RESUMO
Oobjetivo deste trabalho foi avaliar a estabilidade e a persistência de dois tipos de formulações deBaculovirus anticarsia desenvolvidas pelo Instituto Biológico do Estado de São Paulo e que foram armazenadas em condições ambientais e submetidas à radiação ultravioleta em testes de laboratório e campo. A formulação pó molhável (PM) foi preparada mediante a impregnação direta das suspensões de vírus e adjuvantes sobre uma mistura de inertes de origem mineral, em que predominava o caulim. A formulação óleo emulsionável (OE) foi obtida a partir da incorporação do patógeno suspenso em água com óleo de milho e adjuvantes. No teste de estabilidade, as formulações, o tratamento padrão (vírus semi-purificado) e a testemunha (água) foram mantidos em condições ambientais (prateleira), abrigados da luz, e a cada 120 dias amostras eram inoculadas em dieta artificial e fornecidas às lagartas deAnticarsia gemmatalis no início do 4º ínstar. As observações foram feitas durante 20 meses. Para o estudo do efeito protetor das formulações foram realizados dois testes sendo um representado pela radiação proveniente de lâmpada germicida (espectro ultravioleta) e outro em condições naturais (radiação solar). No caso da persistência (radiação solar), as formulações, o produto padrão (vírus impuro resultante da maceração de lagartas infectadas) e a testemunha (água) foram pulverizados, no campo, em parcelas de soja do cultivar IAC-8. Amostras de folíolos coletados no terço superior das plantas no dia da aplicação e após 1, 3, 7 e 14 dias foram levadas ao laboratório e fornecidas a lagartas de A. gemmatalis para avaliar a perda de atividade do patógeno em função do tratamento. Após 20 meses de armazenamento, a formulação OE perdeu apenas 18,33% de sua atividade original, enquanto a formulação PM já aos 12 meses teve sua eficiência reduzida para apenas 11,67%. Não foram constatadas diferenças entre as formulações com relação ao efeito protetor contra a radiação ultravioleta emanada de lâmpada germicida, pois ambas conferiram proteção ao vírus, se comparado com o patógeno semi-purificado. Em condições de campo, a formulação OE favoreceu a persistência do patógeno, mantendo mais de 60% da atividade após quatorze dias da aplicação. A formulação PM foi consideravelmente removida das folhas pela chuva.
PALAVRAS-CHAVE:
Baculovirus anticarsia, formulação; estabilidade; persistência; ultravioleta; Anticarsia gemmatalis.
ABSTRACT
The purpose ofthis study was to evaluate the stability and persistence (laboratory and field) of two types of formulations of Baculovirus anticarsia developed by the Instituto Biológico of the State of São Paulo. The formulation of wettable powder (WP) was prepared through direct impregnation of the virus suspension and adjuvants on a mixture of inerts of mineral origin with predominance of kaolin. The formulation of emulsifiable oil (EO) was obtained through association of the suspension of pathogen with corn oil and adjuvants. Regarding stocking stability, EO formulation showed a better performance during the 20 monthes of observation, losing only 18.33% of its original activity. No differences were verified between the formulations regarding the protective effect against UV-radiation emanated from a germicide lamp. Both showed to protect the virus when compared with the semi-purified pathogen. In field conditions, the EO formulation favored the pathogen's persistence, which maintained more than 60% of its activity after 14 days. The major part of wettable powder formulation was removed from the leaves by rainfall.
KEY WORDS:
Baculovirus anticarsia, formulation; stability; persistence; UV-radiation; Anticarsia gemmatalis.
INTRODUÇÃO
A expansão de programas de controle microbiano de pragas depende da possibilidade de se produzir e formular, em escala massal e econômica, os entomopatógenos, representados por fungos, vírus, bactérias e nematóides.
A vantagem de se formular o microrganismo está em transformá-lo, através da adição de inertes e adjuvantes, em um produto com melhor desempenho no campo, de fácil manuseio e aplicação e, principalmente, com possibilidade de armazenamento em condições ambientais, com perda mínima das características iniciais do produto.
Segundo COUCH & IGNOFFO (1981), poucas são as informações relativas à estabilidade, em armazenamento ambiente, dos entomopatógenos formulados e utilizados em larga escala na agricultura. Os autores advertem que um inseticida microbiano, armazenado naquelas condições, deve manter sua atividade por pelo menos 18 meses, tempo necessário para tornar a formulação economicamente viável. Em certos casos, admite-se o armazenamento e distribuição do produto sob refrigeração, geralmente quando a situação justifica o aumento de custos, como é o caso de produtos à base de nematóides.
Em geral, os vírus entomopatogênicos são muito estáveis a baixas temperaturas. Os trabalhos mostram que os vírus, especialmente aqueles com os corpos de inclusão intactos, quando armazenados em cadáveres, pós secos ou em suspensões abrigadas da luz e mantidas entre O e 4 ºC, mantiveram sua atividade original elevada por vários anos (DAVID & GARDINER, 1967; DULMAGE&BURGERJON, 1977;JAQUES, 1985). Por outro lado, os vírus de partículas livres são menos estáveis mesmo a baixas temperaturas.
Os Baculovirus são menos estáveis à temperatura ambiente, embora possam permanecer ativos por longos períodos, dependendo do método de armazenamento. A atividade do vírus de poliedrose nuclear (VPN) de Diprion hercyniae decresceu consideravelmente após 2 anos de armazenamento (NEILSON & ELGEE, 1960) enquanto o VPN de Lymantria díspar manteve sua eficiência por igual período (LEWIS & ROLLINSON, 1978).
Ainda com relação ao armazenamento em ambiente, trabalhos realizados no Brasil apresentaram uma grande variação de resultados, consequência dos diferentes tipos de f rmulações e do período de tempo estudado (MOSCARDI et al., 1989; BATISTA FILHO et al., 1991; CRUZ & VALICENTE, 1992; BATISTA FILHO et al.,1994).
A formulação deve distribuir o patógeno uniformemente e mantê-lo viável no ambiente pelo tempo necessário à sua ação, uma vez que a atividade do inseticida microbiano é influenciada pelos fatores ambientais.
Estudos de laboratório e campo sugerem que a luz solar, em especial a porção ultravioleta do espectro, é provavelmente o fator que mais afeta a persistência de inseticidas microbianos, pois atua diretamente nos ácidos nucleicos, alterando-os ou mesmo destruíndoos, o que impede o crescimento e a multiplicação do microrganismo(CANTWELL, 1967;MORR1S, 1971; IGNOFFO et al.,1977; JACQUES, 1985; K.ILLICK, 1990; PAWAR et al., 1995).
Técnicas envolvendo microencapsulação e protetores contra a radiação ultravioleta para o VPN de Heliothis foram estudadas por IGNOFFO & BATZER (1971) e BULL (1978). Aléin das formulações têm havido tentativas para aumentar a fotoestabilidade de produtos à base de vírus pela adição de compostos que absorvem ou refletem a luz ultravioleta (MARTIGNONI & IWAI, 1985).
Este trabalho teve o objetivo de contribuir para o aperfeiçoamento de formulações deB. anticarsia através do estudo de dois fatores que devem ser considerados para o desenvolvimento de um bioinseticida, pois raros são os estudos nessa linha de pesquisa em nossas condições. Dessa forma, pretende-se gerar conhecimentos que sejam utilizados na industrialização desse entomopatógeno e na sua aplicação a campo.
MATERIAL E MÉTODOS
Obtenção de Baculovirus anticarsia semipurificado
O processo de semi-purificação de Baculovirus anticarsia foi reaiizado nos laboratórios da Seção de Controle Biológico das Pragas do Instituto Biológico pelo método de centrifugação diferencial.
O vírus foi obtido a partir de lagartas deAnticarsia gemmatalis infectadas em laboratório com inóculo inicial obtido junto ao Centro Nacional de Pesquisa de Soja da EMBRAPA em 1984 e mantido na coleção de microrganismos entomopatogênicos do Instituto Biológico sob a denominação CB-50.
Amostras dessas lagartas foram maceradas em água destilada e homogeneizadas em liquidificador. Em seguida, o material foi filtrado através de camadas de gaze pré-umedecida para a retirada do material mais grosseiro. O caldo obtido por esse processo foi então centrifugado durante 3 minutos a 3000 rpm. Posteriormente, o precipitado foi descartado e o sobrenadante centrifugado a 8000 rpm durante 20 minutos. O precipitado obtido à velocidade de 8000 rpm foi suspenso em água destilada e analisado quanto à concentração (número de corpos de inclusão poliédrica/mL) em câmara de Neubauer.
Preparo das formulações
A partir das suspensões semi-purificadas, o B. anticarsia foi formulado nos laboratórios do Centro Piloto de Formulações de Defensivos Agrícolas do Instituto Biológico, sediado na Estação Experimental de Campinas, SP, sob as formas de pó molhável (PM) e óleo emulsionável (OE).
A formulação do tipo PM foi preparada mediante impregnação direta das suspensões de poliedros em caulim, inerte de origem mineral, associado a adjuvantes, entre os quais, agentes suspensores e molhantes. Após a impregnação de todos os componentes, o material foi seco à temperatura ambiente e, em seguida, submetido à moagem em moinho a ar (micronizador). Na figura 1 são apresentados os equipamentos utilizados para o preparo da formulação PM.
A formulação OE foi preparada a partir da mistura da suspensão virai com óleo de milho refinado, emulsificante e composto gustativo. Após a mistura dos componentes, o material foi homogeneizado em um misturador/desintegrador.
As formulações deB. anticarsia processadas apresentaram as seguintes composições:
Formulação PM - Caulim
Suspensão de corpos de inclusão poliédrica (CIP) 200 g
Caulim 500 g
Outros inertes (sílica+ talco) 100 g
Sacarose 150 g
Surfactante 25 g
Agente suspensor 25 g
Total 1000 g
Formulação OE - milho
Suspensão de corpos de inclusão poliédrica 200 g
Óleo de milho refinado 500 g
Emulsificante 50 g
Glicerina 50 g
Água destilada q.s.p 1000 mL
Estabilidade das formulações de B. anticarsia em condições ambiente de armazenamento
O experimento consistiu de quatro tratamentos: a) B. anticarsia semi-purificado (obtido através de centrifugação diferencial); b) B. anticarsia (PM-Caulim); c) B. anticarsia (OE-Milho) e d) testemunha (água destilada). As preparações líquidas foram acondicionadas em frascos de vidro e a formulação PM em sacos plásticos. Cada amostra continha 5 mL ou 5g de produto. O material foi armazenado em condições ambiente (armário de madeira), abrigado da luz e tendo no seu interior um termohigrógrafo para registro da temperatura e umidade relativa do ar.
Equipamentos utilizados no processo de formulação PM de B. anticarsia. a) Misturador/Impregnador; b) Moinho de Martelos; c) Misturador; d) Moinho a Ar.
Os testes de viabilidade foram realizados logo após à preparação e estocagem dos produtos e a cada 120 dias, até completar 20 meses. Nessas ocasiões, eram retiradas do armário, ao acaso, 3 amostras de cada tratamento, representando 3 repetições, cada uma das quais formadas por um grupo de 20 lagartas de A. gemmatalis no início do 4º ínstar (aproximadamente 1,5 cm de comprimento), totalizando 60 insetos por tratamento.
A técnica de inoculação do patógeno consistiu em aplicações, com o auxílio de pipeta automática de suspensões dos diferentes tratamentos sobre a superfície de dieta artificial (GREENE et al., 1976) isenta de formol e acondicionada em tubos de vidro (2,5 cm de diâmetro x 8,5 cm de altura). Em cada tubo foram inoculados 2,0 x 104 co rpos de inclusão poliédrica (CIP) e uma lagarta da soja. O ensaio foi conduzido sob condições controladas de laboratório (temperatura de 27 ± 1ºC; U.R. = 75 ± 5% e fotofase de 14 horas).
As avaliações das lagartas tratadas foram feitas diariamente até que atingissem a fase pupal. O delineamento experimental utilizado foi inteiramente ao acaso, num esquema fatorial com a interação dos tratamentos x épocas. Os dados foram corrigidos pela fórmula de Abott e submetidos à análise de variância e as médias dos tratamentos foram comparadas através do teste de Tukey a 5%
Sensibilidade das formulações à radiação ultravioleta em condições de laboratório
Este ensaio teve o objetivo de avaliar, preliminarmente, o grau de proteção conferido pelas formulações ao patógeno exposto à radiação UV de lâmpada germicida, portanto, livre de outros fatores que ocorrem concomitantemente em condições de campo (chuva, temperatura, etc).
Foram coletados folíolos de soja, cultivar IAC-8, com aproximadamente 30 dias contados a partir do plantio e com área foliar média de 12 cm2• O material foi desinfestado com solução de hipoclorito de sódio 0,2% durante 5 minutos, lavado com água destilada e seco em papel toalha.
Após essas operações, lotes de 200 folíolos foram fixados com alfinetes em uma placa de isopor revestida com papel de filtro, ocupando uma área de 3000 cm2• A placa foi deixada, em posição vertical, no interior de uma câmara de pulverização (Fig. 2), onde foram realizadas as aplicações dos tratamentos, diluídos em água destilada estéril sob pressão constante (0,5 atm), no volume de 3 mL/aplicação (1,0 x 105 CIP/mL) e concentração de 1,0 x 102 CIP/cm2•
Os tratamentos foram assim constituídos: B. anticarsia (PM-Caulim); B. anticarsia (OE-Milho); B. anticarsia semi-purificado e Testemunha (água destilada). Amostras contendo 100 folíolos de cada tratamento foram submetidas, após pulverização, à lâmpada germicida (radiação UV de 253,7 nm) durante 5 minutos, distante 25 cm da fonte de radiação. Os outros 100 folíolos foram somente pulverizados. Assim, cada tratamento e condição (irradiado ou não irradiado) foi repetido 4 vezes (25 folíolos/repetição). Após os procedimentos anteriores, os folíolos foram colocados, individualmente, em tubos de vidro (8,5 cm de altura x 2,5 cm de diâmetro) contendo uma lagarta de A. gemmatalis no início do 4º ínstar (aproximadamente 1,5 cm). Esse material foi então acondicionado em câmara de germinação sob temperatura de 25ºC e 14 horas de luz, durante 17 horas, tempo suficiente para que os insetos consumissem praticamente todo alimento. Após esse período, as lagartas foram transferidas para tubos de vidro contendo dieta artificial (GREENE et al., 1976) e mantidas em condições de laboratório (temperatura = 27±1ºC; U.R. = 68 ± 2% e fotofase = 14 horas).
Nas avaliações, foram consideradas a mortalidade de lagartas por vírus e por outras causas, pupas vivas e pupas mortas. Os valores de mortalidade provocada pelo patógeno foram submetidos à análise de variância num delineamento fatorial e as médias dos tratamentos comparadas através do teste de Tukey a 5% de probabilidade, visando-se comparar o efeito da radiação dentro e entre tratamentos.
Persistência das formulações no campo
A proteção conferida ao patógeno pelas formulações contra a radiação solar e a lavagem provocada pelas chuvas foi avaliada em condições de campo. O ensaio foi instalado na Estação Experimental de Campinas do Instituto Biológico e constou de quatro tratamentos: B. anticarsia (PM-Caulim); B. anticarsia (OE-Milho); B. anticarsia impuro (macerado de lagartas infectadas e mortas) e testemunha (água). Foi adotado o delineamento estatístico de blocos ao acaso com quatro tratamentos e quatro repetições, sendo as parcelas formadas por 25 m2 de cultura de soja do cultivar IAC-8. Entre as parcelas foram deixadas três linhas de bordadura e, entre blocos, uma faixa de separação de 4 metros.
As pulverizações tiveram início às 8:00 horas da manhã e foram realizadas com o auxílio de um pulverizador costal manual marca BRUDDEN P5. A concentração do patógeno e o volume da calda utilizada foram, respectivamente, 1,0 x 1011 CIP e 200 litros de água por hectare. Decorridas duas horas após o início da pulverização, 25 folíolos situados no terço superior das plantas foram coletados em cada parcela e encaminhados ao laboratório de Patologia de Insetos da Seção de Controle Biológico .das Pragas. O material foi individualizado em tubos de vidro (2,5 cm de diâmetro x 8,5 cm de altura), cada um contendo uma lagarta de A. gemmatalis no início do 4º ínstar. Para cada tratamento foram utilizados 100 indivíduos, distribuídos em 4 repetições de 25 insetos, mantidos no interior de uma câmara de germinação a 25ºC, U.R. próxima de 70% e fotofase de 14 horas. Após consumirem o alimento, as lagartas foram transferidas para tubos de vidro contendo dieta artificial e mantidas sob novas condições (temperatura = 27±1ºC; U:R. = 70±5% e fotofase = 14 horas). Passados 1, 3, 7 e 14 dias da instalação do ensaio, repetiram-se as operações de campo e laboratório com novas coletas de folíolos e fornecimento às lagartas criadas em laboratório, com procedimentos e condições idênticas ao do teste inicial.
Os dados climatológicos, referentes às temperaturas máxima, mínima e média, número de horas de insolação e umidade relativa média, foram fornecidos pela Seção de Climatologia Agrícola do Instituto Agronômico (IAC) e Estação Experimental de Campinas do Instituto Biológico (EEC/IB).
Para a avaliação foi considerado o número de lagartas mortas pelo vírus e os dados, corrigidos pela fórmula de Abott, foram submetidos à análise estatística segundo o delineamento experimental de parcelas subdivididas, utilizando o teste de Tukey com 5% de probabilidade, visando-se comparar as médias de interesse e a interação tratamento x época.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Estabilidade das formulações deB. anticarsia
Aos 16 meses de armazenamento, as preparações líquidas não sofreram decréscimo significativo de atividade. O patógeno formulado em OE (milho), após os 20 meses de armazenamento, perdeu apenas 18,33% de eficiência, menos que a metade da redução da atividade observada para o vírus suspenso em água (Semi-purificado) (Tabela 1 e Fig. 3). Esse desempenho foi superior ao obtido por BATISTA FILHO et al. (1991) quando comparado à formulação OE (soja) que não alcançou 40% de atividade, após 12 meses de armazenamento em meio ambiente.
A formulação PM apresentou comportamento bem diferente. A partir do oitavo mês, a atividade desta formulação foi reduzida consideravelmente, diferindo significativamenteda suspensão concentrada edo OE. Para o PM, essa tendência de queda persistiu por 20 meses, quando então atingiu o menor valor (5%). Nesse caso, esse tipo de inerte mostrou-se incompatível com o patógeno, desativando-o, quase por completo já no primeiro ano, resultado muito inferior ao observado por BATISTA FILHO et al. (1991) que, no mesmo período de terripo (12 meses), obtiveram 71,2% de eficiência trabalhando com o vírus impregnado em talco. A leucita, outro mineral de argila, testado por BATISTA FILHO et al. (1994) foi ainda mais eficiente na manutenção da atividade do microrganismo, que mesmo após 24 meses de armazenamento ainda permaneceu com 73,3% de sua capacidade infectiva original. Um dos fatores que pode ser considerado para essa baixa estabilidade é o pH da formulação, haja vista o caso do inerte leucita onde o valor ficou próximo de 6,0 enquanto para a formulação em caulim o pH foi de 9,4. Segundo GUDAUSKAS & CANNERDAY (1968), os entomovírus podem ser inativados lentamente, entre pH 6 9 e 10, dependendo do tempo de exposição, o que pode 2 explicar o rápido decréscimo da atividade. MOSCARDI et al. (1989) trabalhando comB. anticarsia impregnado em lactose, chegaram ao final de 11 meses de armazenamento com apenas 6% de atividade.
Efeito do período de armazenamento e do tipo de preparação sobre a viabilidade de Baculovirus anticarsia determinado pela porcentagem de mortalidade de lagartas deAnticarsia gemmatalis.
Para o patógeno semi-purificado, a estabilidade foi significativamente afetada no vigésimo mês, verificando-se uma redução de 40% na mortalidade das lagartas. Esses resultados concordam com BATISTA FILHO et al. (1991), os quais obtiveram redução similar para o vírus armazenado, em condições semelhantes, por 12 meses. Entretanto, os autores utilizaram doses menores do vírus por lagarta, o que pode explicar o decréscimo mais rápido da viabilidade. Por outro lado, MOSCARDI et al. (1989) verificaram, decorridos apenas 7 meses, redução de aproximadamente 50% na mortalidade de A. gemmatalis.
A atividade remanescente da formulação em OE (milho), representada pela capacidade de matar 80% das lagartas, após 20 meses de armazenamento em condições ambiente, enquadra-se dentro das exigências técnicas para viabilizar economicamente um produto microbiano, segundo COUCH & IGNOFFO (1981).
Quanto às condições de armazenamento, houve pouca variação da temperatura e da umidade relativa ao longo do período de experimentação (Tabela 2) registrando-se, ao final de 20 meses, as médias de 24,5 ºC e 64,2 % respectivamente.
Médias quadrimestrais de temperatura e umidade relativa observadas no interior do armário, durante o período de armazenamento das formulações (20 meses).
Mortalidade de lagartas de Anticarsia gemmatalis nos diferentes tratamentos em 20 meses de armazenamento.
Sensibilidade das formulações à radiação ultravioleta em condições de laboratório
Verificou-se que as diferentes preparações de B'. anticarsia expostas à radiação UV apresentaram atividades significativamente reduzidas, independente dos seus componentes, o que demonstra a grande sensibilidade do patógeno a esse comprimento de onda (Tabela 3).
Apesar da elevada redução da mortalidade das lagartas submetidas às preparações irradiadas, observou-se que as duas formulações (PM e OE) foram significativamente superiores à preparação semipurificada. Pode-se concluir que a adição de óleo vegetal ou argila às suspensões de poliedros permitiu quase que dobrar a proteção ao microrganismo e, consequentemente, prolongar sua atividade (Fig. 4). Utilizando o mesmo comprimento de onda (253,7 nm), JAQUES (1968, 1971) demonstrou arápidainativação do VPN de Trichoplusia ni após a exposição de suspensões do vírus aos raios ultravioleta durante 10 minutos. Ao final desse período, somente 5% das lagartas morreram pela ação do patógeno irradiado. Por outro lado, o autor conseguiu prolongar a atividade do microrganismo quando adicionou às suspensões diferentes tipos de materiais, como a albumina de ovo em combinação com "lndia ink" que, mesmo após 60 minutos de exposição à radiação ultravioleta ainda mantiveram 74% da capacidade infectiva original do vírus.
Porcentagem de mortalidade de lagartas de Anticarsia gemmatalis inoculadas com três preparações de Baculovirus anticarsia, submetidas à radiação ultravioleta de 253,7 nm.
Mortalidade de lagartas de Anticarsia gemmatalis inoculadas com três preparações de Baculovirus anticarsia, submetidas à radiação ultravioleta de 253,7 nm.
Resultados semelhantes também foram obtidos por SHAPIRO elal. (1983) para a suspensão purificada de Baculovirus (manutenção de 22% da atividade original depois de exposta à radiação UV), enquanto nas preparações onde houve adição de melaço ou açúcar (sacarose) foi mantida a atividade em 41,6 e 48,1%, respectivamente. Para as formulações em pó (talco), IGNOFFO & GARCIA (1996) obtiveram 15,3% de persistência do vírus quando exposto à luz ultravioleta por 24 horas utilizando comprimento de onda de 365 nm, portanto, em tempos diferentes de exposição e, principalmente, no comprimento de onda situad na faixa da radiação solar (ultra-violeta próximo).
Embora muito diferentes química e fisicamente, o que indica que o mecanismo que conferiu à proteção possa ser diferente, as formulações oleosa (milho) e PM (caulim) apresentaram comportamento idêntico. JAQUES (1971) sugere que materiais orgânicos protegem o vírus através da absorção da luz ultravioleta na faixa germicida e também pela cor ou conteúdo protéico, hajam vista as suspensões impuras (cruas) terem garantido certa proteção ao patógeno, mantendo-o por considerável período sobre a folhagem ao contrário das suspensões purificadas (DAVID & GARDINER, 1966; CANTWEEL, 1967; MOSCARDI, 1983).
A manutenção de depósitos ativos de vírus por 2 ou 3 dias a mais, provocada pela incorporação de adjuvantes às suspensões de poliedros ou por formulações elaboradas, visando principalmente a proteção contra a radiação UV, aumenta consideravelmente a eficiência do entomopatógeno a campo segundo MOSCARDI (1983).
Persistência das formulações no campo
Foram calculadas as p rcentagens de lagartas de A. gemmatalis mortas por B. anticarsia, em função da persistência dos diferentes tratamentos (Tabela 4). Com base nos dados da Tabela 4 e com as informações sobre os dados climáticos obtidos durante a realização do trabalho (Tabela 5), elaborou-se a figura 5, representando o comportamento das três preparações do patógeno durante o período de 14 dias, bem como os registros do número de horas de insolação e da precipitação pluviométrica.
Confrontando-se os resultados apresentados (Tabela 5 e Fig. 5), evidenciou-se que a formulação PM foi significativamente afetada pela precipitação ocorrida seis horas após à pulverização do patógeno no campo. A intensidade da chuva atingiu 49 mm/hora, suficiente para remover conside rável parcela de vírus das folhas de soja. Naquela data, a redução da atividade do microrganismo foi pouco acima de 50%, enquanto nos demais tratamentos não foram detectadas alterações significativas na eficiência do bioinseticida. Portanto, é muito provável que a acentuada queda na eficiência do microrganismo formulado em PM deveuse, em grande parte, à remoção dos poliedros e das partículas da formulação pela ação da chuva. Essa hipótese pode ser evidenciada quando se examina o comportamento dos demais tratamentos nas primeiras 24 horas e também pelos resultados obtidos por BATISTA FILHO et al. (1992a) que estudando formulações pertencentes ao mesmo grupo e sem a ocorrência de chuvas, observaram que após 24 horas da aplicação, a formulação PM teve apenas 9% na redução da atividade e, da mesma forma, B. anticarsia em OE apresentou, nesse período, sua viabilidade preservada.
Porcentagem de mortalidade de lagartas deAnticarsia gemmatalis por Baculovirus anticarsia em função da persistência de três preparações do patógeno sobre folhas de soja do cultivar IAC-8.
Dados climáticos obtidos durante o período de observação da persistência da atividade de B. anticarsia sobre folhas de soja do cultivar IAC-8.
Por outro lado, OLIVEIRA & MOSCARDI (1984) concluíram que a precipitação pluviométrica, ao contrário da radiação solar, teve pouca influência sobre a manutenção deB. anticarsia sobre as folhas de soja. Entretanto, nesse caso, a quantidade de chuva registrada por dia esteve bem abaixo daquela observada neste trabalho, em especial no primeiro dia, o que pode explicar os resultados não concordantes.
Em estudos conduzidos com outros tipos de baculovírus também atribuíram à radiação solar e não à ação da chuva, os efeitos mais danosos à viabilidade (DAVID&GARDINER, 1966;BULLOCK, 1967).
Perdas significativas da atividade virai (31,29%) foram detectadas somente aos 7 dias para a formulação em óleo, enquanto já no primeiro dia a formulação PM sofreu redução de 52,05% de sua atividade original e a preparação impura perdeu 20% de eficiência no 3º dia. Portanto, a formulação OE apresentou desempenho superior às demais, permitindo a manutenção de maior quantidade de poliedros viáveis sobre as folhas de soja. O efeito protetor conferido pela formulação óleo pode ser visualizado já no 3º dia quando esta diferiu significativamente dos demais tratamentos, mantendo sua eficiência inalterada. Segundo ALVES et al. (1992), a alta persistência do patógeno nos primeiros três dias de exposição a campo pode estar associada, entre outros fatores, com o baixo número de horas de insolação. Corroborando tal observação, BATISTA FILHO et al. (1992b) estudaram a persistência de B. anticarsia formulado em óleo (soja) e verificaram que a atividade da formulação decresceu de forma semelhante à observada neste ensaio; contudo, num ritmo mais acelerado, os autores registraram uma média de 9,1 horas diárias de insolação que pode estar associada à maior rapidez da degradação do microrganismo, uma vez que no presente trabalho a média diária obtida foi de apenas 4,1 horas. Em ambos os testes as temperaturas médias ficaram próximas de 25ºC.
Entre o 3º e o 7º dias de exposição do patógeno, foi constatado um decréscimo mais acentuado na mortalidade de lagartas tratadas com folíolos provenientes das áreas que receberam o vírus impuro e formulado em OE. Nesse período, ocorreram poucas chuvas e a média do número de horas de insolação foi baixo (4 horas). Para a formulação PM não foi verificada queda de eficiência no período acima citado, o que pode reforçar a hipótese de que a redução inicial se deve à remoção pela chuva. Essa mesma conclusão é obtida quando se examina o comportamento das formulações entre 7 e 14 dias. Nesse período foram registrados 101 mm de chuva, concentrados, principalmente, no 7º e 8º dias, e, novamente, a formulação PM foi significativamente afetada em sua atividade, ao contrário do vírus em OE eda preparação impura.
A velocidade do decréscimo de atividade do vírus impuro, durante os 14 dias de observação, foi similar àquela observada porMOSCARDI (1983), que demonstrou o efeito protetor do material impuro em relação ao semi-purificado, pela presença de gorduras, proteínas e outros resíduos dos insetos a exemplo dos trabalhos de DAVID et al. (1968) e JAQUES (1971 e 1977).
Segundo MOSCARDI (1983), a manutenção da atividade da formulação OE, em níveis superiores a 50% após 7 dias, pode ser considerada adequada, uma vez que ocorre uma reposição natural do vírus ho campo, decorrente da morte de lagartas a partir do 5º dia após à aplicação e também pela grande capacidade de recuperação foliar da cultura de soja frente ao ataque da praga. Ressalta-se, ainda, a contribuição dos artrópodos predadores e parasitóides na disseminação do patógeno, chegando a provocar focos primários da doença (FUXA et al.,1993; MOSCARDI et al., 1996).
Outro ponto importante a ser considerado é a possibilidade de se aplicar o produto formulado durante todo o dia, ao contrário das preparações impuras de B. anticarsia, que normalmente são aplicadas ao entardecer com vistas a minimizar os efeitos da radiação ultravioleta, garantindo assim um maior número de horas de atividade do vírus. Esse fato foi comprovado por ALVES1 , quando estudou o efeito do horário de aplicação sobre a persistência do vírus, não observando nenhuma interferência sobre a atividade do bioinseticida aplicado às 8 e às 12 h, ao contrário da preparação impura. Durante o período de avaliação foi registrada a média de 5,2 horas insolação e apenas 2,5 mm de chuva/dia.
Também, cabe analisar as ponderações de JAQUES (1971) quando ressalta que um material que protege o vírus da luz ultravioleta, em testes de laboratório, pode não protegê-lo da luz solar e vice-versa, dependendo do mecanismo de proteção. Ainda dessa vez, a formulação OE teve comportamento semelhante nas duas condições de experimentação, ao contrário do vírus na forma PM que, em condições de laboratório, conferiu proteção ao patógeno exposto à radiação enquanto, no campo, outros fatores impediram que tivesse o mesmo desempenho.
CONCLUSÕES
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A formulação óleo emulsionável foi altamente estável quando armazenada em condições de ambiente (T=24,7 ± 1,3 ºC e UR=64,2 ± 4,9).
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O óleo de milho e os adjuvantes utilizados na formulação de Baculovirus anticarsia não afetaram a atividade do vírus.
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A formulação pó molhável apresentou baixa estabilidade quando armazenada em condições de ambiente (T=24,7 ± 1,3 ºC e UR=64,2 ± 4,9).
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As formulações deBaculovirus anticarsia em óleo emulsionável e pó molhável protegeram o patógeno contra a radiação ultravioleta.
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Baculovirus anticarsia quando formulado em óleo emulsionável teve sua atividade prolongada em condições de campo.
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A formulação óleo emulsionável apresentou boa estabilidade, razoável persistência e eficácia para a utilização no controle deAnticarsia gemmatalis.
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