Open-access MASTITE GANGRENOSA BOVINA CAUSADA POR AGENTES DO GÊNERO CLOSTRIDIUM 1

BOVINE GRANGRENOUS MASTITIS CAUSED BY CLOSTRIDIUM GENUS AGENTES

RESUMO

Quatro diferentes ocorrências de mastite gangrenosa em bovinos causadas por agentes do gênero Clostridium, são relatadas. Em cada uma delas, diferentes espécies de Clostridia foram identificadas: sordellii, septicum e butyricum. Os autores tecem comentários referentes às ocorrências clínicas, aspectos anatomopatológicos macroscópicos e microscópicos e bacteriológicos, confrontando os resultados com outras citações na literatura nacional e internacional.

PALAVRAS-CHAVE:
Bovino; Clostridium ; mastites

ABSTRACT

Four different occurrences of bovine gangrenous mastitis caused by bacterias of the genus Clostridium are described. In each one there was identified a different species, they are: sordellii, septicum and butyricum. The authors make a comment about these clinical occurrences, macroand microscopic anatomopathological and bacteriological aspects, comparing them with others, in the natiúnal and international literature.

KEY WORDS:
Bovine; Clostridium ; mastitis

INTRODUÇÃO

A mastite bovina é, sem dúvida, o processo patológico que mais preocupa a comunidade veterinária que se dedica à clínica de bovínos de raças leiteiras, visto que, com certa facilidade, pode inutilizar a femea para a sua mais significativa função: a lactação.

Dentro do panorama das mastites infecciosas, as de origem bacteriana são uma parcela de grande significância e embora a grande maioria seja causada por bactérias aeróbicas (FIGUEIREDO, 1962; FERREIRO, 1978; NADER FILHO et al., 1985; COSTA et al., 1986) tem aumentado ultimamente a ocorrência de processos patológicos da mama ocasionados por agentes anaeróbicos (HOLDEMAN & MOORE, 1975; SHINJO etal., 1976; CARVALHO etal., 1990).

A consulta à literatura possibilita aquilatar a importância das mastites dentro da patologia veterinária, tanto estrangeira quanto nacional. GIESECKE & VAN DER HEEVER (1974) em exaustivo trabalho apresentam panorama detalhado dos artigos científicos pertinentes, tecendo comentários sobre a evolução dos recursos diagnósticos das mastites e, em especial, à condição subclínica da doença, abrangendo uma revisão no período que vai de 1833 a 1973.

HOARE & BARTON(1972)realizaramtrabalho comparando os resultados do diagnóstico entre o método clássico do "Califomia Mastitis Test" (CMT) e uma modificação do mesmo, discutindo ainda os resultados da comparação entre alguns processos de higienização do úbere na pré-ordenha.

A presença de agentes anaeróbicos como responsáveis por mastites é, sem dúvida, de freqüência menor, quando se consulta os trabalhos relacionados a esta patologia do aparelho mamário.

No presente trabalho, objetivou-se relatar quatro ocorrências clínicas de mastites bovinas verificadas em diferentes bacias leiteiras do Estado de São Paulo e nas quais bactérias anaeróbicas foram as responsáveis pelo quadro observado.

MATERIAL E MÉTODOS

a - Descrição dos casos clínicos

Caso nºl. Fêmea da raça holandesa, de alta produção, logo após sua quarta parição apresentou colostro com forte odor fétido, além de considerável aumento de volume do úbere, que se mostrava de coloração violácea. Após o parto, o animal deitou-se permanecendo em decúbito lateral, verificando-se um quadro de hipotermia, prostração e morte quatro horas após o início da sintomatologia. A abertura do úbere permitiu constatar a presença de abundante quantidade de líquido de cor amarelo intenso, com estrias de sangue. No parênquima mamário percebeu-se bolhas de gás e extensas áreas de necrose.

Caso nº2. Fêmea mestiça, produto de cruzamento das raças holandesa e gir, de alta produção leiteira e também com histórico de parto recente. Exibiu igualmente alteração das condições anatômicas do úbere, com grande aumento de volume e revelando crepitação à palpação. O leite apresentava-se tingido de sangue e exalava forte odor pútrido. O animal morreu em 48 horas.

Caso nº3. Fêmea no período de intervalo entre lactações apresentou sintomatologia de mastite. O úbere, crepitante à palpação, apresentou aumento de volume tão significativo que levou à rachadura da pele (Fig. 1). Os tetos, também edemaciados exibiam igualmente áreas de necrose (Fig. 2). Estas alterações comprometiam a estrutura do úbere tanto interna quanto externamente. Seguiu-se estado de prostração com hipotermia (36ºC) e morte.

Casonº4. Na mesma propriedade, uma novilha teve parto a termo, embora o produto fosse um natimorto. Estabeleceu-se quadro de retenção placentária e o úbere mostrou nítida edemaciação, exibindo ainda tonalidade violácea e o leite colostral continha grande quantidade de sangue enegrecido, grumos de fibrina, bolhas de gás e exalava odor rançoso.

b - Procedimentos laboratoriais

O corte das mamas possibilitou verificar comprometimento de seu parênquima que exibia áreas de necrose. Destes locais coletou-se exsudato para exames bacteriológicos bem como fragmentos do parênquima que foram conservados em formol neutro a 20%, destinados a estudo histopatológico, dos quais se obtiveram, pelas técnicas habituais, cortes de 5 micrômetros que foram corados pelo método da hematoxilina-eosina (HE).

Os materiais encaminhados para estudo bacteriológico foram cultivados inicialmente em meio de Tarozzi e, a seguir, em ágar sangue, cujas placas foram incubadas a 37ºC, em condições de anaerobiose por um período de 48 horas. Em lâminas preparadas a partir dos crescimentos obtidos observou-se a morfologia bacteriana com auxílio da coloração de Gram. Realizaram-se provas de respiração bacteriana e de produção de catalase, além de estudos complementares de acordo com o Manual do Virgínia Polytechnic Institute (HOLDEMAN & MOORE, 1975) visando a classificação dos agentes isolados, constando estes de fermentação de alguns carboidratos, além da produção de lecitinase, lipase e gelatinase.

RESULTADOS

a - Exames bacteriológicos

A prova de respiração negativa e a produção de catalase permitiram caracterizar os agentes como pertencentes ao gênero Clostridium. Provas complementares ofereceram resultados que possibilitaram identificar três diferentes espécies de clostridia, a saber: sordellii, septicum e butyricum (Quadro 1).

Quadro 1
Resultados dos testes bacteriológicos complementares das três amostras de clostridia isoladas.

Os testes efetuados "in vivo" revelaram que, das três espécies, apenas o Cl. butyricum não apresentou patogenicidade para as cobaias.

Ressalte-se ainda que a pressão exercida pelo gás resultante da ação proteolítica dos agentes bacterianos determinou a dilatação dos canais galactóforos com destruição da mama, originando no parênquima verdadeiras cavernas que armazenavam líquido sanguinolento além de promover a necrose tecidual em extensões variáveis. Esses fenômenos foram constatados na presente ocorrência como se pode observar nas figuras 1 , 2 e 6.

b - Exames anátomo-patológicos

A histopatologia dos fragmentos correspondentes à cisterna do teto e parênquima mamário · revelou áreas focais de necrose com grande quantidade de colônias bacterianas, além de dilatação dos canalículos e a presença de um infiltrado celular com mono e polimorfonucleares. No tecido glandular remanescente, á inos e duetos apresentavam graus variáveis de degeneração, com as células epiteliais, acinares e ductais exibindo figuras de degeneração nuclear, representadas por cariorrexis e picnose (Figs. 3 e 4). Notou-se também, tanto nas áreas necróticas como no interior dos ácinos lesados, a presença de formações típicas de "corpora amilaceae" (Fig. 5).

O quadro anátomo-patológico possibilitou o diagnóstico de mastite necrótica aguda.

DISCUSSÃO E CONCLUSÕES

Na presente citação, não existiu relação entre os casos clínicos pois os mesmos foram registrados em propriedades distintas e em épocas não concomitantes, visto que nas três oportunidades foram constatados em diferentes bacias leiteiras do Estado.

Nos procedimentos rotineiros de diagnóstico bacteriológico das mastites, não é habitualmente efetuada a pesquisa de agentes anaeróbicos, somente quando a suspeição clínica recai sobre esse tipo de bactéria é que se introduz na metodologia de trabalho as técnicas visando a detecção de tais agentes. Entretanto, têm sido isoladas bactérias anaeróbicas tanto em vacas em lactação como nos períodos inter lactações(RENK, 1967;COSTA et al.,1986;HOARE & BARTON, 1972; GIESECKE et al., 1974) o que permite deduzir que esses agentes podem, eventualmente, estar presentes no úbere sem assumir seu papel patogênico e, face a eventuais injúrias ocorridas sobre o úbere ou tetos, passam a desenvolver sua patogenicidade. Tais lesões, decorrem, por exemplo, de falhas ligadas ao equipamento de ordenhadeiras mecânicas ou ainda porqualquer contusão. Parece fora de dúvida, que os agentes bacterianos anaeróbicos, esporuláveis ou não, têm potencialmente a possibilidade de figurar entre os causadores de mastites, mas é certo que os mesmos necessitam de um estabelecimento prévio de condições que favoreçam o desencadeamentode sua patogenicidadelatente, como por exemplo traumas de certa amplitude, ou um outro fenômeno qualquer capaz de fazer cair a tensão de oxigênio local em determinada área do parênquima mamário, quando então, as condições naquele ponto passarão a ser favoráveis à sua multiplicação, produção de toxina e, conseqüentemente, o estabelecimento de processo patológico. Tal condição não é uma particularidade no comprometimento da mama, mas sim uma necessidade geral para todas as infecções ocasionadas por agentes anaeróbicos o que, no caso das mastites não foge à regra geral.

Exceto nos casos das mastites assépticas, a natureza polimicrobiana das infecções do úbere mostra que diversos anaeróbios estritos ou mesmo facultativos são capazes de colonizar. Dessa forma poderão ser eliminados com resíduos de leite ou exsudatos conseqüentes à instalação de processo inflamatório (GIESECKE etal., 1969/1974; GUSTAFSON, 1977; DU PREEZ et al., 1981/82/89).

Os agentes bacterianos anaeróbicos, embora de citação menos freqüente (OU PREEZ et al., 1982 e OU PREEZ, 1989) apresentam-se também com alguma variabilidade. Entretanto, a sua ação como agente primário e a sua real patogênese não fica definitivamente estabelecida na maioria dos casos estudados. Uma das razões para o número relativamente pequeno de comunicações a este respeito, reside, muito provavelmente, nas dificuldades encontradas na manutenção de rigorosas condições de anaerobiose, sobretudo para os anaeróbios estritos, em sua coleta, transporte, cultivo e identificação.

RENK (1967) descreveu diversas ocorrências de mastites selecionando-as em sete diferentes tipos segundo a patogenia e morfologia dos seus agentes incluindo entre os mesmos, o Clostridium perfringens.

GIESECKE et al. (1969) referem-se a um caso de mastite bovina determinada pela associação entre Clostridium perfringens e Bacillus cereus.GUSTAFSON (1977) reconheceu entre os agentes causais das mastites alguns agentes anaeróbios, fazendo especial referência ao Clostridium perfringens.STUART etal. (1951)emtrabalhonoqualéenfocada a chamada mastite de verão, citam, entre os agentes causais, alguns cocos anaeróbios.

DU PREEZ et al. (1981/82) estudando apatologia da mama em bovinos, citam a ação de anaeróbios obrigatórios não esporulados como causadores de graves lesões no úbere. Em estudo posterior (1989), o mesmo autor volta a relacionar uma série de bactérias anaeróbias como sendo capazes de ocasionar mastites, destacando, entre elas, oBacteroides fragilis.

Fig. 1
Úbere exibindo inchação e extensa área da pele despregando-se após sua rachadura.

Fig. 2
Áreas de necrose comprometendo os quartos posteriores, notadamente junto aos tetos.

Fig. 3
Parênquima mamário exibindo área de necrose com infiltrado leucocitário e colônias bacterianas. Coloração H.E., aumento 600X.

Fig. 4
Área de necrose com di}atação dos canalículos, infiltrado celular e massas de colônias bacterianas. Coloração H.E., aumento 600X.

Fig. 5
Presença das formações de "corpora amilaceae" situadas no parênquima ganglionar. Coloração H.E., aumento 400X.

Fig. 6
Corte da mama exibindo a dilatação dos canais galactóforos pela ação do gás produzido.

  • 1
    Trabalho apresentado na 3ª Reunião Anual do Instituto Biológico, 1990, São Paulo, SP.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jan-Dec 1995

Histórico

  • Recebido
    25 Maio 1995
  • Aceito
    09 Jan 1996
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