Open-access ISOLAMENTO DO VÍRUS RÁBICO EM MORCEGO INSETÍVORO, MYOT/S NIGRICANS, NO MUNICÍPIO DE MAUÁ, SÃO PAULO, EM 1997*

ISOLATION OF RABIES VIRUS IN AN INSECTIVOROUS BAT MYOTIS NIGRICANS, IN MAUA, SP, BRAZIL

RESUMO

O vírus rábico foi isolado de um morcego insetívoro, Myotis nigricans, capturado em bairro próximo à área de mananciais da represa Billings e ao parque ecológico no município de Mauá, São Paulo, em julho de 1997. A pesquisa do antígeno rábico no tecido cerebral do morcego apresentou resultado positivo pela reação de imunofluorescência direta e pela prova de inoculação em camundongos. O município não apresentava casos de raiva animal desde 1988, sendo este o primeiro relato da presença do vírus rábico em morcego insetívoro em Mauá.

PALAVRAS-CHAVE:
Vírus rábico; isolamento; quirópteros; morcego insetívoro; saúde pública.

ABSTRACTS

Rabies virus was isolated from an insectivorous bat, Myotis nigricans, trapped in Maua, São Paulo, Brazil, in a district near a reservoir of water supplies and an ecological park. Fluorescent antibodies against rabies virus were detected in cerebral tissue and the viral isolation was made after the inoculation of cerebral tissue suspension in mice. There was not any animal rabies since 1988, and this is the first isolation of rabies virus in an insectivorous bat in Maua.

KEY WORDS:
Rabies virus; isolation; chiroptera; insectivorous bat; public health.

A raiva dos morcegos é conhecida desde os trabalhos pioneiros de PAWAN (1936), que descreveu a transmissão da raiva paralítica aos bovinos por morcegos hematófagos e o isolamento do vírus rábico em morcegos insetívoros.

No Brasil, os morcegos são considerados como a segunda espécie responsável pela transmissão da raiva humana. SILVA etal. (1996) e SCHNEIDER & SANTOS-BURGOA (1995) descreveram a ocorrência de oito surtos de raiva humana transmitidos por morcegos, na região Amazônica das áreas brasileira e peruana.

Os morcegos não hematófagos podem ser infectados ao compartilharem o mesmo abrigo com morcegos hematófagos transmissores do vírus rábico. Quando infectados, ao serem encontrados vivos, mortos, prostrados ou com comportamento não habitual, em ambientes urbanos (UIEDA et al., 1995), podem transmitir acidentalmente a enfermidade à espécie humana e a outros animais, através do contato direto (MARTORELLi et al., 1996). No Canadá, DAOUST et al. (1996) relataram a ocorrência de raiva em raposas vermelhas cuja cepa provavelmente teria origem em morcegos.

Nos Estados Unidos, KREBS et al. (1996) relataram um aumento de aproximadamente 25% na ocorrência da raiva em morcegos durante o ano de 1995, os 787 casos de morcegos raivosos foram diagnosticados em 47 dos 48 estados americanos; FELLER et al. (1997) ao estudarem a prevalência da raiva em 246 morcegos, no Estado de Michigan, no período de 1981 a 1993, encontraram 15 animais raivosos da espécie Eptesicus fuscus.CHILDS et al. (1994) analisaram 6.810 morcegos no Estado de Nova York, no período de 1988-92, encontraram 308 morcegos raivosos (4,6%) das espécies Eptesicus fuscus e Lasionycterus noctivagans.

Na Inglaterra, WHITBY et al. (1996), analisando os dados obtidos no exame laboratorial de 1.882 morcegos pertencentes a 23 espécies de todo o país, no período compreendido entre janeiro de 1986 a dezembro de 1995, não encontraram animais raivosos. Em junho de 1996, após o término do levantamento, isolaram a variante European Bat Lyssavirus 2 em um morcego da espécie Myotis daubentonii.

A presente notificação tem o objetivo de relatar o primeiro isolamento do vírus rábico no Município de Mauá, Estado de São Paulo, em morcego insetívoro da espécieMyotis nigricans, capturado em julho de 1997.

O Município de Mauá, localizado na Região Metropolitana de São Paulo, tem 67 Km2 , uma população de 315.867 habitantes1, tendo os Municípios de São Paulo, Santo André, Ribeirão Pires e Ferraz de Vasconcelos como limites.

Em 1988, foi criado o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) municipal, cujos objetivos e atribuições são os de desenvolver os Programas de Controle da Raiva através de atividades de captura de animais errantes, campanhas de vacinação contra a raiva de animais de estimação na zona urbana, observação de animais agressores, controle de focos, prevenção da raiva humana e Educação em Saúde. O último caso de raiva humana foi diagnosticado em 1977 e, desde a criação do CCZ, não se registrou qualquer caso de raiva.

No dia 9/7/97, foi capturado um morcego, no bairro de Jardim Guapituba, Mauá, São Paulo, bairro este que engloba regiões de mata, chácaras, parque ecológico com áreas de mananciais da Represa Billings, e faz divisa com o Município de Ribeirão Pires. Um munícipe observou no quintal da sua residência um morcego voando durante o dia, demonstrando sinais de desorientação, chocando-se com as paredes ao ser espantado com um pano e que morreu durante sua captura.

O animal foi encaminhado à Unidade Básica de Saúde Distrital, sendo colocado indevidamente em um frasco contendo álcool comercial por 15 horas. Foi retirado do frasco no dia 10/7/97 e encaminhado ao Centro de Controle de Zoonoses da Prefeitura Municipal de Mauá, onde foi mantido em um "freezer" doméstico, durante 5 dias, sendo enviado ao Instituto Pasteur, no dia 15/7/97.

No Instituto Pasteur foram realizados exames laboratoriais no morcego para diagnóstico da raiva (WHO, 1996), através das provas de irnunofluorescência direta ede inoculação intracerebral em camundongos. Para os testes, foram colhidos o cérebro e as glândulas salivares do morcego.

A pesquisa de antígeno rábico no cérebro do animal foi confirmada na reação de imunofluorescência direta e o isolamento do vírus rábico foi obtido com sucesso na suspensão cerebral inoculada em camundongos, após 18 dias. As glândulas salivares apresentaram resultados negativos, após 30 dias de observação.

Este fato, verificado com a ausência de isolamento do vírus rábico nas glândulas salivares, provavelmente ocorreu em virtude da conservação do animal em um frasco contendo álcool comercial por 15 horas. O álcool promoveu uma perda excessiva de água do tecido cerebral edas glândulas salivares do morcego, dificultando não só o isolamento bem como a reação de imunofluorescência direta.

O animal foi identificado (VIZOTTO & TADDEI, 1973) no Setor de Entomologia, do Centro de Controle de Zoonoses, da Prefeitura Municipal de São Paulo, como uma fêmea adulta, pertencente à farru1ia Vespertilionidae, espécie insetívoraMyotis nigricans. O isolamento do vírus rábico em morcegos não hematófagos confirma a transmissão da raiva entre as diferentes espécies de morcegos.

MARTORELLI et al. (1995) isolaram o vírus rábico em um morcego insetívoro, Myotis nigricans, no Município de Ribeirão Pires, localizado na Região Metropolitana de São Paulo, em 1994. O animal foi capturado em região de mata preservada, próximo a Represa Billings. Nesse município, a raiva não era diagnosticada desde1984.

Em 1995, na área central urbana do Município de Jundiaí, São Paulo, foi capturado um morcego insetívoro identificado comoLasyurus borealis e que apresentou resultado positivo nos exames laboratoriais para diagnóstico da raiva (MARTORELLI et al., 1996). Os autores fizeram considerações sobre a possibilidade de ocorrer acidentes com pessoas e animais envolvendo morcegos raivosos.

O Centro de Controle de Zoonoses, da Prefeitura Municipal de São Paulo, realizou um estudo retrospectivo no diagnóstico laboratorial da raiva em quirópteros (ALMEIDA et al., 1994), foram capturados ou recebidos 289 morcegos, no período de 1988 a 1992. Os exames de laboratório foram positivos para a raiva nas provas de imunofluorescência direta e isolamento do vírus rábico em duas amostras da espécie insetívoraNyctinomops macrotis, provenientes da cidade de São Paulo e capturadas em bairros residenciais, entre 1988 a 1990.

No Instituto Pasteur, PASSOS et al. (1996) realizaram um estudo sobre o diagnóstico laboratorial da raiva, no período de 1985 a 1995, constatando que os cães representavam o maior número de amostras examinadas, seguidos dos gatos, morcegos e outras espécies. Examinaram 416 morcegos provenientes da capital e do interior do Estado de São Paulo, sendo 6 morcegos positivos para a raiva, 3 hematófagos e 3 não hematófagos. Os morcegos raivosos eram provenientes do interior do Estado.

Na epidemia de raiva que atingiu a cidade de Ribeirão Preto, São Paulo, em 1995, PASSOS et al. (1996) examinaram 924 amostras de tecido nervoso de várias espécies animais, incluindo as provenientes de seres humanos. O índice de positividade alcançou o valor de 5,95%. A raiva foi diagnosticada em 49 (5,3%) cães, 3 gatos (0,3%), 1 bovino (O, 1 %), 1 morcego (O,1 %) e 1 humano (O,1 %). Constataram, também, que os cães representavam o maior número de amostras examinadas, seguidos dos gatos, morcegos e outras espécies. Nas 38 amostras de morcegos analisadas, encontraram um resultado positivo para raiva, em morcego frugívoro identificado comoArtibeus lituratus.

No Instituto Pasteur, CARRIERI et al. (1996), realizaram o diagnóstico laboratorial da raiva em 45 amostras de quirópteros, provenientes de municípios do Estado de São Paulo, no período de junho de 1995 a junho de 1996. As espécies não hematófagas corresponderam a 82,2% das amostras analisadas, como está demonstrado na literatura. A raiva foi diagnosticada somente em uma amostra de morcego identificado como frugívoro, da espécie Artibeus lituratus.

O isolamento do vírus rábico em morcego não hematófago, Myotis nigricans, capturado próximo à Represa Billings, demonstra a possibilidade da raiva animal ter como reservatório natural, morcegos não hematófagos, sendo este o segundo caso de raiva em morcego insetívoro ocorrido naquela região em 1997.

Embora os locais onde os animais foram capturados sejam distantes entre si e, ainda, encontrarmos várias áreas da represa com uma vegetação de mata intacta, há necessidade de verificar apresença do vírus rábico em populações animais da região, realizando capturas de morcegos e outras espécies de animais silvestres para identificação dos reservatórios na região.

Ressaltamos, ainda, que, no Município de Ribeirão Pires, limítrofe com o Município de Mauá, em 1994, o vírus rábico foi isolado de um morcego insetívoro da mesma espécie, Myotis nigricans, por MARTORELLI et al. (1995), capturado em região de mata preservada, também próximo à Represa Billings.

O programa de controle da raiva deve ser intensificado, através da vacinação da população animal exposta ao risco de contato com animais raivosos, a fim de diminuir a população de suscetíveis, além da captura e do sacrifício de animais errantes.

A população humana deve ser informada sobre a transmissão da raiva, suas formas de prevenção e os cuidados, especialmente com os morcegos, bem como, ser orientada a procurar os Serviços Ambulatoriais após os acidentes provocados pelo contato direto com esses animais.

Os municípios circunvizinhos à Represa Billings, com suas áreas de mata natural e parques ecológicos, devem unir esforços, realizando estudos sobre adisseminação do vírus rábico nas populações animais, o papel desempenhado pelos morcegos e, possivelmente, outras espécies de animais silvestres que se constituam em reservatórios naturais para a manutenção da circulação do vírus. Os Serviços de Controle de Zoonoses municipais devem preservar ou incrementar o desenvolvimento das ações para o controle da raiva, evitando, assim, a ocorrência de uma epidemia de rai·,a animal e possíveis casos humanos.

  • *
    Trabalho apresentado no 8th Annual Rabies in the Americas Conference, Kingston, Ontario, Canada, no período de 2 a 6 de novembro de 1997.
  • 1
    Censo Populacional do IBGE/1996. Dados não publicados.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jul-Dec 1997

Histórico

  • Recebido
    21 Ago 1997
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