Open-access VIROSES EM ORQUÍDEAS NO ESTADO DE SÃO PAULO

ORCHID VIRUSES IN SÃO PAULO STATE

RESUMO

No Brasil, diversas orquídeas nativas e introduzidas são cultivadas comercialmente através de técnicas tradicionais e, atualmente, também utilizando a técnica de propagação in vitro. Considerando a importância dessa cultura e a falta de dados recentes sobre a situação fitossanitária, no que se refere a vírus, são apresentados os resultados dos exames realizados em amostras enviadas por produtores, no período 1993 a 1995. É interessante observar que os vírus mais frequentemente detectados foram mosaico do Cymbidium (Potexvirus), "orchid fleck" (Rhabdoviridae) e mancha anelar do Odontoglossum (Tosamovirus). A ocorrência desses vírus deve ser levada em consideração em programas de propagação de orquídeas.

PALAVRAS-CHAVE:
Orquídeas; vírus do mosaico do Cymbidium; "orchid fleck".

ABSTRACT

In Brazil, several native and introduced orchids are commercially cultivated by traditional techniques and by in-vitro propagation. The present paper concems the results of virus detectión in orchid samples examined between 1993 and 1995. The most common viroses were Cymbidium mosaic viros (Potexvirus ), orchid fleck viros (Rhabdoviridae) and Odontoglossum ringspot viros (Tosamovirus). The importance of such viroses should be taken into account in future programmes of orchid propagation.

KEY WORDS:
Orchids; Cymbidium mosaic virus; orchid fleck viros.

INTRODUÇÃO

A fanu1ia Orchidaceae compreende cerca de 35.000 espécies, pertencentes a 800 gêneros (GRAF, 1992), distribuídas principalmente nas regiões tropicais nas quais predominam as formas epífitas e ropícolas, enquanto que fora dos trópicos há o predomínio de formas terrestres (JOLY, 1966). Com exceção dogênero Vanilla, cujos frutos são utilizados comercialmente, os demais são utilizados para fins ornamentais. Dentre os gêneros queocorrem no Brasil, com numerosas espécies, destacam-seCattleya, Laelia, Epidendrum, Brassavola, Stanhopea, Catasetum, Cyrtopodium, Miltonia, Habenaria, Pleurothallis e Oncidium. Dentre os gêneros introduzidos os principais são Aerides, Vanda, Paphiopedilum, Dendrobium, Cymbidium e Odontoglossum (JOLY, 1966).

Viroses de orquídeas são largamente estudadas em vários países,já tendo sido relatados os seguintes vírus: "tomato ringspot" (ToRSV) Nepovirus; "cymbidium mosaic" (CyMV) Potexvirus; "odontoglossum ringspot" (ORSV) Tobamovirus; "tomato spotted wilt" (TSWV) Tospovirus; "Laelia red leafspot" (LRLV) Rhabdovirus, "Dendrobiumleaf streak" (DLSV) Rhabdovirus, "Phalaenopsis chlorotic spot" (PhaCSV) Rhabdovirus, "Orchid fleck" (OPV) Rhabdovirus; "Dendrobium vein necrosis" (DVNV) Closterovirus e "bean yellow mosaic" (BYMV) Potyvirus (DOI et al., 1977; ZETTLER et a{,1978; WISLER et al., 1982; HAMMOND & LAWSON, 1988; HU et al., 1993; YAO et al., 1994; WONG et al., 1994; MURPHY et al., 1995).

No Brasil, entretanto, os trabalhos são relativamente escassos. Até 1977, quando CHAGAS e colaboradores relataram a ocorrência de um complexo viral constituído por CyMV e ORSV, em Cymbidium sp., havia apenas duas citações.

NOBREGA (1947) relatou a ocorrência do vírus do mosaico do pepino (CMV) em mudas de Dendrobium nobile Lindl., provenientes de Santos (SP). As plantas apresentayam atraso no crescimento, clorose generalizada, redução no tamanho das folhas e encurtamento dos intemós, além de mosaico com áreas de coloração verde-claro e verde-escuro, manchas cloróticas difusas, entre as nervuras, e riscas brancas dispostas ao longo das nervuras. O autor não conseguiu a transmissão mecânica do vírus da orquídea para outras orquídeas sadias e também foram negativos os. testes de transmissão através do pulgão amarelo: Macrosiphum luteum, embora o teste tenha sido feito com poucas repetições.

Em 1974, KITAJIMA e colaboradores observaram ao microscópio eletrônico partículas baciliformes, de possível etiologia viral, associadas a sintomas do tipo mancha anular, em diversas espécies de orquídeas: Miltonia anceps, M. cuneata, M. regnellii, Oncidium flexuosum, Brassia thyrsodes, B. caudata, Bifrenaria harrisoniae e Honnidium fragrans.

Posteriormente, partículas "naked" deRhabdovirus, semelhantes as descritas por KITAJIMA, foram detectadas em O. flexuosum (CHAGAS et al., 1988) que também relataram a ocorrência de partículas completas deRhabdovirus emLaelia tenebrosa. No mesmo ano, CHAGAS e colaboradores relataram a ocorrência de CyMV em Laelia purpurata e Cymbidium sp. e ORSV em L. tenebrosa.CARVALHO et al. (1990) relataram a ocorrência de ORSV em Laelia sp. e Cattleya sp., em Minas Gerais.

No presente trabalho foi relatada a ocorrência de vírus em 27 amostras de orquídeas, enviadas à Seção de Virologia Fitopatológica e Fisiopatologia (SVFF), no período de 1993-1995.

MATERIAL E MÉTODOS

As amostras foliares foram trituradas em presença de sulfito de sódio 0,04M e os extratos inoculados, mecanicamente, em plantas indicadoras: Chenopodium amaranticolor, Gomphrena globosa e Nicotiana glutinosa. Essas amostras foram preparadas, para observação ao microscópio eletrônico, utilizandose a técnica de imersão foliar rápida ("leaf-dip") e contrastadas negativamente com acetato de uranila 2% em água. Em alguns casos foram realizados testes de imuno-adsorção (ISEM), utilizando-se antissoro (ASCyMV) diluído 1:1000 em tampão fosfato 0,01M.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Como pode-se verificar na Tabela 1, os vírus mais frequentemente encontrados são o CyMV e o OFV. A identificação do OFV foi feita através da morfologia da partícula do tipo baciliforme, sem envelope, com 40 x 150 nm, enquanto queo CyMV foi identificado não só pela morfologia da partícula do tipo alongada, com 480 nm de comprimento, como também por teste serológico (ISEM). Em todas as amostras com resultado positivo foram observadas partículas virais ao microscópio eletrônico. Além disso, em alguns casos o CyMV foi transmitido mecanicamente induzindo lesões locais em C. amaranticolor. O mesmo fato ocorreu com o ORSV que induziu lesões locais em N. glutinosa. Convém salientar, que nem sempre foi possível transmitir mecanicamente o vírus das amostras, devido a diversos fatores: baixa concentração de vírus, distribuição irregular de vírus nas plantas, ambientais (luz, temperatura, nutrientes), ou ainda, intrínsecos à hospedeira (MATTHEWS, 1991).

Os intomas induzidos pelos vírus em orquídeas (Figs.1, 2 e 3) variam em função do vírus presente, da espécie ou variedade de orquídea, do desenvolvimento da planta, da época do ano etc, dificultando a identificação do vírus, somente, através da sintomatologia. FRANCKI (1966) relata que os vírus que infectam Cymbidium sp. podem não induzir sintomas ou induzir sintomas que variam de riscas cloróticas e necróticas a mosaico, sendo muitas vezes impossível distinguir TMV e CyMV. Já, em relação ao ORSV, o sintoma típico descrito para Cymbidium é a mancha diamante, porém a expressão dos sintomas é muito variável (PAUL, 1975). Além disso, na prática, plantas aparentemente sadias podem estar infectadas, bem como, plantas com sintomas podem apresentar resultados negativos.

PEARSON & COLE ( 1986) realizaram inoculações experimentais de ORSV e CyMV em 2 cultivares de Cymbidium: Lillian Stewart "Coronation" e Sensation "Kimberley" x Sabre Dance "South Pacific" verificando que o CyMV induziu mosaico foliar intenso com ou sem riscas necróticas, enquanto que o ORSV não induziu sintomas ou iq.dqziu um mosqueado leve. Os autores verificaram, também, que os vírus não puderam ser detectados 8 semanas após a inoculação. Essa inabilidade na detecção dos vírus foi associada à baixa concentração virai e/ou a distribuição irregular dos vírus nas orquídeas.

Na cultura de orquídeas, os dois principais vírus ORSV e CyMV têm sido limitantes da produção. Esses vírus são de fácil transmissão mecânica e a sua propagação pode ocorrer de orquídeas doentes para sadias, através de instrumentos de corte, por ocasião dos tratos culturais e multiplicação de mudas. Para evitar a disseminação é aconselhável: a eliminação de plantas reconhecidamente infectadas; a formação de novos lotes a partir de sementes, isolando-se as mudas novas das velhas; a proteção do orquidário contra insetos; a lavagem das mãos com água e sabão e desinfecção dos instrumentos de corte; a não utilização, para novos plantios, de vasos nos quais se desenvolveram plantas infectadas ou o musgo Sphagnum sp. deles procedentes (CHAGAS, 1977).

Embora o ORSV raramente infecte orquídeas silvestres, o nível de infecção virai em orquídeas cultivadas é, em geral, alto sugerindo que o homem seja, provavelmente, o principal responsável pela transmissão da doença (DORE, 1987). A obtenção de plântulas livres de vírus através da cultura de meristemas vem sendo utilizada desde 1960, porém nem sempre têm-se mostrado adequada. A adição de quimioterápicos como Virazole ao meio de cultura tem aumentado a eficiência na erradicação do ORSV e CyMV (ALBOUY et al., 1988).

Apesar dos poucos estudos sobre a ecologia e a epidemiologia dos Rhabdovirus, a maioria deles é transmitida por afídeos e cigarrinhas, não havendo referência sobre a transmissão pela semente (FRANCKI et al., 1981). No caso do OFV, a disseminação ocorre geralmente pela multiplicação vegetativa a partir de material infectado.

Quanto aos Tospovirus apesar de não terem sido descritos em orquídeas, no Brasil, deve-se ficar atento pois, são amplamente disseminados em plantas ornamentais, principalmente nas cultivadas em estufa, devido a eficiência do vetor (tripes). Neste caso, a maneira indireta mais eficiente de controle do vírus é através da eliminação do vetor e das plantas infectadas.

Fig. l
Folha de Phalaenopsis sp. com manchas cloróticas (Rhabdovirus).

Fig. 2
Folha de Phalaenopsis sp. com manchas e anéis cloróticos (Potexvirus).

Fig. 3
Folha de Stanhopea sp. apresentando anéis necróticos (Rhabdovirus).

Tabela 1
Identificação de vírus em amostras de orquídeas de diversas regiões do Estado de São Paulo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jan-Jun 1996

Histórico

  • Recebido
    09 Fev 1996
  • Aceito
    09 Abr 1996
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