Open-access OBSERVAÇÕES SOBRE A INCIDÊNCIA DE MOSCAS-DAS-FRUTAS (DIPTERA: TEPHRITIDAE) EM FRUTOS DE LARANJA (CITRUS SINENSIS)

OBSERVATION ON THE OCCURRENCE OF THE FRUIT FLIES ON SWEET ORANGE (CITRUS SINENSJS).

RESUMO

A incidência de moscas-das-frutas foi avaliada em frutos da variedade 'Pera' (Citrus sinensis), oriundos de 5 municípios do Estado de São Paulo. As amostras apresentaram índices médios de infestação de 0,59 (O,12 - 1,27) pupa/fruto e 4,28 (O,73 - 7,60) pupas/kg de fruto. Dos exemplares emergidos, 88,9% correspondeu a Anastrepha, 6,2% a Ceratitis capitata (Wied.) e 4,9% a Lonchaeidae. Anastrepha fraterculus (Wied.) foi a única espécie do gênero identificada nas amostras de laranjas. A avaliação de frutos em pomar vizinho à extensa área cafeeira mostrou uma infestação média de 1,27 larva por fruto, variando de 1 a 3 larvas por unidade.

PALAVRAS-CHAVE:
Citros; ecologia; ocorrência; moscas-das-frutas; Tephritidae.

ABSTRACT

Species and incidence level of the fruit flies were identified from sweet orange cv. 'Pera' (Citrus sinensis) of five sites of São Paulo State. Samples showed average infestation índices of 0.59 pupa per fruit and 4.28 pupae per kg. From emerged adults, 88.9% corresponded to Anastrepha, 6.2% to C. capitata and 4.4% to Lonchaeidae. Anastrepha females were identified as A. fraterculus (Wied.). Oranges collected from orchard near extensive coffee plantation showed 1.27 larva per fruit, ranging 1 to 3 larvae.

KEY WORDS:
Citrus; ecology; occurrence; fruit flies; Tephritidae

A produção brasileira de laranja é a maior do mundo e alcançou 374 milhões de caixas (40,8 Kg) em 1993 (MAIA & AMARO, 1994). A distribuição da produção de laranja no Estado de São Paulo (safra 95/96) foi estimada em 75% para industrialização (230 milhões de caixas), 22 a 24% para consumo interno (85 a 100 milhões de caixas) e 1 a 3% para a exportação de frutas frescas (NEVES et al., 1995). Segundo FAGUNDES et al. (1994), a partir de 1989, a cultura da laranja alcançou o 2ª lugar no valor da produção do negócio agrícola paulista, ficando apenas atrás da cana-de-açúcar. O baixo nível de exportação de frutas frescas se deve, entre outros fatores, à imposição de barreiras fitossanitárias pelos países importadores, que exigem garantias contra o risco da introdução de agentes como a bactéria do cancro cítrico (Xanthomonas axonopodis pv. citri) e moscas-dasfrutas (Dip.: Tephritidae).

Os tefritídeos são pragas que causam grandes prejuízos aos produtores, pois atacam o fruto a ser comercializado, destacando-se como as mais importantes pragas quarentenárias em todo o mundo. Os frutos após a punctura, constituem-se em um ótimo meio para o desenvolvimento das larvas (ORLANDO & SAMPAIO, 1973). São prejudiciais à fruticultura brasileira, a mosca-do-mediterrâneo Ceratitis capitata (Wied.) e diversas espécies do gênero Anastrepha Schiner (PUZZI & ORLANDO, 1965; RAGA et al., 1996a).

Segundo HEMPEL (1906), as observações realizadas em 1901 no Estado de São Paulo determinaram que pêssegos, laranjas e nêsperas tinham apreferência hospedeira da mosca-do-mediterrâneo.

As bagas do café apresentam um ótimo meio para o desenvolvimento das larvas de C. capitala (LIMA, 1926; FONSECA & AUTUORI, 1936). RAGA et al. (1996b) obtiveram de sete variedades de café (Coffea spp) plantadas no município de Pindorama (SP), a emergência de 75,6% de C. capitata, 7,4% de Anastrepha spp· e 17,0% de Lonchaeidae. Os prejuízos ocasionados pela C. capitala em pomares de laranja, plantados próximos à cafezais são grandes, pois terminada a safra do café, as moscas que atingem altas populações atacam os pomares vizinhos (MARICONI & IBA, 1955).

O objetivo deste estudo foi avaliar a incidência natural de moscas-das-frutas em frutos de laranja (Citrus sinensis L. Osbeck) em algumas localidades do Estado de São Paulo.

Para proceder levantamento de moscas-das-frutas em laranjas, foram realizadas 6 coletas de laranja doce (clones de 'Pera'), conforme relação apresentada na Tabela 1. As plantas dos quais os frutos foram coletados não haviam recebido pulverização há pelo menos 4 meses, a fim de evitar interferência no grau de infestação.

Em cada coleta, os frutos eram colocados em caixas plásticas abertas e conduzidas diretamente ao laboratório da Seção de Pragas das Plantas Industriais (SPPI), em Campinas. Ao chegarem, as amostras eram contadas, pesadas e acondicionados em cáixas de isopor, contendo areia+ argila, que servia como substrato para pupamento.

Após um período de aproximadam nte doze dias, a areia era peneirada e as pupas obtidas eram contadas e colocadas em placas de Petri, no interior de cubas de vidro (6000 cc). Estas, apresentavam uma abertura superior circular(± 12 cm), fechada com tecido de voal e elástico, com a função de respiro. Ainda no interior de cada cuba havia disponibilidade de dieta (mistura 3:1 de açúcar e levedura) e água, com a finalidade de dar vigor aos adultos emergidos. As cubas foram mantidas em sala com temperatura de 25º ± 2º C e 70 ± 10% UR.

Cerca de 25 dias após a instalação da cuba, esta era colocada em "freezer", por alguns minutos, para a morte dos adultos remanescentes. Em seguida os insetos eram retirados da cuba, contados, classificados e quando possível, identificados. As fêmeas de Anastrepha foram identificadas com base nas chaves descritas por STONE (1942), STEYSKAL (1977) e ZUCCHI (1978).

Como a propriedade de Atibaia, se situava anexa a uma extensa área cafeeira, 200 frutos de laranja 'Pera' foram colhidos ao acaso de 37 árvores adultas, nos dias 7/6 e l/7/94, coincidindo com o período de colheita do café. As laranjas foram colocadas em caixas plásticas e levadas diretamente para o laboratório da SPPI, em Campinas, onde houve pesagem dos frutos. Em seguida, cada fruto foi cuidadosamente aberto para avaliação do número de larvas de moscas-de-frutas.

Na Tabela 1, pode-se verificar os índices de infestação em laranjas e as respectivas moscasdas-frutas observadas. Obtiveram-se índices médios de infestação de 0,58 (O,12 - 1,27) pupa/fruto e 4,28 (0,73 - 7,60) pupas/kg de laranja. Emergiram 144 adultos de Anastrepha (88,9%), contendo 74 fêmeas, todas de A. fraterculus, além de 10 adultos de C. capitala (6,2%) e 8 adultos de Lonchaeidae (4,9%).

ARRIGONI (1984) calculou os seguintes valores médios (pupas/fruto) de infestações de moscas-das-frutas em variedades cítricas da região de Limeira (SP): 'Baia'(2,25), 'Valência'(0,31), 'Hamlin'(0,95), 'Pêra Natal' (0,48), 'Pêra do Rio' (0,52) e 'Baianinha' (1,28). O autor obteve dessas variedades apenas a emergência de lonqueídeos. MALAVASI & MORGANTE (1980) relataram que Silba spp (Lonchaeidae) ocorreram em maior frequência em citros do que em outras fruteiras estudadas.

Não houve emergência de parasitóides das pupas de moscas-das-frutas obtidas no presente trabalho, demonstrando que as laranjas provocam dificuldades para a ação dos agentes do parasitismo, quando comparada a outros hospedeiros. Em frutos de café coletados no município de Pindorama (SP), RAGA et al. (1996b) identificaram os seguintes parasitóides de moscas-dasfrutas: Doryctobracon areolatus (Szépligeti), Asobara anastrephae (Muesbeck) e Eucoilidae.

MALAVASI & MORGANTE (1980) determmaram para Citrus spp um índice de infestação médio de 1,32 larva de moscas-dasfrutas/fruto, estando atacadas cerca de 46% das amostras coletadas. Embora, do ponto de vista de dinâmica populacional, esses autores tenham considerado espécies cítricas como hospedeiras secundárias de moscas-das-frutas, é importante enfatizar que essas fruteiras não toleram os mais baixos valores de larva por fruto.

Na 1ª e 2ª coleta de laranjas ('Pera'), ambas realizadas em Atibaia (7/6 e 1/7/94), em área próxima a um cafezal, houve respectivamente 51% e 37% de frutos infestados, apresentando uma média de 1,21 e 1,36 larva/fruto atacado (variação de 1 a 3 por fruto). O levantamento indicou um índice de infestação de 5,64 e 4,01 larvas/kg de fruta, e. ainda 0,61 e 0,49 larva/fruto, respectivamente na 1ª e 2ª amostragem (Tabela 2).

Dos frutos atacados na 1ª e 2ª avaliação (Tabela 2), 78,4% e 64,4% apresentaram 1 larva, sendo que dos 175 frutos infestados, apenas 1 continha 3 larvas. Em média, houve 43,2% de frutos atacados, o que significa uma alta incidência de moscas-das-frutas, já que a infestação em laranjas causa apodrecimento e queda dos fruto.

BRESSAN & TELES (1991) calcularam os índices de infestação de Citrus spp em Ribeirão Preto, em 1,0 pupa/fruto e 20,1 pupas/kg de fruto, e ainda, identificaram como infestantes naquela região, A. obliqua (61,8%) e C. capitata (38,2%).

As espécies de moscas-das-frutas encontradas no presente trabalho, em parte ou totalmente, concordam com vários trabalhos de levantamento, por meio de frascos caça-moscas ou diretamente em frutos cítricos, conduzidos no Brasil (SOUZA et al.,1975; SUPLICY FILHO et al.,1978; MALAVASi et al., 1980; NASCIMENTO & ZUCCHI, 1981; FERNANDES, 1987; CALZA et al., 1988; BRESSAN & TELES, 1991; RAGA et al., 1996a) e no exterior (ROSILLO & PORTILLO, 1971; CUCULIZA & TORRES, 1975; LIQUIDO et al., 1990).

Segundo MALAVASI & BARROS (1988), A. fraterculus coloca 1 ovo por punctura e logo em seguida, efetua com o ovipositor um movimento de arrasto sobre o fruto, liberando um feromônio de marcação. Este fato, pode explicar o número de larvas por fruto atacado encontrado em Atibaia, SP.

Tabela 2
Valores de índices de infestação de moscas-das-frutas em laranja 'Pera' (C. sinensis). Atibaia, SP, jun-jul/94.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jul-Dec 1997

Histórico

  • Recebido
    07 Ago 1997
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