Open-access AVALIAÇÃO DO AMADURECIMENTO E DE DOENÇAS FÚNGICAS EM FRUTOS DE FIGO ARMAZENADOS EM DIFERENTES CONDIÇÕES

EVALUATION OF RIPENING AND FUNGAL DISEASES IN STORAGED FIG FRUIT UNDER DIFFERENT CONDITIONS

RESUMO

Armazenou-se 168 frutos de figo procedentes de feira livre e 168 frutos adquiridos diretamente do produtor em três diferentes condições e em grupos de 56 frutos, em temperatura ambiente, câmara B.O.D. a 24º C e geladeira a 7 ºC, para avaliação pós-colheita. Avaliou-se o teor de açúcares totais e pH diáriamente, cujos resultados demonstraram que os frutos procedentes de feira livre apresentaram teores de açúcares totais mais elevados, no terceiro dia de avaliação, do que aqueles mantidos em meio ambiente e em B.O.D., e no sexto dia para os frutos armazenados em geladeira. Após este período os frutos entraram em processo de senescência, apresentando características impróprias para o consumo. O mesmo pode ser observado para os frutos procedentes do produtor, ressaltando que os frutos mantidos em geladeira tiveram o mais elevado valor do teor de açúcares totais no quarto dia de avaliação. Os valores de pH, tanto para os frutos procedentes de feira livre como para os adquiridos do produtor, variaram segundo o amadurecimento, tornando mais alcalino com o avanço da maturação e do tempo de estocagem. Durante o período de armazenamento observou-se o aparecimento de diferentes fungos, tais como: Alternaria sp., Cândida albicans, Cladosporium sp., Fusarium sp., Penicillium sp. e Rhizopus nigricans, fungos com aparecimento típico na pós-colheita, inviabilizando o consumo de vários frutos já no segundo dia de armazenamento, tanto em temperatura ambiente como em câmara B.O.D. a 24 ºC. Na geladeira observou-se o aparecimento de Alternaria sp. e de Penicillium sp. em apenas 5 frutos procedentes do produtor.

PALAVRAS-CHAVE:
Figo; pós-colheita; doenças; fungos; armazenamento; amadurecimento.

ABSTRACT

In arder to evaluate post-harvest behaviour of fig fruit, 168 fruits were storaged coming from street markets and another 168 fruits aquired directly from producers in three different conditions. Bach 56 fruits formed one group to submet at following conditions: environmental room, B.O.D. chamber at 24 ºC and refrigerator at 7 ºC. The evaluation was made daily on the total sugar, pH and development of fungi. The results showed that the fruits proceeding from street markets presented the total sugar content higher on the third day than storaged at environmental roam and B.O.D. chamber and on the sixth day than storaged in domestic refrigerator. After this period the fruits were improper for consumption. Some results were observed in the fruits obtained from producers except higher total sugar observed on the third day. The values of pH in both cases varied according to ripening stage. The development of fungi was observed since the first day of evaluation and on the second day some of the fruits become improper for consumption when storaged at environmental roam and B.O.D. chamber. The fungi observed were typical of postharvest agents such as Alternaria sp., Candida albicans, Cladosporium sp., Fusarium sp., Penicillium sp and Rhizopus nigricans.

KEY WORDS:
Fig; postharvest; diseases; fungi; storage; ripening.

INTRODUÇÃO

Os produtos perecíveis como os frutos, por não se conservarem por longos períodos de tempo, são altamente suscetíveis à perda, podendo esta ser fisiológica, edafo-climática, por condições de armazenamento, manuseio e transporte pós-colheita e, em especial, decorrente de microorganismos causadores de doenças.

O ataque de microorganismos como fungos, bactérias e outros é uma das causas mais sérias de perdas em pós-colheita dos frutos, sendo queos fungos patogênicos são os mais envolvidos na sua deterioração.

O crescimento de fungos conduz a várias alterações que incluem descoloração, podridão, produção de odores desagradáveis e diminuição da qualidade dos frutos. As infecções que ocorrem na colheita ou pós-colheita, causadas por fungos, normalmente são decorrentes de injúria mecânica que ocorrem na colheita e nas operações de manuseio e desenvolvem-se principalmente na região apical dos frutos. As medidas de controle podem ser físicas ou químicas. As físicas incluem o uso de altas e baixas temperaturas reduzindo o crescimento de patógenos e as químicas utilitam-se de produtos químicos que visam inibir o crescimento dos patógenos (CHITARRA & CHITARRA, 1990; INFORME AGROPECUÁRIO, 1997).

Este trabalho buscou caracterizar os principais fungos que ocorrem nos frutos de figo (Ficus carica) em pós-colheita, bem como acompanhar algumas mudanças nas características fisiológicas e indicar as condições ambientais que possam minimizar o aparecimento de doenças.

MATERIAL E MÉTODOS

Utilizou-se frutos de figo adquiridos na feira livre, 17/3/98, e diretamente de produtor, 19/3/98. Tanto os frutos adquiridos na feira livre como no produtor eram procedentes do Município de Louveira, SP.

- Feira livre: foram adquiridas 21 caixas contendo 8 frutos cada uma, destas 7 foram mantidas em meio ambiente, 7 foram armazenadas em estufa B.O.D. com temperatura regulada em 24 ºC e 7 caixas armazenadas em geladeira modelo residencial a 7 ºC. O mesmo procedimento foi adotado com os frutos adquiridos diretamente do produtor.

No decorrer do armazenamento avaliou-se os seguintes parâmetros: tempo de armazenamento, teor de açúcares totais, pH, e aparecimento de doenças fúngicas.

Para a avaliação do teor de açúcares totais e de pH tomou-se uma amostra de 2 frutos de cada tratamento e em cada dia de avaliação objetivando obter uma amostra final suficiente para o preparo da solução a ser avaliada e mais homogênea em relação aos frutos totais de cada caixa. Fez-se, em triplicata, a análise quantitativa de carboidratos utilizando-se o método do Fenol-Sulfúrico (DUBOIS et al., 1956). Amostras de extratos dos frutos (g de peso fresco/mL de Hp destilada) foram diluídas na proporção 1:400. À 0,5mL de extrato diluído em água foram adicionados 0,5mL de fenol 5% e 2,5mL de ácido sulfúrico concentrado, sendo posteriormente homogeneisado em agitador magnético. A absorbância foi medida em espectrofotômetro em 490 nm.

A curva padrão foi realizada com diluições de uma solução mãe de manose 1mg/mL (100mg em lO0mL de água), nas concentrações de apenas água, 20µg, 40µg, 60µg, 80µg e 100µg.

A avaliação do pH foi realizada a partir da amostra preparada como anteriormente citado, através de medidor de pH marca DMPH - 2 Digimed.

Os fungos ocorrentes foram identificados através de microscopia ótica e a avaliação foi feita considerando-se cada fruto individualmente

Para a montagem do experimento utilizou-se delineamento inteiramente casualizado, empregando-se 56 frutos para cada tratamento em relação à origem dos frutos e ao número de repetições.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Analisando a Tabela 1 e a Figura 1 verificou-se que o teor de açúcares totais aumentou gradativamente com o avanço do tempo de armazenamento, caracterizando aumento na maturação dos frutos. Pequenas variações ocorreram entre uma análise e outra devido, provavelmente, à coleta de amostras (2 frutos) realizada aleatoriamente, tanto para os frutos procedentes de feira livre como do prod11tor.

Observou-se que nos trê,s ambientes de armazenamento ocorreu um aumento gradativo no teor de açúcares totais até o 2º dia de análise para os frutos mantidos em meio ambiente e câmara B.O.D. e até o 3° dia de análise para aqueles mantidos em geladeira. Após, ocorreu um decréscimo caracterizando o início do processo de senescência com os frutos, nesta fase, iniciando um processo de murchamento.

Os resultados obtidos com a avaliação do pH estão demonstrados na Tabela 2. Verifica-se que, para todos os ambientes de armazenamento e para as duas procedências dos frutos, ocorreu um ligeiro aumento do pH nos primeiros dias de avaliação, tomando-se mais alcalino à medida que os frutos foram amadurecendo, o que está diretamente relacionado com o aumento do teor de açúcares totais, quando os frutos tomaram-se mais doces e, assim, menos ácidos. As pequenas oscilações observadas nas últimas análises provavelmente estejam relacionadas com o início do processo de senescência dos frutos.

Nas Tabelas 3 e 4 estão caracterizados os resultados obtidos, segundo o aparecimento de doenças fúngicas, para os frutos procedentes defeira livre e produtor. Para os frutos adquiridos de feira livre observou-se que no 3º dia de avaliação todos aqueles armazenados em meio ambiente e B.O.D. estavam contaminados com diferentes fungos e totalmente impróprios para o consumo, fato também constatado através das análises de açúcares totais quando se verificou o início de podridão. Os frutos mantidos em geladeira permaneceram livres do aparecimento de fungos e a redução na quantidade de frutos foi devida à retirada periódica dos mesmos para as avaliações químicas.

Os mesmos resultados foram observados para os frutos procedentes do produtor, salientando que dos 56 frutos mantidos em B.O.D. 30 estavam totalmente contaminados por diferentes fungos e os 26 frutos restantes apresentavam-se murchos e amolecidos, conseqüentemente inviáveis para o consumo.

Nas identificações fúngicas foram encontrados: Alternaria sp., Candida albicans, Cladosporium sp., Fusarium sp., Penicillium sp. e Rhizopus nigricans. Sendo que a maior incidência foi detectada na região apical, enquanto que nas demais regiões verificou-se o aparecimento de doenças fúngicas a partir de ferimentos decorrentes da colheita, manuseio em póscolheita, transporte e comercialização, conforme constatado também por RYALL & LIPTON, 1974. A maioria desses patógenos, responsáveis pela deterioração em pós-colheita do figo, foram também identificados por SALUNKHE & DESAl, 1984.

Salienta-se que a constatação da presença do fungo Candida albicans é extremamente preocupante, uma vez que este fungo, quando ingerido, conduz a distúrbios gastrintestinais e ão extremamente nocivos à saúde humana. Os demais fungos, se consumidos pelo homem, produzem efeitos secundários, deixando o organismo debilitado o que favorece o desenvolvimento de outras doenças.

Fig. 1
Avaliação do teor de açúcares totais em frutos de figo procedentes de feira livre. Datas de avaliação: ano 1998 - mês de março. Resultados expressos em eq. mg. glicose/g de tecido vivo.

Fig. 2
Avaliação do teor de açúcares totais em frutos de figo procedentes de produtor. Datas de avaliações: ano 1998 - mês de março. Resultados expressos em eq mg glicos/g de tecido vivo.

Tabela 1
Avaliação do teor de açúcares totais em frutos de figo procedentes de feira livre e de produtor; 1998. Resultados expressos em eq. mg glicose/g de tecido vivo.
Tabela 2
Avaliação do pH em frutos de figo procedentes de feira livre e de produtor, 1998.
Tabela 3
Avaliação do aparecimento de doenças fúngicas em frutos de figo procedentes de feira livre, considerando o número de frutos armazenados sob diferentes condições de temperatura, 1998.
Tabela 4
Avaliação do aparecimento de doenças fúngicas em frutos de figo procedentes de produtor, considerando o número de frutos armazenados sob diferentes condições de temperatura, 1998.

CONCLUSÕES

- A durabilidade dos frutos mantidos em meio ambiente e B.O.D. é extremamente reduzida, não ultrapassando dois dias após a colheita, nas condições do presente experimento.

- Os frutos mantidos sob refrigeração, em temperatura de geladeira (7 ºC), podem ser consumidos até, no mínimo, 5 dias após a colheita, uma vez que neste período não ocorre o aparecimento de doenças fúngicas e os frutos permanecem com suas características físico-químicas adequadas ao consumo. Este aumento na durabilidade conduz a um prolongamento da comercialização, o que é bastante promissor para o produtor.

-Através da elevada incidência de diferentes fungos nos frutos mantidos em B.O.D. e meio ambiente, conclui-se da necessidade de se fazer tratamento de póscolheita imediatamente após a colheita dos mesmos, objetivando maior durabilidade e a redução dos índices de perdas, bastante elevadas para esta cultura.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • CHITARRA, M. I. F. & CHITARRA, A.B. Póscolheita de frutos e hortaliças: fisiologia e manuseio. Lavras: ESAL/FAEPE, 1990. 320p.
  • DUBOIS, M.; GILLES, K. A.; HAMILTON, J. K.; REBERS, P.A.; SMITH, F. Analytical chemistry, v.28, p.350-356, 1956.
  • INFORME AGROPECUÁRIO. Belo Horizonte, v.18, n.188, 1997.
  • RYALL, A.L. & LIPTON, W.J. Handling transportation and storage fruits and vegetables, fruits and tree nuts. Westport: AVI, 1974. v.2.
  • SALUNKHE, D.K. & DESAI, B.B. Postharvest biotecnology of Jruits. Boca Raton: CRC Press, 1984. v.2. 147p.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Mar 2025
  • Data do Fascículo
    Jan-Jun 1999

Histórico

  • Recebido
    04 Ago 1998
location_on
Instituto Biológico Av. Conselheiro Rodrigues Alves, 1252 - Vila Mariana - São Paulo - SP, 04014-002 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: arquivos@biologico.sp.gov.br
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro