RESUMO
Foi avaliada a resistência de 22 cultivares clonais de cacaueiros a uma cultura dePhytophthora capsici, comprovadamente patogênica para frutos de cacaueiros. Os resultados evidenciaram que IMC 67 e ICS 40 foram os cultivares mais resistentes e SIAL325 e SIAL 407, os mais suscetíveis. Foi estudado também o desenvolvimento de P. capsici em meios de cultura preparados com as sementes e a mucilagem que as envolve, dos frutos provenientes desses 4 cultivares, a fim de verificar a provavel existência,nesses tecidos, de substâncias que possam interferir no desenvolvimento do fungo. Os resultados evidenciaram que houve maior crescimento do fungo nos meios preparados com as sementes provenientes dos cultivares mais suscetíveis.
PALAVRAS CHAVE:
Resistência; cacau;
Phytophthora capsici
ABSTRACT
The resistanceof22 cacao cultivars toPhytophthora capsici was evaluated. The results showed IMC 67 and ICS 40 to be the most resistant, and SIAL 325 and SIAL 407, the most susceptible ones. It was also studied the development of the fungus in culture media prepared with the interna} and externa} parts of cacao beans, in order to verify the presence of substances in these tissues which could interfere on the fungus growth. The results showed that the medium prepared with the susceptible cultivars beans lead to an highest fungus growth.
KEY WORDS:
Resistance; cacao;
Phytophthora capsici
INTRODUÇÃO
A podridão parda, induzida por 3 espécies de Phytophthora ( P. capsici Leonian, P. citrophthora (SM & SM) Leonian, eP. palmivora( Butler) Butler é considerada, na maioria das regiões produtoras, como a doença responsável pela maior parte das perdas na cultura do cacau. Métodos adequados de manejo cultural, adubação, aplicação de fungicidas, e outros, podem contribuir em parte para a redução dos prejuízos. No entanto, essas práticas podem ser muito onerosas, encarecendo o produto final. Segundo LAWRENCE (4), o emprego de cultivares resistentes pode se constituir em um método eficaz para o controle da doença, revestindo-se de suma importância o estudo da resistência de diferentes cultivares à açãó do patógeno. Infecções naturais ocorrentes no campo, tanto no vale do Ribeira como no.litoral Norte, vêm evidenciando a existência de cultivares com boa tolerância à podridão parda. Cultivares clonais de cacaueiros, introduzidos ou selecionados pelo Instituto Agronômico, são objeto de estudos, nas Estações Experimentais de Ubatuba e Pariquera-Açu, SP, referentes à produção, vigor e tolerância a pragas e doenças, e outras características agronômicas de importância econômica. Os materiais considerados mais promissores passam a participar do programa de melhoramento genético, através de hibridações, e os estudos finais indicarão o material genético que será colocado à disposição dos agricultores para a formação de lavouras. Em trabalho realizado anteriormente por FEITOSA et ai. (2), com objetivo de testar a patôgenicidade de P.capsici a frutos de cacaueiros, foi demonstrado que cultivares resultantes das combinações UF 667 X SCA 12 e SCA 6 X UF 613, mostraram-se mais resistentes ao fungo, provavelmente devido à influência dos clones amazônicos SCA 6 e SCA 12, tradicionalmente aceitos como mais resistentes ao patógeno. Não foi encontrado, até o momento, nenhum cultivar que se possa considerar imune à podridão parda, embora um grande número deles demonstre diferentes graus de suscetibililidade, em diferentes regiões. Consequentemente, permanece como um requisito básico para obtenção de cultivares resistentes, a constante pesquisa de material de progenies resistentes, em cada região onde se cultiva o cacau, de acordo com LAWRENCE (3). Os objetivos do presente trabalho foram: a) verificar a resistência de cultivares clonais de cacaueiro, alguns tradicionalmente utilizados em cultivo e outros selecionados recentemente pelo IAC, e que fazem parte do
MATERIAL E MÉTODOS
1-Inoculação de frutos - Foram utilizados frutos de 22 cultivares clonais, pertencentes aos grupos Trinitario e Forastero Amazônico, implantados nas Estações Experimentais do Instituto Agronômico, sendo 14 cultivados em Pariquera-Açu e 8 em Ubatuba (Quadro 1). Como fonte de inóculo foi utilizada uma cultura de P.capsici, isolada em 1959, de mudas de cacau provenientes de Registro, SP e conservada na Micoteca da Seção de Micologia Fitopatológica do Instituto Biológico (IB 156 G), reconhecidamente patogênica para frutos de cacaueiro (2). Com essa cultura foram preparadas 8 placas de Petri com meio de cenoura-agar (CA), as quais foram conservadas à temperatura de 24ºC por 7 dias..As inoculações dos frutos foram realizadas nos laboratórios da Seção de Micologia Fitopatológica do Instituto Biológico, utilizando-se 7 frutos com 3 meses de idade, de cada um dos cultivares, empregando-se a seguinte técnica: sobre a casca de cada um dos frutos previamente lavados e secos, sem ferimentos, foi colocado um disco do talo miceliano com aproximadamente 7 mm de diâmetro, retirado da periferia de cultura pura de P. capsici, desenvolvida em CA, sobre o qual foi colocado um chumaço de algodão embebido em água esterilizada para evitar ressecamento do inóculo. O meio de CA (200 g de cenouras picadas + água destilada suficiente para cobrir as cenouras; bate-se no liquidificador por 30 segundos em baixa rotatividade e 30 segundos em alta rotatividade; filtra-se em 4 camadas de gaze; completa-se o volume com água destilada até 1.000 ml; acrescenta-se 15 g de agar; autoclavar por 20 minutos) é tradicionalmente utilizado para cultivo de Phytophthora, e assim como o método de inoculação de frutos, empregado para avaliação de patogenicidade de Phytophthora, foram preconizados no Workshop sobre Taxonomia de Phytophthora (Prof. Olaf Ribeiro), Pelotas, RS., maio de 1998 e no Workshop Internacional dePhytophthora do cacaueiro, Ilheus,BA, 1985. Os frutos inoculados foram colocados, ao acaso, em caixas de plástico medindo 33X27X13 cm tendo-se colocado sob a tampa das caixas, papel filtro umedecido com água esterilizada, com a finalidade de manter o ambiente saturado de umidade. Quatro dias após a inoculação, foi feita a avaliação indireta do desenvolvimento das lesões, decalcando-se os contornos das mesmas em papel vegetal, os quais foram a seguir recortados e pesados em balança analítica. Essa técnica de avaliação de lesões é usualmente empregada, pois, devido à forma irregular dos frutos torna-se difícil e imprecisa a medida dos diâmetros das lesões. Fica evidenciado, no entanto, que pesos mais altos correspondem a lesões de maior tamanho. O delineamento utilizado nos experimentos de inoculações foi inteiramente casualizado, com 22 tratamento e 7 repetições. Para a análise estatística foi empregado o teste de Tukey ao nível de 5% de probabilidade.
2 - Crescimento do fungo em meios de cultura líquido e sólido.
Com base nos resultados obtidos nos ensaios de inoculação, foram utilizadas as sementes de 2 cultivares considerados mais resistentes (IMC 67 e ICS 40) e de 2 cultivares considerados mais suscetíveis (SIAL 325 e SIAL 407) como substratos para o desenvolvimentodo fungo. Para o preparo dos meios de cultura líquidos foram utilizadas, separadamente, a mucilagem que envolve as sementes e as sementes propriamente ditas, acrescidas de água destilada na proporção de 30g para 1.000ml. Após homogeinização em liquidificador e filtração em gaze dupla, as misturas foram distribuídas em erlenmeyers de 25 ml de capacidade, sendo 15 ml em cada um, com 5 repetições, num total de 40. Após esterilização em autoclave, em cada erlenmeyer foi colocado 1 disco de micélio do fungo, com 5 mm de diâmetro, recortado das bordas de culturas deP. caps1cidesenvolvidas em CA. Os erlenmeyers foram conservados à temperatura de 24ºC, durante 13 dias. Para a avaliação de crescimento do fungo nos meios líquidos, foi empregado o método do peso seco, ou seja: foi feita filtração, com o auxílio de uma bomba de vácuo, vertendo-se o conteúdo dos erlenmeyers, através de discos de papel filtro previamente pesados, colocados no interior de 1 funil de porcelana Buchner, de 55 mm de diâmetro, acoplado a um Kitassato. Dessa maneira o meio de cultura foi desprezado e o micélio do fungo ficou retido no papel filtro, sendo a seguir colocado em estufa a 40ºC de temperatura. Os discos de papel filtro contendo os micélios desidratados foram pesados diariamente até apresentarem peso constante. O cálculo dadiferença entre o peso final do micélio desidratado contido no papel filtro e o peso do papel filtro forneceu o peso seco do micélio. Os meios sólidos foram preparados mediante a adição de- 2 % de agar aos meios líquidos e distribuidos em placas de Petri de 90X15 mm, sendo 20 ml em cada placa e 5 repetições de cada meio, num total de 40 placas. No centro de cada uma foi colocado 1 disco de micélio de 5 mm de diâmetro recortado das bordas das culturas de P. capsici em CA. As placas foram mantidas à temperatura de 24ºC, por 7 dias. A avaliação do crescimento do fungo em meios sólidos foi realizada por meio de medida do diâmetro médio das culturas. O delineamento desses experimentos foi inteiramente casualizado, com 8 tratamentos em fatorial, sendo 4 meios de cultura e 2 componentes (sementes e mucilagem). Para a análise estatística, as significância foram determinadas pelo teste de Tukey ao nível de 5% de probabilidade.
RESULTADOS
1 - Inoculação de frutos - Na tabela 1, achamse os dados referentes aos pesos dos decalques em papel vegetal correspondentes às lesões produzidas pelo fungo nos frutos dos vários cultivares testados, em mg. A análise estatística desses dados revelou efeitos significativos para cultivares, ou seja, todos os cultivares diferiram entre si no que refere ao. comportamento com relação ao fungo. Os cultivares que apresentaram as maiores lesões foram: SIAL 325 e SIAL 407 e os que apresentaram as menores lesões foram: ICS 40 e IMC 67.
2 - Crescimento do fungo em meios de cultura líquido esólido - Na tabela 2 encontram-se osdados,em mg, referentes ao crescimento do fungo nos 4 meios líquidos. Observa-se que o fungo apresentou maior crescimento nos meios preparados com as sementes dos cultivares mais suscetíveis (SIAL 325 e SIAL 407) e menor crescimento nos meios preparados com as sementes dos cultivares mais resistentes (ICS 40 e IMC 67). A análise estatística revelou efeitos significativos tanto para meios de cultura como também em relação à mucilagem e às sementes, pois o fungo apresentou maior média de crescimento nos meios preparados com a mucilagem. Na tabela 3 encontram-se os dados, em mm, referentes ao crescimento do fungo nos 4 meios sólidos. Observa-se que o fungo apresentou maior crescimento nos meios de cultura sólidos preparados com as sementes dos cultivares considerados mais suscetíveis e menor crescimento nos meios preparados com as sementes dos cultivares mais resistentes. A análise estatística dosdados deste ensaio revelou efeitos significativos para meios de cultura enão-significativos com relação à mucilagem e às sementes, ou seja, o fungo apresentou diferentes graus de crescimento nos 4 meios cultura utilizados, não tendo sido relevante o fato de terem sido preparados com a mucilagem ou com as sementes propriamente ditas.
DISCUSSÃO E CONCLUSÕES
Os resultados do presente trabalho, referentes aos ensaios de inoculações em frutos, permitem concluir que a maior resistência ao patógeno foi observada nos cultivares IMC 67 e ICS 40, seguidos de SCA 12, SCA 6, UB 2-1, IAC1, ICS 47 e UF 613.
Os cultivares que se mostraram mais suscetíveis foram: SIAL 325 e SIAL 407, seguidos de ICS 60, UF 221 e UF 667. Os demais cultivares podem ser considerados de média suscetibilidade. Em ensaios para a verificação da resistência de cultivares clonais à podridão parda, alguns autores (3,5 e 6) concluiram que os cultivares SCA 6, SCA 12 e UF 613 mostraram-se mais resistentes, resultados semelhantes aos obtidos no presente trabalho. SILVA et al. (8), estudando a resistência de frutos de 53 cultivares clonais de cacaueiro às especies P. palmivora, P. capsici e P. citrophthora, observaram que o clone P 7 apresentou maior resistência ao fungo. PINTO et al. (7) realizando testes de patogenicidadecom as 3especies de Phytophthora a plântulas de cacaueiro, observaram que o clone ICS 95 apresentou maior suscetibilidade. Nos resultados do presente trabalho esses clones apresentaram média suscetibilidade.Segundo VELLO et al. (9), quando os clones amazônicos SCA 6 e SCA 12 entram como progenitores na produção de cultivares híbridos, estes apresentaram elevados graus de resistência à podridão parda. Os resultados do presente trabalho também indicam que SCA 6 e SCA 12 apresentam-se bastante promissores. Segundo ENRIQUEZ et al. (1), alguns clones como P 12, SCA 6 e SCA 12 são considerados resistentes a diversas doenças, entre as quais a podridão parda; outros clones, como SIAL 325 e SIAL 407 são considerados suscetíveis, dados estes confirmados pelos resultados do presente trabalho. LAWRENCE (3) afirma que em alguns casos os cultivares de média suscetibilidade podem ser considerados promissores, como à o caso de P 12. É interessante traçar um paralelo entre os resultados obtidos com os ensaios de inoculação e as observações de campo sobre ocorrência natural de podridão parda nas Estações Experimentais do IAC em Ubatuba e Pariquera-Açu. Segundo essas observações, os cultivares clonais considerados mais resistentes são: UF 613, SCA 6, SCA 12 e IAC 1; os mais suscetíveis são: SIAL 325, SIAL 407, UF 667, ICS 39, ICS 40, ICS 95, ICS 60, UF 29 e UF 221. Comparando-se estas informações com os resultados das inoculações, pode-se concluir que o comportamento dos clones foi consistente. Sobre os recém selecionados da sigla UB não foram coletados dados sobre infecção natural, ao nível de campo. Nos resultados dos ensaios com meios de cultura preparados com as sementes, observou-se que houve maior crescimento do fungo nos meios preparados a partir dos cultivares mais suscetíveis e menor crescimento nos dos cultivares considerados mais resistentes. Esse fato leva à suposição deque nas sementes dos frutos dos cultivares resistentes possam existir substâncias que dificultam o desenvolvimento do patógeno. Embora se pressuponha a existência de componentes químicos diferenciados, como açúcares, lipídios etc., os resultados do presente trabalho indicam haver uma relação entre a resistência de alguns cultivares à podridão parda e o desenvolvimento do fungo nos meios de cultura preparados com as sementes. Esses resultados levam à necessidade de um aprofundamento nos estudos sobre a determinação de tais substâncias, visando um melhor entendimento de seu modo de ação, o que poderá ser de grande importância para o estudo contínuo da resistência do cacaueiro à podridão parda.
Identificação, significado das siglas, países de origem e tipos genéticos dos cultivares clonais utilizados nos ensaios.
Peso dos decalques recortados em papel vegetal, em mg, correspondente às lesões resultantes das inoculações dos frutos dos cultivares clonais de cacaueiro, provenientes de plantios conduzidos em duas localidades do Estado de São Paulo.
Peso seco do micélio de colônias de P. capsici, em mg, desenvolvidas em meios líquidos, preparados com a mucilagem que envolve as sementes, e as sementes propriamente ditas, de 4 cultivares de cacaueiros.
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem ao Dr. Mario Barreto Figueiredo pelas sugestões durante a execução do manuscrito é à Sra. Maria Madalena da Silva pelo auxílio no preparo dos meios de cultura.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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- 3 LAWRENCE, J.S. Screening of cacao cultivars for resistance to Phytophthora palmivora in the Collection at CATIE,Costa Rica. Rev Theobroma, 8: 125 - 131. 1978.
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