foram observados durante os meses mais quentes do ano. A temperatura constituiu fator importante na dinâmica da população da mariposa oriental.

Os resultados evidenciam que o feromônio sexual sintético de G. molesta é um instrumento de grande utilidade na detecção de áreas infestadas e dos diferentes níveis populacionais.

PALAVRAS-CHAVE
Monitoramento; Grapholita molesta; mariposa oriental; feromônio sexual.

SUMMARY

This paper reports the results of monitoring Grapholita molesta population by synthetic pheromone carried out in an experimental field cultivated with peach trees, from late August, 1983 through August, 1986. In general, the population peak were when the temperature was higher. Temperature was an important factor in oriental fruit moth population dynamics.

The results show that synthetic sex pheromone is a useful tool in detecting infested areas and on different levels.

KEY-WORDS
Monitoring; Grapholita molesta; sex pheromone.

INTRODUÇÃO

A mariposa oriental, Grapholita molesta (Busck, 1916), é uma das mais sérias pragas do pessegueiro e de outras espécies de plantas da famflia das rosáceas. É conhecida como praga dos ponteiros, pois as larvas desenvolvem-se principalmente nos brotos novos, prejudicando a formação de ramos, além de ocasionarem também a deterioração dos frutos. Uma das características que perrnite o reconhecimento da presença do inseto, é o aparecimento de uma secreção gomosa no local de entrada (6).

Para o controle desta praga consome-se uma considerável quantidade de produtos químicos empregados em aplicações periódicas, o que resulta em elevado custo de produção e desperdfcio. Outro problema preocupante na prática agrícola é a diminuição de insetos benéficos e modificação da fauna, além do risco à saúde. Diante destes fatos, o estudo sobre o uso do feromônio sexual para o controle de G. molesta vem recebendo grande atenção nestas últimas décadas.

O feromônio sexual de G. molesta é produzido pela Emea, demonstração feita inicialmente por GEORGE em 1965 (8). O componente principal, (Z)-8-dodecenil acetato, foi identificado em 1969 por ROELOFS etalii (10). São conhecidos atualmente mais três componentes, (E)-8-dodecenil acetato, n-dodecanol e (Z)-8-dodecenil-l-ol, conforme CARDÉ et alii (4).

Hoje em dia, o feromônio sintético é largamente experimentado quer como monitor (7, 12, 13), quer para o controle desta praga por meio de interrupção na comunicação entre macho e fêmea (3).

Em 1975 GIANNOTTI & ORLANDO (9) mostrararn a grande capacidade de atração do feromônio sexual deste inseto.

SILVEIRA NETO etaüi (13) estudaram a flutuação populacional de G. molesta pela utilização do feromônio sexual, em culturas de pessegueiro e nectarina, em regiões próximas de São Paulo, capturando o maior número de machos de novembro a março, e o menor número de julho a setembro.

SALLES et alii (12) efetuando semelhante estudo em culturas de pessegueiro, nas regiões de Pelotas, verificaram a captura mais intensa de setembro ou outubro até janeiro.

Em recente trabalho conduzido em Michigan, BAKER et alii (2) demonstram a existência de uma correlação altamente significativa entre a emergência e captura na primeira geração de adultos, em uma pequena área cultivada com macieiras.

O presente trabalho teve por objetivo estudar o efeito do uso do feromônio sexual na determinação da densidade populacional de G. molesta, em campo experimental cultivado com pessegueiros tratados com produtos químicos.

MATERIAL E MÉTODOS

O trabalho foi realizado no período compreendido entre fins de agosto de 1983 e agosto de 1986 em cultura não comercial de pessegueiros de diversas variedades, com cerca de 1 ha de área, da Estação Experimental do Instituto Agronômico de Campinas, localizado no município de Jundiaí, a aproximadamente 100 quilômetros de São Paulo.

O campo recebeu tratamento químico com diferentes produtos. Foram utilizadas duas armadilhas com o feromônio sexual sintético de G. molesta, à altura de mais ou menos 1 metros, separadas uma da outra aproximadamente 50 metros. Tanto o feromônio como as armadilhas são procedentes da Zoecon Corporation. A contagem de insetos capturados foi feita semanalmente.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A figura 1 e a tabela 1 mostram os resultados durante o período de agosto de 1983 a agosto de 1986, sobre a população de G. molesta existente em cultura experimental de pessegueiros, com o uso de feromônio sexual em duas armadilhas. Pela observação da figura 1 , verificam-se as tendências das capturas ocorridas em cada uma das armadilhas. De fins de agosto até dezembro de 1983, capturaram-se 623 e 681 machos nas armadilhas 1 e 2 respectivamente, portanto um número um pouco maior com a última. Porém nos anos de 1984, 1985 até agosto de 1986, capturaram-se 1019, 1353 e 789 machos com a primeira e 527, 945 e 732 com a segunda (Tabela 1).

A armadilha 1 capturou, em geral, o maior número de insetos nas contagens semanais, tendo raramente ocorrido o inverso, embora a distância entre os locais tenha sido pequena. A troca de posições entre as armadilhas manteve a mesma tendência.

Os fatores que influem na captura são muitos, pois o mecanismo de atração pelo feromônio é muito complexo e está relacionado aos fatores ambientais, principalmente velocidade dos ventos. Portanto, é ünportante levar em consideração a existência de microclimas que favorecem a afluência de insetos para uma das armadilhas. O resultado mostra que o feromônio sexual de G. molesta apresenta atraüvidade acentuada, de tal modo que constitui um instrumento útil para a localização de áreas infestadas e em diferentes graus.

A capacidade de atração do feromônio sexual desta espécie foi demonstrada também por outros autores. Assim, BAKER et alii (2), nos estudos realizados com o mesmo inseto em pequena área cultivada com macieiras tratadas somente com fungicidas, verificaram a existência de uma correlação positiva significativa entre a captura e emergência de adultos, tanto em condições de alta ou baixa densidade populacional.

Igualmente os trabalhos de CROFT & CARDÉ em 1980 (5) demonstraram que o número de machos capturados reflete a emergência de adultos.

Os resultados obtidos por ROTHSCHILD et alii (11) demonstraram que o número de insetos capturados apresentam correlação positiva com a infestação nos brotos, mas não constante. A diferença foi atribuída à influência das variações unbientais, práticas agrícolas e quantidade de brotos. Os autores mostram a importância do feromônio para detectar o nível de infestação e emergência de adultos, a baixo custo operacional.

Na figura 1 destacam-se, também, as informações sobre as épocas em que ocorreu a captura de maior número de adultos. De fins de agosto de 1983 até abril de 1984, foram observados vários picos populacionais com grande número de machos capturados. Em fins de abril o número de insetos capturados diminuiu, mantendo-se em nível baixo até agosto, com alguns pequenos picos populacionais. De setembro de 1984 a março de 1985, foi observado aumento no número de machos capturados com vários picos, diminuindo em seguida até meados de julho, quando teve início o aumento do número de insetos capturados nas armadilhas até junho de 1986. Quedas acentuadas ocorreram em fins de dezembro de 1985 e julho de 1986. Pela observação da tabela 2 e figura 1 é evidente a influência da temperatura na dinâmica das populações do inseto em estudo, uma vez que os baixos níveis de população coincidiram com as quedas de temperaturas predominantes no outuno e inverno. Verifica-se que, nessa região em abril iniciou a queda de temperatura que geralmente se acentuou nos meses de junho até agosto, registrando-se temperatura abaixo de 20 °C. A elevação de temperatura teve início em agosto e setembro, com variação de um ano para outro. Houve predominância de temperatura entre 20°C e 25 °C até os meses de abril ou maio.

FIGURA 1
Número de machos de Grapholita molesta capturados semanalmente com duas armadilhas com feromônio sexual sintético no período de agosto de 1983 a agosto de 1986, no município de Jundiaí - SP, em cultura de pessegueiro.

TABELA 1
Número de insetos capturados mensalmente em armadilhas com feromônio.
TABELA 2
Freqüência das temperaturas médias registradas de agosto de 1983 a agosto de 1986.

Em poucas ocasiões a temperatura média sofreu queda abaixo de 15 °C ou mesmo atingiu 32°C, temperatura que influenciam na eliminação dos comportamentos que precedem o acasalamento, conforme estudos realizados por BAKER & CARDÉ em 1979 (1). Este fato contribuiu para a manutenção da população dos adultos durante o ano todo, e em baixo nível em meses mais frios, como pode ser observado na figura 1. Semelhante resultado foi obtido por ROTHSCHILD et alii (11). Nos trabalhos desenvolvidos por SALLES et alii (12) e SILVEIRA NETO et alii (13), é relatada também a influência significativa da temperatura.

Na figura 1 C nota-se que houve uma elevação do número de machos atraídos pelo feromônio nos meses de maio e junho de 1986, épocas em que nos anos anteriores os níveis populacionais foram baixos. Este fato demonstra que outros fatores climáticos, além da temperatura média ou diferenças nas práticas agrícolas, influem para a manutenção da população de G. molesta no campo.

O campo recebeu aplicações de inseticidas normalmente, sem levar em consideração os dados obtidos com as armadilhas, conforme está assinalado na figura 1. Verifica-se que não houve influência notável na contagem semanal dos insetos capturados. O resultado é semelhante ao obtido por ROTHSCHILD et alii (11), que verificaram, que a aplicação de parathion diminuiu a captura no máximo 1 a 2 dias, aumentando rapidamente em seguida.

CONCLUSÕES

O resultado mostra que o controle da mariposa oriental é uma tarefa complexa e que o feromônio sexual é uma das armas de grande importância para determinar a necessidade ou não de produtos químicos e quando aplicá-los para que se reduza ao mínimo o prejuízo ao meio ambiente.

O feromônio sexual de G. molesta é de tal eficiência que permite a verificação de locais infestados e o estudo da dinâmica populacional.

A temperatura constitui um fator importante para a manutenção da população do inseto no local.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • 1 BAKER, T. CARDÉ, R. T. Endogenous and exogenous factors affecting peridiocities of female calling male sex pheromone response in Grapholita molesta (Busck). J. Insect Physiol., 25: 943-50, 1979.
  • 2 BAKER, T. C.; CARDÉ, R. T.; CROFT, B. R. Relationship between pheromone trap capture and emergence of adult oriental fruit moths Grapholita molesta (Lepidoptera. Tortricidae). Can. EntomoL, 112:11-5, 1980.
  • 3 CARDÉ, R. T. Disruption of long distance pheromone communication in the oriental fruit moth: camouflaging the natural aerial trails from females ? In : MANEGEMENT of insect pests with semiochemicals. Ed. E. R. Mitchell Plenum, NewLondon, 1981, pg 385-405.
  • 4 CARDÉ, A. M.; BAKER, T. C.; CARDÉ, R. T. Identification of a four components sex pheromone of the oriental fruit moths Grapholita molesta (Lepidoptera: Tortricidae). J. Chem. Ecol., 5; 42, 1979.
  • 5 CROFT, B. A. & CARDÉ, R. T. Manegement of the oriental fruit moth in Michigan with synthetic sex pheromone. In: INTERNATIONAL CONGRESS OF ENTOMOLOGY. 16., Kyoto, Japan, 1980. Abstracts. p. 248.
  • 6 MANUAL de entomoloiga agrícola. Coord. Domingos Gallo. São Paulo, Agronômica Ceres, 1978. 531 p.
  • 7 GENTRY, G. R.; BLYTHE, J. BIHE, B. A. Efficacy trials with the pheromone of the oriental fruit moth and data on the lesser appleworm. J. Econ. Entomol., 67: 607, 1974.
  • 8 GEORGE, G. A. Sex pheromone of the oriental fruit moth, Grapholita molesta (Busck) (Lepidoptera: Tortricidae). Can. Entomol. 97: 1002-7, 1965,
  • 9 GIANNOTTI, O. & ORLANDO, A. Feromônios e seu emprego nos progamas de controle de pragas agrícolas. Biológico, São Paulo, 41: 31-8, 1975.
  • 10 ROELOFS, W. L.; COMEAU, A.; SELLE, R. Sex pheromone of the oriental fruit moth. Nature, 244: 723, 1969.
  • 11 ROTHSCHILD, G. H. WICHERS, R.A.•, MORTON, R. Monitoring the oriental fruit moth Cydia molesta (Busck) (Lepidoptera: Tortricidae) with pheromone traps bait in peach orchards in Suth-Eastern Australia. Prot. Ecol, 6: 115-36, 1984.
  • 12 SALLES, L. A. HASTER, F. G.; CARVALHO, R. P. L. Flutuação populacional de mariposa oriental Grapholita molesta, em pessegueiro na região de Pelotas RS. In : CONGRESSO BRASILEIRO DE ENTOMOLOIGA, Londrina, PR, 1984. Resumos. p. 26.
  • 13 SILVEIRA NETO, S.; PRECETTI, A. A. C. M., BARZ, A. J. B. P.; SANTOS, P. E. T. Flutuação populacional de Grapholita molesta (Busck) em pessegueiro e nectarinas, com o uso de feromônio sexual sintético. An. Soc. Entomol. Bras., 10(1): 43-9, 1981.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jan-Dec 1988

Histórico

  • Recebido
    01 Set 1988
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Instituto Biológico Av. Conselheiro Rodrigues Alves, 1252 - Vila Mariana - São Paulo - SP, 04014-002 - São Paulo - SP - Brazil
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