Open-access CANDIDA GUILHERMONDII COMO CAUSA DE MORTALIDADE EM COLMÉIAS DE ABELHA EUROPÉIA APIS MELLIFERA MELLIFERA

CANDIDA GUILHERMONDII AS CAUSE OF DEATH IN HONEY BEES (APIS MELLIFERA MELLIFERA) IN BEE HIVES

RESUMO

Descreve-se a ocorrência de uma levedurose em colméias de abelhas melíferas determinando elevados prejuízos. O isolamento e a caracterização do agente causal possibilitou constatar tratar-se de Candida guilhermondii.

Os autores consideram que falhas no manejo propiciaram as condições necessárias para que a levedura em questão, agindo como agente oportunista, se instalasse nas colméias contaminando os favos por uma quebra do equilíbrio da microbiota bacteriana inócua, em virtude, principalmente pelo uso indiscriminado de soluções de antibióticos.

PALAVRAS-CHAVE:
Candida guilhermondii ; mortalidade; abelhas; Apis mellifera mellifera

ABSTRACT

An occurrence of Candida guilhermondii in bee hives of honey bee is presented. The authors considered that some management errors created conditions for yeast to appear and cause the problem as an oportunistic agent. The uncontrolled use of antibiotic solutions could also have contributed to this occurrence

KEY WORDS:
Candida guilhermondii ; mortality; honey bee; Apis mellifera mellifera

INTRODUÇÃO

Os problemas relacionados às doenças de abelhas vêm assumindo condição de importância crescente na medida em que a atividade apícola se amplia e ganha maior significado econômico.

O surgimento de doenças em abelhas devidas a integrantes do reino Mycota de há muito se constitui em objeto de atenção de pesquisadores. Em 1877, DONHOFF e LEUCORT, apudT OU MANO F F (1927) assinalaram o encontro de um cogumelo no aparelho digestivo de abelhas doentes. Posteriormente, TOUMANOFF (1930) confirmou o papel patogênico desse agente em trabalhos experimentais.

BETTS (1912), estudando agentes micóticos que podem comprometer as colméias, chegou a separálos em três grupos distintos: os que só são encontrados ocasionalmente; os que são de presença mais freqüente e um terceiro grupo exclusivamente encontrado nas colméias e de maior constância. Posteriomente, TURESSON (1917), constatou a presença de algumas espécies pertencentes aos gêneros Penicillium, Mucor e Cladosporium.

MORGENTHALER (1920) descreveu a ocorrência de mortes de larvas devidas à contaminação das colméias por Aspergillus niger.VINCENT (1923a,b) trabalhou experimentalmente com amostras de Aspergillus flavus e de Beauveria bassiana provocando a contaminação de adultos e de larvas, obtendo sucesso com os primeiros e apenas alguns resultados parciais com o segundo.

FIELITZ (1925) refere-se à ação patogênica de fungos pertencentes aos gêneros Penicillium, Mucor e Trichoderma, sobre abelhas adultas e larvas. Realizando estudos experimentais a partir desses cultivos, constatou a patogenicidade dos mesmos para esses insetos.

MASSEN, apudTOUMANOFF (1930), isolou de abelhas e de suas larvas, fungos pertencentes a três diferentes gêneros: Penicillium, Mucor e Aspergillus.

BORCHETT, apudTOUMANOFF (1930), também cita o isolamento a partir·de abelhas adultas e de larvas mumificadas, de fungos dos gêneros Penicillium, Mucor e Trichoderma.

BAILEY (1963/68), em trabalhos dedicados à patologia apícola, citou a possibilidade de uma eventual ocorrência de outros fungos ou leveduras causando doenças entre as abelhas e, entre as leveduras, destacou aquelas pertencentes ao gêneroTurolopsis, assinalando ainda que outros gêneros de leveduras freqüentemente encontradas em colméias poderão, eventualmente, ser dotadas de patogenicidade.

SHIMANUK (1967) assinalou que os fungos dos gêneros Aspergillus, ao contaminar as larvas, conferiam às mesmas tonalidade verde escuro ou mesmo marrom.

SCHÃBITZ (1989) também publicou trabalho informando ter detectado o Aspergillus jlavus e a Acosphoera apis entre os agentes micóticos capazes de causar sérios problemas em populações de abelhas.

Entre nós, NILSON et al.(1972) relataram a ocorrência de Candida guilhermondii em colméias de um apiário comercial no Estado de São Paulo e que tinha sua atividade especialmente dirigida para a produção de geléia real.

A presente assinalação tanibém diz respeito ao isolamento de Candida guilhermondii observada em apiário localizado no Estado do Espírito Santo onde se ob ervou alta mortalidade de larvas e pupas, além de atingir, embora em menor número, os insetos adultos. O apicultor havia tentado um tratamento das colméias comprometidas usando uma solução de antibiótico (cloranfenicol), sem entretanto, obter resultado favorável.

MATERIAL E MÉTODOS

Os fragmentos de_favos encaminhados para exame apresentavam-se com alguns alvéolos desoperculados e outros ainda operculados, contendo larvas mortas em seu interior e, sobre os mesmos, desenvolvia-se de forma irregular uma camada de material de aspecto gelatinoso e de cor branca (Fig. 1).

Os favos exalavam um odor levemente acre. Coletou-se amostras desse material para serem submetidas à semeadura em meios de caldo soro e Sabouraud-dextrose líquido. Os cultivos foram colocados em estufa bacteriológica a 37ºC e, após 24 horas de incubação, foi obtido, no caldo soro, um crescimento flocoso abundante que foi repicado para placas de ágar sangue. Nos tubos contendo meio líquido de Sabouraud obteve-se igualmente um crescimento flocoso que foi repicado para novos tubos contendo ágar Sabouraud-dextrose, incubando-se essas novas semeaduras a 37°C. Nesta segunda incubação, após 48 horas, obteve-se o crescimento, em cultura pura, de uma colônia de aspecto mucóide de tonalidade levemente rosa (Fig. 2).

Lâminas foram preparadas com esses cultivos e submetidas à coloração de Gram. Novas semeaduras foram efetuadas em placas de Petri contendo ágar Sabouraud .visando a realização de auxanograma, utilizando-se para isso os seguintes açúcares como fonte de carbono: sacarose, maltose, lactose, galactose e glicose. Para a prova de zimograma foi utilizado o nitrato de potássio como fonte de nitrogênio.

RESULTADOS

As lâminas preparadas a partir dos cultivos permitiram visualizar formações globosas, ovaladas e que freqüentemente emitiam prolongamentos constituind()-se de pseudo-hifas, que se coravam positivamente pelo Gram, embora eventualmente tomassem mal:o corante (Fig. 3).

Os cultivos em ágar sangue ofereceram crescimentos bacterianos considerados contaminantes.

As provas de auxanograma e zimograma mostraram resultados que permitiram estabelecer o diagnóstico da cultura em questão como sendo Candida guilhermondii (Fig. 4). Esses resultados estão sumariados no Quadro 1.

Quadro 1
Resultados das provas de utilização das fontes de carbono e nitrogênio.

DISCUSSÃO E CONCLUSÕES

Diversas são as espécies de fungos que apresentam a propriedade de se instalar em insetos para determinar o seu papel patogênico. Em muitos casos, há mesmo boas possibilidades da utilização desses agentes micóticos como controladores biológicos de espécies indesejáveis de insetos. Entre eles podem ser citados: Metarhizium anisopliae, Beauveria bassiana, Hirsutella thompsonii, Verticillum lecamii, além de outros (KENDRlCK, 1985).

Tais fungos entomófilos têm, muitas vezes, sua ação favorecida por fatores adjuvantes. Assim, insetos enfraquecidos por outros agentes patogênicos podem tomar-se presa fácil de fungos ou de leveduras que passam a constituir-se em verdadeiros agentes oportunistas para fazer valer sua patogenicidade.

Além do ataque direto sobre o inseto adulto, a ação de fungos e leveduras pode se fazer sentir na própria colméia, comprometendo os elementos que compõem a sua população como larvas, pupas e os próprios favos de mel.

Via de regra, as micoses que acometem os insetos podem fazê-lo através de dois mecanismos distintos: pela ingestão dos esporos por parte do inseto, juntamente com o alimento, causando distúrbios no aparelho digestivo; ou pela simples instalação do fungo sobre o tegumento do inseto onde se desenvolverá comprometendo a superficie corporal do mesmo e, em fase posterior, emite o seu micélio que atravessará o tegumento para atingir o interior do corpo.

As condições ambientais têm uma importância decisiva no sentido de favorecer o desenvolvimento desses agentes e propiciar-lhe possibilidade para manifestação do seu potencial patogênico.

PICARD (1914) já assinalava casos de doenças em insetos devidas a fungos e sugeria que elas tinham uma relação direta com as condições do meio. É fora de dúvida que o binômio constituido pelo calor e umidade representam um papel decisivo para o desenvolvimento de fungos e leveduras.

TOUMANOFF (1927) referiu-se ao fato de que a maioria dos fungos até então reconhecidos como causadores de problemas em apicultura, pode ser encontrado comumente em abelhas adultas e suas larvas não seriam, por si só patogênicos, porém assumiriam essa patogenicidade desde que condições especiais existissem.

Ainda segundo o mesmo autor fazem exceção a essa regra os Aspergillus e o Pericystis apis também conhecido como Ascophaera apis, os quais seriam dotados de uma patogenicidade específica. O primeiro causando uma doença conhecida como "Steinbrut" ou "Stone-brood" (cria petrificada) e o segundo ocasionando "Kalkhaux" ou "Chalk-brood" (cria de giz) assim chamada porque a larva se apresentará com o aspecto de um fragmento de giz.

BETTS (1912) descreve um terceiro fungo como causador de problemas relacionados apenas aos elementos na colméia, o Pericystis alvei, que se desenvolve sobre os grãos de pólen acumulados no interior das colméias. Como conseqüência pode contaminar larvas ou adultos trazendo prejuízos ao apicultor.

Finalmente, CAMARGO (1972) faz citação ao Aspergillus fumigatus como agente patógeno eventual para as abelhas, incluindo-o também como responsável pela cria de pedra.

Na presente ocorrência, os autores acreditam que as condições climáticas de calor e excessiva umidade, somadas às falhas relacionadas ao manejo das colméias, principalmente pelo uso indiscriminado de soluções antibióticas diversas por parte do apicultor que buscava o controle de um problema que julgou ser de origem bacteriana, veio a favorecer a instalação e o desenvolvimento incontrolado da levedura. Tal manifestação decorreu da eliminação de uma população de bactérias inócuas que habitualmente desempenham o papel de competidoras naturais, abrindo, dessa forma, espaço para a instalação de uma verdadeira levedurose oportunística.

A localização das colméias em local ensolarado, limpo e seco, bem como os cuidados gerais na limpeza interna e externa das mesmas paralelamente a outras medidas gerais de bom manejo, são recursos de valor no controle destes tipos de problemas.

Fig. 1
Porção do favo exibindo massas de material de aspecto mucoso e cor branca disseminado pela superfície.

Fig. 2
Cultivo em tubo contendo ágar Sabouraud, observando-se uma tonalidade levemente rosada da colônia.

Fig. 3
Aspecto obtido com esfregaço da cultura, submetido à coloração de Gram. Notar as formas globosas e a emissão de prolongamento originando a pseudo-hifa.

Fig. 4
Resultado do auxanograma. Observ_ar a intensa utilização da glicose, sacarose e maltose, discreta utilização da galactose e a não utilização da lactose.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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  • VINCENT, T. Sur l'aspergillomycose des abeilles. C.R. Hebd. Seances Acad. Sei, v.177, p.146-148, 1923a.
  • VINCENT, T. Sur une muscardine - Bauveria bassiana produite experimentalement sur les abeilles. C. R. Hebd. Seances Acad. Sei, v.177, p.234-237, 1923b.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jan-Dec 1995

Histórico

  • Recebido
    10 Abr 1995
  • Aceito
    09 Jan 1996
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