Open-access ISOLAMENTOS BACTERIANOS DE FETOS EQÜINOS ABORTADOS EXAMINADOS NO INSTITUTO BIOLÓGICO, NO PERÍODO DE 1985 A 1995

BACTERIA ISOLATED FROM ABORTED EQUINE FOETUSES EXAMINED AT THE INSTITUTO BIOLÓGICO FROM 1985 TO 1995

RESUMO

No período de 1985-95, foram analisadas por métodos bacteriológicos 223 amostras de orgãos e anexos fetais, provenientes de fetos eqüinos, oriundos de vários Estados do Brasil. Foram considerados como possíveis causas dos abortamentos, bactérias reconhecidamente patogênicas e culturas puras ou preponderantes de bactérias oportunistas. Dos 106 fetos, 19,8% estavam associados a causas bacterianas, tais como: Streptococcus Beta hemolítico (14,3%), Leptospira spp (9,5%), Staphylococcus aureus (9,5%), Rodococcus equi (9,5%), Salmonella spp (4,8%), Listeria monocytogenes (4,8%), entre outras, não se observando predomínio de qualquer agente etiológico, mas sim diversidade nos gêneros bacterianos detectados. Alertase para a importância do exame laboratorial para o reconhecimento das causas determinantes dos problemas reprodutivos em éguas.

PALAVRAS-CHAVES:
Abortamento; diagnóstico bacteriológico; eqüino

ABSTRACT

From 1985 to 1995, 223 samples of fetal organs and anexus were bacteriologicaly examined. These specimens carne from several states ofBrazil. Pathogenic bacteria and pure culture or predominant opportunist organisms were the basis for diagnosis of abortifacient agents. From 106 fetuses, 19.8% were associated to bacterial causes, such as: Streptococcus Beta hemolytic (14.3%), Leptospira spp (9.5%), Staphylococcusaureus (9.5%), Rodococcus equi (9.57%), Salmonella spp (4.8%) and others. Microrganisms normally considered pathogens and many opportunistic bacteria were observed, without predominance of any one species. This paper makes an alertas to the the importance of the laboratory diagnosis in mare reprodutive disorders in order to know the main causes of abortion.

KEY WORDS:
Equine; abortions; bacteriological diagnosis

INTRODUÇÃO

Na espécie equina, as placentites de origem bacteriana são as principais causas de abortamento, tendo como vias de infecção a hematogênica, a contaminação vaginal ascendente, seguida de endometrite (SWERCZEK & GILES, 1990). A maioria dos abortamentos ocorre no início de gestação não permitindo o pronto reconhecimento de um distúrbio reprodutivo emergente. Os fetos geralmente são encontrados no pasto a partir de 3 meses de idade gestacional, o que dificulta o diagnóstico laboratorial precoce.

O presente trabalho tem por objetivo pesquisar os principais agentes bacterianos responsáveis por abortamento em éguas cujos materias e anexos fetais foram examinados na Seção de Doenças de Bovinos, Ovinos e Caprinos do Instituto Biológico, no período de 1985 a 1995.

MATERIAL E MÉTODOS

No período de janeiro de 1985 a março de 1995 foram examinadas 223 amostras de órgãos (estômago, rim, fígado, pulmão) e anexos (placenta) de 106 fetos eqüinos com idade gestacional variando entre 3-12 meses, das raças Apallosa, Quarto de Milha, Mangalarga e Puro Sangue Inglês, provenientes de haras dos Estados de Mato Grosso (Cuiabá); Mato Grosso do Sul (Bonito); Minas Gerais (Carlos Chagas, Estiva, Inconfidentes, Uberaba); Paraná (Maringá, Tijucas do Sul); Rio de Janeiro (Teresópolis, Três Rios) e São Paulo (Araçariguana, Assis, Atibaia, Boituva, Bragança Paulista, Cabreúva, Caçapava, Carlos Chagas, Catanduva, Caucaia, Cerquilho, Cesário Lange, Cotia, Dracena, Elói Mendes, Florínea, Garça, Guarulhos, lbirá, lbiúna, Itapecirica da Serra, Itapetininga, ltatiba, ltú, Jací, Jaguariúna, Jundiaí, Marília, Mirassol, Mococa, Mogi Mirim, Monte Agudo, Morro Grande do Sul, Morungaba, Narandiba, Pardinho, Parelheiros, Pereira Barreto, Piracaia, Pirapozinho, Porto Feliz, Presidente Prudente, Ribeirão Preto, Salto de Pirapora, Santa Cruz das Palmeiras, Santo Antônio do Pinhal, São Bernardo do Campo, São Lourenço, São Paulo, São Simão, Serra Negra, Sertãozinho, Sorocaba, Sumaré, Tatuí, Taubaté, Tietê).

Essas amostras foram cultivadas de tal forma a permitir o isolamento e a identificação de vários gêneros bacterianos aeróbios e microaerófilos (GENOVEZ et al., 1993; HOLT & KRILG, 1984).

No caso da leptospirose, além do emprego de técnicas bacteriológicas visando o isolamento do agente, foram realizados decalques de rim e/ou fígado submetidos à imunofluorescência indireta, sendo considerado como diagnóstico positivo a detecção de leptospiras em qualquer um dos exames.

Foram consideradas como possíveis causas de abortamento as bactérias patogênicas e as culturas puras ou preponderantes de bactérias potencialmente patogênicas ou oportunistas.

O processamento bacteriológico constituiu-se de:

1. O conteúdo gástrico foi subdividido em alíquotas, assim cultivadas:

a. em ágar Brucella (Difco) acrescido de 10% de sangue de carneiro com e sem adição de mistura antibiótica (polimixina B - 10.000 UI/1, bacitracina - 15.000 UI/1, novobiocina - 0,005 g/1 e cicloheximida - 0,02 g/1), incubadas em atmosfera de 95% N2+ 5% CO2 + 02 residual, a 37°C por até 7 dias;

b. em ágar Brucella (Difco) acrescido 10% de sangue de carneiro e em ágar EMB - Levine (Difco), incubadas em aerobiose a 37ºC por 48 horas;

c. em meio de Fletcher (Difco) acrescido de 10% de soro inativado de coelho, incubados em aerobiose a 30ºC por até 30 dias.

2. Os fragmentos de rins e/ou fígados foram macerados e seguiram o mesmo processo descrito em 1.c.

3. Os fragmentos de placenta foram processados como descrito em 1 e 2.

RESULTADOS

Dos 223 materias fetais examinados bacteriologicamente, 21(19,8%) mostraram-se positivos para diversos agentes: Streptococcus spp beta hemolítico, Leptospira interrogans, Rodococcus equi, Staphylococcus aureus, Salmonella spp, Listeria monocytogenes, Klebsiella oxytoca entre outros, como mostra a Tabela 1. Ainda nesta tabela, verificase maior freqüência de abortamentos a partir do sexto mês de gestação, sem contudo ser possível o estabelecimento de qualquer relação entre a idade fetal e o agente implicado em função da insuficiente representatividade numérica dos gêneros bacterianos observados.

DISCUSSÃO E CONCLUSÕES

Em 19,8% dos fetos eqüinos examinados, pôdese constatar a participação de etiologia bacteriana, sendo o restante possivelmente associado à outras causas como virais, micóticas, traumáticas ou fisiológicas (SWERCZEK & GILES, 1990) não pesquisadas neste estudo.

TABELA 1
Freqüência de isolamentos bacterianos em órgãos e anexos fetais eqüinos examinados pela Seção de Doenças de Bovinos, Ovinos e Caprinos do Instituto Biológico de São Paulo, no período de 1985 a 1995, segundo a natureza do microrganismo identificado.

Assim, como observado por outros autores (GENOVEZ et al., 1979; GIORGI et al., 1981/84; SWERCZEK & DONAHUE, 1990; SWERCZEK & GILES, 1990; YASUDA et al., 1986) e diferentemente do que ocorre na espécie bovina, não se verificou predomínio de qualquer agente etiológico (GENOVEZ et al., 1993), mas diversidade de gêneros bacterianos, desde aqueles representados por microrganismos normalmente implicados nos distúrbios reprodutivos, até por bactérias oportunistas ou usualmente consideradas não patogênicas.

Em vários casos, o isolamento bacteriano foi dificultado pelo estado de autólise em que se encontravam os fetos recebidos para exame (GIORGi et al., 1991; SWERCZEK&DONAHUE, 1990). Em outras ocasiões a morte fetal pode ter sido consequência da influência de toxinas e de alterações ocorridas na circulação fetal devidas ao processo inflamatório agudo, durante o período de doença(GIORGI et al., 1981; SWERCZEK & DONAHUE, 1990).

Tanto nos casos de abortamento como nas infeccões uterinas e vaginais em éguas é sempre importante estabelecer o agente etiológico com o auxílio de exames laboratoriais e somente a partir dos resultados, instituir o tratamento. Desta forma então, se poderá interromper o ciclo de perda dos produtos e também impedir aocorrência de infertilidade por infecções repetidas em remeas de alto valor econômico (GENOVEZ et al., 1979; GIORGI et al., 1984).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • GENOVEZ, M.E.; PORTO, E.; HEINS, E. M. Isolamento de Trichosporon capitatum, de material uterino, de égua puro sangue inglês. Registro de um caso. Biológico, São Paulo, v.45, n.11/12, p.295-298, 1979.
  • GENOVEZ, M.E.; SCARCELLI, E; ROJAS, S.; GIORGI, W.; KANETO, C.N. Isolamentos bacterianos de fetos abortados bovinos examinados no. Instituto Biológico de São Paulo, no período de 1985 a 1992. Braz.J.Vet.Res.Anim.Sci., v.30, n.2, p.107-112, 1993.
  • GIORGI, W.; TERUYA, M.J.; MACRUZ, R.; GENOVEZ, M.E.; SILVA, A.S.; BORGO, F. Leptospirose em eqüinos: inquérito sorológico e isolamento deLeptospira icterohaemorrhagiae de feto abortado. Biológico, São Paulo, v.47, n.2, p.47-53, 1981.
  • GIORGI, W.; GENOVEZ, M.E.; TERUYA, J.M. Abortamento em fêmea jegue (Equus asinus) provocado por Streptococcus zooepidemicus. Biológico, São Paulo, v.50, n.9,p.215-216,1984.
  • HOLT, J. C. & KRIEG, N. R. (Eds.) Bergey's manual of systematic bacteriology. Baltimore: Williams & Wilkins, 1984.
  • SWERCZEK, T. W.; DONAHUE, J.M. Equine bacterial abortions. In: KIRKIBRIDE, C.A. Laboratory diagnosis oflivestockabortion. Ames: Iowa State University Press, 1990. p.229-236.
  • SWERCZEK, T.W. & GILES, R.C. Equine placentitis caused by higher bacteria. In: KIRKIBRIDE, C.A. Laboratory diagnosis of livestock abortion. Ames: Iowa State University Press, 1990. p.243-245.
  • YASUDA, P.H.; SULZER, C.R.; GIORGI, W.; GENOVEZ, M.E. Leptospira biflexa sorotipo ranarum isolada de feto abortado de equino. Rev: Microbiol., v.17, n.10, p.25-27, 1986.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jan-Dec 1995

Histórico

  • Recebido
    19 Abr 1995
  • Aceito
    09 Jan 1996
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