RESUMO
Os resultados apresentados fazem parte dos trabalhos realizados dentro do Programa de Pesquisa sobre Animais de Vida Livre, no período de 1992 a 1994. Através do microscópio eletrônico de transmissão, utilizando contrastação negativa, é descrita a visualização de partículas semelhantes a rotavírus em 3 das 15 amostras de fezes de gambás-de-orelhas-pretas (Didelphis marsupialis), procedentes da Reserva Florestal da Serra do Itapety, localizada no município de Mogi das Cruzes, Estado de São Paulo. A presença constante dessas partículas características, medindo em média 70nm de diâmetro, nas amostras fecais, de consistência anormalmente pastosa, sugere a possibilidade dos animais estarem na fase de convalescência da virose, ou de serem portadores latentes, ou mesmo, de servirem de reservatório ao vírus. Esse é o primeiro relato de rotavírus em marsupiais, na Mata Atlântica.
PALAVRAS-CHAVE:
Didelphis marsupialis, Gambá-de-orelha-preta; animais silvestres; rotavírus; vida livre.
ABSTRACT
The present results concern part of the work undertaken w,ithin the research program on wild animals between 1992 and 1994. The visualization of negatively stained rotavirus-like particles under transmission electron microscope in 3 of 15 faeces samples of common opossum (Didelphis marsupialis) is reported. The animals carne from a forest reserve, located in Mogi das Cruzes District (São Paulo state, Brazil). The constant presence oftypical rotavirus-like particles, measuring about 70 nm in diameter, in faeces samples of abnormal pasty consistence, suggests that the animals could be in a convalescence stage of the disease, could be latent carriers, or they could be viral reservoirs. This is the first report of rotavirus in marsupials from the brazilian Atlantic Forest.
KEY WORDS:
Didelphis marsupialis, common opossum; wild animals; rotavirus; wild.
INTRODUÇÃO
O vírion do rotavírus é isométrico, aparentemente icosaédrico medindo 65-75 nm de diâmetro, com 32 ou 92 capsômeros, não possuindo envelope, sendo sua porção mais externa constituída de duas camadas de proteína, que envolvem um genoma de RNA segmentado de dupla cadeia. As partículas maduras possuem uma camada externa tipo aro cercando capsômeros distintos que, quando penetradas pelo corante, parecem anéis com sulcos laterais. A cápside interna também exibe capsômeros e possui uma banda exterior serrilhada característica. O core interno, de aproximadamente 40 nm em diâmetro pode ser distinguido em preparações frescas (DOANE & ANDERSON,1987).
As caracteríticas morfológicas típicas do rotavírus, evidenciadas por microscopia eletrônica através do método da contrastação negativa, permitem a definição da partícula viral, sendo este o método preconizado por FENNER et al. (1992) como o mais apropriado para o diagnóstico de infecções entéricas de origem viral; isto por posssibilitar a detecção de diferentes tipos de partículas virais, revelar infecções mistas e permitir inclusive a descoberta de novos vírus.
A contrastação negativa, considerada como o mais simples e rápido método de diagnóstico para detecção de vírus em amostras clínicas, apresenta como fator restritivo a necessidade de um título viral de aproximadamente de 106 a 107 por mL (DOANE & ANDERSON, 1987). Como artifício para concentrar as partículas, pode ser utilizada a imunomicroscopia eletrônica, com antisoro específico (DOANE & ANDERSON, 1987; FENNER et al., 1992); porém, como nas gastroenterites, normalmente, ocorrem altas concentrações virais (DOANE & ANDERSON, 1987), a utilização da simples contrastação negativa apresenta excelente resultado, se tornando desnecessária a imunomicroscopia para este fim, o que resulta em uma vantagem, se considerarmos a inexistência de soros específicos para vírus ainda não isolados.
Me NULTY et al. (1976), comparando métodos de diagnóstico de rotavírus em fezes de bovino, concluíram que a microscopia eletrônica direta, a imunomicroscopia eletrônica e a imunofluorescência de cultivos de células inoculadas com suspensões fecais, apresentam igual sensibilidade.
As rotavirose_s do grupo A são a principal causa de severa diarréia desidratante em crianças de idade inferior a 5 anos, o que resulta em custosas hospitalizações pediátricas e, mundialmente, em milhares de óbitos (GOUVEA & BRANTLY, 1995). O rotavírus também pode estar associado ao coronavírus causando enterite em suínos jovens, caracterizada por diarréia amarelada, do tipo mucosa (SAYD et al., 1989). De acordo com DEA et al. (1981) o rotavírus e o coronavírus representam os dois principais agentes virais responsáveis por distúrbios diarréicos em bezerros recém-nascidos.
Existem poucas referências sobre a ocorrência e prevalência desta virose em populações de vida silvestre e em cativeiro, constituindo-se em significante contribuição os estudos que enfocam a importância dos animais silvestres e sinantrópicos na cadeia de transmissão das rotaviroses nos ecossistemas.
Dentro do Programa de Pesquisas em Animais de Vida Livre, da Reserva Florestal da Serra do Itapety, em Mogi das Cruzes, o Instituto Biológico participa com os trabalhos de determinação e identificação de partículas semelhantes a vírus nos materiais provenientes de diversos animais silvestres e sinantrópicos. Este trabalho é parte integrante dessas pesquisas realizadas com amostras colhidas naquela Reserva, no período de 1992 a 1994.
Durante estudo sobre a comunidade de pequenos mamíferos, envolvendo captura e recaptura, no Parque Municipal da Serra do Itapety, foram colhidas para diversos tipos de exames, dentre eles, para a pesquisa de vírus ao microscópio eletrônico, 15 amostras fecais de gambás-de-orelhas-pretas (Didelphis marsupialis). O gambá-de-orelha-preta é um pequeno marsupial omnívoro e de hábitos noturnos, endêmico no continente americano, com distribução desde o leste do México até o norte da Argentina (NOWAK, 1991).
MATERIAL E MÉTODOS
O Parque Municipal da Serra do Itapety, (28º26'S, 46º09'W) é uma reserva florestal com aproximadamente 352,3 he. Os gambás-de-orelhaspretas adultos, aparentemente sadios, foram capturados em armadilhas do tipo "live trap" e libertados, após identificação, marcação e colheita de fezes, perfazendo um total de 15 animais.
Amostras fecais, de aproximadamente lg, conservadas em gelo, algumas delas de consistência anormalmente pastosa, foram processadas para exame por microscopia eletrônica de transmissão, através da técnica de contrastação negativa (BRENNER & HORNE, 1959). Nesta metodologia as amostras são suspensas em tampão fosfato O,1 Me pH7 ,O, colocadas em contato com grades metálicas, previamente cobertas com filme de colódio e carbono (FLEWETT & WOODE, 1978), drenadas com papel de filtro, contrastadas negativamente com molibdato de amônio a 2%, pH 5,0 e observadas em microscópio eletrônico de transmissão Philips EM 300.
RESULTADOS
Nas amostras examinadas ao microscop10 eletrônico de transmissão evidenciou-se em três delas, partículas semelhantes a rotavírus, medindo em média 70 nm de diâmetro, caracterizadas como partículas completas, não envelopadas, com simetria icosaédrica, onde podiam ser bem identificados os capsômeros (Fig.l). A estrutura externa da cápside era constituída por capsômeros distintos que, ao serem penetrados pelo corante aparentavam anéis, com sulcos laterais; a estrutura interna, também exibindo capsômeros individualizados pela penetração do corante, apresentava um serrilhado característico (Fig.l).
Não foram observadas partículas vazias, tubulares, ou do tipo achatadas, nas amostras analisadas.
DISCUSSÃO E CONCLUSÕES
O rotavírus ocasiona diarréia em animais jovens, principalmente em bezerros, leitões, potros e cordeiros (DOANE & ANDERSON, 1987), podendo afetar também suínos de todas as idades (BEER, 1988). Tendo já sido demonstrado em diversas espécies animais, inclusive no homem, o relato aqui apresentado é, de acordo com a literatura internacional, a segunda ocorrência do rotavírus em marsupiais, particularmente em gambás, sendo ainda, o primeiro em animais habitantes da Mata Atlântica. O primeiro é de UNHARES et al. (1986) que detectaram, através da utilização do teste de ELISA, a presença de rotavírus em duas amostras de fezes de gambá procedentes da região Amazônica.
Embora os animais capturados, aqui estudados estivessem aparentemente sadios, alguns apresentavam fezes com consistência anormalmente pastosa, o que poderia indicar provável ocorrência da enfermidade. Futuros estudos com novas recapturas e obtenção de maior quantidade de material para aplicação de outras metodologias deverão ser realizados, buscando um melhor entendimento da história natural da infecção nesse meio ambiente.
A presença constante destas partículas típicas, em três das amostras examinadas, sugere diversas possibilidades, tais como: a dos animais excretarem o vírus, mas apresentarem a doença sob a forma subclínica, de serem portadores latentes, ou ainda de estarem servindo de reservatório natural ao vírus, para diversas espécies animais. Esta última hipótese reforçada por resultados de UNHARES et al. (1986), que afirmaram serem esses animais silvestres reservatórios e se constituindo, então, fonte de infecção para as comunidades indígenas. Os autores postulam a endemicidade da infecção e consideram o papel desta espécie animal no mecanismo de transmissão, uma vez que os contatos entre os indígenas e a população urbana deste estudo é muito esporádico.
Fotomicrografia eletrônica, observando-se grupamento de partículas de 70 nm, isométricas, completas, com capsômeros bem individualizados (seta), características do gênero rotavírus.
No presente trabalho pudemos observar facilmente, ao microscópio eletrônico, nas amostras fecais dos gambás, um grande número de partículas virais completas, de aspecto morfológico típico de rotavírus, tornando-se desnecessário o emprego da imunoeletromicroscopia para maior aglutinação de partículas, como preconizado por DOANE & ANDERSON (1987) e FENNER et al. (1992), para contornar o problema do baixo título viral de amostras. A quantidade das amostras foi insuficiente para a tipificação dos vírus, entretanto, em nosso projeto está prevista seqüência de metodologias, para caracterização dos vírus visualizados ao microscópio eletrônico.
LINHARES et al. (1986) encontraram nas amostras estudadas um pequeno número de partículas "vazias" (incompletas), o que limitou a possibilidade de detecção de RNA vÍral por eletroforese em gel de poliacrilamida (PAGE).
Nos estudos epidemiológicos do rotavírus e de vírus emergentes, o papel dos animais silvestres como portadores sadios ou reservatórios assume importante significado, uma vez que temos pouco conhecimento da capacidade de infecção que os mesmos poderiam ter para outras espécies animais e mesmo para o homem e vivenciamos constantes interferências ambientais com alterações e deslocamentos de nichos ecológicos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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