RESUMO
O trabalho relata a biologia de Microtheca punctigera (Achard) (Coleoptera: Chrysomelidae) a partir de 24 casais, além de 10 machos e 10 fêmeas virgens, alimentados com folhas de agrião, em condições de laboratório (25 ± 2ºC; 70 ± 10% UR; fotofase de 12 horas). A partir de observações diárias obtiveram-se os seguintes dados médios: longevidade de machos e fêmeas acasalados (44,90 e 67,30 dias) e virgens (52,80 e 81,40 dias); duração da cópula (3,80 min.) e intervalo entre cópulas (16,25 seg.); número de posturas/fêmea (23,52), número de ovos/postura (16,91), número-de ovos/fêmea (397,75), período de incubação (5,88 dias) e viabilidade de ovos (75,63%); número de estádios larvais (4), período larval (2,00-1,10-1,20-4,20 dias) e viabilidade das larvas nos diferentes estádios (97,00%); período pupal (3,40 dias), viabilidade das pupas (91,00%); longevidade de machos e fêmeas (44,90 e 67,30 dias) respectivamente e razão sexual (0,51).
PALAVRAS-CHAVE:
Microtheca punctigera, agrião; biologia.
ABSTRACT
Microtheca punctigera (Achard) was observed causing injury on watercress in Brazil. The biology of this species was studied under laboratory conditions at 25 ± 2ºC, 70 ± 10% RH and 12 h photophase. Adults and larvae were fed with watercress leaves. The results obtained in the study were as follows: number of eggs per oviposition (16.91); total of eggs per female (397.75); viability of eggs (75.63%), egg incubation period (5.88 days); larval period (8.50 days with four stages); viability of larvae (97.00%); pupal period (3.40 days); viability of pupae (91.00%); longevity of males and females (44.90 and 67.30 days), respectively; and sex ratio (0.51).
KEY WORDS:
Microtheca punctigera, watercress; biology.
INTRODUÇÃO
A espécie Microtheca punctigera (Achard) (Coleoptera: Chrysomelidae) foi constatada pela primeira vez na cultura de agrião no município de Franco da Rocha, SP, ocasionando queda de 80% na produção (IMENES et al, 1993). Outras espécies do gênero Microtheca são citadas como pragas de crucíferas no Brasil e no · exterior e, devido à sua intensa voracidade e proliferação, a M. punctigera apresenta-se como uma praga em potencial. A bibliografia apresenta poucos trabalhos sobre o gênero e nenhum estudo sobre a espécie em questão. CHAMBERLIN & TIPPINS (1948) descrevem a ocorrência de M. ochroloma em culturas de repolho, mostarda, couve, rabanete e nabo nos Estados Unidos, constatando ser o nabo seu alimento preferido.SILVA et al. (1968) citam M. ochroloma comendo folhas de couve, mostarda, rabanete e crucíferas em geral no Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, informando que a espécie é parasitada pelos taquinídeosAustrolidella sp. e Doriphaga sp. na Argentina e Uruguai, respectivamente. Segundo BALSBAUGH (1978) as espécies M. picea e M. ochroloma, introduzidas na América do Norte, comportam-se como pragas de crucíferas. OLIVIER & CHAPIN (1983) consideram a espécie M. ochroloma uma séria praga de crucíferas em Louisiana.
Os maiores prejuízos causados por M. punctigera à cultura de agrião são devidos à destruição de folhas e formação de folhas manchadas com grande quantidade de excrementos, que são impróprias para o consumo. Os adultos comem as folhas, mas o maior dano é causado pelas larvas que são numerosas e alimentam-se vorazmente, podendo deixar as plantas totalmente desfolhadas (IMENES et al., 1993).
MATERIAL E MÉTODOS
A criação de M.punctigera iniciou-se a partir de espécimes coletadas em cultura de agrião, no município de Franco da Rocha, SP. Os insetos foram mantidos em câmara climatizada a 25 ± 2ºC, 70 ± 10% de umidade relativa e fotofase de 12 horas. Vinte e quatro casais de indivíduos virgens, de mesma idade, foram colocados em placas de petri de 9 cm de diâmetro por 1,5 cm de altura, forradas com papel filtro. Foram também isolados 10 machos e 10 fêmeas virgens. Para alimentação foram oferecidas folhas de agrião. As posturas foram transferidas para outras placas e, após a eclosão, as larvas também foram alimentadas com folhas de agrião.
Por meio de observações diárias obteve-se as longevidades de machos e fêmeas acasalados e virgens, duração da cópula e intervalo entre cópulas, número de posturas/fêmea, número de ovos/ postura, número de ovos/fêmea, período de incubação, viabilidade de ovos, tamanho de ovos, número de estádios larvais, medida de cápsula cefálica, período larval e viabilidade de larvas nos diferentes estádios, período pupal, viabilidade das pupas e razão sexual.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os resultados apresentados representam a média dos dados obtidos.
Ovos -As posturas efetuadas sãoemgeral agrupadas, sendo feitas em brotos, folhas e talos de agrião e também em papel filtro. Os ovos têm forma elíptica e coloração inicial laranja viva, tomando-se laranja escura quando próximos da eclosão. O número de posturas por fêmea foi de 23,52 ± 8,63 e o número de ovos por posturas foi de 16,91 ± 0,46, com um total de 397,75 ± 40,85 ovos por fêmea. Verificou-se 41,05±10,21 posturas por fêmea virgem com 15,60±0,37 ovos _por postura, atingindo um total de 640,50±37,12 ovos por fêmea. O período de incubação foi de 5,88±0,28 dias e a maioria das eclosões ocorreu no período da manhã. A viabilidade dos ovos foi de 75,63%. Avaliando-se 100 ovos, determinou-se um comprimento de 0,96mm (Â= 0,88 a 1,09). OLIVIER & CHAPIN (1983) demonstraram, para a espécieM. ochroloma, não haver diferença nonúmerodeovosdiários em três fotoperíodos (ambiente, 14h 10 e 12h 12), determinaram que o número total de ovos foi maior em fotoperíodo ambiente (83,3 ovos em 12,5 dias) e verificaram que o período de incubação foi em média de 4,80 dias.
Larvas - Ao eclodirem as larvas são de coloração laranja, tomando-se enegrecidas após algumas horas; alimentam-se do córion dos ovos e são do tipo campodeiforme. Constatou-se 4 estádios larvais, sendo que no 4º estádio 2,10 dias foram da fase larval e 2,10 dias da fase de pré-pupa. A partir de 50 larvas de cada estádio (1º a 4º) foram determinadas as medidas das cápsulas cefálicas apresentadas na Tabela 1, bem como a duração média em dias e respectivas viabilidades de cada estádio larval. Observou-se que antes e após cada ecdise, as larvas permaneciam imóveis por algum tempo. As pré-pupas teciam sobre si um casulo globoso, fibroso, com aspecto de rede, ficando agrupadas ou não, no interior dos pecíolos ou entre o papel filtro e a placa de petri. A viabilidade das pré-pupas foi de 78,00% (Â = 31 a 100). OLIVIER & CHAPIN (1983) estudando a biologia de M. ochroloma constataram três estádios larvais com 3,2 - 3,6 - 5,5 dias, respectivamente, sendo que o período de pré-pupa estava incluso no 3º estádio. No segundo dia a pré-pupa iniciava a formação do casulo com material fibroso excretado pelo orifício anal, sendo primeiramente claro e flexível e tomandose escuro e quebradiço. Observaram que a pré-pupa possuia material suficiente para um único casulo que, se fosse removido ou danificado, não poderia ser substituído.
Pupas - As pupas são brancas no início, tomandose marrom escuras próximo à emergência do adulto. Observou-se dimorfismo sexual representado pela presença de duas pequenas protuberâncias bilaterais, próximas ao eixo sagital, no penúltimo estemito das fêmeas e ausentes nos machos. As pupas dos machos foram visivelmente menores que as das fêmeas. O período pupal foi de 3,40 ± 0,79 dias e a viabilidade foi de 91,00% (Â = 1 a 100). Segundo OLIVIER & CHAPIN (1983), para a espécie M. ochroloma, o período pupal foi de 5,40 dias e o período de desenvolvimento de ovo a adulto foi de 22,50 dias.
Número de estádios, duração média em dias, largura da cápsula cefálica e viabilidade de larvas de M. punctigera, criadas em folhas de agrião em condições de laboratório (25 ± 2ºC; 70 ± 10%UR; fotofase de 12 h).
Adultos - A cabeça é de coloração negra; os élitros são marrom escuros brilhantes com linhas pontuadas; as bordas elitrais são amarelo palha, nos insetos recém-emergidos, tomando-se laranja avermelhada à medida que envelhecem. Os machos são menores que as fêmeas, medindo respectivamente 4,00 e 6,00 mm de comprimento. M. punctigera é uma espécie altamente prolífera. Observou-se que os adultos copulavam por 3,80 minutos, com intervalos entre as cópulas de 16,25 segundos. A iniciativa da cópula partia sempre do macho que ficava quase todo o período em cima da fêmea. O período de préoviposição foi de 4,00 ± 1,20 dias. Verificaram-se acasalamentos durante toda a fase adulta. A longevidade foi de 44,90 ± 9,48 e 67,30 ± 12,63 dias para machos e fêmeas acasalados, respectivamente, e52,80 ± 19,52 dias e 81,40 ± 24,36 dias para machos e fêmeas virgens, respectivamente. A razão sexual foi de 0,51. OLIVIER & CHAPIN (1983) observaram que adultos jovens da espécie M. ochroloma permaneciam no interior do casulo pupal por 1 a 2 dias. Inicialmente eram flexíveis e de coloração clara; quando completamente pigmentados, cerca de 25% possuiam margem vermelha nos élitros. e o· restante apresentava a margem elitral amarela. A pigmentação geral se completava antes do adulto abandonar o casulo e iniciar a alimentação. Determinaram não haver diferenças para o período de pré-cópula (5 a 6 dias) e cópula (5,70 a 6,30 dias) nos três fotoperíodos estudados (ambiente, 14:10 e 12: 12), mas observaram que, em fotoperíodo ambiente, o período de oviposição (12,50 dias) foi maior que nos demais, assim como a longevidade da fêmea (42,40 dias); os machos viveram por duas semanas nos três fotoperíodos estudados.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- BALSBAUGH JÚNIOR, E.U. A second species of Microtheca Stal (Coleoptera: Chrysomelidae) found in North America. Coleopterists Bull., v.32, n.3, p.219-222., 1978.
- CHAMBERLIN, F.S. & TIPPINS, H.H. Microtheca ochroloma, an introduced pest of crucifers, found in Alabama.J.Econ. Entornol., v.41, n.6, p.979-980, 1948.
- IMENES, S.D.L.; BERGMANN, E.C.; ZORZENON, F. J.; COELHO, J. Ocorrência de Microtheca punctigera (Achard.) em cultura de agrião. In: REUNIÃO ANUAL DO INSTITUTO BIOLÓGICO, 6., 1993, São Paulo.Resumos. p.43.
- OLIVIER, A.D. & CHAPIN, J.B. Biology and distribution of the yellowmargined leaf beetle, Microtheca ochroloma Stal, with notes on M. picea (Guérin) (Coleoptera: Chrysomelidae) in Louisiana. J. Georgia Entomol. Soe., v.18, n.2, p.224-229, 1983
- SILVA, A. G. D' A. (Coord) Quarto catálogo dos insetos que vivem nas plantas do Brasil, seus parasitas e predadores. Rio de Janeiro: Serviço de Defesa Sanitária Vegetal, Ministério da Agricultura, 1968. Pt.2, T. l.
