RESUMO
O trabalho visou catalogar o material preservado e também obter conhecmentos que permitissem separar as espécies "in vivo". Foram feitas coletas de moscas em armadilhas do tipo Valéncia modificado, em 10 espécies frutfferas em 12 municfpios vizinhos å Capital. Foram coletadas 4857 moscas nos anos de 1986, 1987 e 1988 obtendo-se absoluta predominåncia da espécie A. fraterculus (Wied.) com 86,82% do total coletado; em segundo lugar ficou a espécie A. sororcula Zucchi, com 4,3%. Um exame morf016gico preliminar dos indivfduos permitiu agrupå-los em trés categorias: a primeira inclui as espécies A. grandis, A. bistrigata e A. serpentina, reconhecfveis facilmente vista desarmada; a segunda inclui as espécies A. distincta, A. montei e A. pseudoparallela que ainda podem ser reconhecidas vivas, dependendo porém de um exame mais cuidadoso sob anestesia de CO2: e a terceira necessita de exame de ovipositores, impossibilitando assim o reconhecimento "in vivo"; nela estäo inclufdas as espécies do grupo fraterculus, como A. obliqua, A. fraterculus e A. sororcula (subgrupo fraterculus) e A. pickeli e A. manihoti (subgrupo spatulata) muito diferentes daquelas. É discutida a importäncia de se prosseguir estudos com algumas espécies do grupo fraterculus.
PALAVRAS-CHAVE
Moscas-das-Frutas; Anastrepha spp; levantamento; municfpios-SP.
SUMMARY
The work aimed to catalogue the preserved material as well as to acquire some knowledge that would enable the separation "in vivo" of the species involved. Fruit flies were collected using modified valentian fly traps, under 10 species of fruit trees in 12 counties nearby Säo Paulo city. Up to 10.809 individual examinations were made in total, on 4.857 flies collected in 1986, 1987 and 1988 (up to March). Anastrepha fraterculus was the absolute dominant species with 86.82% of the gross total followed by A. sororcula with 4.3%. After an ordinary examination the material could be divided into three categories according with the main morphological characteristics. In the first it was included A. grandis, A. bistrigata and A. serpentina, easily identified by the naked eye even with live flies. In a second category were included A. distincta, A. montei, and A. pseudoparallela, still easily identified when alive but after being anesthesised by CO2. The third category needs the ovipositors to be examined under a stereoscope, so unabling the separation of the living flies. Two very distinct groups of species are included in this category though species in each group are impossible to be separated in a quick manner. First group is composed by species of group fraterculus, namely A. obliqua, A. fraterculus and A. sororcula (subgroup fraterculus); the second group includes A. pickeli and A. manihoti (subgroup spatulata) very distinct from the latters.
KEY-WORDS
Fruit-Flies; Anastrepha spp.; survey; counties Säo Paulo; Brazil.
INTRODUCÄO
As frutas no Brasil säo reconhecidamente atacadas por moscas da familia Tephritidae, com predominäncia dos géneros Ceratitis e Anastrepha. O primeiro género so apresenta a espécie conhecida como "mosca-do mediterräneo" C. capitata (Wied. 1824), introduzida no comego do século provavelmente da Africa. O género Anastrepha apresenta muitas espécies nativas, que foram revisadas por GREENE (4) em 1934 e STONE (11) em 1942 e catalogadas por FOOTE (2) em 1967, sendo que ZUCCHI (14) em 1978 estudou a taxonomia das espécies assinaladas no Brasil.
Tendo o Estado de Säo Paulo um consideråvel potencial de produgäo de frutas exportåveis, houve interesse de se conhecer a composiqäo das espécies de Anastrepha presentes em nossos pomares para melhor orientar os estudos dos biotestes necessårios para introduqäo de nossas frutas no exterior, uma vez que elas säo sistematicamente barradas pelos serviqos quarentenårios dos pafses importadores por veicularem formas vivas de "moscas-das-frutas".
Para tanto, foi necessário também conhecer melhor alguns detalhes morfológicos que permitissem separar as moscas, ainda vivas, por espécies distintas visando sua criação em separado, para serem usadas nos biotestes já citados.
MATERIAL E MÉTODOS
O experimento foi instalado em pomares de diversas espécies frutíferas em propriedades particulares ou estações experimentais de 12 municípios do Estado de São Paulo.
As coletas de moscas foram feitas por meio de frascos-armadilhas do tipo Valência modificado, usando-se melaço de cana a 7% como solução atrativa, que era renovada a cada 7 ou 15 dias. Por ocasião da renovação dessa solução, o conteúdo das armadilhas foi transferido para frascos contendo álcool 70% e levado ao laboratório para posterior triagem e estocagem definitiva dos exemplares pertencentes ao gênero Anastrepha, em flaconetes.
Foi feita também uma comparação entre as características morfológicas mais evidentes nas moscas, a fim de separá-las por espécies de maneira mais sumária.
Para determinação específica usou-se predominantemente a chave de STEYSKAL (10), assim com a chave sumária usada por ZUCCHI (15) e ainda, em casos esporádicos, as descrições de COSTA LL%4 (1) para as espécies A. montei, A. manihoti e A. pickeli.
Como o elemento de identificação usado foi o ovipositor das moscas, foram eliminados os machos das coleções obtidas. Cada fêmea, colocada em posição ventral, foi manuseada sob microscópio estereoscópico, com aumento de 6 a 50 vezes, para obter a extroversão do ovipositor com auxflio de um par de estiletes de acordo com ZUCCHI (14).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Encontram-se registrados nas tabelas 1, 2 e 3 os totais de espécies de moscas coletadas por município e por frutífera, além das porcentagens sobre o total geral.
Foram coletadas 4.857 moscas nos anos de 1986, 1987 e 1988 (até março). Obteve-se absoluta predominância da espécie A. fraterculus com 86,82% do total coletado, seguida pela A. sororcula com 4,3%.
O exame preliminar dos indivíduos coletados permitiu um agrupamento prático das moscas em três categorias.
"Moscas-das-frutas" do gênero Anastrepha coletadas por espécies em 12 municípios do Estado de São Paulo, durante 1986/87/88.
"Moscas-das-frutas" do gênero Anastrepha coletados em 10 espécies de frutfferas durante 1986/87/88.
Totais de espécies de "Moscas-das-Frutas" do gênero Anastrepha coletadas em 10 espécies de frutfferas durante 1986/87/88.
Na primeira categoria incluem-se espécies do gupo fraterculus, como A. grandis (subgrupo grandis), A. bistrigata (subgrupo striata) e A. serpentina (subgrupo serpentina) reconhecíveis facilmente à vista desarmada, permitindo a separação dessas espécies mesmo estando vivas.
Uma segunda categoria inclui outras espécies do grupo fraterculus, tais como A. distincta (subgrupo distincta) e A. pseudoparallela (subgrupo pseudoparallela) além de A. montei que, segundo NORRBOM (6), não está enquadrada até o momento em nenhum grupo taxonômico. Observamos que essa separação, que deve ser feita de maneira acurada e sob anestesia das moscas pelo CO2 , permite incluir outras espécies próximas a A. pseudoparallela além de A. distincta e A. montei. Porém, de acordo, com os dados obtidos nesse trabalho e as condições em que foi executado, a hipótese é remota subsistindo a divisão proposta, observando-se o ponto de vista prático.
Uma terceira categoria necessita para reconhecimento a comparação do ovipositores, com a necessária extroversão dos mesmos, o que impede o exame de moscas vivas. Contam-se nesta categoria espécies do grupo fraterculus, pertencentes a dois subgrupos: A. fraterculus, A. obliqua e A. sororcula (subgrupo fraterculus) e A. pickeli e A. manihoti (subgrupo spatulata).
O exame das tabelas 1, 2 e 3 induz a algumas considerações. Há primeiro que se considerar a grande redução no número de espécies, quando se consideram inicialmente aquelas catalogadas pelos autores anteriormente mencionados, passando pelo iá reduzido número de espécies citadas no "Quarto catálogo de insetos que vivem nas plantas do Brasil" (8) e chegando-se finalmente as poucas espécies coletadas nas condições deste trabalho.
Este número obtido é da mesma ordem daquele encontrado por NASCIMENTO & ZUCCHI (5) em pomares cítricos do recôncavo baiano, sendo coincidentes também as espécies mas freqüentes. O fato, comum a dois ambientes totalmente distintos, assinala em caráter mais ou menos genérico, a constatação que o grande número de espécies de Anastrepha existentes e descritas no Brasil fica muito reduzido quando se considera a importância de cada uma a nível de praga em pomares comerciais ou sobre algumas culturas mais comuns, relegando outras à condição de quase raridade.
Sobressai-se neste contexto, a atuação da espécie A. fraterculus como a de maior concentração populacional em todos os locais de coletas deste trabalho, assim como em praticamente todas as espécies frutíferas, quando são empregados frascos caça-moscas com melaço nos levantamentos. Essa atuação é tanto mais digna de nota quando àquelas populações se somam os dados de A. sororcula, espécie morfologicamente muito semelhante à primeira, passando então a atingir 91,12% do total das coletas.
Apenas em plantações de mangas a espécie A. pseudoparallela supera A. fraterculus em 1988 e é a segunda nos demais anos, o que surpreende, porquanto aquela espécie normalmente infesta com mais freqüência frutos de maracujá. Por outro lado, também deve ser levado em conta o fato deste levantamento não ter sido efetuado em plantações de cucurbitáceas, onde poderiam ser obtidos níveis mais altos de A. grandis em lugar de A. fraterculus.
Outra linha de considerações leva-nos à recomendação, emanada de recente encontro técnico da FAO/AIEA (3), para que não se dissipem meios de pesquisa com tratamentos em separado, usando populações compostas por espécies de moscas semelhantes. As conclusões e recomendações desse encontro estimulam a realização de testes com populações reagrupadas em complexos de espécies semelhantes, que possam garantir uma reação semelhante a idênticos tratamentos de desinfestação.
Adotando-se esse critério para realização de biotestes, já não será necessária a separação de moscas do subgrupo fraterculus em suas espécies componentes A. obliqua, A. fraterculus e A. sororcula. Tão pouco será necessário separar A. pseudoparallela de A. montei e, A. pickeli de A. manihoti. Bastará pois, trabalhar com A. grandis e os subgrupos fraterculus, pseudoparallela, distincta e spatulata.
Trabalhos anteriores, realizados em locais diversos com várias plantas frutíferas, com Anastrepha fratercula (sic), Ceratitis capitata e com um complexc indeterminado de espécies de Anastr.epha (9, 12, e 13) mostraram reação semelhante de diferentes espécies, e mesmo de gêneros de "moscas-das-frutas" aos fatores externos estudados. Embora não se negue a preferência de algumas espécies por certas frutas, os resultados daqueles trabalhos levam a crer que os fatores externos estudados não tinham força suficiente para uma verdadeira seleção de massa das espécies envolvidas no mesmo nicho ecolóÚco.
Tanto essa hipótese parece válida que durante anos, no Instituto Biológico, foram criadas moscas Anastrepha sem discriminação específica e com dieta semelhante de C. capitata (7) sem que fosse observada alguma predominância específica.
Faz-se evidentemente uma ressalva para A. grandis, por estar provavelmente melhor adaptada para atacar a casca espessa das cucurbitáceas, graças ao seu longo ovipositor.
Com base nesses trabalhos precedentes e nos levantamentos do presente trabalho, os autores endossam a conclusão e recomendação da FAO/ AIEA (3), esperando que ela possa ser corroborada pelas autoridades quarentenárias dos Estados Unidos da América e de outros países.
CONCLUSÕES
Embora o número de espécies do gênero Anastrepha seja muito grande no Brasil, apenas poucas são realmente importantes para frutíferas mais comuns.
A ser adotado um critério proposto pela FAO/AIEA (3), os biotestes futuros com moscas do género Anastrepha para fins quarentenários poderiam ser realizados com espécies do grupo fraterculus pertencentes aos subgrupos fraterculus, pseudoparallela, distincta e spatulata além de A. grandis todos facilmente separáveis mesmo estando as moscas vivas.
AGRADECIMENTOS
Os autores consignam seus agradecimentos ao Prof. R. A. ZUCCHI do Departamento de Entomoloiga da ESALQ pela sua colaboração irrestrita e crítica construtiva; também ao Técnico Agrícola JOÃO LUIZ SIMIONI pelas coletas no campo e pela triagem preliminar dos gêneros de moscas coletadas. Por fim à Agência Internacional de Energia Atômica - AIEA - pelo auxflio monetário para adequar o material ótico usado na pesquisa.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- 1 COSTA LIMA, A. M. Moscas das frutas do gênero Anastrepha Schiner 1868 (Diptera: Trypetidae). Mem. Inst. Oswaldo cruz, 28(4):487-575, 1934.
- 2 FOOTE, R. H. A catalogue of the Diptera of the Americas South of the United States. 57 family Tephritidae, (Trypetidae, Trupaneidae) São PauIo, Departamento de Zoologia, Secretaria da Agricultura, 57: 1-57.91-1967.
- 3 FAO/AIEA Research Co-ordination Meeting on the use of Irradiation as a Quarantine Treatment of Food and Agricultural Commodities, 2., Orlando, Fl., 1988. Report. Orlando, Fl., U.S. Dept. Agriculture, Agricultural Research Service, 1988. 19p.
- 4 GREENE, C. T. A revision of the Genus Anastrepha Based on a Study of the Wings and on the Length of the Ovipositor Sheath (Diptera: Trypetidae). Proc. Entomol. Soc. wash, 36 (6):127-79, 1934.
- 5 NASCIMENTO, A. A. & ZUCCHI, R. A. Dinâmica populacional das moscas-das-frutas do gênero Anastrepha (Dip. Tephlitidae) no reconcavo baiano. I Levantamento das espécies. Pesqui. Agropecu. Bras., 16:763-67, 1981.
- 6 NORRBOM, A. L. Phylogenetic analysis and taxonomy of the cryptostrepha, daciformis, robusta, and schausi species groups of Anastrepha Schiner (Diptera: Tephritidae). Pennsylvania, University Park, 1985. 355p. [PhD. Thesis - The Pennsylvania State Universityl .
- 7 PETELINCAR, 1. ARANHA, V. L. S. S.; RAGA, A.; WATANABE, K.; CALZA, R.; VECCHIATO, M. SUPLICY FILHO, N. Metodoloiga para criação massal de "moscas-das-frutas" do gênero Anastrepha com dieta artificial. Biológico, São Paulo, 51: 209-14, 1985.
- 8 QUARTO Catálogo dos insetos que vivem nas plantas do Brasil: Seus parasitos e predadores. Aristoteles Godofredo D'Araujo e Silva/ et alii Rio de Janeiro, Serviço de Defesa Sanitária Vegetal, Ministério da Agricultura, 1968. pt. 2, T. 1., p. 578-83.
- 9 SAMPAIO, A. S.; MYAZAKI, 1.; SUPLICY FILHO, N.; OLIVERIA, D. A.; BITRAN, E. A.; TEOFILO SOBRINHO, J. Fatores possíveis de determinar o grau de suscetibilidade de certas variedades cítricas ao parasitismo por "moscas-das-frutas" Ceratitis capitata (Wied., 1824) e Anastrepha spp.). Biológico, São Paulo, 50: 273-84, 1984.
- 10 STEYSKAL, G. C. Pictorial, key to species of the genus Anastrepha. The Ent. Soc. Wash., 1977, 35p.
- 11 STONE, A. The fruit flies of the genus Anastrepha. U. S. Dep. Agric Misc Publ., (439):1-112, 1942.
- 12 SUPLICY FILHO, SAMPAIO, A. S.; MYAZAKI, I. Flutuação populacional das "moscas-das-frutas" Anastrepha spp. e Ceratitis capitata (Wied., 1824) em citros na Fazenda Guanabara, Barretos SP. Biológico, São Paulo, 44:279-84, 1978.
- 13 SUPLICY FILHO, N.; SAMPAIO, A. S.; MYAZAKI' 1.; BITRAN, E. OLIVERIA, D. VEIGA, A.A. Estudo dos fatores determinantes do grau de suscetibilidade ao parasitismo por "moscasdas-frutas" Anastrepha spp., em cinco variedades de goiaba. Biológico, São Paulo, 50:169-76, 1984.
- 14 ZUCCHI, R. A. Taxonomia das espécies de AnastrePha Schiner 1868 (Diptera, Tephritidae) assinaladas no Brasil. Piracicaba, 1978. 105 p./Tese (Doutoramento) ESALQ- USP/.
- 15 ZUCCHI, R. A. Moscas-das-frutas (Dipt., Tephritidae) no Brasil: taxonomia, distribuição geográfica e hospedeiros. In: ENCONTRO SOBRE MOSCAS-DAS-FRUTAS, 1., Campinas, 1987. Moscasdas-frutas no Brasil: anais. Coord. Hebe M. L. Souza. Campinas, Fundação Cargill, 1988. p. 1-10.
