Open-access EMERGÊNCIA DEBEPHRATELLOIDES SP. (HYMENOPTERA: EURYTOMIDAE) DE SEMENTES DEXYLOPIA AROMATICA (LAM.) MART. (ANNONACEAE) COLETADAS EM FEZES DEDACNIS CAYANA (AVES: COEREBIDAE)

EMMERGENCE OF BEPHRATELLOIDESSP. (HYMENOPTERA: EURYTOMIDAE) FROM SEEDS COLLECTED IN DREGS OF XYLOPIA AROMATICA (ANNONACEAE)

RESUMO

É relatada, para a região sudeste do Brasil, a emergência de duas fêmeas de Bephratelloides sp. (Hymenoptera: Eurytomidae) obtidas a partir de fezes de Dacnis cayana (Aves: Coerebidae) que continham sementes de Xylopia aromatica (Lam.) Mart. (Annonaceae). Os exemplares de Bephratelloides sp. obtidos apresentavam aparência normal, apesar da passagem das sementes que os continham pelo aparelho digestivo da ave. É sugerido que D. cayana (Aves: Coerebidae) possa atuar como vetor, aumentando o fluxo gênico entre as populações dessa espécie de Bephratelloides.

PALAVRAS-CHAVE:
Chalcidoidea; Eurytomidae; Bephratelloides; Xylopia aromatica; Dacnis cayana, aves.

ABSTRACT

The emmergence of two adult females of Bephratelloides was recorded from dregs of D. cayana (Aves: Coerebidae) containing seeds, in southeastern Brazil. Despite the passage of the seeds through the digestive tract of the bird, the exemplars obtained was normal in appearence. lt is sugested that D. cayana can act increasing the genetic flow between the populations of this species of Bephratelloides.

KEY WORDS:
Chalcidoidea; Eurytomidae; Bephratelloides; Xylopia aromatica; Dacnis cayana, birds.

As anonáceas constituem uma grande família de plantas, com aproximadamente 2300 espécies distribuídas em 130 gêneros, em todas as regiões tropicais do globo. Na região Neotropical ocorrem aproximadamente 740 espécies distribuídas em 39 gêneros e, para o Brasil, são citados 26 gêneros, dos quais sete têm distribuição exclusiva para o território brasileiro (MELLO-SILVA com. pess., 1996). Nessa família ocorre um marcado endemismo de quase todos os seus gêneros. Poucos deles, dentre os quaisXylopia, apresentam distribuição pantropical (ZUILEM, 1996).

No Brasil ocorrem 14 espécies de Xylopia (MELLO-SILVA com. pess., 1996). X. aromatica é uma árvore típica e freqüente de vários tipos de savanas da região Neotropical, principalmente no cerrado, podendo penetrar em regiões de matas ciliares, com ocorrência registrada desde o sul do Brasil até a ilha de Cuba (MORAWETZ, 1984). É uma árvore de 3 a 10 m de altura, com ramos horizontais algo pendentes e flores e frutos ocorrendo na estação chuvosa (POT & POT, 1994). Seus frutos são monocarpos de 3,5 a 6 cm de comprimento por 1 a 1,5 cm de diâmetro; de coloração verde clara. Quando maduros, os frutos apresentam uma deiscência longitudinal, expondo as sementes (de três a nove por fruto) que são recobertas por um arilo de coloração cinzenta.

CINTRA (1987) registrou 15 espécies de aves, das quais 12 residentes e três migratórias, alimentando-se de sementes de Xilopia sp. em uma área de ecotono mata-cerrado na região Amazônica. Oitenta e seis por cento das sementes serviram de alimento para cinco espécies de aves, dentre as quais D. cayana, que foi responsável por 16,5% das remoções.

MOTTA-JUNIOR (1991) observou, na região do Distrito Federal, o consumo de arilóides de X. aromatica por 11 espécies de aves pertencentes a seis famílias. Dentre essas espécies destacaram-se nessa atividade Phyllomyias fasciatus (Tiranidae) e D. cayana, responsáveis por 35,21% e 39,44%, respectivamente, das visitas com consumo de frutos.

O gênero Bephratelloides é restrito à região Neotropical, exceto nos casos de introduções feitas pelo homem, como as ocorridas na Flórida (BRUNER & ACUNA, 1923) e no Havaí (HEU, 1988). Todas as espécies desse gênero, em seu estágio larval, alimentam-se do endosperma de sementes de Annonaceae (GRISSEL & SHAUFF, 1990).

Em 27 de setembro de 1995 foi observado o comportamento de alimentação de dois exemplares de D. cayana em arilóides de X. aromatica, em uma área de cerrado em recomposição após ação antrópica, no município de São Simão (SP). Um dos exemplares observados defecou após se alimentar em várias árvores.

Suas fezes foram coletadas em tubo plástico elevadas ao laboratório, onde as sementes de X. aromatica foram separadas, lavadas em água corrente, secas em papel toalha e acondicionadas em placas de Petri forradas com papel filtro. Dois dias após, observou-se a emergência de duas fêmeas adultas de Bephratelloides sp.

Segundo observações do autor, os adultos de Bephratelloides sp. geralmente emergem dos frutos de X. aromatica pouco antes de sua deiscência. Segundo MOTTA-JUNIOR (com. pess., 1996), não há registro do consumo de sementes de X. aromatica por D. cayana antes da deiscência dos frutos. A emergência de exemplares adultos deBephratelloides sp. a partir de sementes obtidas de fezes de D. cayana levanta duas hipóteses: 1) alguns indivíduos de Bephratelloides sp. podem ter seu desenvolvimento retardado por fatores ainda não conhecidos, emergindo das sementes de X. aromatica após a deiscência dos frutos ou, 2) que D. cayana possa ter se alimentado de frutos ainda não deiscentes que tenham sido abertos por outros pássaros, como psitacideos que predam essas sementes (obs. pess.). A predação de sementes de X. aromatica por pscitacídeos locais pode ser corroborada pelas observações de COATES-ESTRADA & ESTRADA (1988), que relatam a frugivoria e dispersão de sementes de Cymbopetalum baillonii (Annonaceae) por Amazona autumnalis (Aves: Pscitacidae), no México. Os frutos de C. baillonii são bastante semelhantes, em sua forma e tamanho, àqueles de X. aromatica.

Pode-se supor, caso a emergência de Bephratelloides sp. de fezes de D. cayana seja de ocorrência freqüente, que essa espécie de ave possa participar, como vetor, do aumento do fluxo gênico entre as populações de Bephratelloides sp. que se desenvolvem em sementes de X. aromatica, já que esses insetos parecem ser dotados de uma pequena capacidade de se dispersar rapidamente a longas distâncias.

AGRADECIMENTO

Agradeço ao Dr. José Carlos Motta-Junior pelo auxílio na identificação de D. cayana e pelas sugestões e leitura crítica dos manuscritos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • BRUNER, S. C. & ACUNA, J. Sobre la biologia de Bephrata cubensis, Ashm., el inseto perforador de las frutas anonaceas. R. Agric., Comércio y Trabajo v.5, n.7, p.21-30, 1923.
  • CINTRA, R. Taxa de remoção de sementes de Xylopia sp (Annonaceae) por aves em uma área de ecotono mata-cerrado na amazônia. In: XIV CONGRESSO BRASILEIRO DE ZOOLOGIA, 1987, Juiz de Fora, MG. Resumos. p. 247.
  • COATES-ESTRADA, R & ESTRADA, A. Frugivory and seed dipersal in Cymbopetalum baillonii (Annonaceae) at los Tuxlas, Mexico. J. Trop. Ecol., v.4, p. 157-172. 1988.
  • GRISSEL, E. E. & SHAUFF, M. A. A synopsis of the seed-feeding genus Bephratelloides (Chalcidoidea: Eurytomidae). Proc. Ent. Soe. Wash., v.92, p.177-87, 1990.
  • HEU, R. Bephratelloides (= Bephrata) cubensis. Proc. Hawaii. Ent. Soe., v.28, p.4, 1988.
  • MORAWETZ, W. Kariological races and ecology of the Brazilian Duguetiafu, furacea as compared with Xilopia aromatica (Annonaceae ). Flora v.175, p.195-209, 1984.
  • MOTTA-JUNIOR, J. C. A exploração de frutos como alimento por aves de mata ciliar numa região do Distrito Federal. Rio Claro, 1991. 121p. [Dissertação (Mestrado) - Universidade Estadual Paulista - UNESP].
  • POT, A: & POT, V. J. Plantas do Pantanal. Corumbá. Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, 1994. p.37.
  • ZUILEM, C. M. van. Patternsand affinities in Duguetiaalliance (Annonaceae): molecular and morfological studies. Ultrech, 1996. 133p. [Tese (Doutorado) - Ultrech University Departament of Plant Ecology and Evolutionary Biology].

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jul-Dec 1997

Histórico

  • Recebido
    03 Abr 1997
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