Open-access GLOSSITE VIRAL EM BOVINO: SUA POSSÍVEL RELAÇÃO COM A OCORRÊNCIA DE "NÓDULO DOS ORDENHADORES"

BOVINE VIRAL GLOSSITIS AND ITS POSSIBLE RELATIONSHIP WITH A CASE OF MILKER' S NODULES

RESUMO

Descreve-se a ocorrência de glossite viral acometendo bezerros. Os autores discutem os aspectos clínicos e anatomo-patológicos das lesões e caracterizam, através da microscopia eletrônica de transmissão, a presença de partículas virais do grupo Pox. Paralelamente é registrada a ocorrência de lesão nodular em dedo de um ordenhador, considerando-se a possibilidade de relação entre os dois eventos.

PALAVRAS-CHAVE:
Glossite; Pox vírus; bezerro; nódulo dos ordenhadores.

ABSTRACT

A case of virnl glossitis in male calves is presented. The authors discuss the clinica} findings, anatomopatological aspects and identify, by the transmission eletronic microscopy, viral particles of the Pox group. The possible relationship with a previous incident of milker' s nodules is considered.

KEY WORDS:
Glossitis; Pox vírus; male calves; milker's'nodules.

INTRODUÇÃO

Os vírus da farm1ia Poxviridae, agrupados em duas subfarm1ias, Chordopoxvirinae e Entomopoxvirinae, representam um contingente de agentes responsáveis pela etiologia de inúmeras enfermidades, tais como: pseudovariola bovina; dermatite ou estomatite pustular contagiosa ou ectima contagioso dos ovinos e caprinos ou ORF; varíola suína; varíola bovina; estomatite papular bovina ou dermatite pustular contagiosa dos bovinos; mixomatose; nódulo dos ordenhadores ou paravaccínia, além de atingirem também diversas outras espécies animais (HAGAN & BRUNER 1952; LAUDER et al., 1971; MATTHEWS, 1982).

Deve ser salientada a importância do gênero Parapoxvírus, no qual se encontram os agentes da estomatite papular bovina, do ectima contagioso dos ovinos e caprinos e da afecção humana conhecida como nódulo dos ordenhadores.

No que concerne às lesões ocasionadas pelos agentes anteriormente mencionados, afirma-se que as mesmas são bem definidas e altamente sugestivas, oque permite, com certa facilidade, o estabelecimento do diagnóstico clínico.

Um dos aspectos relevantes e que merece destaque, diz respeito à contagiosidade e transmissibilidade do agente à espécie humana, fato que caracteriza tratar-se de uma zoonose, visto que a manipulação de animais doentes provoca a formação, principalmente nas falanges distais, de nódulos indolores, de consistência firme, lisos ou umbelicados, inicialmente avermelhados, podendo tornar-se escuros. Há autores que relatam ter observado até 40 nódulos em uma única mão (HAGAN & BRUNER, 1952). Apesar de serem indolores, algumas vezes há prurido, além de uma tendência à regressão espontânea com desaparecimento total dentro de um período de 4 a 6 semanas (BECKER, 1940; NOMLAND & Me KEE, 1952; NAGINGTON et al., 1967; TUAILLON & JOUBERT, 1975).

Atualmente esta doença tem sido raramente observada e é conhecida vulgarmente como Nódulo dos Ordenhadores ou "Doença de Lipschnütz", tratando-se, portanto, de uma entidade de caráter ocupacional - e é identificada pela sigla "ORF" (Open Reading Farmers).

O presente trabalho visa o registro de uma glossite virai grave em bezerros, abordando-se a possibilidade de sua relação com a ocorrência anterior de um caso de nódulo dos ordenhadores, na mesma propriedade.

Descrição do Caso Clínico

Em uma propriedade de exploração leiteira, situada no Vale do Paraíba, Estado de São Paulo, cujo rebanho é constituído por animais da raça holandesa, verificou-se que o responsável pela ordenha apresentava um nódulo localizado ao nível da articulação da primeira falange do dedo indicador da mão esquerda, com as características anteriormente descritas ( Fig. 1).

Relatos posteriores informaram que, ao final do 14º dia, o mesmo regrediu espontaneamente, restando em seu local apenas uma discreta reação cicatricial. Após o registro do comprometimento humano, passou-se a examinar o rebanho e constatou-se haver dois bezerros, cop. 3 meses de idade, apresentando um quadro clínico caracterizado por sialorréia persistente, edema da mucosa bucal e macroglossia, com exteriorização permanente da língua.

Fig. 1
Detalhe do dedo do ordenhador exibindo nódulo à'altura da primeira falange.

Ao exame clínico observou-se que a língua apresentava fissuras transversais profundas em toda a sua extensão (Fig. 2 ). Passados três dias dessa constatação, os animais sucumbiram, sendo submetidos à necrópsia sem terem apresentado lesões macroscópicas, na pele ou nas vísceras torácicas e abdominais, que possibilitassem estabelecer a causa mortis.

MATERIAL E MÉTODOS

Histopatologia - Para o estudo das lesões, coletou-se fragmentos representativos da língua, que foram previamente fixados em formalina a 10%, incluidos em parafina, de onde se obteve cortes de 5 micrômetros, que foram corados pela hematoxilina-eosina.

Microscopia Eletrônica de Transmissão - Fragmentos do epitélio lingual, conservados em glutaraldeído, foram macerados e ressuspensos em tampão cacodilato de sódio 0,lM, pH 7,2. Essa suspensão foi submetida a uma centrifugação de 1000 rpm, durante 10 minutos.

Uma gota do sobrenadante foi depositada sobre tela de cobre revestida por um filme de colódio estabilizado com carvão, onde permaneceu por 5 minutos, antes de ser drenada com papel de filtro. A preparação foi contrastada negativamente com ácido fosfotungstico a 2%, pH 7,0 e examinada ao microscópio eletrônico de transmissão, Philips EM 300.

Fig. 2
Língua de um dos bezerros com inúmeras e profundas fissuras transversais.

RESULTADOS

O exame dos preparados corados pela hematoxilinaeosina permite observar um epitélio pavimentoso estratificado, comeificado com projeções profundas dos cones epiteliais. As células das camadas média e superficial exibem alterações notáveis, caracterizadas por edema acentuado, citoplasma vacuolizado e núcleo condensado. Nota-se áreas onde há perda da coesão entre as células, resultando na formação de vesículas. Há ainda uma hiperplasia epitelial evidente, devendo destacar-se a ausência de inclusões virais tanto no núcleo quanto no citoplasma das células epiteliais da mucosa.

Fig. 3
Fotomicrografia de corte histológico de língua, mostrando hiperplasia de camada de Malpighi, degeneração balonosa, acantólise e um infiltrado difuso com células mononucleares na submucosa. Coloração hematoxilina-eosina (166X).

Fig. 4
Detalhe, em maior aumento, da figura anterior mostrando, além da acantólise, formação de vesículas preenchidas por debris celulares. Coloração hematoxilina-eosina (660X).

As alterações morfológicas descritas são compatíveis com um quadro dedegeneração balonosa e acantose. Na submucosa, observa-se que o colágeno mostra-se desorganizado, discretamente hialinizado e exibindo um infiltrado de células mono e polimorfonucleares (Figs. 3 e 4).

O exame das preparações pela eletronomicroscopia revelou a presença de partículas virais, medindo 265 por 167 nm, com estrutura característica da farm1ia Poxviridae.

DISCUSSÃO E CONCLUSÕES

Muito embora o diagnóstico clínico, via de regra, não ofereça maiores dificuldades, a denominação varíola foi por algum tempo indistintamente utilizada, na literatura médica e veterinária, para identificar lesões papulares evesiculares em bovinos, motivando confusões ao ser mencionada por alguns autores, para caracterizar manifestações clínicas variadas da varíola verdadeira, da falsa varíola, da vaccínia e dos nódulos dos ordenhadores (NOMLAND & Me KEE, 1952; NAGINGTON & WHITTLE, 1961; CHEVILLE & SHEY, 1967; HUCK, 1968; MATTHEWS, 1982).

A ocorrência da varíola verdadeira declinou ao longo do tempo, sendo hoje considerada como erradicada. Entretanto, no caso particular da paravaccinia, a doença se apresenta com distribuição cosmopolita e é considerada um evento fugaz em bovinos (JOLKIK, 1966; GIBBS et al., 1980; TRIPATHY, 1981).

As lesões apresentam-se como vesículas umbelicadas que causam intensa sensação dolorosa, prejudicando as manobras de ordenha. Se não houver contaminação secundária, as vesículas evoluem para a formação de crostas que secam e, em seguida, o epitélio regenera-se. Quando ocorrem complicações, ocasionam mamites que freqüentemente inutilizam o animal para sua principal finalidade econômica: a produção láctea.

Nos relatos relacionados com esta entidade merecem destaque os trabalhos de BECKER (1940) que estudou 4 diferentes ocorrências de nódulos dos ordenhadores, sem contudo chegar a estabelecer uma relação definitiva com o vírus da vaccinia. HESTER (1941) efetuou estudos no decorrer de um surto de varíola bovina, relacionando-o com o surgimento de casos de nódulos dos ordenhadores e a presença do vírus da vaccinia. HAGAN (1952) discutiu o fato de que a rara ocorrência da paravaccinia e conseqüentemente do nódulo dos ordenhadores, está relacionada ao declínio mundial da varíola humana, sugerindo a existência de estreita relação e dependência entre as duas entidades.

NOMLAND (1952) também descreveu casos de nódulos dos ordenhadores, discutindo sua possível relação com a varíola verdadeira. JOLKIK (1966) atribuiu ao grupo paravaccinia a responsabilidade por algumas manifestações clínicas e entre elas o nódulo dos ordenhadores. NAGINGTON (1966) fez observações sobre a varíola verdadeira considerando-a uma entidade rara, entretanto, alerta para a possibilidade do surgimento de lesões similares devidas a vírus do grupo ORF. O mesmo autor, posteriormente, estudando casos de lesões digitais em humanos de atividade ligada à pecuária de leite, associou o fato à presença da dermatite pustular contagiosa, considerando-os como ORF humano (NAGINGTON & WHITTLE, 1961; NAGINGTON et al., 1967).

DAVIS (1970) estudando casos simultâneos de falsa varíola bovina e de nódulos dos ordenhadores, destacou a importância de que se réveste a microscopia eletrônica como recurso diagnóstico rápido em ocorrências desse tipo.

LAUDER et al. (1971) realizaram estudos experimentais com vírus da vaccinia em bovinos, estabelecendo comparações entre esta e outras infecções virais do úbere e tetos dos animais, obtendo ainda lesões ulcerativas bucais pela inoculação do mesmo vírus.

TUAILLON & JOUBERT (1975) definiram a doença como zoonose poxviral menor, considerandoa como de caráter profissional, porém de ocorrência rara e também a associaram à paravaccinia bovina. GIBBS et al. (1980) creditaram ao gênero Orthopoxvírus a chamada varíola menor, a vaccinia e a varíola humana, atribuindo ao gênero Parapoxvírus o nódulo dos ordenhadores.

Fig. 5
Conjunto das partículas virais do grupo Pox observadas à eletrono-microscopia de transmissão. Tamanho: 265x167 nanômetros.

TRIPATHY et al. (1981) também associaram a pseudovaríola dos bovinos ao surgimento de casos de nódulos dos ordenhadores. No Brasil, DOMINGUES et al. (1989.) assinalaram uma ocorrência isolada de telite viral, caracterizando-a como sendo produzida por um agente da fanu1ia Poxviridae.

No presente relato, o surgimento, em bezerros, de uma glossite de graves proporções logo após a ocorrência de um caso de nódulo dos ordenhadores levaram os autores a estabelecer um possível· relacionamento entre os dois estados patológicos como sendo devidos à mesma entidade viral.

O exame do rebanho em questão não possibilitou o encontro de lesões bucais ou mesmo no úbere e tetos das fêmeas, que permitissem apontar para uma possível fonte de infecção.

Por outro lado, a constatação, pela necropsia dos dois animais, de nenhuma lesão nos órgãos internos sugestiva de patologia específica, permite pressupor que o óbito tenha sido por inanição,já que os animais estavam impossibilitados de ingerir qualquer alimento em decorrência das graves lesões linguais.

RERERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jan-Jun 1996

Histórico

  • Recebido
    26 Fev 1996
  • Aceito
    09 Abr 1996
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