Open-access EFEITO DE DIVERSOS NÍVEIS DE DESFOLHA ARTIFICIAL EM DIFERENTES ÉPOCAS, SOBRE A PRODUÇÃO DE TOMATE RASTEIRO*.

Effect of several levels of artificial defoliation over creeper tomato production in different periods.

RESUMO

O presente trabalho visou estabelecer uma relação entre os níveis de desfolha, em diferentes épocas de desenvolvimento da cultura de tomate, e sua influência na produção.Os tratamentos consistiram em cinco níveis de desfolha (0, 25, 50, 75 e 100%) em cinco diferentes estágios fenológicos da cultura (15, 30, 45, 60 e 75 dias após a germinação).

Os dados obtidos revelaram que uma desfolha de 25%, efetuada em qualquer época do ciclo cultural, não interferiu na produção enquanto que uma desfolha de 100%, nas diferentes fases da cultura, reduziu significativamente a produção. Além disso, observou-se que os índices de 50% e 75% de desfolha prejudicaram a produção quando efetuados aos 30 dias, embora não tenham interferido quando realizados aos 15 e 45 dias, podendo até ser favoráveis como foi constatado na desfolha de 75% aos 60 dias.

PALAVRAS-CHAVE:
desfolha artificial; produção; tomate rasteiro.

SUMMARY

This work aimed to determine relation among levels of defoliation in different periods of tomato development and their influence in plant production. Treatments consisted of five desfoliation levels (0, 25 , 50, 75 and 100%) in five different culture phenological phases (15, 30, 45, 60 and 75 days after germination).

Obtained data revealed that 25% defoliation effected in any period of cultural cycle did not interfere in tomato production, while 100% defoliation reduce production in the different phases of culture. Besides, levels of 50% and 75% of defoliation harmed production at 30 days, though did not interfere when performed at 15 and 45 days and also showing favourable action like it was observed in 75% defoliation at 60 days.

KEY-WORDS:
Artificial defoliation; creeper tomato; production.

INTRODUÇÃO

Os insetos pragas que reduzem a área foliar da cultura de tomate podem ser agrupados em três categorias de acordo com seus hábitos alimentares: sugadores, desfolhadores (ou mastigadores) e minadores. Dentre os sugadores, cuja maior importância é a transmissão de doenças, além do bronzeamento, engruvinhamento e secamento das folhas, destacam-se o tripes Frankliniella schulzei Trybom, 1920, o pulgão Myzus persicae (Sulz., 1776), a mosca branca Bemisia tabaci(Genn., 1889), o percevejo Corythaica cyathicollis (Costa, 1864) e os ácaros Tetrany chus urticae (Koch, 1836) e Aculops lycopersici (Massae, 1937). Os mastigadores são de importância regionalizada e esporádica compreendendo os coleópteros Diabrotica speciosa (Germ., 1824), Epicauta atomaria (Germ, 1821) e Lagria villosa Fabr., 1783 além de lagartas dos gêneros Spodoptera e Plusia. Na categoria dos minadores encontram-se as pragas chaves da cultura como a traça Scrobipalpula absoluta (Meyrick, 1917) e a mosca minadora Liriomyza spp.. Além das pragas, outro fator de redução da área foliar é a chuva de granizo que apesar de estacional e regional pode ocasionar até 100% de dano.

Apesar dos métodos de controle de pragas existentes, raras pesquisas estabelecem níveis de danos específicos para as diferentes culturas ou seja, poucos dados relacionam a perda da área foliar com a produtividade. SMITH & BASS (16) determinaram o número de lagartas de Heliothis zea (Boddie, 1850) por metro linear que ocasionaram danos econômicos em soja. STONE & PEDIGO (17) analisaram em que fase de desenvolvimento o inseto Plathypena scabra (Fabricius) causa mais danos à cultura de soja e seus reflexos na produção. REID & GREENE (13) mediram a àrea foliar de soja consumida por larva de Pseudoplusia includens Walker, 1857.

Quanto ao nível de suporte da cultura de tomate nada foi encontrado na literatura brasileira, embora pesquisas já tenham sido efetuadas em culturas de feijão, soja e essências florestais (2, 3, 4, 5, 9,14).

O objetivo do presente trabalho foi determinar o efeito de diversos níveis de desfolha em diferentes épocas na produção de tomate, visando correlacionar os dados obtidos com os danos provocados pelas pragas.

MATERIAL E MÉTODOS

Instalou-se no município de São José dos Campos (SP), no período de junho a outubro de 1984, ensaio de desfolha artificial em tomate rasteiro variedade Petomech, utilizando-se parcelas de 24m2 com 20 plantas úteis. A área do ensaio foi submetida a todas as técnicas culturais recomendadas, evitando-se a ocorrência de danos alheios à desfolha proposta. O delineamento utilizado foi o de blocos casualizados com IO tratamentos e 4 repetições. Os tratamentos consistiram de 5 níveis de desfolha em 5 diferentes estágios fenológicos da cultura. Os níveis de desfolha utilizados foram:

1) 0%

2) 25% - eliminação do folíolo apical de todas as folhas.

3) 50% - eliminação dos quatro folíolos centrais de todas as folhas.

4) 75% - eliminação dos folíolos laterais de todas as folhas, deixando-se apenas o apical.

5) 100% - eliminação total dos folíolos de todas as folhas.

As épocas em que foram efetuadas as desfolhas foram:

a) 15 dias após a germinação.

b) 30 dias após a germinação - início do florescimento.

c) 45 dias após a germinação.

d) 60 dias após a germinação - início da frutificação.

e) 75 dias após a germinação.

A colheita dos frutos iniciou-se ao redor de 90 dias após o transplante das mudas. Os frutos foram pesados e os resultados obtidos foram analisados pelo teste de Tukey ao nível de 5% de probabilidade estabelecendo-se que as médias seguidas da mesma letra não diferem significativamente entre si.

A título de uma observação preliminar efetuou-se no período de janeiro a maio de 1984, na Estação Experimental do Instituto Biológico de Campinas, em tomate estaqueado variedade Ângela, ensaio semelhante com o objetivo de determinar o nível de desfolha suportado pela cultura sem efeitos danosos na produção.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O ciclo cultural do tomateiro completa-se ao redor de 120 dias (início da colheita). Sabe-se que por volta dos 30 dias inicia-se o florescimento e aos 60 dias a frutificação. Entre 80-90 dias tem-se o período de formação do maior número de frutos. Para o tomate estaqueado o crescimento vegetativo inicial é lento nos primeiros 30 dias, a partir dos quais acelera-se atingindo o crescimento máximo das folhas no início do florescimento. Durante a fase de frutificação observa-se uma drástica redução de crescimento de folhas e caule. Para o tomate rasteiro o desenvolvimento vegetativo é contínuo atingindo seu máximo no início da frutificação. Ao término da frutificação observa-se a relação de I fruto para cada 3 folhas. O crescimento das raízes registra-se até 80 dias após a semeadura (11).

A tabela I apresenta a produção média por tomateiro (g/pé) de tomate estaqueado variedade Ângela no município de Campinas (SP). Devido à grande variação do número de plantas nas parcelas, provocada por motivos adversos e alheios ao tratamento, efetuou-se apenas uma análise exploratória dos dados, considerando-se os resultados a nível de tendência. Houve efeito significativo tanto da época como do porcentual de desfolha embora não se tenha verificado uma interação entre os dois fatores, isto é, ambos agem independentemente sobre a planta. O retardamento da desfolha parece desfavorecer a capacidade de recuperação da planta, interferindo na produção; o aumento do porcentual de desfolha foi prejudicial; entretanto foi observado que o nível de 25% e a desfolha aos 45 dias foram perfeitamente suportados.

A tabela 2 apresenta a produção média por tratamento (g/80 plantas) de tomate rasteiro variedade Petomech no município de São José dos Campos (SP). Observa-se que uma desfolha de 25% não afetou significativamente a produção, enquanto o nível de 100% provocou redução em qualquer época do ciclo cultural comparativamente à testemunha. A desfolha de 50% interferiu significativamente quando efetuada aos 30 dias, não diferindo da testemunha quando executada nas demais épocas de tratamento. O nível de 75% de desfolha, efetuado aos 30 e 75 dias, ocasionou redução em relação à testemunha. Dessa forma salienta-se a maior sensibilidade da cultura, relativa à perda de área foliar, durante os períodos de início do florescimento (30 dias) e início da formação do maior número de frutos (75 dias). As parcelas reservadas para desfolha aos 60 dias apresentaram respostas atípicas, cujas causas não foram identificadas, inclusive para a testemunha, motivo pelo qual não foram consideradas e discutidas para efeito do trabalho em questão.

TABELA I
Produção média por tratamento (g/pé) de tomate estaqueado variedade Ângela. Campinas - SP 1984.
TABELA 2
Produção média por tratamento (g/80 plantas) de tomate rasteiro Petomech. São José dos Campos-SP, 1984.

SAITO & ITO (15) observaram, em plantas jovens de tomateiro, que a remoção de folhas maduras abaixo do 8.0 nó provocou um retardamento no florescimento com formação de flores estruturalmente menores. A remoção de folhas imaturas acima do 3.0 nó resultou em flores estruturalmente maiores. KINET (8) observou uma inibição do florescimento provocado pelas folhas jovens, constatando que a remoção das mesmas induzem ao florescimento.

HURKA (6) comparando a remoção de folhas doentes e amarelas com o desfolhamento total, no início do amadurecimento dos frutos, constatou uma redução de 6 a 12% na produção do tomateiro; a desfolha em plantações mais jovens não afetou a produção. Segundo MEHWALD (10) o efeito da desfolha foi maior quando efetuada de uma só vez e menor 50% 75% 100% x quando realizada em duas épocas, resultando em quebra de 8, 15% na produção de tomate. O autor observou um incremento de 2 a 4% na produção em caso de desfolha precoce obtendo frutos menores.

No presente trabalho constatou-se, em média, uma quebra de 25 ,5% na produção em Campinas e 34,6% em São José dos Campos, quando efetuada uma desfolha de 100%.

JONES ( 7) removeu de 60 a 80% da folhagem do tomateiro antes de constatar um decréscimo de produção estatisticamente significativo, concluindo que o tomateiro produz uma área de fotossíntese consideravelmente maior que a necessária para sua produção máxima. Segundo este autor, a redução de produção deveu-se principalmente a não formação de frutos e não pela redução de seu tamanho.

Diversos autores trabalhando com a cultura de feijão já demonstraram que, sob o ponto de vista prático, maior atenção deve ser dada à perda de área foliar durante o período de florescimento (3,4) HOMANN & CARVALHO (5) verificaram maiores reduções no número de vagens/planta e peso de grãos quando a desfolha ocorria na época de floração e formação de vagens. LINK et al. (9) observaram diferenças na resposta das variedades estudadas, embora tenham concluído que todas revelaram redução na produção quando a desfolha ocorreu no início da frutificação.

Pesquisas efetuadas em cultura de soja evidenciam seu período de maior sensibilidade para a perda de área foliar. BORTOLI et al. (2) verificaram perdas significativas em níveis de 67% e 100% de desfolha aplicados durante o florescimento, afetando número, peso de vagens e peso de grãos. Segundo BEGUM & EDEN (1) o período crítico situou-se na época de formação de grãos, quando todos os graus de desfolha provocaram redução na produção. TURNIPSEED (18) concluiu que as desfolhas mais prejudiciais foram aquelas superiores a 50% e ocorridas nos períodos de formação de vagens e entre o florescimento e formação de vagens; além disso observou que os níveis de 17% e 33% de desfolha possibilitam maior penetração de luz entre as folhas mais baixas, resultando numa compensação através do incremento de sua atividade fotossintética. RAMIRO & OLIVEIRA (12), observaram influências significativas dos diferentes níveis de desfolha em relação ao número de vagens e peso das sementes, não verificando interferências no número de sementes produzidas por vagem.

Os dados encontrados em literatura e as observações efetuadas no presente ensaio nos permitem alertar a existência de períodos críticos, relativos ao nível de suporte de perda da área foliar para as diferentes culturas, isto é, as culturas podem reagir satisfatoriamente, não suportar ou serem favorecidas por determinado nível de desfolha, conforme o período fenológico em que é efetuado. Da mesma forma, os diversos níveis de desfolha, dentro de uma determinada fase cultural, podem fornecer respostas diferentes. Salienta-se assim a importância de estudos sobre a fenofase e os níveis de suporte das diferentes culturas ao ataque de pragas.

CONCLUSÃO

Nas condições do experimento os dados obtidos nos permitem concluir que:

- o nível de 25% de desfolha, efetuado em qualquer época do ciclo cultural não diferiu significativamentes da testemunha.

- o nível de 100% de desfolha reduziu significativamente a produção em todos os estágios fenológicos da cultura.

- os níveis de 50% e 75% de desfolha prejudicaram a produção quando efetuados aos 30 dias (início do florescimento), embora não tenham interferido quando realizados aos 15 e 45 dias após a germinação.

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem aos pesquisadores científicos Soyako Chiba e Domingos A. Oliveira da Seção de Bioestatística do Insitituto Biológico SP..

  • *
    Projeto subvencionado pela EMBRAPA.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jan-Dec 1990

Histórico

  • Recebido
    13 Set 1990
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