RESUMO
Foram realizados exames parasitológicos de sangue por meio de esfregaços sangüíneos, hemocultura, xenodiagnóstico e inoculação em animais de laboratório para pesquisa de tripanossomatídeos em: 75 Didelphis marsupialis, 45 Didelphis albiventris, 44 Rattus rattus, 5 Nectomys squamipes, 1 Mus musculis, 8 Dasypus novemcinctus, 5 Euphractus sexcinctus e 2 Cabassous tatouay. Além disso, foram pesquisados, no soro destes animais, anticorpos anti-Trypanosoma e anti-Leishmania, através de imunofluorescência indireta. Os animais foram capturados no Município de Conchas, Estado de São Paulo, no período de 1977 a 1982. Todos os edentados foram negativos em todos os métodos empregados. Formas tripomastigotas foram isoladas de 7 Rattus rattus que apresentaram sorologia negativa. Outro exemplar de Rattus rattus apresentou título de 1:32 contra Trypanosoma sp., mas todos os outros métodos foram negativos. Nos marsupiais, anticorpos anti-Leishmania e anti-Trypanosoma SP. foram encontrados em 89% dos D. albiventris e em 92 % dos D. marsupialis.
PALAVRAS-CHAVE:
Leishmania; Trypanosoma; infecção; animais silvestres; animais sinantrópicos.
SUMMARY
Search for trypanosomatids forms by smears, blood examination, inoculation in laboratory animals and xenodiagnostic were performed in 75 Didelphis marsupialis, 45 Didelphis albiventris, 44 Rattus rattus, 5 Nectomys squamipes, 1 Mus musculis, 8 Dasypus novemcinctus, 5 Euphractus sexcinctus and 2 Cabassous tatouay. Besides this, Indirect Immunofluorescence Antibody test were done for anti-Leishmania and anti-fiypanosoma antibodies. The animals were captured in Conchas, São Paulo State, from 1977 to 1982. All tests were negatives in the edentates. In 7 Rattus rattus, Topanosoma SP. forms were isolated from the blood but, antibodies were not detected. In another Rattus rattus antibodies titres of 1:32 were obtained for Topanosoma sp., but no trypanosomatids forms were recovered. In the marsupials anti-Leishmania and anti-Trypanosoma antibodies were demonstrated in 89% of D. albiventris and 92 % of D. marsupialis.
KEY WORDS:
Leishmania; Trypanosoma; infections; silvatic animals; sinantropic animals.
INTRODUÇÃO
Infecções naturais por Topanosoma cruzi e Leishmania spp. são encontradas em um grande número de mamíferos, tanto domésticos como silvestres. Aproximadamente 150 espécies de animais silvestres foram encontradas naturalmente infectadas por T. cruzi, enquanto as leishmanioses cutâneas, à exceção da forma que ocorre na parte ocidental do Peru, são consideradas enfermidades de animais silvestres (1).
A identificação das espécies silvestres e peridomiciliares que albergam estes parasitas, principalmente em áreas endêmicas, é fundamental em função de se elucidar o papel desses animais na epidemiologia dessas parasitoses. Estimativas sobre a prevalência de infecções por T cruzi, em mamíferos silvestres, são freqüentemente baseadas na demonstração de tripanossomas no sangue, xenodiagnóstico ou por cultivo de sangue "in vitro" (7). Um dos inconvenientes desses procedimentos é que em muitos casos as infecções são subpatentes, tornando o diagnóstico parasitológico insuficiente na identificação de muitos animais infectados (9).
O emprego de métodos sorológicos, para o diagnóstico de tripanossomatídeos, oferece vantagens por dispensar o sacrifício de animais e por detectar, em tese, infecções subpatentes.
Dessa forma, o propósito deste trabalho foi pesquisar as infecções por tripanossomatídeos, em animais silvestres e peridomiciliares por meio de exames parasitológicos e pela imunofluorescência indireta.
MATERIAL E MÉTODOS
ANIMAIS
Foram capturados vivos, em armadilhas tipo gaiolas, 120 gambás (45 Didelphis albiventris e 75 D. marsupialis), 50 roedores (44 Rattus rattus, 5 Nectomys squamipes e 1 Mus musculis) e 15 tatus (8 Dasypus novemcinctus, 5 Euphractus sexcinctus e 2 Cabassous tatouay), na área rural do município de Conchas, SP, no período de 1977 a 1982.
Amostras de sangue foram colhidas de todos os animais por punção cardíaca. Após a separação, os soros obtidos foram estocados a -20°C, até serem testados. Além dos soros, foram obtidos eluatos de acordo com o recomendado por Souza & Camargo (11), que foram mantidos a -20°C.
SOROLOGIA
Foram empregados, nas reações de Imunofluorescência Indireta (IFI), os seguintes antígenos para cada soro obtido:
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Promastigotas de cultura de Leishmania mexicana ssp. previamente isolada de Didelphis marsupialis aurita (12).
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Epimastigotas de cultura de Topanosoma SP. , isolado de Didelphis marsupialis.
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Tripomastigotas sangüíneos de Topanosoma sp., isolado de Rattus rattus.
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Epimastigotas de cultura de Topanosoma cruzi, cepa CL.
Para a realização das reações de IFI, foram preparados conjugados fluorescentes anti-lg de gambá e anti-lg de tatu, pela técnica de diálise (6). Os soros de ratos foram testados com conjugados anti-IgG de rato***.
EXAMES PARASITOLÓGICOS
1 - Parasitológico de sangue
Foram feitos exames de sangue a fresco e esfregaço sangüíneo de todos os animais para pesquisa de hemoparasitas.
2 - Xenodiagnóstico
Para a realização de xenodiagnóstico foram empregadas, para cada animal capturado, 10 ninfas de IV estádio de Rhodnius prolixus. As ninfas foram deixadas para alimentar por 30 minutos, e foram examinadas aos 40, 50 e 60 dias após o repasto. Os exames aos 40 e 50 dias foram feitos por compressão das ninfas, e os realizados aos 60 dias por dissecção.
3 - Hemocultura
Foram feitas hemoculturas a partir de sangue colhido por punção cardíaca, em meio N.N.N. e LIT (2). As culturas foram examinadas e repicadas semanalmente, e mesmo quando negativas, foram mantidas por 50 dias, com exame semanal.
4 - Esfregaço por aposição ("imprint")
Dos animais que apresentavam, por ocasião da necropsia, alguma lesão de pele, foi colhida uma amostra da área lesionada e feitos esfregaços por aposição. De todos os animais capturados, foram colhidos fragmentos de baço, fígado, coração, rins e pulmões, com os quais também foram feitos esfregaços por aposição.
5 - Inoculação em animais de laboratório
Foram inoculados sangue e macerado de órgãos de todos os animais capturados em grupos de ratos albinos, camundongos albinos e hamsters, por via intraperitoneal. Em hamsters, além dessa via, utilizou-se a inoculação de macerados via cutânea na região do focinho.
RESULTADOS
Nos edentados examinados não foram encontrados tripanossomat@eos em nenhum dos métodos empregados, bem como não foram detectados, pela IFI, anticorpos contra os 4 tipos de antígenos pesquisados.
Dentre os 50 roedores, 7 Rattus rattus foram encontrados parasitados por Topanosoma SP. , isolado a partir da inoculação de sangue em rato albino. Nenhum destes, entretanto, apresentou anticorpos imunofluorescentes. No soro de outro exemplar de Rattus rattus foi detectada a presença de anticorpos, com título de 1:32, contra antígeno de formas tripomastigotas de Trypanosoma SP. , previamente isolado de Rattus rattus.
Nenhum tripanossomatídeo foi detectado nos 120 exemplares de Didelphis examinados. Em 109 exemplares constatou-se, entretanto, a presença de anticorpos anti-Leishmania mexicana ssp. e anti-Trypanosoma SP. , ambos isolados de Didelphis marsupialis (tabelas 1 e 2 ). Os títulos de anticorpos anti-Trypanosoma foram invariavelmente superiores aos obtidos com o emprego de antígenos de Leishmania.
Títulos de anticorpos anti-Leishmania mexicana ssp. em Didelphis albiventris e D. marsupialis, provenientes do município de Conchas, SP, obtidos por IFI.
Títulos de anticorpos anti-Trypanosoma SP. , em Didelphis albiventris e D. marsupialis, provenientes do município de Conchas, SP, obtidos por IFI.
DISCUSSÃO
A região de proveniência dos animais utilizados no presente trabalho foi considerada, por PESSOA & PESTANA (10), como zona de casos esporádicos de leishmaniose, de onde, mais recentemente, foram diagnosticados casos humanos de leishmaniose tegumentar (8) e encontrado um gambá (Didelphis marsupialis aurita) parasitado por Leishmania mexicana ssp. (12).
As espécies animais investigadas no presente trabalho são consideradas reservatórios de Trypanosoma cruzi em algumas localidades (3). Entretanto, as características florísticas da região estudada, ocupada predominantemente por áreas de pastagens e agricultura de subsistência, e com estreitas faixas de matas ciliares, restringem a possibilidade de ocorrência da infecção por confinar a essas áreas exíguas de mata, tanto os hospedeiros como os vetores silvestres. Além disso, a ausência de infecção chagásica entre roedores e marsupiais pode ser considerada como resultante do sucesso das campanhas de controle dos triatomíneos nessa região.
Considerando-se as limitações dos métodos tradicionais de diagnóstico parasitológico, a padronização de técnicas sorológicas, para detecção de infecções por tripanossomatídeos em animais silvestres, seria bastante desejável. Entretanto, os resultados do presente trabalho não foram suficientes para dar suporte à recomendação da adoção da IFI no diagnóstico dessas parasitoses. O encontro de 7 Rattus rattus parasitados por Trypanosoma SP. , cujo comportamento aproxima-o dos pertencentes ao grupo lewisi, todos com sorologia negativa; a detecção de anticorpos anti-Trypanosoma SP. em um R. rattus sem isolamento de parasitas; e 109 Didelphis com sorologia positiva, sem isolamento de parasitas, são fatos que só podem, no momento, ser explicados em termos teóricos, já que não se dispõe de dados sobre a dinâmica das infecções por tripanossomatídeos e a resposta imune dos animais silvestres. Uma possível explicação para esses achados poderia ser que estes animais, uma vez infectados, elaborariam uma resposta imune efetiva contra os tripanossomatídeos, a ponto de eliminar a infecção. Os animais com sorologia negativa poderiam albergar ou não os parasitas. Se isso for verdadeiro, de pouco ou nada serviria o emprego da IFI em levantamentos epidemiológicos de infecções por tripanossomatídeos em animais silvestres e peridomiciliares.
Além disso, o encontro de reações cruzadas entre Leishmania e Trypanosoma, também freqüentes em seres humanos (4, 5, 8), dificulta ainda mais o estabelecimento de um diagnóstico preciso. As respostas para estes problemas só poderão ser alcançadas por meio de estudos de infecções experimentais, com essas espécies, onde se façam os acompanhamentos sorológicos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- 1 ACHA, P.N. & ZYFRES, B. Zoonosis y enfermidades transmissibles comunes al hombre y a 10s animales. Washington, Organizacion Panamericana de 1a salud, 1977.
- 2 ALENCAR, J.E.; PESSÔA, E.P.; FONTENELLE, Z.F. Infecção natural de Rattus rattus alexandrinus por Leishmania (provavelmente L. brasiliensis) em zona endêmica de leishmaniose tegumentar do Estado do Ceará, Brasil. Rev. Inst. Med. Trop. São Pau10, 2:347-8, 1960.
- 3 BARRETO, M.P.; SIQUEIRA, A.F.•, FERRIOLLI, F.F.; CARVALHEIRO, J.R. Estudos sobre reservatórios e vetores silvestres do Trypanosoma cruzi. XI Observações sobre um foco natural da tripanossomose americana no município de Ribeirão Preto, São Paulo. Rev. Inst. Med. Trop. São Paulo, 8:103-12, 1966.
- 4 BITTENCOURT, A.L.; SODRÉ, A.; ANDRADE, Z.A. Pesquisa de anticorpos circulantes pelo método de imunofluorescência na leishmaniose tegumentar. Rev. Inst. Med. Trop. São Paulo, 10: 247-52, 1968.
- 5 CAMARGO, M.E. Fluorescent antibody test for the serodiagnosis of american trypanosomiasis. Technical modification employing preserved culture forms of Trypanosoma cruzi in a slide test. Rev. Inst. Med. Trop. São Paulo, 8:227-34, 1966.
- 6 CAMARGO, M.E. Introdução às técnicas de Imunofluorescência. São Paulo, Instituto de Medicina Tropical São Paulo, 1971. (mimeog.)
- 7 LAISON, R.; SHAW, FRAIHA, H. Chagas disease in the Amazon Basin. I. Trypanosoma cruzi infections in silvatic mammals, triatomine bugs and man in the State of Para, North Brazil. Trans. R. Soc. Trop. Med. Hyg., 73:193-204, 1979.
- 8 LEOPOLDO E SILVA, R.; CORRÊA, F.M.A.; GOMES A.C.; YOSHIDA, E.L.A. Investigação epidemiológica sobre leishmaniose tegumentar americana no Município de Conchas, Estado de São Paulo, Brasil. Rev. Ciên. Biomed. sao Paulo, 5:49-55, 1984.
- 9 LUCKINS, A.G. & MILES, M.A. Detection of antibodies to Trypanosoma cruzi in the South American opossum (Didelphis marsupialis). Trans. R. Soc. Trop. Med. Hyg. 76:29-32, 1982.
- 10 PESSOA, S.B. & PESTANA, B.R. Sobre a disseminação da leishmaniose tegumentar no Estado de São Paulo. Arch. Hig. Saúde Publ., 5:34-46, 1940.
- 11 SOUZA, S.L. & CAMARGO, M.E. The use offliter paper blood smears in a practical fluorescent test and for american trypanosomiasis serodiagnosis. Rev. Inst. Med. Trop. São Paulo, 8:225-58, 1966.
- 12 YOSHIDA, E.L.A. ; SILVA, R.L.e•, CORTEZ JÚNIOR, L.S.; CORREA, F.M.A. Encontro de espécie do gênero Leishmania em Didelphis marsupialis aurita no Estado de São Paulo, Brasil. Rev. Inst. Med. Trop. São Paulo, 21:110-3, 1979.
