Open-access PREVALÊNCIA DA INFECÇÃO PELO VÍRUS DA DIARRÉIA VIRAL BOVINA (BVD) EM BÚFALOS (BUBALUS BUBALIS) NO VALE DO RIBEIRA, SP, BRASIL

PREVALENCE OF SEROPOSITIVE WATER BUFFALOES (Bubalus bubalis) TO BOVINE VIRUS DIARRHOEA (BVD) IN VALE DO RIBEIRA, SP, BRAZIL

RESUMO

Com o objetivo de estudar a prevalência da infecção pelo vírus da Diarréia Viral Bovina (BVD) em búfalos na região do Vale do Ribeira, SP, Brasil, foram examinadas, através da reação de soroneutralização em microplacas, 417 amostras de soro sanguíneo de búfalas com idade igual ou superior a um ano, provenientes de 16 propriedades dos municípios de Registro, Pariquera-açu, Sete Barras, Iguape, Cananéia, Eldorado e Jacupiranga. A prevalência foi de 16,3% (68/417), sendo que em cinco propriedades não foram encontrados animais soropositi vos eem 11aprevalência variou de 3,0% a85,7%. Em todos os municípios foram identificados animais soropositivos. Estes dados indicam a disseminação do vírus da BVD em rebanhos bubalinos e a necessidade de maiores estudos para se estabelecer a importância desta espécie na cadeia epidemiológica.

PALAVRAS-CHAVE:
BVD; prevalência; búfalos; Bubalus bubalis ; Brasil

ABSTRACT

Bubalus bubalis is susceptible to BVD infection, which causes seroconvertion and immunossupression in experimentally inoculated animais. No reproductive or digestive alterations have been described. In order to evaluate the prevalence of seropositive water buffaloes to BVD vírus in Vale do Ribeira, São Paulo, Brazil, 16 herds from seven cities (Registro, Pariquera-açu, Sete Barras, lguape, Cananéia, Eldorado and Jacupiranga) were examined. Blood samples from 417 females a year old and above, were tested for virus neutralizing antibody using the microtitration technique. The prevalence was 16.3% (68/417). There were no seropositive animais in five herds (33.3%) and in 11 (66.7%) itranged between 3.0% and 85.7%. The results demonstrate the BVD virus dissemination in water buffaloes herds in the region studied and the necessity of research in the epidemiological chain.

KEY WORDS:
BVD; prevalence; water buffaloes; Bubalus bubalis ; Brazil

INTRODUÇÃO

OvírusdaDiarréia ViralBovina(BVD)quepertence à Família Flaviviridae, gênero Pestivírus (WENGLER, 1995), afeta bovinos, suínos, bubalinos e ruminantes selvagens, porém, os bovinos são tidos como a principal fonte de infecção, provocando em bovinos uma grande variabilidade de sinais clínicos, incluindo abortos, efeitos teratogênicos, nascimentos de bezerros fracos e persistentemente infectados e ainda duas formas graves de doença denominadas Síndrome Hemorrágica e a Doença das Mucosas (MOENNIG & LIESS, 1995). Perdas significativas ocorrem nesta espécie, devido principalmente aos problemas reprodutivos, queda na produção de leite e baixa conversão alimentar. A espécie bubalina é susceptível à infecção pelo vírus da BVD, causando, em animais inoculados experimentalmente, soroconversão e imunossupressão, porém, ainda não foram descritas alterações reprodutivas e digestivas (SHALABY et al.,1992).

O vírus da BVD na espécie bubalina está disseminado em países onde a bubalinocultura tem importância econômica, porém, relatos descritos na literatura internacional à respeito de animais portadores de anticorpos, apresentam valores muito variáveis. Na Austrália, GEORGE et al (1967) examinaram 6 amostrasdesoro debúfalos pelo método desoroneutralização, sendo todos soropositivos. No Cairo, HAFEZ & FREY (1973) examinaram 120 amostras de soro desta espécie animal, encontrando 24% soropositivas. Na Itália, CHIOCCO&CAV ALIERE(1990), detectaram2,47% de animais soropositivos pela prova de IDGA, frente a 81 amostras de soro provenientes de um único rebanho. Os autores ressaltaram que o vírus da BVD está difundido em bovinos equeocontágio interespécies pode ocorrer. ULBRICH (1991) examinou 10 amostras de soro de bubalinos provenientes do Vietnã, encontrando 70% positivas. No Brasil, nenhum estudo foi efetuado. Considerando a importância mundial que tem a infecção causada pelo vírus da BVD em bovinos, a presença desta no Brasil e o seu desconhecimento na espécie bubalina, objetivou-se determinar aprevalência da BVD em búfalos na região do Vale do Ribeira, Estado de São Paulo, Brasil.

MATERIAL E MÉTODOS

Foram estudadas 16 propriedades distribuídas em 7 municípios da região do Vale do Ribeira, sendo que onúmero depropriedades e de animais examinados por município foram proporcionais aos dados da população bubalinaexistentena região, conforme apresentados na Tabela 1 (BARUSELLi et al. 1993). O Vale do Ribeiraabrangeumaáreadepoucomaisde 17.000km2 no Sudeste Paulista. Sua localização geográfica e divisão municipal estão representadas na figura 1 (LEPSCH et al., 1990). A economia regional baseiase essencialmente na agropecuária.O clima quente e úmido e a presença de· várzeas favorecem a bubalinocultura, importante fonte de renda para o setor agropecuário nesta região, que atualmente está em expansão devido a um programa de desenvolvimento regional da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, que visa fortalecer a pecuária local.

Caracterizou-se como a população alvo deste estudo epidemiológico búfalas com idade a partir de um ano, em propriedades que nunca vacinaram os animais contra o vírus da BVD. Na seleção aleatória das fêmeas em cada propriedade, procurou-se obter um numero estatisticamentesignificativo de amostras. Quando o rebanho possuía menos de 30 búfalas com idade igual ou superior a um ano, procedeu-se a colheita de material em 100% destas fêmeas. Quando este número era superior a 30, foi fixada uma amostragem mínima de 10% e máxima de 30% dos animais.

Tabela l
- Distribuição das propriedades e dos animais existentes e examinados por município, em relação ao número total de propriedades e animais existentes e examinados, no Vale do Ribeira, SP.
Tabela 2
Prevalência da infecção pelo vírus da BVD em búfalas, em relação ao número total de amostras por município, no Vale do Ribeira, SP, Brasil.

Para o cálculo do tamanho da amostra, utilizou-se aDistribuiçãodePoisson(GOLDSTEIN,1964), préfixando-se o limite de confiança de 99% e prevalência mínima de 1,0%. Concluiu-se que 470 animais deveriam ser examinados para se encontrar pelo menos uma amostra positiva.

As amostras de soro foram analisadas através da técnica de soroneutralizaçãoem microplacas, segundo HAFEZeFREY (1973):

- células: foram utilizadas células decultura primária de rim fetal bovino, livres de contaminação pelo vírus da BVD, cultivadas em garrafas de Roux, contendo meio de Eagle-MEM acrescido de 20% de soro fetal bovino.

- antígeno: foi utilizada a estirpe padrão NADLUSA (citopatogênica) do vírus BVD, com título 106,2 DICT 50%/S0µL, na dose de 200 DICT 50% 50L.

- soro sanguíneo: as amostras séricas colhidas no período de janeiro de 1992 a julho de 1993, foram conservadas em freezer-20ºC até o momento do uso. Antes de submetê-las à prova de soroneutralização, foram descongeladas e inativadas a 56ºC por 30 minutos.

- soroneutralização: cada soro foi testado na diluição 1:4, distribuindo-se 50 µL desta diluição em 4 cavidades da microplaca. Desta forma, em cada placa foram testadas 22 amostras de soro. A seguir foi adicionada 50 µL da suspensão viral contendo 200 DICT 50% /50 µL e incubada em estufa a 37ºC, em atmosfera de 5% de CO2 por 1 hora. Após este período foi adicionada 50 µLda suspensão de células de rim fetal bovino contendo 300.000 células/ mL em cada cavidade e incubadas nas mesmas condições anteriores por 72 horas. A leitura foi realizada em microscópio invertido para visualização do efeito citopático. Foram consideradas positivas as amostras que neutralizaram 50% das cavidades.

Para determinar a prevalência (p) do vírus da BVD em búfalos, empregou-se o coeficiente de morbidade prevalente por período (CÔRTES; 1993).

RESULTADOS

Dos 417 soros analisados, 68 apresentaram anticorpos neutralizantes para o vírus da BVD, considerando-se paraaregião doValedo Ribeira, aprevalência de 16,3%. Das 470 amostras colhidas, 53 (11,3%) apresentavam contaminação bacteriana e foram consideradas impróprias para realização da prova de soroneutralização. Em todos os municípios avaliados, foram identificados animais soropositivos, com prevalência variando entre 6,5% a 72,1%. (Tabela 2). Em 5 dos 16 rebanhos examinados, não foi observada apresença de animais soropositivos, e nos 11restantes, a prevalência variou entre 3,0% a 85,7% (Tabela 3). Quando considerada a faixa etária, verificou-se maior prevalêncianosanimaisemidadereprodutiva(Tabela4).

DISCUSSÃO E CONCLUSÃO

A prevalência sorológica de 16,3% indica a presença do vírus da BVD em rebanhos bubalinos no Vale do Ribeira, Estado de São Paulo. Em todos os municípios estudados foram encontrados animais soropositivos, mostrando a disseminação geográfica do vírus na região. Vale ressaltar que das 16 propriedades estudadas, 5 eram livres do vírus da BVD. Os estudos sorológicos encontrados na literatura consultada indicam a ocorrência do vírus da BVD em búfalos em outros países, porém, estes dados referem-se a um número pequeno de amostras, sem análise estatística e trabalhos de prevalência não foram encontrados. Na Austrália, GEORGE et al (1967) examinaram 6 amostras, sendo 100% soropositivos. No Cairo, HAFEZ & FREY (1973) examinaram 120 amostras, encontrando 24% soropositivas. Na Itália, CHIOCCO & CAVALIERE (1990), detectaram 2,47% soropositivos, frente a 81 amostras de um único rebanho. ULBRICH (1991) examinou 10 amostras provenientes do Vietnã, encontrando 70% positivas.

Em bovinos, a prevalência de anticorpos séricos para o vírus da BVD não necessariamente implica na ocorrência dadoença, porém, não deve ser desprezada a atividade imunossupressora ocasionada por este agente (SHALABY et al.,1992), facilitando a invasão de outros patógenos. Infecções posteriores ao nascimenta são de baixa frequência na manifestação da doença e não desempenham um importante papel comofator disseminador de infeccão (LITTLEJONHS Y HORNER,1990). Ainda nesta espécie, a fêmea gestante quando se infecta contamina o feto, ocasionando o nascimento de animal persistentemente infectado, sendo este o principal responsável pela perpetuação do vírus no rebanho. No entanto, é desconhecido se esta forma de infecção ocorre também na espécie bubalina. Assim sendo, novos estudos devem ser realizados nas propriedades soropositivas, para se verificar a ocorrência de animais com sinais clínicos e a existência de animais persistentemente infectados. Opresente estudo foi realizado em búfalos não vacinados, a presença de anticorpos contra o vírus da BVD, indica que estes se infectaram, desenvolveram resposta imune humoral, permanecendo portadores de anticorpos.

Esses conhecimentos são abase para se determinar qual o real papel desempenhado pela espécie bubalina na manutenção da cadeia epidemiológica deste agente infeccioso, bem como, estabelecer diretrizes de controle e avaliar as consequênicias na produtividade.

TABELA 3
Prevalência da infecção pelo vírus da BVD em búfalas de acordo com o número de amostras por rebanho e municípios, no Vale do Ribeira, SP, Brasil.
Tabela 4
Prevalência da infecção pelo vírus da BVD em búfalas, por faixa etária, em relação ao número total de amostras, no Vale do Ribeira, SP, Brasil.

Fig. 1
Localização geográfica e divisão municiapal do Vale do Ribeira, Estado de São Paulo, Brasil, segundo LEPSCH et al., 1990.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jan-Jun 1997

Histórico

  • Recebido
    15 Abr 1997
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