Open-access PREVALÊNCIA E AVALIAÇÃO DE FATORES DE RISCO À LEPTOSPIROSE CANINA, NO MUNICÍPIO DE PELOTAS, RS

PREVALENCE ANO EVALUATION OF RISK FACTORS TO THE CANINE LEPTOSPIROSIS, IN PELOTAS CITY, RS

RESUMO

O trabalho tevecomo objetivo levantar a prevalência e determinar os principais fatores de risco à leptospirose canina na área urbana do município de Pelotas. Foi realizado um estudo por amostragem aleatória por conglomerados onde visitou-se 720 residências, aplicando-se formulários epidemiológicos e coletando-se sangue canino para serem avaliados através da Técnica de Soroaglutinação Microscópica com Antígenos Vivos (SAM) e analisados através do programa EPIINFO. Em 260 amostras sorológicas avaliadas, encontrou-se taxa de prevalência de 28,9%. Em relação aos fatores de risco, verificou-se que em três questões as respostas apresentaram diferenças estatisticamente significativas, com razão de chance (O.R.) superior a 1 o que indica risco. A primeiraquestão referente a ausência de muro no pátio, com OR igual a 2,11,a segunda questão referente ao esgoto residencial não ligado à rede pública, com OR de 1,98 e a terceira questão referente à ausência de confinamento, com OR de 2,61.

PALAVRAS-CHAVE:
Leptospirose; cães; epidemiologia; prevalência

ABSTRACT

The workas with objective, the investigation of the pryvalence and the determination of the principal risk indicators of leptospirosis in dogs, in the urban area of Pelotas city. Was realized a survey with cluster sample, where are visited 720 residences, with aplicattion of epidemiologic formulary and blood colect of dogs to be evaluated through the Epilnfo program and seroagglutination microscopic test (SAM), with alive antigens. In 260 serum samples examineds, were found 28.9% of prevalence. In three questions, the answerfound statistically significative diference, with aodds rate (OR) superior to one, thats suggested risk. The first question refering the no wall courtvard, with OR of 2.11. The second questioó refering residence gutter no union to the public net, with OR of 1.98 and the third question refering the no confine of dogs, with the OR of 2.61.

KEY WORDS:
Leptospirosis; dogs; epidemiology; prevalence

INTRODUÇÃO

A prevalência da leptospirose em cães varia consideravelmente entre áreas e entre países, sendo mais elevada em regiões tropicais, onde ocorrem grandes precipitações pluviométricas e o solo é neutro ou alcalino. Os cães, como todas as outras espécies de animais domésticos e silvestres, são suscetíveis a todos os sorovares de leptospira conhecidos, mas os sorovares predominantes nesta espécie são canicola e icterohaemorrhagiae (ACHA & SZYFRES, 1986).

Diversos estudos sobre a prevalência da enfermidade em cães têm sido realizados.

CALDAS et al. (1976)estudaramaprevalênciada leptospirose em cães dacidade de Salvador, BA. De um total de 430 amostras de soro de cães selecionados por amostragem aleatória, 93 (21,6%), foram positivas para um ou mais dos 17 sorovares de Leptospira interrogans. Os sorovares mais prevalentes foram canicola (24,5%) e icterohaemorrhagiae (22,6%).

Segundo WATSON (1994), surtos de leptospirose ocorrem ocasionalmenteem cães australianos e quando isto ocorre, o sorogrupo predominante é o icterohaemohrragiae.

YASUDA et al. (1980), examinaram 1.428 amostras de soro de cães de rua da cidade de São Paulo, SP, encontrando 308 (21,6%) amostras positivas para os sorovares canicola (50,7%) e icterohaemorrhagiae (25,5%).

A leptospirose é uma enfermidade amplamente disseminada e de grande importância econômica em muitos países do mundo. Além disso exerce papel de destaque em termos de saúde pública, pois pode ser transmitida ao homem (ACHA & SZYFRES, 1986). Entre os animais domésticos, a principal fonte de infecção da leptospirose humana são os cães, pois estes animais vivem em estreito contato com o homem e podem eliminar leptospiras vivas através da urina durante vários meses, mesmo sem apresentar algum sinal clínico característico (BABUDIERI, 1958; EVERARD et al.,1987).

Em vistado anteriormente citado, sabendo-se queos cães são importante fonte deinfecção paraaleptospirose humana eque as prevalências variamconsideravelmente de região para região, o trabalho teve como objetivo conhecer essa situação na população canina de Pelotas. Paraisso determinou-se aprevalência daleptospirose em cães; os sorovares de Leptospira interrogans mais prevalentes avaliando-se alguns fatores de risco para a ocorrência de leptospirose canina.

MATERIAL E MÉTODOS

Foi realizado um estudo por amostragem aleatória por conglomerados, utilizando-se os setores censitários do IBGE. Pelotas possui 257 setores censitários com cerca de 300 residências em cada um. Procedeu-se a uma amostragem aleatória simples, sorteando-se 36 setores censitários. Dentro de cada setor foram colocadas letras identificando os quarteirões e a seguir procedeu-se a outro sorteio aleatório do quarteirão. No quarteirão -sorteado, identificou-se as quatro esquinas, também com letras e sorteou-se uma, a partir da qual visitou-se 20 residências consecutivas, ou seja, visitou-se um total de 720 residências em um período de um niês, na zona urbana do município de Pelotas. Neste sorteio aleatório todas as Adminis, trações Regionais (A.R.) da cidade foram incluídas, presumindo-se que algumas características físicas, biológicas e econômico-sociais poderiam influenciar nos resultados, haja vista que as A.R. Três Vendas Leste e Oeste, caracterizavam-se por apresentarem um número muito·grande de indústrias conserveiras e engenhos beneficiadores de grãos, como soja e arroz,,o que propícia maior quantidade de resíduos e por consequência maior proliferação de roedores. Das A.R., somente os Balneários não apresentam tratamento de esgoto. Quanto ao componente sócioeconômico, a A.R. do Areal é aque apresenta o índice mais baixo, portanto com habitações mais precárias e com maior promiscuidade animal e humana.

Nas residências sorteadas, foram coletadas amostras sorológicas de 260 cães que foram posteriormente analisados através da SAM, segundo a OMS, (FAINE, 1982), empregando como antígeno os seguintes sorovares: andamana, autumnalis, castellonis, canicola, grippotyphosa, copenhageni, icterohaemorrhagiae, pyrogenes.

A bateria utilizada no experimento foi selecionada levando-se em consideração os sorogrupos mais freqüentes em cães em Pelotas, segundo diagnósticos realizados pelo Centro de Controle de Zoonoses.

No momento das visitas, foi feito um esclarecimento aos propietários dos animais sobre os riscos à saúde provocados pela presença de cães portadores de leptospiras no domicílio e aplicado um questionário, contendo questões sobre possíveis contatos de risco à leptospirose e características do ambiente onde viviam os cães. Foram investigados, entre outros, presença de prováveis vetores e/ou reservatórios, dados da residência, como destino do lixo, do esgoto., origem da água de consumo, condições higiênicas e de proteção do pátio. Foram também investigadas as características individuais de cada animal, como sexo, idade, tipo de. confinamento, utilização, vacinação, aborto, e outras questões.

Os dados coletados, foram analisados através do Programa EPIINFO 1990, utilizando-se o teste do Qui Quadrado.

RESULTADOS

Das 260 amostras de soro canino examinadas para adetecção de anticorpos anti-leptospira encontraramse 75 (28,9%) reagentes para um ou mais sorotipos. Destas, 18 coaglutinaram com mais de um sorogrupo de L. interrogans.

Os sorogrupos predominantes, foram canicola (37,33%) e ícterohae-morrhagiae (24%), como observa-se na Tabela 1 e os títulos variaram de 1:100 a 1:1600, conforme Tabela 2.

Na análise estatística, quanto às questões referentes à presença de muro no pátio, confinamento do cão e destino do esgoto, as respostas apresentaram diferenças estatisticamente significativascomo se podeobservar na Tabela 3.

Verificou-se que as respostas apresentaram diferenças estatisticamente significativas, com razão de chances (O.R.) superior al, o que sugeria risco. No que se referiu àausência de muro no pátio, apresentou O.R. de 2,11; significando que cães que viviam em residências com pátio sem muro teriam 2,11 vezes mais chances de contrair a infecção, provavelmente devido ao contato com outros cães. Na questão referente ao destino do esgoto na residência, com O.R. 1,98;indicando que cães que viviam em residências que não estavam ligadas à rede pública de esgoto teriam 1,98 vezes mais chances de adquirir a doença, em relação aos outros cães, provavelmente devido ao contato com água contaminada provenientes defossas ou valetas. A terceira questão, referente ao confinamento do cão, com O.R. de 2,61; indicando que os cães que não permaneciam confinados teriam 2,61 vezes mais chances de adquirir a doença, provavelmente porque estes animais tinham contato com cães estranhos e com o ambiente externo.

Tabela 1
Distribuição e freqüência de 75 amostras de soro canino do Município de Pelotas, positivas à leptospirose, segundo o sorogrupo .

Quando a prevalência foi avaliada levando-se em consideração adistribuição espacial na área urbana do município, nas diferentes Administracões Regionais, também foram observadas diferenças significativas (c2 = 20.36; df= 6; p= 0,002) relacionadas à presença deindústrias alimentícias eengenhos beneficiadoresde grãos, consequentemente, em função de resíduos, maior número de roedores (Tabela 4).

Em outras questões analisadas (raça, idade, sexo, presença de roedores), as diferenças apresentadas entre o grupo dos cães positivos e dos negativos não foram estatisticamente significativas. Segundo SASAKI et al. (1993), certos estudos podem perder poder estatítico quando a associação com um fator de risco suspeito com doença ocorre em aproximadamente todos os indivíduos, ou contrariamente, ocorre com muito baixa freqüência. Nestes casos, o fator de risco poderá ser considerado como não adequadamente avaliado (ainda que significantes resultados possam ocorrer se osfatores são altamente associados). Análises cruas mostraram que não houve associação quando se avaliou presença de roedores, por ser o mesmo muito comum(> que 80% das residência).

Tabela 2
Distribuição e frequência de reações positivas para leptospirose em 75 amostras de soro canino do Município de Pelotas, segundo o título.
Tabela 3
Fatores de risco à leptospirose canina no Município de Pelotas, RS.
Tabela 4
Prevalência da leptospirose canina por Administração Regional, na área urbana do Município de Pelotas, RS.

DISCUSSÃO E CONCLUSÃO

As taxas de prevalência encontradas na cidade de Pelotas, 28,9%, foram semelhantes àquelas encontradas por CALDAS et al. (1976) que foi de 21,6% de positividade, eYASUDA et al. (1980)quetambémfoi de 21,6%.

Os sorovares predominantes foramcanicola (49%) e icterohaemorrhagiae (32%). Estes achados estão concordantes em parte com CALDAS et al. (1977) e YASUDA etal. (1980), que encontraram estes dois sorovares como os mais prevalentes, e com THIERMANN (1980) e ACHA & SZYFRES (1986), que afirmam que o sorovar mais comun em cães é o sorovar canicola.

EVERARD et al. (1987), em Barbados, realizaram um estudo de prevalência em dois grupos de cães nos quais encontraram frequências de 41 e 42%, bem superior à encontrada nesse estudo; no entanto, os sorogrupos por eles identificados concordam com o presente resultado.

Usualmente a infecção com sorovares não adaptados ao hospedeiro somente resultam em infecção esporádica ou surto de leptospirose e a prevalência de animais individuais infectados com sorovares não adaptados ao hospedeiro, é baixa (SEBASTIAN & JOHNSON, 1994), como é o caso do sorogrupo autumnalis com título de 1:400 identificado neste estudo. DAMUDE et al. (1979), em Barbados, em um estudo de grúpós ocupacionais de alto risco, analisando 147 pessoas soropositivas à leptospirose, encontrou 89% pertencentes ao sorogrupo autumnalis.

Quanto aos títulos obtidos observou-se que 56% apresentaram título de 1:100 e 28%, título de 1:200. Somando-se estes dois percentuais, poder-se-ia inferir que 84% apresentariam títulos considerados baixos, com possível expressão de casos de infecção passada ou recém-instalada, mas que, ainda assim, indicam que estes cães são potenciais portadores da doença, entretanto os 6.6% com título 3 1:800 e seguramente estariam eliminando leptospiras pela urina e consequentemente contaminando o ambiente. Inferindo os resultados para a população alvo, sabendo-se que o Município de Pelotas possui cerca de 50.000 cães domiciliados, tem-se, no mínimo, 954 cães disseminando o agente. Como não foi encontrada citação na literatura a respeito de levantamentos de incidência em populações caninas, fica difícil de estimar quantos dos 12.138 cães do município com baixos títulos de anticorpo (84% da amostra) seriam potencialmente casos novos, disseminadores do agente.

Em relação aos fatores de risco da leptospirose para os cães, verificou-se a importância do saneamento ambiental e do confinamento na prevenção da leptospirose canina, diminuindo consequentemente a probabilidade de infecção humana.

BIBLIOGRAFIA

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jan-Jun 1997

Histórico

  • Recebido
    14 Mar 1997
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