RESUMO
Este trabalho avaliou o efeito da concentração do óleo de soja na formulação de VPNAg, baseando-se na atividade patogênica do microrganismo, quando submetido à radiação ultra-violeta. Foram testadas cinco concentrações de óleo (10, 20, 30, 40 e 50%). Os folíolos tratados foram divididos em dois grupos, sendo um deles submetido à radiação ultravioleta de 253,7 nm (lâmpada germicida) e o outro utilizado como padrão. A atividade do vírus foi avaliada através de folíolos irradiados e não-irradiados oferecidos a lagartas deAnticarsia gemmatalis. Após o consumo dos folíolos, as lagartas receberam dieta artificial e foram observadas diariamente quanto à mortalidade provocada pelo agente biológico. Os resultados indicaram haver relação direta entre a concentração de óleo e a fotoproteção, sendo que na maior concentração houve redução de apenas 16,67% na atividade do entomopatógeno e na menor (10%) a perda de atividade atingiu 72,72%.
PALAVRAS-CHAVE:
Formulação; Baculovirus, controle microbiano; Anticarsia gemmatalis, entomopatógeno; ultravioleta.
ABSTRACT
This experiment was conducted to evaluate the ability of soybean oil concentration in formulation to prevent loss of pathogenicity of NPVAg exposed to ultraviolet (UV) radiation. Folioles was treated with formulations and exposed to the UV radiation from germicide lamp (253,7 nm). The activity of virus exposed and non-exposed was evaluated on soybean looper Anticarsia gemmatalis. The concentration of oil in the formulation was directly correlated with the pathogenicity (or efficacy) of the organism. Thus, the best protection against the UV radiation was obtained using 50% oil in the formulation.
KEY WORS:
Formulation; baculovirus; microbial control; Anticarsia gemmatalis, entomopathogen; ultraviolet.
INTRODUÇÃO
Desde o início da década de 80 vem sendo utilizado, no Brasil, um vírus de poliedrose nuclear (VPN) para o controle da lagarta da sojaAnticarsia gemmatalis (NPVAg), sendo que atualmente a área tratada com o patógeno está próxima de 1.000.000 de ha (MOSCARDI & SOSA-GOMEZ, 1992).
O avanço na utiliza.ção de VPNAg deve-se à possibilidade de sua produção em grande escala sobre seu hospedeiro natural (em condições de laboratório ou campo) e ao desenvolvimento de formulações que aumentam a eficiência do patógeno no campo e permitem seu armazenamento em condições ambiente (BATISTA FILHO et al., 1992; SOSA-GOMEZ & MOSCARDI, 1996).
Com relação a este último fator, há cerca de 10 anos o Instituto Biológico e o Departamento de Entomologia da ESALQ/USP vêm desenvolvendo formulações sólidas (pós seco e molhável) e líquidas (óleo emulsionável) sendo, ainda, encontrada à disposição dos agricultores, uma formulação pó-molhável desenvolvida pela Embrapa/CNPSo, à base de caulim (MOSCARDI & SOSA-GOMEZ, 1992).
Especificamente para o VPNAg, a formulação óleo emulsionável (OE) tem-se mostrado eficiente, seja em condições de laboratório como em campo. Inicialmente, BATISTA FILHO· & AUGUSTO (1987) desenvolveram uma preparação à base de óleo de soja que, em condições de laboratório, causou 93,4% de mortalidade, estando próximo do valor obtido para a preparação de lagartas mortas maceradas (usual) que foi de 90%.
Posteriormente, testando-se óleo de milho como veículo na formulação, foi observada mortalidade de 100% de lagartas deA. gemmatalis. Além disso, nos testes de campo a atividade do patógeno foi preservada quando compara-se com os preparados não formulados. Neste caso, pode-se atribuir tal superioridade à maior adesão e cobertura foliar proporcionadas pela formulação OE, principalmente pela presença do óleo em sua composição e também ao efeito fotoprotetor {BATISTA FILHO et al., 1992; BATISTA FILHO, 1997).
A radiação ultravioleta do espectro solar tem efeitos deletérios sobre os ácidos nucléicos de vírus entomopatogênicos (JAQUES, 1985). Trabalhos desenvolvidos em condições de laboratório e campo, com diferentes preparações do VPNAg, foram expostas à radiação ultravioleta de lâmpada germicida (253,7 nm) e à luz solar, sendo comprovada a proteção contra a incidência da luz solar à B. anticarsia quando formulado como óleo emulsionável. (BATISTA FILHO et al., 1992; ALVES et al., 1992; BATISTA FILHO, 1997).
Ainda que o desempenho do bioinseticida seja satisfatório, a formulação OE de VPNAg contém 50% de sua composição referente a óleo vegetal, o que pode eventualmente constituir-se num fator de inviabilidade econômica pois exige, também, maior concentração de emulsificante. Diminuindo a concentração de óleo poderia haver redução de custos desde que a qualidade do produto final fosse mantida. Assim, o objetivo deste trabalho foi verificar a possibilidade de se reduzir o teor de óleo de soja na formulação sem que a eficiência do agente microbiano de controle fosse afetada.
MATERIAL E MÉTODOS
Folíolos de soja (cultivar IAC-11) foram desinfestados através de imersão em solução de hipoclorito de sódio (0,5%), lavados em água destilada, deixados secar sobre papel toalha e fixados, com o auxílio de alfinetes, sobre uma placa de isopor revestida com papel de filtro. Em seguida, foram pulverizados com as formulações de Bacuiovirus anticarsia contendo diferentes concentrações de óleo de soja, diluídas em água destilada. Como testemunha foi utilizada apenas água destilada. Os tratamentos ficaram assim constituídos: a) Óleo emulsionável (OE) 10%, b) OE 20%, c) OE 30%, d) OE 40%, e) OE 50% e f) Testemunha. A área média dos folíolos foi determinada previamente, de forma que pode-se estimar a concentração em 3,18 x 103 Corpos de Inclusão Poliédrica/folíolo.
Após à pulverização, os folíolos de cada um dos tratamentos foram divididos em 2 lotes distintos, contendo 60 folíolos, em cada um deles. Um dos lotes de todos os tratamentos foi submetido àradiação ultravioleta proveniente de lâmpada germicida (comprimento deonda de 253,7 nm), durante 5 minutos, estando a 40 cm da fonte emissora. O outro lote não foi irradiado, servindo como testemunha. Posteriormente, todos os folíolos foram individualizados em tubos de vidro (8,5 cm de altura x 2,5 cm de diâmetro) juntamente com uma lagarta de A. gemmatalis no 3º ínstar.
O experimento foi conduzido sob condições controladas de temperatura (27 ± 1ºC), umidade relativa (70 ± 10%) e fotoperíodo de 14 horas. Constatado o consumo, as lagartas foram transferidas para tubos de vidro contendo dieta artificial (GREENE et al., 1976) e mantidas nas mesmas condições citadas até que atingissem a fase pupal. Diariamente foram analisadas, observando-se eventuais mortalidades e confirmandose o agente causal por meio dos sintomas e observação dos sinais, em microscópio óptico de contraste de fase. Os dados foram submetidos à análise de variância, comparando-se as médias de mortalidade obtidas nos diferentes tratamentos pelo teste de Tukey (a= 0,05), utilizando-se o programa estatístico SANEST.
Eficiência de formulações óleo emulsionável deBaculovirus anticarsia com diferentes concentrações de óleo de soja quando submetidas à radiação ultravioleta, em condições de laboratório.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Independentemente da concentração de. óleo de soja na formulação, todas as preparações testadas não irradiadas, foram igualmente eficientes, causando níveis de mortalidade acima de 80% (Tabela 1).
Contudo, o efeito protetor contra a radiação ultravioleta de 253,7 nm apresentou grande variação, sendo diretamente proporcional à concentração de óleo utilizada. Assim, verifica-se que nas concentrações de 10, 20 e 30% ocorreram, respectivamente, 73, 50 e 51% de redução de atividade enquanto as concentrações de 40 e 50% de óleo promoveram a melhor proteção, obtendo-se, em cada uma delas, 36 e 16% de redução da atividade.
A perda de atividade das menores concentrações foram comparáveis à obtida por BATISTA FILHO et al. (1992) e BATISTA FILHO (1997) com uma suspensão de vírus concentrado exposta à UV nas mesmas condições, que em ambos os casos foi de 73%. Além disso, BATISTA FILHO et al. (1992) testaram a proteção de uma formulação OE do VPNAg, com 50% de óleo de milho contra radiação UV, e obtiveram redução de 15% na atividade, confirmando a eficácia desta quantidade de óleo na formulação.
A eficiência conferida pelas formulações ao vírus de poliedrose nuclear exposto à radiação pode estar associada, segundo JAQUES (1971), a adição de materiais orgânicos que protegem as partículas virais pela absorção da luz ou pela sua coloração. No presente trabalho, provavelmente a coloração seja o fator envolvido na proteção do VPNAg pois, após o preparo, a formulação OE apresentava coloração branco-leitosa, característica da emulsão formada.
Deve-se ressaltar que as condições em que foram realizadas o experimento diferem do ambiente natural, pois a radiação incidente é de maior efeito devido ao comprimento de onda emitida pela lâmpada estar na faixa germicida (comprimento de onda inferior ao da emitida pelo sol), e no campo, a própria planta pode fornecer um certo sombreamento que protege as partículas da exposição direta à luz solar. Desta forma, é necessário que tais observações sejam também realizadas no campo, seguindo as recomendações preconizadas para a utilização do vírus na cultura da soja, a fim de confirmar os resultados aqui obtidos.
Ressalta-se, porém, que em outros trabalhos, em que se comparou a proteção à luz UV da formulação OE com a atividade do patógeno não formulado em laboratório, a tendência observada em tais condições foram repetidas no campo, seguindo a mesma proporção de intensidade de redução da eficiência, entretanto mais amenas, percebidas ao longo do tempo de exposição à radiação solar (BATISTA FILHO et al., 1992; BATISTA FILHO, 1997). Entretanto, JAQUES (1971) também considera provável que essa proteção possa não ocorrer no campo, pois como verificou BATISTA FILHO (1997) para uma formulação pó-molhável do VPNAg, a fotoproteção à radiação ultravioleta verificada no laboratório não ocorreu no campo onde, segundo o autor, outros fatores impediram que tivesse o mesmo desempenho.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- ALVES, L.F.A.; LEITÃO, A.E.E; AUGUSTO; N.T.; LEITE, L.G.; BATISTA FILHO, A. Utilização de um adjuvante protetor contra a radiação solar e fagoestimulante, em mistura com um vírus de poliedrose nuclear de Anticarsia gemmatalis (Lepidoptera: Noctuidae). Arq. Inst. Biol., São Paulo, v. 59, n. 1/2, p. 23-27, 1992.
- BATISTA FILHO, A. Desenvolvimento de formulações de Baculovirus anticarsia. Tese de Doutorado, ESALQ/USP, Piracicaba, 86 p., 1997.
- BATISTA FILHO, A. & AUGUSTO, N.T. Eficiência do Baculovirus anticarsia formulado como óleo emulsionável, no controle de Anticarsia gemmatalis Hübner, 1818. Biológico, São Paulo, v. 53, n. 7/12, p. 57-59, 1987.
- BATISTA FILHO, A.; ALVES, L.F.A.; AUGUSTO, N.T.; LEITE, L.G.;ALVES, S.B. Avaliação da persistência de duas formulações deBaculovirus anticarsia a campo e laboratório. An. Soe. Entomol. Brasil, v.21, n.3, p.453-462, 1992.
- GREENE, L.G.; LEPPLA, N.C.; DICKERSON, W.D. Velvetbean caterpillar: a rearing procedure and artificial medium.J. Econ. Entomol., College Park, v. 69,n.4,p.487-488, 1976.
- JAQUES, R.A. Tests on protectants for foliar deposits of a polyhedrosis virus. J. Invertebr. Pathol., New York, v. 17, n.l, p. 9-16, 1971.
- JAQUES, R.A. Stability of insect viruses in the environment. In: MARAMOROSCH, K. & SHERMAN, K.E. (Ed.) Virai insecticides for biological control. New York, Academic Press, 1985. p.285-360.
- MOSCARDI, F. & SOSA-GOMEZ, D.R. 1992. Use of viruses against soybean caterpillars in Brazil. In: COPPING, L.G., GREEN, M.B. & RESS, R.T. (Ed.) Pest Management in soybean. London, Elsevier Applied Science, 1992. p.98-109.
- SOSA-GOMEZ, D.R. & MOSCARDI, F. Producción de virus patógenos de ácaros e insectos. In: LECUONA, R.E. (Ed.) Microorganismos patógenos empleados em el control microbiano de insectos plaga. Buenos Aires, Talleres Gráficos Mariano Mas, 1996. p.223-236.
