RESUMO
O desenvolvimento de uma postura, com 260 ovos, da borboleta do girassol (Chlosyne lacinia saundersii Doubl. & Hew.) foi investigado por um período de 13 dias, com base no comportamento de consumo foliar e deslocamento das lagartas na planta hospedeira. A planta atacada foi completamente desfolhada durante o período verificando-se que o consumo aumentou exponencialmente com a idade das lagartas, elevando-se consideravelmente após o sexto dia de idade. Dez dias após a eclosão, algumas lagartas abandonaram a planta passando a predar 23 plantas de girassol, folhas de picão preto (Bidens pilosa L.), picão branco (Galinsoga parviflora Cav.) e quiabo (Albelmoschus esculentus L.). O tamanho máximo alcançado pelas lagartas, antes de entrar na fase de pupa, foi de 2,77 cm.
PALAVRAS-CHAVE:
Chlosyne lacinia saundersii, lagarta do girassol; desenvolvimento larval; consumo foliar; deslocamento.
ABSTRACT
The development of 260 eggs laid by Chlosyne lacinia saundersii Doubl. & Hew. on a sunflower plant (Helianthus annuus L.) was observed. Larvae were daily evaluated for thirteen days, in the moming and in the aftemoon, in order to obtain data about their movement, growing and leaf consumption. The attacked plant was completely defoliated along the study, and leaf consumption exponentially increased with larvae age, considerably increasing after the sixth day after eclosion. Larvae abandoned the host plant in the tenth day of development. Some pupated while others attacked other 23 sunflower plants or Bidens pilosaL., Galinsoga parviflora Cav. andAlbelmoschus esculentus L. leaves. The maximum length reached by the larvae was 2.77 cm.
KEY WORDS:
Chlosyne lacinia saundersii, sunflower larvae; larval development; leaf consumption; vagility.
O girassol (Helianthus annuus L.) constitui uma importante cultura devido à produção de óleos comestíveis de boa qualidade, bem como à produção de alimentos para animais.
De maneira semelhante às outras culturas, o girassol não está livre de pragas, sendo a lagarta do girassol (Chlosyne lacinia saundersii Doubl. & Hew.) uma espécie que produz danos consideráveis, ocorrendo principalmente nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná (LOURENÇÃO & ÚNGARO, 1983). Esta lagarta pode desfolhar até 100% da planta, o que altera significativamente a respectiva produção (NAKANO et al., 1981), indi1, ando a necessidade de estudos sobre sua biologia e comportamento, para a obtenção de um controle efetivo.
Referências sobre a cultura do girassol, bem como sobre a referida praga, podem ser encontrados em CAMPOS-FARINHA & PINTO (1996), CIVITA (1986), GOBBI & PIRAS (1986), HEISER JR. (1976), LOURENÇÃO & ÚNGARO (1983), MOSCARDI (1986), MOSCARDI & CORSO (1988), NAKANO et al. (1981) e PURSEGLORE (1976).
Em 18 de janeiro de 1994, observou-se emJuma planta de girassol, com 126 cm de altura, uma postura de 260 ovos, de C. lacinia saundersii, na face inferior da quinta folha (Fig. lA). Observações diárias, nos períodos da manhã e da tarde, foram realizadas na planta atacada, registrando-se o consumo foliar e o deslocamento das lagartas, desde sua eclosão até o 13º dia de vida. O consumo foliar foi calculado com base na mensuração do comprimento e largura das folhas do girassol antes de serem predadas pelas lagartas. Assim que as lagartas iniciavam a predação, as folhas eram medidas quatro vezes ao dia, afim de se obter, em centímetros quadrados, a área consumida. Não foram observadas lagartas originárias de outras posturas no local.
A eclosão das lagartas de C. lacinia saundersii ocorreu em 24 de janeiro de 1994, a uma temperatura média de 25,5C e 74% de umidade relativa (Fig. 2). Não foi observado parasitismo ou predação dos ovos.
Na idade de 93 horas, aproximadamente 68 lagartas transpuseram a nervura principal da folha onde a postura foi realizada e passaram para o lado esquerdo da mesma (Fig. 3). As demais lagartas permaneceram agrupadas no local anterior (nº 3, da Fig. 3), próximo ao local da postura.
Às 124 horas da eclosão, a planta estava com 1,87 metros de altura e as lagartas se locomoveram para a folha 2 (Fig. lB), nela permanecendo até a idade de 173 horas; quando a folha estava totalm nte destruída. A área consumida foi de 203 cm2.
Em 31 de janeiro, as lagartas se dividiram em 3 grupos. Cerca de 69 delas se dirigiram para a folha 3 e lá permaneceram até o início do dia 3 de fevereiro, tendo atacado aproximadamente 232 cm2• Setenta e nove lagartas se dirigiram para a folha 5 e lá permaneceram até o início do dia 3 de fevereiro, sendo a área atacada de 196 cm2 • Cerca de 98 lagartas se locomoveram para a folha 4, permanecendo lá até o dia 2 de fevereiro e devorando 211 cm2• Neste dia, elas passaram para a folha 5, juntando-se com as que lá estavam e permanecendo até o início do dia 3 (Fig. lB).
A partir do final da tarde do dia 2 e início do dia 3 de fevereiro, as lagartas se dividiram em alguns grupos e atacaram as folhas: 6 (282 cm2 ) , 7 (324 cm2 ) e 8 (297 cm2 ) , em poucas horas (Fig. lB).
Entre os dias 3 a 5 de fevereiro, o ataque se deu nas folhas: 9 (301 cm2 ) , 10 (370 cm2 ) , 11 (234 cm2 ) , 12 (331 cm2 ) , 13 (378 cm2 ) , 14 (297 cm2 ) , 15 (423 cm2 ) , 16 (315 cm2 ) e 17 (60 cm2 ) . Nesta fase, as nervuras secundárias das folhas eram também comidas (Fig. lB).
No período compreendido entre os dias 5 e 6 de fevereiro, as folhas atacadas foram as seguintes: 18 (315 cm2 ) , 19 (378 cm2 ) , 20 (60 cm2 ) , 21(315 cm2 ), 22 (292 cm2 ) , 23 (175 cm2 ) , 24 (306 cm2 ) e 25 (196 cm2 ) (Fig. lB).
Foram registrados 4 períodos de jejum tendo ocorrido, nestes períodos, mudanças de ínstares larvais (5 no total). O tempo de vida (horas) em cada mudança de ínstar, a área consumida entre as mudanças, o número aproximado de lagartas observadas em cada mudança e o consumo individual na planta inicial foram avaliados (Tabela 1).
Idade (horas) das lagartas do girassol (Chlosyne lacinia saundersii) em cada mudança de estágio, área aproximada (cm2 ) consumida entre as mudanças, número aproximado de lagartas presentes em cada mudança e consumo médio individual (cm2 ) .
Nota-se que o consumo foliar aumentou exponencialmente com a idade das lagartas, elevando-se muito após o 6º dia de desenvolvimento, período no qual as lagartas já haviam atingido o 2º ínstar de desenvolvimento (Fig. 4). Estes dados sugerem que o controle das lagartas não deve ser tardio, devido ao seu rápido crescimento e avanço das lagartas na planta atacada, bem como ao consumo foliar elevado. Desta forma, os produtos recomendados para esta cultura devem ser aplicados quando as lagartas estiverem com um tamanho máximo de 1,5 cm.
Após o 1ܺ dia da eclosão o número de lagartas diminuiu em 71 lagartas, provavelmente vítimas de pássaros e vespas. As vespas predadoras identificadas foram: Polistes versicolor (Olivier), Polybia dimidiata Olivier, Polybia paulista Ihering, Polybia ignobilis Haliday e Protonectarina silveirae (Saussure). Dentre os pássaros, notou-se o ataque do tico-tico (Zonotrichia capensis (Müller)). Foram também observadas 4 espécies de formigas predadoras de pupas (Solenopsis saevissima F. Smith, Crematogaster spl e sp2, Dorymyrmex sp.) presentes na planta. As vespas predadoras foram as mesmas observadas J?OrCAMPOS-FARINHA & PINTO (1996) no período de maio a setembro de 1993, no mesmo local.
Em 6/2 as lagartas abandonaram a planta e algumas passaram a predar 23 plantas de girassol próximas (sempre com desfolhamento inferior a 100%), enquanto que outras entraram em fase de pupa. Observou-se também que algumas lagartas que abandonaram a primeira planta, alimentaram-se de folhas de picão preto (Bidens pilosa L.), picão branco (Galinsoga parviflora Cav.) e quiabo (Albelmoschus esculentus L.). Este fato sugere que estudos devem ser realizados no sentido de se fazer consórcios com plantas atrativas com as plantas de girassol, bem como analisar quais as substâncias atrativas para as lagartas, afim de se obter controles alternativos.
A figura 1C indica o aspecto da planta após o abandono pelas lagartas. A desfolha da planta incidiu na formação do botão floral, acarretando um diâmetro do capítulo muito pequeno (7cm). Observou-se lagartas se alimentando até o dia 09/02. Portanto, nos primeiros 13 dias de vida, as lagartas devastaram por completo uma planta de girassol, consumindo uma área de 6.548 cm2 e nas demais 23 plantas, uma área de 7.053 cm2 , perfazendo um total de aproximadamente 1.3601 cm2 de área consumida.
O comprimento máximo das lagartas medidas neste estudo foi 1,33 vezes maior do que as lagartas de mesma idade observadas por NAKANO et al. (1981) (Tabela 2).
Tamanhos médios das lagartas do girassol (Chlosyne lacinia saundersii) no período entte 2 a 8 de fevereiro de 1994.
Esquema da planta de girassol onde houve a postcra: A) em 25/1/94; B) em 3/2/94 com as folhas numeradas de acordo com a ordem de ataque das lagartas. C) em 7/2/94, após o abandono pelas lagartas.
Médias diárias de temperatura (ºC) e umidade relativa(%) nos períodos compreendidos entre 20/1 e 10/2 de 1994.
Esquema do deslocamento de um grupo de lagartas de Chlosyne lacinia saundersii em uma folha de girassol (Helianthus annuus).
AGRADECIMENTOS
Ao Sr. José Cecílio Toledo, Depto. de Botânica, IB, UNESP, Rio Claro, pela identificação das plantas do jardim, e à Profa. Ora. Vera Letízio Machado, Depto. de Zoologia, IB, UNESP, Rio Claro, pela identificação das vespas predadoras. Ao MsC João Justi Junior pela revisão do manuscrito.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- CAMPOS - FARINHA, A.E. de C.; PINTO, N.P.O. Natural Enemies of Chlosyne lacinia saundersii DOUBL. & HEW. ( Lepidoptera: Nymphalidae) in the State of São Paulo.An. Soc.Entomol. Braril 25,n. 1,p. 165-168, 1996.
- CIVITA, V. Guia Rural Abril. Abril Cultural, p. 326-7, 1986,
- GOBBI, N.; PIRAS, C. Alguns fatores que influenciam a capacidade de acasalamento e oviposição de Chlosyne lacinia saundersii (Doubleday & Hewitson, 1849) (Lepidoptera: Nymphalidae). An. Soc.Entomol. Brasil, supl., P. 29-33, 1986.
- HEISER JR., C.B. Sunflowers - Helianthus ( Compositae - Heliantheae). Evolution of crop plants. N .W. Simmonds ( Ed.). Logman Group, Londres, P. 36-8, 1976.
- LOURENÇÃO, A.L & ÚNGARO, M.R.G. Preferência para alimentação de lagartas de Chlosyne lacinia saundersii DOUBLEDAY & HEWITSON, 1849 em cultivares de girassol. Bragantia, Instituto Agronômico de Campinas, v.42, p. 281-6, 1983.
- MOSCARDI, F. Levantamento dos insetos - pragas do girassol e seus inimigos naturais. Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - EMBRAPA, p. 1-33, 1986.
- MOSCARDI, F.; CORSO, 1. Pragas do girassol no Brasil. Procisur - Diálogo 22. Manejo del Cultivo, Controle de Plagas y Enfermidades del Girassol. In: MOLESTINA, C.J. (Ed.). Programa Cooperativo de investigacion agricola del cano sur. Montevideo, Ur., 1988. p. 35-8.
- NAKANO, O.; SILVEIRA-NETO, S. ZUCCHI, R.A. Entomologia Econômica. Livro Ceres Ltda., 1981, p. 178-83.
- PURSEGLORE, J.W. Tropical crops: Dicotyledons. Longman Group, Londres, 1976, p.69-73.








