Open-access IRRADIACÄO DE LARVAS DE CERATITIS CAPITATA, ANASTREPHA FRATERCULUS E ANASTREP2%4 OBLIQUA (DIPTERA: TEPHRITIDAE) EM DIETA ARTIFICIAL*

IRRADIATION OF CERAMIS CAPITATA, ANASTREPHA FRATERCULUS AND ANASIREPHA OBLIQUA LARVAE (DIPTERA: TEPHRITIDAE) ON AN ARTIFICIAL DIET

RESUMO

O objetivo do trabalho foi determinar as doses de radiagäo gama que atendessem ao critério de näo emergéncia de adultos, como paråmetro na desinfestagäo de frutos hospedeiros das moscasdas-frutas Ceratitis capitata, Anastrepha fraterculus e Anastrepha obliqua, a partir da irradiaqäo de larvas de 4, 5, 6 e 7 dias de idade. Os resultados demonstraram que as doses de 40 Gy para C. capitata e 100 Gy para A. fraterculus e A. obliqua näo afetaram o pupamento das larvas testadas. As doses de 30 Gy, 20 Gy e 20 Gy impediram a emergéncia de adultos de C. capitata, A. fraterculus e A. obliqua, respectivamente. Os valores mais significativos obtidos para o Probit 9 (DL 99,9968) foram: 72,45 Gy para larvas de 6 dias de C. capitata, 76,38 Gy para larvas de 7 dias de A. fraterculus e 57,74 Gy para larvas de 5 dias de A. obliqua.

PALAVRAS-CHAVE:
Radiagäo gama; tratamento quarentenårio; moscas-das-frutas.

SUMMARY

The aim of the experiment was to establish gamma radiation dose levels sufficient to prevent the emergence of adults, and thus to serve as parameters for desinfestation of hosts of the fruit-flies Ceratitis capitata, Anastrepha fraterculus, and Anastrepha obliqua. Four- , 5-, 6-, and 7-day-old larvae of the 3 species were tested. Pupation was unaffected by 40 Gy for C. capitata, and by 100 Gy for A. fraterculus and A. obliqua. Gamma radiation doses necessary to prevent development of adults from larvae were 30 Gy, 20 Gy and 20 Gy for C. capitata, A. fraterculus and A. obliqua respectively. Most significant values for Probit 9 (DL 99.9968) were: 72.45 Gy for 6-day-old larvae of C. capitata, 76.38 Gy for 7-day-old larvae of A. fraterculus, and 57.74 Gy for 5-day-old larvae of A. obliqua.

KEY WORDS:
Gamma radiation; quarantine treatment; fruit flies.

INTRODUÇÃO

As moscas-das-frutas (Diptera: Tephritidae) causam sérios prejufzos nossa fruticultura. Os frutos, ap6s a punctura, sofrem maturacäo antecipada e queda prematura (8).

Além da importåncia para o mercado interno, esses tefritfdeos säo considerados pragas de elevada importåncia quarentenåria, criando barreiras comerciais por parte dos pafses importadores.

A exportacäo de vegetais frescos em pafses que apresentam uma ou mais espécies de moscasdas-frutas ex6ticas para os pafses importadores, normalmente é efetivada a partir de criaqäo de "zonas livres" (åreas isentas da praga) ou através de um tratamento quarentenårio. Se estes mecanismos näo säo factfveis, os pafses importadores, mais exigentes, normalmente näo realizam a comercializaqäo.

Por isso, no Brasil, a falta de um tratamento quarentenårio substituto para o fumigante dibrometo de etileno, proscrito a partir de 1984, impossibilitou a continuidade das exportacöes de vårias frutas brasileiras para os Estados Unidos e Japäo.

Atualmente, os tratamentos quarentenårios, empregando processos ffsicos, tém sido os mais visados, utilizando o calor, o frio e a radiaqäo ionizante.

A irradiaqäo é uma técnica de preservagäo de alimentos, a qual é efetiva na desinfestacäo de pragas (9). Cerca de 36 pafses jå possuem legislagäo autorizando o processo de irradiacäo em mais de 40 diferentes espécies de alimentos (6).

Pesquisas com radiação gama, como uma técnica em potencial no tratamento quarentenário de produtos vegetais, foram iniciadas há mais de 30 anos no Havaí, por técnicos do Agricultural Research Service (ARS) dos Estados Unidos.

BALOCK et al. (1) não obtiveram adultos de Dacus dorsalis (Hendel,1912) quando larvas, de terceiro instar, foram submetidas a doses entre 150 Gy e 240 Gy. Segundo BALOCK et ai. (2), não houve produção de adultos a partir de larvas de primeiro instar de D. dorsalis, irradiadas com 50 Gy.

BENCHOSTER & TELICH (3) estudaram a irradiação em larvas maduras (10 dias de idade) de Anastrepha ludens (Loew, 1873), com doses entre 2,5 e 15 Gy, obtendo 99,5% de mortalidade para a dose máxima.

MACFARLANE (7) concluiu que a dose de 20 Gy preveniu o aparecimento de adultos de Dacus tryoni Tychsen, 1977 ao irradiar larvas de 3, 5 e 7 dias de idade.

THOMAS & RAHALKAR (10) irradiaram larvas de 3-4 dias de D. dorsalis e Dacus cucurbitae (Coquillett, 1899) e observaram que a dose de 1000 Gy mostrou-se letal para as larvas das 2 espécies, enquanto que 150 Gy não apresentou adultos de D. cucurbitae.

O objetivo deste trabalho foi determinar as doses de radiação gama que atendessem ao critério de não emergência de adultos, como parâmetro para a desinfestação de frutos hospedeiros das espécies Ceratitis capitata (Wled., 1824), Anastrephafraterculus (Wied., 1830) e AnastrePha obliqua (Macquart, 1835).

MATERIAL E MÉIODOS

A pesquisa foi realizada nos laboratórios de moscas-das-frutas do Instituto Biológico, em São Paulo-SP, no período de junho de 1988 a fevereiro de 1989. Utilizou-se um irradiador co 60, marca Yoshizawa Kiko Company Ltda. , modelo panorâmico, localizado nas dependências do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPN/SP), que apresentou durante os ensaios uma atividade mínima de 1078 Ci. Todas as irradiações foram feitas a 30cm da fonte, apresentando uma taxa de dose entre 116,09 e 107,43 Gy. As doses maiores foram fornecidas cumulativamente, isto é, irradiadas juntamente com as doses menores até atingir a dose desejada.

As larvas de C. capitata, A. fraterculus e A. obliqua foram testadas nas idades de 4, 5, 6, e 7 dias, sendo estabelecido um período de incubação de 3 dias (ovos), necessário para determinar o início do período larval.

As larvas de C. capitata foram criadas em dieta artificial (quadro 1) e as larvas de A. fraterculus e A. obliqua foram criadas, conforme descrição de FARIA (4), em frutos de mamão papaia.

QUADRO 1
Composição da dieta larval de C. capitata
QUADRO 2
Composição da dieta larval de A. fraterculus e A. obliqua

Vinte ou vinte e cinco larvas foram colocadas em recipientes de polietileno de 45ml de capacidade, correspondendo a uma repetição. Em cada recipiente era acrescentada a dieta artificial constante no quadro 1 para larvas de C. capitata ou dieta artificial apresentada no quadro 2 para larvas de A. fraterculus e A. obliqua. Em seguida os recipientes eram cobertos com tecido de jérsei, preso por elástico e conduzidos para a irradiação.

Após irradiados, os recipientes contendo larvas foram mantidos em laboratório a 25 ± 2°C, umidade relativa de 75 ± 10% e fotofase de 14 horas, para permitir a continuidade do ciclo de desenvolvimento das moscas.

A eficácia dos tratamentos foi observada pelo número de pupas e adultos produzidos.

QUADRO 3
Idades, espécies, n? de larvas e doses empregadas na irradiação de larvas de C. capitata (CC), A. fraterculus (AF) e A. obliqua (AO) em dieta artificial. São hulo, 1988/89.
TABELA 1
Mortalidades observadas e doses letais estimadas para C. capitata, a partir de larvas de 4, 5, 6 e 7 dias irradiadas em dieta artificial. São Paulo-SP, 1989.
TABELA 2
Mortalidades observadas e doses letais estimadas para A. fraterculus, a partir de larvas de 4, 5, 6 e 7 dias irradiadas em dieta artificial. São Paulo-SP, 1988/89.

As doses empregadas e número de repetições utilizadas constam no quadro 3. Os dados oriundos das irradiações, que apresentaram peIo menos três doses (além da testemunha) com mortalidade de adultos menores que 100% , foram submetidos à análise de Probit, ao nível de 5% de probabilidade, através da metodologia de FINNEY (5) desenvolvida em computador.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

As doses de radiação gama não afetaram o pupamento de C. capitata, em larvas irradiadas com 4, 5, 6 e 7 dias de idade. Porém, não houve emergência de adultos a partir da dose de 30 Gy, em todas as idades testadas (tab. 1).

Em larvas de 6 dias, pôde-se estimar em 28,39 Gy e 72,45 Gy as DL 95 e DL 99,9968 (Probit 9), respectivamente (tab. 1). Resultado semelhante foi obtido por BALOCK et al. (2) cuja DL 95 para larvas da mesma idade de C. capitata foi de 27,0 Gy.

Nas quatro idades testadas para larvas de A. fraterculus, um máximo de 20 Gy impediu o aparecimento de adultos (tab. 2), da mesma maneira que MACFARLANE (7) obteve para larvas de 3,5 e 7 dias de D. tryoni.

Para larvas de 5 dias deA. fraterculus obtevese um DL 95 e DL 99,9968 de 14,32 Gy e 40,69 Gy, respectivamente, sendo que para aquela idade larval a dose de 17 ,5 Gy afetou completamente a emergência de adultos (tab. 2).

Não obstante a dose de 15,0 Gy ter atendido ao critério de não emergência de adultos, a partir de larvas de A. fraterculus irradiadas com 7 dias de idade (tab. 2), as doses letais 95 e 99,9968 estão acima daquelas obtidas para as larvas de 5 dias, ou seja, 17,7 Gy e 76,38 Gy, respectivamente (tab. 2). Isto veio demonstrar a maior radiorresistência de larvas maduras (7 dias) de A. fraterculus.

Em larvas de A. obliqua, a dose de 20 Gy foi suficiente para evitar o aparecimento de adultos, nas 4 idades larvais estudadas (tab. 3).

As larvas de 5 dias de idade de A. obliqua apresentaram as doses letais de 18,72 Gy (DL 95) e 57,74 Gy (DL 99,9968). Esta estimativa de Probit 9, a maior obtida para aquela espécie de tefritídeo, esteve acima da dose esperada, visto que as larvas irradiadas com 6 e 7 dias revelaram aquele valor em 45,07 Gy e 43,80 Gy, respectivamente (tab. 3). Por esse ñto e por cautela, seria desejável aceitar a maior estimativa como parâmetro em estudos de desinfestação em frutíferas hospedeiras de A. obliqua.

TABELA 3
Mortalidades observadas e doses letais estimadas para A. obliqua a partir de larvas de 4, 5, 6 e 7 dias irradiadas em dieta artificial. São Paulo-SP, 1989.

Comparando-se com as demais espécies de moscas-das-frutas testadas neste trabalho, os dados demonstraram a menor radiorresistência de A. obliqua, cujo nível nas idades estudadas atingiu cerca de metade dos obtidos nas mesmas idades em D. dorsalis, em estudo realizado por BALOCK et ai. (2).

No entanto, tais nfveis de radiorresisténcia obtidos em dieta artificial deveräo ser determinados com a irradiaqäo das espécies de moscasdas-frutas nos respectivos hospedeiros, visando aquilatar a dimensäo da possfvel interferéncia dessa interaqäo.

CONCLUSÖES

Para larvas de 4, 5, 6 e 7 dias de idade, irradiadas em dieta artificial, as doses de até 40 Gy para C. capitata e 100 Gy para A. fraterculus e A. obliqua näo afetaram o pupamento.

As larvas de 6 dias de C. capitata mostraram um Probit 9 (DL 99,9968) de 72,45 Gy.

As larvas de A. fraterculus de 7 dias säo mais radiorresistentes que as de 4, 5 e 6 dias, apresentando um Probit 9 de 76,38 Gy.

As larvas de 5 dias de A. obliqua säo mais radiorresistentes que 4, 6 e 7 dias, e mostraram um Probit 9 de 57,74 Gy.

AGRADECIMENIOS

Os autores agradecem aos Engenheiros Carlos Gaia da Silveira e Elizabeth Sebastiana Ribeiro, funcionårios do IPEN, o auxilio nos trabalhos de irradiagäo.

  • *
    Trabalho apresentado durante a Reuniäo Anual do Instituto Biol#x00F3;gico, realizada de 26 a 30/11/90, em Säo Paulo.

REFERÉNCIAS BIBLIOGRÅFICAS

  • 1 BALOCK, J.w.; CHRISTENSON, L.D.; BURR, G. O. Effect of gamma rays from Cobalt 60 on immature stages of the Oriental fruit fly (Dacus dorsalis Hendel) and possible application to commodity treatment problems. In: ANNUAL MEETING HAWAIIAN ACADEMIC SCIENCE, 31, Honolulu, 1956. Proceedings. p.18.
  • 2 BALOCK, J.w.; BURDrrr JR., A.K.; SEO, S.T.; AKAMINE, E.K. Gamma radiation as a quarantine treatment of Hawaiian fruit flies. J. Econ. Entomol., 59 202-4, 1966.
  • 3 BENCHOSTER, C.A. & TELICH, J.C. Effect of gamma rays on immature stages of Mexican fruit fly. J. Fxon. Entomol., 57 1964.
  • 4 FARIA, J.T. Radiaqäo gama como um processo quarentenårio para Ceratitis capitata (Wled., 1824) e Anastrepha fraterculus (Wied. 1830) (Diptera: Tephritidae) em mamöes papaya (Carica papaya), Cultivar Sunrise. Piracicaba, 1989. 177p. [Dissertagäo (Mestr.) Escola Superior da Agricultura "Luiz de Queiroz"/USP]
  • 5 FINNEY, D.J. Probit analysis. Cambridge, Cambridge Univ. Press. 1952. 318p.
  • 6 INTERNATIONAL ATOMIC ENERGY AGENCY, Food processing by irradiation: world facts and trends. IAEA News Features, Vienna, 5: 1-12, 1989.
  • 7 MACFARLANE, J.J. Control of the Queensland fruit fly by gamma irradiation. J. Econ. Entomol. , 59(4):884-9,1966.
  • 8 ORLANDO, A. & SAMPAIO, A.S. Moscas-das-frutas. Notas sobre o reconhecimento e combate. Biolögico, Säo Paulo, 39: 143-50, 1973.
  • 9 TASK FORCE MEETING ON IRRADIATION AS A QUARANTINE TREATMENT. Chiang mai, Thailand, 1986. Vienna, International Consultive Group on Food Irradiation, Joint FAO/IAEA Division, 1986. 20p.
  • 10 THOMAS, P. & RAHALKAR, G. W. Disinfestation of fruit flies in mango gamma irradiation. Curr. Sci., 44(21):775-6, 1975.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jan-Dec 1992
location_on
Instituto Biológico Av. Conselheiro Rodrigues Alves, 1252 - Vila Mariana - São Paulo - SP, 04014-002 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: arquivos@biologico.sp.gov.br
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro