RESUMO
A tuberculose bovina, como a humana, volta a assumir grande importância em todo o mundo, especialmente nos países em desenvolvimento, alcançando índices acima de 1%, acometendo aproximadamente 3,5 milhões de animais só entre Brasil e Argentina. Crescentes são as perdas econômicas com baixa na produtividade do rebanho e condenação de carcaças em matadouro. Não se sabe em nosso meio areal importância doM.bovis como doença de caráter profissional ou sua transmissão àpopulação através do consumo de leite e seus derivados. Conceitos de epidemiologia, patogenia e diagnóstico são revistos com a finalidade de atualizar os conhecimentos e uniformizar a conduta de combate à enfermidade, baseando-se na experiência de outros países.
PALAVRAS-CHAVE:
M.bovis,; tuberculose bovina; revisão
ABSTRACT
Bovine tuberculosis, as in the human, returns to assume great importance all over the world, especially in developing countries, reaching rates higher than 1%, affecting about 3.5 million animais within Brazil and Argentine alone. The economic lasses are increasing by decreases in herd productivity and carcass condemnation at slaughter. Unknown are the real importance of M. bovis as an occupational disease or its transmission to the man through consumption of milk or dairy products. Concepts of epidemiology, pathogenesis and diagnosis are reviewed with the aim to update knowledge and to standardize the strategies of controlling the disease, based on the experience of other.
KEY WORDS:
M.bovis, bovine tuberculosis; review.
INTRODUÇÃO
A tuberculose foi reconhecida primeiramente como doença causada por um agente infeccioso em animais ehistoricamentea transmissibilidadeda doença apartir de material humano aos animais (coelho) foi descrita pelaprimeira vez por Villemin em 1865. Mas foi Robert Koch, que em 1882, descobriu o agente infeccioso, corando-o pela fucsina-anilinaeisolando-o em meio de cultura em 1884. A diferenciação entre os bacilo humano bovino, eo aviário foi primeiramente descrita nosEUAporSmithem 1897 (PRITCHARD, 1988).
A tuberculose ressurge hoje como a doença infecciosa que mais mata em todo o mundo, causando aproximadamente três milhões de mortes a cada ano. São diagnosticados dez milhões de casos novos a cada ano, principalmente nos países do Terceiro Mundo (KLEEBERG, 1984). O advento da síndrome de imunodeficiência adquirida-AIDS, em muito colaborou para o aumento no número de casos de tuberculose nos grandes centros urbanos (SAUBOLLE, 1989; WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1993). Segundo O'REILLY e DABORN (1995), a AIDS aumentou o risco de manifestação da doença em humanos, tanto por M.tuberculosiscomopossiveI- mente por M.bovis.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, a tuberculose como zoonose é preocupante, principalmente nos países em desenvolvimento, ondeo conhecimento doproblemaé escasso. Assim, sãonecessáriasmelhorias nos aspectos de saúde pública veterinária em relação à infecção por M.bovis, especialmente nas populaçê, es de risco (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1993). Grupos ocupacionais, como magarefes e tratadores de animais são os principalmente afetados (O'REILLY & DABORN, 1995).
A tuberculose bovina era considerada como o maior problema em saúde pública por sua transmissão ao homem através do leite de vacas infectadas. Contudo, o desenvolvimentoda pasteurização contribuiu intensamente paraminimizaresseproblema (O'REILLY & DABORN, 1995).
Dados sobre M.bovis em humanos na América Latina e Caribe são muito escassos, especialmente em crianças. Este fato ocorre principalmente devido ao método de eleição para diagnóstico da tuberculose em humanos representado pela baciloscopia do escarro. Na Argentina, que dispõem de uma alta taxa de diagnóstico bacteriológico para a tuberculose humana com isolamento e identificação do agente, adoença por M.bovis assume um caráter basicamente profissional, com transmissão principal por aerossóis. No período de 1984 a 1989, entre 2,4 e 6,2% dos casos humanos eram causados pelo bacilo bovino, sendo que 64% deles eram magarefes e tratadores de animais (LATINI et al., 1994) .
AGENTE ETIOLÓGICO
O agente causador da tuberculose é um bacilo álcool-ácido resistente, ou seja, que quando corado pela fucsina a quente, não se descora pelo álcool clorídrico (coloração de Ziehl-Neelsen). Pertence à ordemActinomycetales e ao gênero Mycobacterium (KANTOR, 1979). As espécies causadoras da tuberculose clássica foram agrupadas no Complexo Mycobacterium tuberculosis, constituído pelo M. tuberculosis, M. bovis e M. africanum, este último ainda não isolado no Brasil.
O bacilo é moderadamente resistente ao calor, dissecação e diversos desinfetantes. Pepnanece viável em estábulos, pastp e est rcç:Pº_f a é 2:anos,. até 1 ano na água e por até 10 meses rios produtos de origem animal contaminados., A Nff Lq,e 11f$Hlllfn . C()mo fenólicos, formólicq , ákq()l e, me,, spéci q jpoc, lqrito de sódio são bastante eficientes no comba_te ao bacilo, contudo sua ação pode ser afetada pela concentração do produto, o tempo de exposição, a temperatura e a presença de matéria orgânica. Compostos de amônio quaternários e clohexidine não destróem o bacilo. O calor úmido a 60ºC mata o bacilo rapidamente. A pasteurização, consistindo-se no tratamento do leite a 62,8-65, 6ºC por 30 minou 71,7ºC por 15 segundos mata além das micobactérias, a maioria dos microrganismos não-esporulados. É rapidamente destruído pela luz solar direta em ambiente seco. Em condições de umidade, temperatura e ao abrigo da luz solar, se mantém viável por longos períodos, como até 2 anos no interior dos estábulos (RUSSEL et al., 1984).
EPIDEMIOLOGIA
A tuberculose bovina é causada pelo M.bovis e possui distribuição mundial, concentrando-se principalmente em países em desenvolvimentoe em criações intensivas, como em bovinos leiteiros. A tuberculose bovina concentra-se principalmente na América do Sul, que também detém a maior população bovina (KLEEBERG, 1984). Na América Latina e Caribe existem aproximadamente300 milhões debovinos, dos quais 73,7% estão em áreas com prevalência de tuberculose maior que 1%. Brasil e Argentina juntos possuem 3,5 milhões de bovinos infectados pelo bacilo tuberculoso espalhados por todo o território, que representa quase 2% da população bovina existente (KANTOR&RITACCO, 1994).
O Brasil tem atualmente uma população bovina maior que 140 milhões de cabeças e dados de 1986 mostram que o nível de infecção estava entre 0,9 a 2,9%, com 6,2 a 26,3% dos rebanhos possuindo animais infectados, sem que essas taxas mostrassem tendência de diminuição. A taxa de lesões encontradas em matadouro era de 0,14% dos animais abatidos (KANTOR & RITACCO, 1994; KANTOR, 1988).
Em países desenvolvidos, estima-se que as perdas econômicas decorrentes da tuberculose alcançam 10% da produtividade dogado leiteiro afetado (KANTOR, 1988). Na Argep.tina, as perdas na produção leiteira chegam a J 8%, c_om retardo da primeira lactação e diminuição donúmeroe duraçãodaslactações (NADER & HUSBERG, 1994).
Muitas espécies são descritas como hospedeiras do M.bovis, corno bovinos, humanos, búfalos e diversos outros animais dom stic;os e silvestres (MORRISe tal., 1994; O’REILLY & DABORN, 1995). Alguns são hospedeiros terminais e desenvolvem uma doença auto-limitante. Em alguns países, como Gram Bretanha, Irlanda, Nova Zelândia e Zâmbia, animais silvestres participam como reservatórios silvestres deAf. bovis para animais domésticos (O’REILLY & DABORN, 1995).
HAAGSM A (1995) define o bovino como o hospedeiro verdadeiro da tuberculose bovina, mas muitas espécies domésticas e silvestres são susceptíveis, entre elas o búfalo e o bisão.
O M. tuberculosis é menos patogênico para o bovino, sendo que a doença nessa espécie toma caráter auto-limitante; não foi observada transmissão entre bovinos ou de bovinos para humanos (O’REILLY & DABORN, 1995). Infecção de bovinos peloAf.ózvmm não é freqüente, podendo desenvolver lesões a nível de linfonodos e raramente generalizam.
A tuberculose é uma doença primordialmente respiratória e basicamente de transmissão aerógena entre as espécies (MORRIS et ®L, 1994; O’REILLY & DABORN, 1995).
Os animais infectados são a principal fonte de infecção, sendo a via oro-faríngea a porta de entrada mais comum. Pastos e alimentos contaminados são de menor importância na transmissão da doença (MORRIS etaL, 1994). O bovino, uma vez infectado, já é capaz de transmitir a doença a outros, mesmo antes do desenvolvimento de lesões teciduais. O agente pode ser eliminado pela respiração, pelo corrimento nasal, leite, fezes, urina, secreções vaginais e uterinas e pelo sémen. A ingestão de leite contaminado é a principal via de transmissão para animais jovens e também o homem. A transmissão transplacentáriaé considerada muito rara ou inexistente nos bovinos. As vias de transmissão menos comum são a intra-uterina e o coito, através de sémen contaminado (NEIL etal., 1994).
PATOGENIA
Quando a infecção se dá pelo trato respiratório (aerossóis), o pulmão éo órgão primeiramente atingido, assim como os linfonodosregionais. Já quando a infecção é pela via digestiva, a lesão se dá no sítio de entrada, principalmente nos linfonodos faríngeos e mesentéricos. No entanto, pode atingir praticamente todos os órgãos quando da generalização do processo. Em uma primo infecção pulmonar, os bacilos vão se alojar no tecido, promovendo umareação inflamatoria, caracterizada como uma pneumonia. A doença se instala basicamente nos pulmões, formando nódulos caseosos, de tamanhos variados, em muitos casos confluentes tomando todo o parênquima pulmonar. Através de uma reinfecção exógena ou endógena, pela recrudescência da lesão, esta se torna necrosada, podendo atingir os tecidos vizinhos e se disseminar por toda a economia do indivíduo. Quando a resistência orgânica é baixa, acontece a disseminação do agente pelo parênquima pulmonar pela via aérea ou pela via hematógena, indo atingir o linfonodo regional, indo formar metástases em outros órgãos. Ocorre no foco inicial uma infiltração celular, necrose de caseificação e circunscrição da lesão que pode evoluir para resolução e calcificação, conforme a espécie hospedeira. A presença de um nódulo calcificado, predominantemente no terço distal do lobo caudal, e/ou aumento de volume do linfonodo regional denomina-se "Complexo Primário". Os bacilos podem permanecemos linfonodos ou nos nódulos tuberculosos por longos períodos se multiplicando ou sob a forma "dormente" (YOUMANS, 1979; PRITCHARD, 1988;O'REILLY & DABORN, 1995)
Apesar da tuberculose bovina ser definida como uma doença crônica debilitante, também pode assumir caráter agudo e progressivo. Qualquer tecido pode ser afetado, mas as lesões de aspecto caseoso são mais comumente observadas nos linfonodos de cabeça, pescoço, mediastínicos e mesentéricos, pulmões, intestinos, fígado, baço, pleura e peritôneo. Os sintomas da doença nos animais podem não estar presentes em infecções recentes e quando da evolução do quadro, podem aparecer sinais característicos como emaciação progressiva, aumento de volume dos linfonodos e em alguns casos tosse, dispnéia e episódios de diarréia intercalados com constipação (HAAGSMA, 1995).
DIAGNÓSTICO
A tuberculose bovina é diagnosticadain vivo pelo exame clínico e o teste tuberculínico; após a morte, pelos examespost mortem, histopatológico e bacteriológico, incluindo sondas de DNA e técnica de PCR (HAAGSMA, 1995).
O teste tuberculínico é uma resposta de hipersensibilidade tardia mediada por 1 i nfóci tos T sensibilizados, deflagrada em indivíduos previamente expostos ao bacilo tuberculoso. O uso da tuberculina fo i testado primeiramente por Koch, em 1882, como possível cura para a tuberculose em humanos; contudo, a tuberculina de Koch possuía proteínas estranhas oriundas do caldo de carne utilizado para cultivo da micobactéria e que induzia resposta não específica. Então, Dorset desenvolveu um meio sintético sem proteínas para o cultivo de bacilo tuberculoso (MONAGHAN etal., 1994).
Distinguem-se três tipos de preparações de tuberculinas: 1) a O.T. (Old Tuberculin) nos moldes originalmente desenvolvida por Kock; 2) a HCSM (heat concentrated sintetic medium) ou tuberculina preparada em meio sintético e concentrada pelo calor; e 3) PPD (purifi.ed protein derivate). A tuberculina HCSM também pode ser chamada de O.T., pois a princípio não mais se admite aprodução de tuberculinas que não sejam preparadas em meio totalmente sintético. As tuberculinas O.T. e PPD não são cemparáveis biologicamente, pois possuem composi?5es distintas e diferentes rel•ações dose/efeito. A tuberculina O.T. é obtida apartirda concentração pelocalor de um filtrado de cultura deMycobacteriumtuberculosis ouM.bovis, dependendo do país, para uso intradérmico em mamíferos. As estirpes mais utilizadas são C, DT, PN e H37 Rv deM.tuberculosis e AN5 deM.bovis, pois são as estirpes de maior produção de nitrogênio proteico e estáveis em laboratório. O filtrado possui substâncias produzidas pelobacilo vivo, como metabólitos e originários da ruptura deste. É um composto de proteínas, polipeptídeos e carbohidratos que podem desencadear uma resposta dehipersensibilidadetardia em indivíduos sensibilizados. Segundo as normas internacionaisde padrões biológicos, a tuberculina O.T. possui 90.000 de U.l./mL. O PPD é um derivado do crescimento de bacilo em meio líquido, onde o conteúdo proteico é precipitado a partir do filtrado por meio da adição de ácido tricloracético e mensurado através de provas bioquímicas, ajustando-se o conteúdo de Nitrogênio proteico, conforme os padrões internacionais. Todavia, as etapas de esterilização e purificação podem desnaturar parte das proteínas, sendo necessária a avaliação da atividade biológica frente ao padrão de referência (ORGANIZACIÓN MUDIAL DE LA SALUD, 1968).
O conteúdo proteico da tuberculina bovina não necessariamente representa sua atividade biológica. Esta avaliação depende de teste biológico em animais, frente a uma preparação de referência. O teste em cobaias é seguro, especialmente quando os animais são sensibilizados comM.bovis vivo virulento, mas periodicamente deveria ser avaliado em bovinos artificial ou naturalrnenteinfectados(O'REILLY&DABORN, 1995).
A reação tuberculínica caracteriza-se por ser um infiltrado decélulas mononucleares nolocal daaplicação, com formação de edema mais ou menos pronunciado. Esta é uma reação de hipersensibilidade tardia mediada porlinfócitos T sensibilizados (NEIL et al.,1994).
Alguns animais, ainda que infectados, não respondem aos testes tuberculínicos. Fatores como, infecção recente, final de gestação e desnutrição podem ocasionar falsos negativos aos testes. Contudo, animais em estado avançado de infecção podem manifestar o fenômeno de anergia, definido como ausência de reatividade cutânea à tuberculina em indivíduos previamente sensibilizados, cujo mecanismo ainda não está bem elucidado. Animais recém-infectados também não respondem ao teste tuberculínico. A resposta nos bovinos aparece comumente após 30 a 50 dias da infecção. Aplicação indevida da tuberculina pode interferir no resultado do teste. Após a tuberculinização, os animais apresentam sua capacidade de responder a novos testes diminuida, a esse fenômeno dá-se o nome de dessensibilização. A capacidade é recobrada após um período de 42 a 60 dias. Nos bovinos ocorre imunossupressão até quatro a seis semanas do parto, que pode ocasionar resultados falso-negativos ao teste tuberculínico em animais recém-paridos. Imunossupressão também pode ocorrer nos cas<?s de má nutrição, a semelhança do que ocorre em humanos e cobaias. Resultados falso-negativos podem ocorrer por variações inerentes ao próprio teste ou por variações na leitura e interpretação do teste. Tratamentos inescrupulosos com certas drogas também são citados como causadores de resultados falso-negativos (MONAGHAN et al.,1994).
Um pequeno número de reações não específicas podem ocorrer em animais tuberculinizados, visto que o teste simples caudal tem uma especificidadede 96 a 98,8%eotestecomparativotemespecificidadedepelo menos 99%. Contudo, em alguns animais reatores não são observadas lesões ao abate. Para diferenciar falsopositivos de lesões nãoobservadas, é necessário que se faça uma inspeçãopost mortem bem minuciosa, o que muitas vezesédifícil de proceder anível de matadouro. Causas de reações não específicas incluem animais sensibilizados porM.paratuberculosis, M.avium,"skin tuberculosis" e micobactérias do meio ambiente (MONAGHAN et al.,1994). Aespecificidadetambém pode ser afetada pela tuberculina e. o tipo de teste utilizados, pelos critérios de interpretação e pela exposição ao M.avium, M.paratuberculosis, outras micobactérias ambientais ou pela "skin tuberculosis" (O'REILLY & DABORN, 1995).
O teste simples, com apenas uma aplicação de tuberculina bovina possui sensibilidade entre 32 e 99% e especificidade entre 75,5 e 99,9%, ou seja, possui grande sensibilidade e altíssima especificidade. Alguns fatores interferem nasensibilidade do teste tuberculínico, como a dose de tuberculina utilizada os critérios de interpretação do teste, intervalo pós-infecção e pósparto, variações impostas pelo operador, entre outros (O'REILLY & DABORN, 1995).
FRANCIS e colaboradores (1978) pesquisando várias tuberculinas demostraram que o teste simples caudal possui uma sensibilidade de 81,8% e especificidade de 93,3% e, quando aumentava-se a dosede tuberculina aplicada para 0,4 mg, a sensibilidade alcançava a especificidade. Concluíram que, entre os testes simples, o teste cervical proporciona omáximo em sensibilidade e o teste caudal o máximo em especificidade. Em bovinos, o teste comparativo possui uma especificidade semelhante ao teste simples caudal e possui uma sensibilidade muito baixa.
HAAGSMA(1995)referequeotestecomparativo é usado para diferenciar os animais infectados pelo M.bovis daqueles expostos a outras micobactérias ou gêneros afins e o teste é considerado positivo em bovinos quando a resposta ao PPD bovino for ao menos 4,00 mm maior quedo PPD aviário; de 1 a 4 mm é considerado suspeito. A tuberculina sintética concentrada pelo calor-HCSM é menos específica queo PPD-purified protein derivative. A dose recomendada para bovinos é de pelo menos 2.000 UI de PPD bovino (usualmente 1,0 mg/mL), determinadas por ensaios biológicos frente a um padrão de referência internacional. O teste tuberculínico não é efetivo em todas as espécies animais.
KANTOR e colaboradores (1984) observaram sensibilidade de 75% no teste comparativo contra 87,5% no teste simples cervical e semelhante em sensibilidade ao teste simples caudal. Aumentando-se a dose de tuberculina aplicada, a sensibilidade dos testes aumenta, mantendo a especificidade, contudo não se pode alcançar 100% de sensibilidade num teste tuberculínico, devido a presença de animais anérgicos no rebanho.
KANTOR e colaboradores (1984) declararam que as vantagens principais do teste simples caudal são a alta sensibilidade, similar ao teste simples cervical, facilidade e rapidez de aplicação e leitura, com também alta especificidade, servindo apropriadamente para fins de triagem de rebanho. O teste comparativo teria uso limitado a elucidar "rebanhosproblema". Todavia, a sensibilidade e a especificidade dos testes tuberculínicos podem ser modificadas na dependência da dosagem de PPD utilizada e dos critérios de interpretação dos resultados.
DOBBELAER e colaboradores (1983) utilizaram modelos experimentais para avaliação de potência de PPD, sensibilizando animais com suspensão de BCG vivo ou suspensão de M.bovis morto pelo calor em veículo oleoso, verificando que a resposta ao PPD pode variar significativamenteentre bovinos e cobaias e que seria ideal testar-se cada tuberculina na mesma espécie a que ela se destina. Neste sentido, KANTOR e colaboradores (1984) verificaram quea inoculação de bacilos vivos sensibiliza melhor que a suspensão de bacilo morto em veículo oleoso.
O examepost mortem pode ser afetado pelo critério na inspeção da carcaça e os sítios observados. O exame cuidadoso de pelo menos seis pares de linfonodos entre os de cabeça (mandibulares, parotídeos e retrofaríngeos), toráxicos (mediastínicos e bronquiais), mesentéricos edacarcaça (pré-escapulares, ilíacos, isqueáticos, sacra} e inguinal superficial), bem como pulmão, fígado, baço, rim, úbere e órgãos genitais, pode identificar até 95% dos animais com lesões macroscópicas (CORNER, 1994).
Para determinar o significado de reações tuberculínicas positivas em animais sem lesões visíveis ao abate é necessário o exame bacteriológico de amostras enviadas ao laboratório congeladas, principalmente linfonodos colhidos ascepticamente. O cultivo para primo isolamento de M.bovis pode ser processado pelo método tradicional de Petroff e semeadura em meios a base de ovo, como Stonebrink_, ou aa base de agar, como Middlebrook 7Hl 1 e B83 (KANTOR, 1979;HAAGSMA, 1995). A adição de 5% de CO2 não tem efeito sobre o isolamento de M.bovis e concentrações maiores podem ser até prejudiciais (CORNER, 1994).
O meio de cultura mais recomendado para o primoisolamento deM.bovis é oStonebrink contendo piruvato de sódio e não glicerina. O crescimento deste se dá após trêsacincosemanasdeincubação(HAAGSMA, 1995).
O isolamento deM.bovis pode demorar até mais de 12 semanas e a identificação da cepa isolada por métodos bioquímicos também é demorada. Técnicas recentes como utilização de anticorpos monoclonais. e sondas de DNA podem diminuir o tempo necessário para a identificação da amostra (CORNER, 1994).
O exame histopatológico pode ser aplicado principalmente em regiões de alta prevalência dadoença, por ser de conclusão mais rápida para o diagnóstico presuntivo, quedeve ser confirmado em definitivo pelo cultivo da amostra (CORNER, 1994).
CONTROLE DA DOENÇA
O tratamento da tuberculose bovina foi motivo de estudos para diversos autores em todo o mundo (CORREA & CORREA, 1983; KLEEBERG, 1967; LANGENEGGER et al., 1981). Em regiões de alta prevalência, o tratamento monovalente com isoniazida, associado a rigorosas medidas de higiene ede manejo sanitário, bem como sacrifício de parte do rebanho doente, proporcionou considerável redução dos índices de reatividade. Contudo, não se obtém através do tratamento a eliminação de todos os animais portadores do agente tuberculoso, mantendo assim a fonte de infecção e perpetuando a doença no rebanho.
Programas de controle e erradicação da tuberculose bovina estão sendo aplicados em diversos países, especialmente nas Américas, baseando-se no uso do teste tuberculínico enosacrifício dos animais reagentes, como preconizado por normas internacionais. Alguns países adotaram além da capacitação ecredenciamento de médicos veterinários paraodiagnóstico da tuberculose bovina, acertificação de "rebanhos livres" e"áreas livres", a fim de estimular as medidas de controle e erradicação da doença. (DOBBELAER et al., 1983; ORGANIZACIÓN PANAMERICANA DE LA SALUD, 1992; CAFFREY, 1994; KANTOR & RITACCO, 1994; TWEDDLE & LIVINGSTONE, 1994; HAAGSMA, 1995).
Um dos benefícios dos programas deerradicação da tuberculose bovina, além dedirimir as perdas econômicas eos entraves para o comércio exterior de animais e seus produtos, éaprevenção dadoençanapopulação humana (ORGANIZACIÓN PANAMERICANA DE LA SALUD, 1992;HAAGSMA, 1995).
Medidas gerais de higiene, como limpeza e desinfecção das instalações, cuidado na introdução denovos animais no rebanho (com testes negativos, provenientes de rebanhos livres, quarentenário e isolamento de animais suspeitos) também são importantes para evitar queadoençaseinstalenapropriedade(ROXO,1995).
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