Open-access MICOTOXICOSE PELA AFLATOXINA B1 EM RÃS-TOURO (RANA CATESBEIANA, SHAW, 1802)1

MYCOTOXICOSIS BY AFLATOXIN B1 IN BULLFROG (RANA CATESBEIANA SHAW, 1802)

RESUMO

O presente caso relata ocorrência de micotoxicose pela aflatoxina B1 em rãs-touro (Rana catesbeiana SHAW, 1802) na fase de engorda, em ranário situado em município do litoral sul do Estado de São Paulo. Ocorreu em animais da mesma idade, que apresentavam desigualdade de tamanho; apatia; inapetência; mudança de coloração da pele e alto índice de morte. As lesões anátomo-histo-patológicas foram observadas no fígado, que estava friável, com nódulos, alterações na cor e no tamanho, congestão, esteatose e degeneração hidrópica; o coração apresentava alterações de cor e de tamanho e dissociação das fibras musculares; no baço, congestão sangüínea; nos rins, alterações de cor e de tamanho, nefrose e áreas degenerativas; nos intestinos, invaginações e enterite crônica; além de líquido sangüinolento na cavidade geral. Na ração foi detectada a micotoxina aflatoxina B1 na concentração de 18,17 ng/g (ppb). A causa da mortalidade das rãs seria decorrente da injestão de ração contaminada por esta micotoxina. Esta é a primeira notificação de micotoxicose que acomete rãs-touro veiculada por alimento.

PALAVRAS-CHAVE:
Rã-touro; Rana catesbeiana, micotoxicose; aflatoxina; patologia.

ABSTRACT

This article describes the occurrence of mycotoxicosis by aflatoxin BI in bullfrog (Rana catesbeiana SHAW, 1802) in São Paulo State, Brazil. There was observed in frogs with sarne age, with difference in size; apathy; inappetence; change on skin coloration and great mortality. The anatomo-histo-pathologic lesions was observated in liver, was friable, with nodules, alterations of colour and size, congestion, fatty and hidropic degeneration; in heart with alterations of colour and size and dissociation of cardiacmusculature; in kidney with alterations of colour and size, nephrosis and degeneration; in intestines with invaginations, hemorrhages and chronic enteritis. In the ration was encountered the mycotoxin aflatoxin B1 in concentration of 18.17 ng/g (ppb). The cause of mortality can be by ingestion of contaminated ration by this mycotoxin. This is the first notice about mycotoxicosi in bullfrog transmitted by feed.

KEY WORDS:
Bullfrog; Rana catesbeiana, micotoxicosis; aflatoxin; pathology.

INTRODUÇÃO

Embora a moderna atividade de criação comercial de rã-touro, Rana catesbeiana, seja relativamente recente, já existe um grande número de ranários instalados e em franca produção. Assim, devido a este rápido desenvolvimento e ao grande número de animais alojados, surgem alguns processos patológicos inéditos. Sendo a ranicultura um empreendimento zootécnico já firmemente instalado e em grande expansão, surgiu no mercado rações industrializadas próprias, ou adaptadas, para a rã-touro, visando facilitar o manejo alimentar. Porém devido às falhas no manejo sanitário da criação, esta ração pode se tornar uma fonte de infecção que compromete, de maneira severa, a saúde dos animais.

O presente caso, relata a ocorrência de micotoxicose pela aflatoxina B1 em rãs na fase de engorda, decorrente de sua presença expontânea em alimento industrializado.

Casos de intoxicação pelas aflatoxinas veiculadas por alimentos ocorrem em várias espécies animais, como aves, peixes e mamíferos (BUCK et al., 1981; THE MANUAL MERCK, 1973) e indiretamente pode atingir o homem, pela ingestão de alimentos de origem animal contaminados (SAA, 1993), porém para anfíbios, sua ocorrência não foi relatada (ANVER & POND, 1984; COOPER, 1987; ELKAN, 1976; FOWLER, 1978; GRINER, 1983; REINCHENBACH-KLINKE & ELKAN, 1965; SOUZA JÚNIOR et al.,1996).

Há divulgações das ações deletéricas da aflatoxina em anfíbios decorrentes de experimentos visando ao estudo, principalmente de suas características oncogênicas e teratogênicas (BERGER et al., 1972; BOUTIBONES & JACQUET, 1972; BREWSTER & GRANT, 1972; GABOR et al., 1981).

Acreditamos que esta seja a primeira notificação internacional, relatando a presença de aflatoxina de ocorrência expontânea em alimento industrializado, como causa de micotoxicose em rãs.

MATERIAL E MÉTODOS

Foram encaminhados espécimes provenientes de um lote aproximado de 2.000 rãs-touro em fase de engorda, de ranário situado em município do litoral sul do Estado de São Paulo, onde 90% deste plantel apresentava-se doente. O histórico apresentado era de animais da mesma idade, com desigualdade bem marcante nos tamanhos (Fig. 1); apatia; inapetência, ataxia; mudança de coloração da pele e alto índice de morte, em tempo relativamente curto. Fragmentos de órgãos destes animais foram coletados e fixados em formal neutro a 10% e preparados pela técnica de hematoxilina-eosina. A amostra da ração que era fornecida aos animais, coletada da embalagem aberta que ficava dentro do recinto de criação, foi encaminhada para detecção de uma provável presença de micotoxinas, utilizando-se a técnica de cromatografia líqüida de alta resolução/alta pressão (HPLC).

RESULTADOS

As necropsias de 12 animais revelaram fígado friável, presença de nódulos amarelados, com alterações de cor de seu parênquima, as vezes pálido ou hemorrágico, e alterações no tamanho; invaginação intestinal; partes dos intestinos e estômago hemorrágicos; coração e rins alterados de cor e de tamanho e líqüido sangüinolento na cavidade geral (Fig. 2 ). Na histopatologia foi observado no fígado uma acentuadíssima congestão sangüínea, esteatose e sinais de degeneração hidrópica (Fig. 3); no coração, dissociação das fibras musculares (Fig. 4); no baço, congestão sangüínea; nos rins, nefrose tubular e sinais de processos degenerativos de seu parênquima (Fig. 5), e nos intestinos, enterite crônica (Fig. 6). Tais lesões sugerem um quadro tóxico ( BUCK et al., 198l;CLARKE&CLARKE, 1967;SANTOS, 1986). Na ração foi detectada a micotoxina aflatoxina B1 na concentração de 18,17 ng/g (ppb).

DISCUSSÃO

As micotoxinas são metabólitos de fungos. Apresença destas na ração está associada à existência de condições específicas de temperatura, umidade, aeração e características físico-químicas do alimento. As condições que favorecem sua produção por alguns fungos do gêneroAspergillus são umidade acima de 15%, temperatura de 20º a 25º C e aeração adequada. A ausência do fungo na ração não exclui a possibilidade de contaminação, pois este pode ter sido eliminado no processo industrial e a toxina não. A confirmação de sua presença na ração é a análise e a demostração química desta substância (SAA, 1993).

Dentre as micotoxinas, a aflatoxina é a mais comum e a mais tóxica. Tem como principal efeito a inibição da síntese protéica. Provoca necrose das células hepáticas, hemorrágias, e em casos crônicos acúmulo de corpos gordurosos nas células do fígado (BUCK et al., 1981; SAA, 1993; THE MERCK MANUAL, 1973).

A toxina, além de poder ser produzida no alimento, pode estar presente nos constituintes utilizados no preparo da ração, principalmente os de origem vegetal, como soja, milho e outros cereais. Tais matérias primas são constantementes utilizadas no preparo de rações peletizadas, visando, proporcionar um menor custo de produção.

A partir do momento em que se passou a utilizar rações industrializadas, a presença de micotoxinas neste alimento, também começou a ganhar importância na moderna ranicultura.

A presença expontânea de micotoxinas, particularmente a aflatoxina B1 , em alimentos comprometendo e causando morte de anfíbios, não é relatada, até o presente, na literatura. Os relatos encontrados estão sempre voltados ao estudo desta toxina como potente agente teratogênico e oncogênico, administrada artificialmente a girinos, visto que os ovos, embriões e larvas de anfíbios são modelos experimentais de grande uso para tal pesquisa (GABOR et al., 1981). A administração desta toxina para estes animais é feita pela água, produzidas em meios próprios e especiais (BERGER et al., 1972; BOUTIBONES & JACQUET, 1972), diferente desta notificação onde a micotoxicose se manifestou por via alimentar em animais já metamorfoseados.

Quase não existem sinais clínicos patognomónicos de intoxicação. O diagnóstico toxicológico está baseado no histórico do caso, exames laboratóriais, interpretação dos resultados e as circustâncias associadas ao problema (BUCK et al., 1981).

Os sinais clínicos observados como a apatia, inapetência, ataxia, redução do grau de crescimento ou até mesmo a sua parada completa de desenvolvimento são indicações de que algo está comprometendo os animais, entre outros processos patológicos, como uma intoxicação, até mesmo a presença provável de micotoxina no alimento (BUCK et al., 1981). A associação aos quadros de lesões anatómo-histopatológicas, como degeneração gordurosa e hidrópica do fígado, com vacuolização; degeneração dos rins; lesões nos músculos cardiacos; enterite e hemorrágias, levam à indicação, quase que com certeza, de uma ação tóxica por micotoxina (BUCK et al., 1981; GABOR et al., 1981; THE MERCK MANUAL, 1973). O diagnóstico se baseou no histórico do surto, nas observações de necrópsias, nas lesões hepáticas características, além do sucesso de se isolar a toxina no exame laboratórial a partir do alimento (SAA, 1993).

Neste caso relatado, tais sinais, juntamente com as lesões e toxina, foram vistos, observados e isolados, confirmando a suspeita inicial de aflatoxina na ração, como a causa de mortalidade destas rãs-touro.

A provável causa da presença da micotoxina no alimento pode ter sido conseqüência do fato de que esta ração era mantida, em sua embalagem aberta, dentro do próprio recinto de engorda, visando facilitar o trabalho de alimentar os animais. Estes recintos têm, normalmente, a temperatura e umidade mais elevada, favorecendo a proliferação do fungo e a produção da aflatoxina.

Vários fatores podem alterar a resposta dos animais frente aos tóxicos, como fisiologia, ambiente, água, dieta, alojamento, manejo e sanidade (BUCK et al., 1981), ficando a dúvida quanto à quantidade de toxina encontrada na amostra de ração e sua ação tóxica sobre os animais com este valor. Esta é uma situação totalmente diferente das condições experimentais onde valores tóxicos, menores dos encontrados, foram estabelecidos para larvas e girinos de anfíbios (BOUTIBONNES & JACQUET, 1972).

Esta ocorrência reforça a idéia da importância do exame laboratorial e do diagnóstico diferencial em processos patológicos, e quase sempre o são, com alta taxa de mortalidade que acomete a rã-touro.

Os cuidados sanitários são importantes para a saúde dos animais, principalmente no caso de animais confinados. O controle da alimentação, principalmente com o uso de rações industrializadas, são práticas que nunca devem ser esquecidas (BALDASSi et al.,1995).

Até o presente, este é o primeiro caso de ocorrência de micotoxicose transmitida por alimento acometendo rãs criadas comercialmente. Devido à atual prática de se alimentar as rãs com rações comerciais, prática por sinal, saudável, que veio para ficar, pois fac:lita o manejo alimentar, evitando outras situações de perdas de animais (BALDASSi et al., 1995), permanece o risco potencial de novos casos semelhantes. Por isso deve-se somar ao manejo alimentar, procedimentos severos de manejo sanitário nas criações intensivas, referente ao controle da qualidade das rações. Cuidados voltados à conservação da ração, como o armazenamento em locais próprios, secos, ventilados e protegidos, são fundamentais para evitar novas ocorrências.

Estas medidas visam evitar as sérias perdas decorrentes, contribuindo também para o desenvolvimento da atual ranicultura, juntamente com o aprimoramento técnico e sanitário das rações peletizadas industriais.

Fig. 1
Espécimes acometidos pelo processo de micotoxicose. Nota-se grande desproporcionalidade de tamanho em animais de idades iguais.

Fig. 2
Lesões internas. Nota-se alterações de cor e volume no fígado e coração. Intestinos com áreas hemorrágicas e presença de invaginação iI1testinal junto ao estômago.

Fig. 3
C-orte histológico de fígado. Congestão sangüínea acentuada e presença de degeneração hidrópica celular e degeneração gordurosa de pequeno tamanho. Nota-se a vacuolização celular e degeneração nuclear (cariólise e cariorexis). Coloração pela hematmcili11a-eosi_na. Aumentos_de 25_2( 2: 1 (esquerdl) e aumento de 25 x 4:1 (direita).

Fig. 4
Corte histológico de rim. Denota-se uma ligeira congestão sangüínea e a cariólise (destruição celular> ausência nos túbulos renais), com ausência de núcleos celulares. Coloração pela hematoxilina-eosina. Aumentos de 25 x 2:1(esquerda) e 25 x 4:1(direita).

Fig. 5
Corte histológico de coração. Presença de depósitos hemorrágicos intersticiais no tecido cardíaco. Coloração pela hematoxilina-eosina. Aumentos de 25 x 2:1 (esquerda) e 25 x 4:1 (direita).

Fig. 6
Corte histológico de intestino. Presença de sinais de enterite crônica (linfocitária). Coloração pela hematoxilina-eosina. Aumento de 25 x 2:1.

  • 1
    Artigo decorrente dos trabalhos: "Lesões anatomo-histo-patológicas causadas por intoxicação em rãs-touro (Rana catesbeiana SHAW, 1802)", apresentado na 9ª Reunião Anual do Instituto Biológico, 1996, São Paulo, SP e "Micotoxicose por aflatoxina B1 em rãs-touro (Rana catesbeiana SHAW, 1802). Presença de lesões ê iátomo-histo-patológicas", apresentado no IX ENAR & TECHNOFROG'97, 1997, Santos, SP.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jul-Dec 1997

Histórico

  • Recebido
    07 Out 1997
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