Open-access COMPORTAMENTO DE CLONES DE SERINGUEIRA (HEVEA BRASILIENSIS MUELL. Arg.) FRENTE A UMA ANOMALIA DE CASCA, NO ESTADO DE SÃO PAULO*

Behavior of rubber tree clones in relation to a bark abnormality

RESUMO

Em julho de 1988, foi observado no campo de competição de clones de seringueira da ESALQ/USP, a ocorrência de plantas, com oito meses de idade, com anomalias de casca, como: cancros de tamanhos variados, fendilhmentos longitudinais, com ou sem escorrimento de látex, e escamamento superficial. Localizadas, principalmente, nas regiões de fluxo foliar, na porção mediana do tronco que comprometiam o desenvolvimento das plantas. Avaliações efetuadas, da incidência e da severidade, demonstraram que dos 10 clones em competição, os mais suscetíveis foram o RRIM 526 e o PB 252. Dos isolamentos efetuados, em laboratório, constatou-se os fungos Botryodiplodia theobromae e Phomopsis SP. associados às lesões.

PALAVRAS-CHAVE:
Clones; anomalia de casca; fungos.

SUMMARY

In July 1988, abnormalities were noted in the bark of eight-month-old trees in a clonal observation field at the Escola Superior de Agricultura ' 'Luiz de Queiroz' ' of the university of São Paulo. The abnormalities were characterized by bark cankers of different sizes, longitudinal craks associated or not with latex drainage and superficial scaling localized at the medium portion of the stems. The lesions were frequently associated with bark girdling and affected the development of the trees. Incidence and severity assessments indicated that among IO clones, the most susceptible were RRIM 526 and PB 252 (with all of the plants affected with 52.11% and 40.46% of the total area of the bark affected respectively).

KEY-WORDS:
Rubber tree clones; bark abnormality; fungi.

A indicação de clones resistentes a patógenos, produtivos e adaptados a diferentes regiões edafoclimáticas tem sido uma das principais preocupações da pesquisa em heveicultura (GONÇALVES et al. , 1982). Para isto, existe a necessidade de se efetuarem competições regionais com diferentes materiais, procedendo-se o monitoramento periódico quanto ao desenvolvimento das plantas, ocorrência de agentes patogênicos e das condições climáticas, uma vez que estas exercem grande influência na incidência e severidade de ataque dos patógenos. Segundo CARDOSO (1986), cpm a expansão da heveicultura para áreas não tradicionais, patógenos já conhecidos ou novos poderão constituir problema, necessitando uma vigilância constante nos novos plantios para se evitar futuros prejuízos.

Em julho de 1988, foram coletadas hastes de plantas enxertadas, com 8 meses de idade, do campo de competição de clones da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz , Piracicaba, que revelaram a presença de cancros arredondados de tamanho variado de 0,1 a 0,7cm de diâmetro (Figura 1). Estes cancros apresentavam fendilhamentos longitudinais da casca de 0,5 a 2,0cm de largura por 1,0 a 6,0cm de comprimento e se localizavam, principalmente na região correspondente ao fluxo de brotações foliares, da porção mediana para a base da haste (Figura 2). Em alguns casos foi observada a ocorrência de anelamento da casca e secamento superficial da mesma. As primeiras camadas do córtex apresentavam-se descoloridas, sendo atingidos os vasos laticíferos, cujo látex esxudava com cor amarelada. Esta anomalia não atingiu a região cambial. Em algumas plantas, no campo, foi notado o secamento total das folhas, que permaneceram aderidas ao caule, apresentando coloração verde claro uniforme. As plantas mais atacadas apresentaram uma brotação intensa logo abaixo da área lesionada (Fig.3).

FIGURA 1
Haste de seringueira com cancros arredondados. Foto: J.O.M. Menten.

FIGURA 2
Haste de seringueira com fendilhamento e escamamento de casca. Foto: J.O.M. Menten.

FIGURA 3
Plantas doentes com brotação intensa na porção inferior da haste. Foto: J.O.M. Menten.

Face 'a importância crescente da heveicultura no Estado de São Paulo, cujo sucesso depende da escolha adequada do material clonal para cada região, considerou-se interessante o registro desta ocorrência para alertar os heveicultores e técnicos envolvidos em pesquisa e assistência técnica assim como mostrara reação de diferentes clones a esta anomalia.

Através de isolamentos efetuados em meios de cultura ágar-água e batata-dextrose-ágar, constatou-se a presença de fungos saprófitas e patógenos fracos como Cladosporium sp., Botryodioplodia SP. e Phomopsis sp., os quais foram inoculados em plantas sadias mas não repetiram os sintomas iniciais. Deve-se salientar que cerca de dois meses antes da constatação dos referidos sintomas, os termômetros do abrigo do posto m eteorológico localizado próximo ao seringal registraram temperatura mínima de 0,6°C e ocorreram ventos frios em maio e junho.

Na literatura consultada existem algumas referências a determinados tipos de lesões de casca na cultura da seringueira . ROSSETTI (1959) e BERGAMIN FILHO & CARDOSO (1980), descrevem o "cancro de hastes das mudas" e ' 'cancro do caule' ' , como sendo de origem fisiológica (excesso de calor no solo e queimadura das hastes causadas pelo calor solar, respectivamente) provocando, assim, aberturas por onde penetram parasitas fracos como Diplodia, Phoma, Fusarium e Glomerella.

No Ceilão (Sri Lanka), PERIES e SATCHUTHAN ANTHAVALE (1964) relataram a incidência, sintomas e histologia da doença conhecida como fendilhamento da casca (bark cracking). Segundo estes autores esta doença foi primeiramente relatada na India por Boblioff, em 1930, nos clones PR 108 e WR 51 , não associando o problema a patógenos. Estes autores ainda citam outras referências efetuadas a esta doença na Malásia, por Baptiste (comunicação pessoal) e Shepphard (comunicação pessoal) nos clones PB 86 e PB5/ 63, e no Ceilão, em 1957, por Riggenbach, no clone PB 86, concluindo que esta característica era devido ao clone ser de alta produção.

Os sintomas descritos por PERIES e SANTCHUTHAN ANTHAVALE (1964), foram mais observados em árvores jovens, entre 2 e 5 anos de idade, consistindo de fendilhamentos longitudinais variando de 0,3 a 8,0cm de comprimento por 0,1 a 2,0cm de largura, apresentando-se superficiais e danificando os vasos laticíferos provocando o extravasamento do látex e o escorrimento do mesmo sobre a casca. Em isolamentos realizados, constatou-se a presença de bactérias, não se demonstrando, no entanto, a sua patogenicidade e também não encontraram correlação entre a incidência com fatores de solo e condições ambientais.

Na região Amazônica, incluindo vários seringais do Acre e Rondônia, existe alta incidência de doenças que atingem a casca da seringueira (GASPAROTTO et al., 1984). Os maiores danos no tronco verifica-se nas faces norte e Nordeste, onde incide maior radiação solar. Em alguns casos o superaquecimento parece ser um dos fatores físicos mais importante pela disfunção fisiológica. A infecção posterior pelo fungo Botryodiplodia theobromae é facilitada pela alta umidade atmosférica.

Segundo ORTOLANI (1986), nas áreas mais continentais do Mato Grosso, apresenta de maio a setembro, um amplitude térmica muito elevada, causando danos aos troncos como: alterações e podridões dos tecidos da casca, exsudação de látex e infecção por fungos secundários. Do qual supõe-se a existência de uma interação entre os extremos de temperatura, sendo a temperatura mínima a causa principal do rompimento dos vasos laticíferos. Acrescenta ainda, a escaldadura, que ocorre com frequência em regiões com veranico, quando as temperaturas do caule atingem valores acima de 45 °C, a qual é comum em viveiros com mudas até 4 meses e plantios jovens até 2 anos. Dados esses que se aproximam bastante da situação vivida pelas plantas analisadas, em Piracicaba, que inicialmente sofreram com baixas temperaturas, e em seguida com veranicos e altas temperaturas no tronco, ocasionando lesões pelo frio e por escaldadura, o que pode ter possibilitado a ação dos patógenos fracos como Phomopsis e Botryodiplodia que penetraram e colonizaram os tecidos das plantas em "stress", cuja patogenicidade não pode ser comprovada, em plantas sadias, na ausência deste.

Com a finalidade de se verificar a extensão do problema, no campo, e quais os clones mais atingidos, optou-se por um levantamento no local onde está sendo conduzido o experimento de competição, localizado em área de meia encosta, na área experimental da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, com IO clones (RRIM 600 PB 235, PR 107, RRIM 526, IAN 873, CATI 21 , GT l , PR 261 , PB 252 e IAC 15), distribuídos em cinco blocos, com 20 plantas por parceIa, em espaçamento de 7 x 3m. A quantificação da doença foi feita através da incidência (percentagem das plantas com sintomas) e da severidade (percentagem da superfície de tronco lesionada), considerando-se 50cm da parte mediana da haste principal, em IO plantas por parcela, totalizando, portanto, 50 plantas por clone, cujos resultados obtidos estão apresentados no Quadro I .

Pelos dados do Quadro I verifica-se que os clones com maior número de plantas com sintomas são o RRIM 526 e o PB 252, porém os mesmos não apresentam diferença significativa com 0 PR 107, PB 235, CATI 21 e IAC 15, pelo teste de Tukey (5%); por outro lado o clone PR 261 foi o que apresentou menor número de plantas com sintomas, diferindo significativamente dos clones acima, exceto o IAC 15.

A quantificação dos sintomas nos ramos da seringueira pode ser expressa de maneira mais adequada através da severidade, ou seja, a porcentagem de área lesionada (Quadro I).

Por estes dados verifica-se que o clone RRIM 526 foi o mais suscetível com 52, 11% da superfície do ramo ocupada pelas lesões, seguido pelo PB 252, com 40,46%. Os demais apresentaram pequena superfície afetada, constituindo-se em materiais bem mais resistentes que os dois primeiros.

Quanto aos dados referentes ao número de cancros, por planta, observamos que o clone RRI 526 apresentou mais de uma lesão por planta, enquanto que o PB 252 apersentou, aproximadamente, uma lesão a cada duas plantas. Além destes o clone PR 107 , PB 235 e o GT I também tiveram as hastes com cancros. O tamanho dos mesmos variou de 4,76cm2 a 1,01cm2 .

Pelos resultados obtidos pode-se afirmar que existe uma diferença clonal marcante quanto a suscetibilidade dos tecidos da haste ao agente causal dos cancros. Os dados de severidade nos mostram que os clones RRIM 526 e PB 252 foram severamente afetados e devem ser mantidos em observação por mais tempo antes de serem cultivados em larga escala, pelo menos até que o agente causal seja identificado, além de se verificar a influência do ambiente no agravamento do quadro sintomatológico e de se verificar as possibilidades de controle.

TABELA 1
Incidência, severidade e características de cancros da haste em IO clones de seringueira. Piracicaba - SP. , 1988.

FIGURA 4
Ramos recém-brotados livres de sintomas. Foto: J.O.M. Menten.

Plantas severamente afetadas pela doença, tiveram ramos podados, o que possibilitou o desenvolvimento de brotos e lançamentos livres de sintomas (Figura 4). Entretanto, novos estudos devem ser desenvolvidos visando o equacionamento e melhor compreensão do problema.

  • *
    Trabalho apresentado no 22.°Congresso Brasileiro de Fitopatologia, julho de 1988, Recife - PE.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • 1 BERGAMIN FILHO, A. & CARDOSO, C.O.N. Doenças da seringueira. ln-: Galli, F. Manual de Fitopatologia, São Paulo. Ed. Agronômica Ceres, Vol. II, Cap. 32, p. 459-474, 1980.
  • 2 CARDOSO, R.M.G. Doenças da seringueira no Estado de São Paulo. Anais do I Simpósio da Cultura da Seringueira no Estado de São Paulo, Piracicaba- SP., p. 165-72, 1986.
  • 3 GASPAROTIO, L.; TRINDADE, D.R.; SILVA, H.M. Doenças da seringueira. Centro Nacional de Pesquisa de Seringueira e Dendê (CNPSD-EMBRAPA), Manaus, AM. Circular Técnica n.º 4, 71pp. 1984.
  • 4 GONÇALVES, P.S.; PAIVA, J.R.; TRINDADE, D.R.; VALOIS, A.C.C. VIEGAS, I.J.M. Comportamento preliminar de alguns clones de seringueira. Pesq. Agropec. Bras., 17(10):1456-77, 1982.
  • 5 ORTOLANI, A.A. Agroclimatologia e o cultivo da seringueira. Anais do I Simpósio da Cultura da Seringueira no Estado de São Paulo. Piracicaba - SP. p. 11-33, 1986.
  • 6 PERIES, O.S.&SATCHUTHAN ANTHA VALE, R. lncidence symptoms and histology of bark cracking in Hevea brasiliensis Muell. Arg. Tropical Agricu/ture 41(4):265-76, 1964.
  • 7 ROSSETII, V.V. Doenças da seringueira. Biológico. 25:266-72, 1959.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jan-Dec 1990

Histórico

  • Recebido
    21 Maio 1990
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Instituto Biológico Av. Conselheiro Rodrigues Alves, 1252 - Vila Mariana - São Paulo - SP, 04014-002 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: arquivos@biologico.sp.gov.br
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