RESUMO
Efeitos de herbicidas sobre os fungos Rhizoctonia solani (Kuehn) e Colletotrichum gossypii (South) causadores de doenças em sementeiras de algodoeiro, foram testados 'in vitro' ' , em meio de cultura batata-dextrose-agar (BDA). Os herbicidas utilizados nos testes foram o alacloro, o diuron, o metolacloro, o MSMA, o pendimetalin, a prometrina e a trifluralina.
Os resultados mostraram que todos os herbicidas, mesmo nas concentrações mais baixas inibiram o desenvolvimento dos fungos. O alacloro, o metolacloro, o MSMA, o pendimetalin e a trifluralina foram os produtos de maior efeito para o fungo R. solani e o alacloro, o MSMA, o metolacloro e o diuron em relação ao fungo C. gossypii. Verificou-se, também, que a ação dos herbicidas foi fungistática.
PALAVRAS-CHAVE:
Agrotóxicos•; fungos; solo.
SUMMARY
Effects of several herbicides on growth of Rhizoctonia solani (Kuehn) and Colletotrtchum gossypii (South) were evaluated "in vitro" in PDA media (Potato-Dextrose-Agar). The herbicides studied were: alachlor, diuron, metolachlor, MS. MA, pendimethalin, prometryne and trifluralin. The results showed that all herbicides have inhibitory action on the fungi even at the lowest concentrations. Alachlor, metolachlor, MSMA, pendimethalin and trifluralin had the more pronounced action on the fungus R. solani and alachlor, MSMA, metolachlor and diuron on the fungus C. gossypii. The effect of the herbicides was fungistatic.
KEY-WORDS:
Pesticides; fungus; soil.
INTRODUÇÃO
O algodoeiro é uma planta muito suscetível a fungos de solo, responsáveis por doenças que incidem nas sementeiras, sendo este um fator limitante no rendimento da cultura.
De um modo geral, para que uma doença ocorra é necessário que haja uma interação compatível entre patógeno e hospedeiro. Os herbicidas, seja por sua molécula original ou metabólitos de sua degradação, podem intervir nessa interação, resultando em aumento ou decréscimo na incidência ou no grau de patogenicidade da doença, Esses produtos podem também, modificar o equililyio biológico do solo provocando o aparecimento de novas doenças ou eliminando por completo as já existentes.
PINCKARD & STANDIFER (14) constataram aumento de ' 'damping off' ' causado por Rhizoctonia solani em algodoeiro quando a cultura foi tratada pelo herbicida trifluralina, resultado confirmado por NEUBAUER & AVIZOHAR-HERSHENSON (13) que atribuiram esse efeito ao aumento da atividade saprófita dos fungos no solo. ALTMAN et ROSS (1, 2) relataram um aumento de "damping off" em plântulas de beterraba açucareira em campo tratado por pebulate e PCA.
Por outro lado, HUBER et alii (8) relataram a redução em 50% da incidência e severidade da podridão de raízes causada por Cercosporella herpotrichoides e Rhizoctonia solani em trigo de inverno após a aplicação de diuron. MILLER & AHRENS (11) mostraram que o patógeno pode ser reduzido por um período prolongado, como no caso da podridão causada por Rhizoctonia em uma espécie de conífera quando o herbicida simazina foi aplicado durante um período de dois anos.
Há indicações de que os herbicidas estimulam a população do organismo antagónico, diminuindo a do patógeno, conforme constataram CURL et alii (5) em que Sclerotium rolfsii sofreu inibição devido ao seu antagônico Trichoderma viride ter sido estimulado pelo tratamento do solo com simazina.
Estudos "in vitro" mostram que algumas espécies de patógenos como Fusarium, Helminthosporium, Rhizoctonia e Sclerotium, são parcialmente ou completamente inibidos por baixas doses de herbicidas, como mostram os trabalhos de RICHARDSON (15), BOZARTH & TWEEDY (4) RODRIGUEZ-KABANA et alii (17), MILLIKAN & FIELDS (12).
No Brasil, trabalhos "in vitro" sobre o desenvolvimento dos fungos Fusarium oxysporum f. vasinfectum e Verticillium albo-atrum causadores de murcha em algodoeiro foram desenvolvidos por MACEDO & CHIBA (9) e MACEDO et alii (10) que constataram uma inibição do crescimento desses fungos por diversos herbicidas.
Desde que os herbicidas estão sendo usados extensivamente nas culturas, especialmente de algodoeiro, e como poucos trabalhos existem sobre o assunto, no Brasil, é de interesse determinar a extensão da influência desses produtos químicos na relação doença-planta.
MATERIAL E MÉTODOS
O efeito dos herbicidas sobre o crescimento micelial foi determinado "in vitro" usando-se a seguinte técnica: em meio de cultura BDA (batata-dextrose-agar), à temperatura de 50°C foram misturados herbicidas nas concentrações de o (testemunha) 0,1 , 0,5, 1,0, 2,0 , 3,0 , e 10,0 mg/ml de ingrediente ativo de cada produto. Em seguida, 20ml dessas misturas foram distribuidas em placas de Petri, sendo inoculado à temperatura ambiente, no centro das placas, um disco de 8mm dos fungos Rhizoctonia solani e Colletotrichum gossypii que haviam sido cultivados durante tres dias em meio de cultura BDA. Como testemunha foram utilizadas placas de Petri contendo apenas o meio de cultura.
A incubação das placas foi realizada a 26°C sob luz alternada, sendo o diâmetro de crescimento das culturas medido diariamente. O crescimento nas placas-testemunhas para o fungo R. solani, atingiu o limite das mesmas, 3 dias após a inoculação, e as com o fungo C. gossypii demoraram IO dias para esse limite ser atingido.
Os herbicidas utilizados para os dois fungos usados de acordo com as recomendações para a cultura foram: alacloro (a), diuron(b ), metolacloro(c ), MSMA(d), pendimetalin(e ), prometrina(f), trifluralina(g).
Os experimentos foram realizados segundo um delineamento experimental em blocos casualizados com 8 tratamentos e 4 repetições.
Após os resultados terem sido avaliados, foram feitas repicagens das culturas das placas tratadas para um meio BDA libre de herbicidas com a finalidade de verificar se o micélio dos fungos tornaria a crescer normalmente. Os dados de desenvolvimento do micélio (diâmetro da colônia) de R. solani, aos 3 dias, e de C. gossypii aos IO dias, foram submetidos a análise de variância ao nível de 5% de probabilidade, sendo o mesmo usado para as comparações das médias pelo teste de Tukey.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
O crescimento de R. solani após 3 dias e C. gossypii após IO dias em função do tratamento com herbicidas podem ser observados nas figuras l, 2 e 3. Os histogramas mostram as médias de desenvolvimento dos dois fungos, nas diversas diluições de cada herbicida, quando comparados pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade.
Com relação ao fungo R. solani, observa-se que houve variação na intensidade dos sintomas conforme o herbicida usado. A maior parte dos herbicidas mostrou um efeito imediato sobre esse fungo, mesmo em concentrações baixas, o que é verificado pela redução do diâmetro de crescimento do fungo em relação à testemunha, 24 hs após a aplicação do herbicida.
Os herbicidas MSMA, metolacloro, alacloro, trifluralina e pendimetalin foram os que mostraram maior efeito de inibição ao fungo (Figura I e 3). O diuron e prometrina somente em concentrações mais altas mostraram efeito no crescimento do mesmo. (Figura l).
Para C. gossypii os resultados foram semelhantes: todos os herbicidas usados inibiram o desenvolvimento do fungo, mesmo nas concentrações mais baixas. Os herbicidas MSMA, alacloro, metolacloro e diuron mostraram maior efeito mesmo nas menores concentrações (Figura 2). Já os herbicidas prometrina, pendimetalin, trifluralina mostraram uma influência menor no desenvolvimento do fungo, (Figura 2 e 3).
Desenvolvimento do fungo Rhizoctonia solani em funqäo de diferentes concentraqöes dos herbicidas alacloro, diuron, metolacloro, MSMA, prometrina e pendimetalin, em meio de cultura. Avaliaqäo realizada 3 dias ap6s a inoculaqäo.
Desenvolvimento do fungo Colletotrichum gossypii em funqäo de diferentes concentraqöes dos herbicidas alacloro, diuron, metolacloro, MSMA, prometrina e pendimetalin, em meio de cultura. Avaliaqäo realizada 10 dias apos a inoculaqäo.
Desenvolvimento dos fungos Rhizoctonia solani (a) e Colletotrichum gossypii (b) em função de diferentes concentrações do herbicida trifluralina, em meio de cultura. Avaliação realizada aos 3 e IO dias respectivamente, após a inoculação.
Esses resultados são semelhantes aos obtidos anteriormente por MACEDO & CHIBA (9) e MACEDO et alii (10), quando utilizaram os fungos Fusarium oxysporum f. vasinfectum e Verticillium albo-atrum, em trabalhos "in vitro" para os mesmos herbicidas.
BAIN (3) em experimento "in vitro" , conseguiu também inibição do crescimento de Rhizoctonia SP. após 24 hs da aplicação de herbicidas; da mesma forma RODRIGUESKABANA et alii (16) inibiram o crescimento do fungo R. solani em meio de cultura líquido em várias concentrações dos herbicidas atrazina, diuron, paraquat e EPTC. Trabalhando em casa de vegetação, GRINSTEIN et alii (7) conseguiram um significativo aumento da resistência de plantas de solanaceas ao fungo Rhizoctonia, usando várias concentrações do inóculo e dos herbicidas nitralina, butralina, dinitramina e trifluralina. Em experimento de campo EL-KHADEN et alii (6) não obtiveram nenhum efeito quando aplicaram três doses de prometrina e dalapon em campo infestado por Rhizoctonia solani.
Os herbicidas tiveram também influência no aspecto das colónias dos fungos crescidos nas placas; houve uma mudança na coloração dos mesmos, tornando-se mais densos, enrugados e com coloração mais escura que o normal, porém esse efeito foi reversível, pois quando os fungos foram transferidos para meio de cultura BDA não tratado com herbicida, o crescimento foi semelhante à testemunha.
Os resultados obtidos dão indicação do efeito que esses herbicidas podem causar aos fungos R. solani e C. gossypii. No entanto trabalhos posteriores serão necessários, utilizando o solo como substrato, onde a presença dos microrganismos antagónicos pode exercer influência nos resultados.
CONCLUSÕES
Os fungos R. solam (Kuehn) e C. gossypii (South) causadores de doenças em sementeiras de algodoeiro, quando cresceram em meio de cultura contendo herbicidas sofreram uma açáo inibitória no seu desenvolvimento. Os herbicidas que tiveram maior açáo sobre o fungo R. solani foram alacloro, metolacloro, MSMA, pendimetalin e trifluralina, mesmo em baixa concentração. O diuron e prometrina só apresentaram efeito nas doses mais concentradas. Sobre o fungo C. gossypii, os herbicidas alacloro, diuron, metolacloro e MSMA mostraram maior açáo em relação ao pendimetalin, prometrina e trifluralina. O tipo de ação dos herbicidas foi o de produtos fungistáticos porque somente inibiram temporariamente o desenvolvimento dos fungos, não chegando a matar os mesmos.
AGRADECIMENTO
Os autores agradecem so Dr. Hélio García Blanco as sugestões dadas na redaçáo desse trabalho.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS
- 1 ALTMAN, J.; ROSS, M. Plant pathogens as - possible factor in unexpected preplant herbicide damage in sugarbeets. Plant Dis. Rep. 51:86-8, 1967.
- 2 ALTMAN, J.; ROSS, M. Plant pathogens as a possible factor in unexpected pr_eplant herbicide damage in s11garbeets. Phytopathology 55:1051, 1965.
- 3 BAIN, D.C. Effect of various herbicides on some soil fungi in culture. Plant. Dis Rep., 45:814-17, 1961.
- 4 BOZARTH, G.A.; TWEEDY, B.G. Effect of pesticides on growth and sclerotial production of Sclerotium rolfsii. Phytopathology 61:ll40-42, 1971.
- 5 CURL, E.A.; RODRIGUES-KABANA, R, & FUNDERBURK Jr, H.H. Influence of atrazine and varied carbon and nitrogen amendrnents on growth of Sclerotium rolfsii and Trichodenna viride in soil. Phytopathology 58:323-28, 1968.
- 6 EL-KHADEM, M.;ELKAZZAZM.K. andHASSAN,M.A. lnfluence of different pre-ernergence herbicides on cotton diseases caused by Rhizoctonia solani and Fusarium oxysporom f. sp. vasinfectum. Plant and Soil 79:29-36, 1984.
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- 9 MACEDO; E.C. & CHIBA, S. Influência de herbicidas residuais no crescimento "in vitro» de Verticillium albo-atrom (Reinke & Berth) causador da murcha do algodoeiro. Biológico 51:285-90, 1985.
- 10 MACEDO, E.C.; BLANCO, H.G. & CHIBA, S. Efeito de herbicidas residuais no desenvolvimento "in vitro" do fungo causador da fusariose do algodoeiro. Biológico, 50:103-13, 1984.
- 11 MILLER, P.M. & AHRENS, J.F. Effect of an herbicide, a nernatocide, anda fungicide on Rhizoctonia infestation of Taxus. Phytopathology 54:901, 1964.
- 12 MILLIKAN, D.F. and FIELDS, M.L. Influence of some representative herbicida( chemicals upon the growth of sorne soil fungi Phytopathology 54:901, 1964.
- 13 NEUBAUER, R. & AVIZOHAR-HERSHENSON, Z. Effect of the herbicide tri,fluralin, on Rhizoctonia disease in cotton. Phytopatho/ogy 63:651-52, 1973.
- 14 PINCKARD, J.A. & STANDIFER, L.C. An apparent interaction between cotton herbicida! injury and seedling blight. Plant. Dis. Rep. 50:172-4, 1966.
- 15 RICHARDSON, L.T. Effect of inseticides and herbicides applied to soil on the development of plant diseases. II- Early blight and Fusarium wilt of tomato. Can. J. Plant Sei, 39:30-38, 1959.
- 16 RODRIGUEZ-KABANA, R.; CURL, E.A. and FUNDERBURK Jr.H. H. Effect of four herbicides on growth of Rhizoctonia solani. Phytopathology, 56:1.332°33, 1966.
- 17 RODRIGUEZ-KABANA, R.; CURL; E.A. and FUNDERBURK, Jr.H.H. Effect of trifluralin on growth of Sclerotium rolfsii in liquid culture and soil Phytopathology 59:228-32, 1969.






