RESUMO
Foi pesquisada a presença de anticorpos para o Vírus da Rinotraqueíte Infecciosa Bovina (HVB-1) em 2447 amostras de soro bovino colhidas de 56 propriedades (34 de exploração leiteira, 21 de corte e 1 de exploração não identificada) que não promoviam vacinação contra essa enfermidade, localizadas nos Estados de Minas Gerais (10 propriedades), Mato Grosso do Sul (10), São Paulo (10), Rio de Janeiro (10), Paraná (6) e Rio Grande do Sul (10). De cada propriedade coletou-se amostras de soro de 35 a 45 vacas e ou novilhas. Anticorpos anti HVB-1 foram pesquisados pelo método de ELISA indireto, utilizando-se o kit "Herd01eck" dos laboratórios IDDEX - Maine - USA. Todas as propriedades apresentaram pelo menos 1 animal sororeator, sendo que 48,2% das propriedades apresentaram de 75% a 100% das amostras positivas para o HVB-1. A ocorrência de animais soro-positivos foi de 1.681 nos 2.447 (68,70%) soros estudados, com variação entre as propriedades de 2,27% a 100%. As porcentagens médias de resultados positivos por Estado foram: Rio Grande do Sul - 45,91 %; Paraná- 67,42%; São Paulo - 68,65%; Minas Gerais - 67,43%, Rio de Janeiro - 76,54% e Mato Grosso do Sul - 86,08%. Não foi possível constatar diferença significativa (p = 0,457) entre a porcentagem de amostras positivas nas propriedades de exploração leiteira ou de corte. Os dados sugerem que a Rinotraqueíte Infecciosa Bovina está amplamente disseminada nos seis Estados brasileiros estudados.
PALAVRAS-CHAVE:
Rinotraqueíte infecciosa bovina; herpesvirus bovino-1 (HVB-1); levantamento sorológico; ELISA indireto; Brazil.
ABSTRACT
A serological survey of BHV-1 was conducted in 2,447 bovine serum samples obtained from 56 farms (34 dairy, 21· beef cattle and one not informed) with history of no vaccination against Infectious Bovine Rhinotracheitis (IBR), located in the states ofMinas Gerais (10 farms), Mato Grosso do Sul (10), São Paulo (10), Rio de Janeiro (10), Paraná (6) and Rio Grande do Sul (10). From each farm, 35 to 45 serum samples were collected from cows or heifers in reproductive age. Anti-BHV-1 antibodies were assayed by the indirect ELISA technique, using the "HerdCheck" kit supplied by IDDEX - Maine - USA. Ali farms (100%) had at least 1 animal positive for BHV-1 antibodies and 48.2% of the farms had 75% or more animais that reacted positively. From the total of 2,447 serum samples tested, 1,681 (68.70%) were positive, with farm-to-farm variation ranging between 2.27% to 100%. The overall mean percentages by state were: Rio Grande do Sul, 45.91%; Paraná, 67.42%; São Paulo, 68.65%; Minas Gerais, 67.43%; Rio de Janeiro, 76.54% and Mato Grosso do Sul, 86.08%. There was no significant difference (p = 0.457) between positive results in farms of dairy or beef cattle. Results obtained in this survey suggest that cattle with BHV-1 antibodies were widely spread in the six states of Brazil studied.
KEY WORDS:
Irifectious bovine rhinotracheitis; bovine herpesvirus-1 (BHV-1); serological survey; indirect ELISA; Brazil.
INTRODUÇÃO
A Rinotraqueíte Infecciosa Bovina (RIB) é causada pelo Herpesvirus Bovino - 1 (HVB-1) e tem ocasionado sensíveis perdas econômicas, não só pelos prejuízos decorrentes de problemas das esferas, reprodutiva, respiratória e nervosa, como também pelas restrições sanitárias entre países (LEMAIRE et al., 1994). O HVB-1, isolado pela primeira vez nos Estados Unidos da América (MADIN et al., 1956), já teve seu isolamento descrito no Brasil (ALICE, 1978; MUELLER et al., 1978; WEIBLEIN et al., 1991; SUAREZ-HEILEN et al.,1993). Levantamentos sorológicos regionais realizados no Brasil têm demonstrado frequências bastante variáveis de animais soro-positivos para o HVB-1: 10,56% de 246 soros (KRUGER et al., 1991); 31,9% de 2341 soros (VIDOR et al., 1995); 33% de 229 soros (WIZIGMANN et al., 1972); 42,18% de 384 soros (MUELLER et al., 1981); 70% de 400 soros (ANUNCIAÇÃO et al., 1989) e 81,75% de 526 soros (RAVAZZOLO et al.,1989). A ampla variação das porcentagens de animais soro-positivos na reação de soroneutralização para o HVB-1 observada nos levantamentos sorológicos já realizados, pode estar associada a fatores envolvidos nos diferentes procedimentos de amostragem. Entre eles estariam o tamanho da amostra, a colheita em rebanhos com problemas reprodutivos e as regiões contempladas nas investigações. LOVATO et al.,(1995), pesquisando anticorpos neutralizantes contra o HVB-1 em 7956 soros colhidos de rebanhos leiteiros do Rio Grande do Sul, sem histórico de problemas reprodutivos, detectaram 18,8% de amostras positivas. No presente trabalho, empregando o teste ELISA indireto, investigou-se a presença de anticorpos contra o HVB-1 em 2447 amostras de soro bovino, colhidas de 56 propriedades selecionadas aleatoriamente a partir de importantes centros de produção pecuária dos Estados de Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul.
MATERIAL E MÉTODOS
Propriedades
Foram selecionadas 56 propriedades com menos de 5.000 animais que, através de questionário aplicado por veterinário, não promoviam vacinações contra a RIB. Tais propriedades estavam localizadas nos Estados de: Minas Gerais (10 propriedades), Mato Grosso do Sul (10), São Paulo (10), Rio de Janeiro (10), Rio Grande do Sul (10) e Paraná (6). Das 56 propriedades, 34 criavam gado de raças leiteiras e 21 de corte. Uma propriedade não informou o tipo de exploração. Em cada Estado a localização das propriedades procurou contemplar as regiões com maior desenvolvimento pecuário.
Amostragem e colheita de soro bovino
O cálculo do tamanho da amostra (THRUSFIELD, 1995) foi realizado empregando-se a seguinte fórmula:
onde:
n = tamanho da amostra
p1 = probabilidade de detectar um animal soro-positivo na amostra
P = prevalência estimada de animais soro-positivos
N = tamanhodapopulação
De cada utna das 56 propriedades estudadas foram colhidas, ao acaso, de 35 a 45 amostras de soro que, após serem enviadas sob refrigeração ao laboratório, foram estocadas a -20ºC até o momento do uso. Admitindo uma prevalência de 18,8% (LOVATO eial., 1995) e considerando que todas as propriedades possuiam menos de 5.000 animais, esta amostragem permite, com uma probabilidade de 99,99%, detectar pelo menos 1 animal soro-positivo na propriedade. A fim de camparar as médias das proporções de amostras positivas nas propriedades de leite ou de corte através do teste t de Student, a nonnalidade das distribuições das proporções de amostras positivas foi previamente comprovada pelo teste de Kolmogorov & Smirnov.
ELISA indireto para a detecção de anticorpos anti-HVB-1
Foi empregado o kit comercial "HerdCheck" dos laboratórios IDDEX - Maine, USA, seguindo suas instruções de uso. Os dados foram interpretados através de "software" fornecido pelo próprio fabricante do kit.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A proporção de 18,8% de soro-positivos encontrada por LOVATO et al. (1995) em·1956 amostras de soro colhidas de rebanho leiteiro do Rio Grande do Sul, foi adotada como estimativa da prevalência para a região estudada no presente trabalho. Esta escolha alicerçou-se no fato de que a amostragem realizada por esses autores, além de recente, contemplou elevado número de soros, não fo_i dirigido para rebanhos portadores de problemas rep odutivos e abrangeu uma ampla região geográfica. A constatação de que 100% (56/56) das propriedades em estudo possuiam pelo menos 1 animal soro-positivo para o HVB-1, difere dos resultados de 26% (13/50) obtidos por KRUGER et al., (1991); 54,5% (371/685) obtidos porLOVATO etal. (1995) e 71,4% (80/112) obtidos por VIDOR et al., (1995). Estas discrepâncias poderiam, entre outras causas, decorrer da metodologia da amostragem, da região estudada e do teste sorológico empregado. A reação de ELISA utilizada neste estudo apresenta maior sensibilidade (CHO & BOHAC, 1985) que a reação de soro-neutralização utilizada pelos autores anterionnente mencionados. Além da elevada sensibilidade da reação de ELISA, a escolha desta técnica, para realizar o presente trabalho, baseouse fundamentalmente na dispensa das trabalhosas e demoradas técnicas de cultivos celulares necessárias na prova de soro-neutralização e na rapidez, reprodutibilidade e praticidade de execução da reação imunoenzimática. Tais características apontam o ELISA como uma técnica ideal para o processamento do elevado número de amostras nonnalmente processado em levantamentos sorológicos (CHO & BOHAC, 1985; WYLER et al., 1989). As características das propriedades e as frequências de animais soro-positivos encontram-se na Tabela 1. Na Figura 1 pode-se observar que 48,2% das propriedades apresentaram mais do que 75% de amostras positivas. Estes resultados somados ao fato de que a porcentagem média de amostras positivas nos diferentes Estados variou de 45,91% no Rio Grande do Sul a 86,08% no Mato Grosso do Sul, sugerem uma elevada disseminação do HVB-1 por toda a região estudada. Do total de 2.447 soros estudados, 1.681 (68,70%) foram positivos para o HVB-1 e a proporção média de soropositivos por Estado foi de: 45,91% (RS); 67,42% (PR); 68,65% (SP); 67,43% MG, 76, 54% (RJ) e 86,08% (MS) (Fig. 2), com variação de propriedade apropriedade de 2,27% a 100%.
As distribuições das proporções de amostras positivas obtidas nas propriedades de leite e de corte estão apresentadas na Figura 3. Após verificar, para cada tipo de exploração, que a distribuição de proporções poderia ser considerada normal (teste de Kolmorov & Smirnov), procedeu-se ao teste de comparação de 2 médias para amostras independentes (teste t de Student). Não houve diferença significante (p= 0,457) entre as proporções médias de amostras positivas observadas nas propriedades de leite ou de corte.
CONCLUSÃO
Considerando que as amostras de soro da presente investigação foram colhidas de propriedades que não promoviam vacinações contra a RIB, os dados obtidos sugerem que esta enfermidade está bastante disseminada nas regiões estudadas. Todavia, novos estudos serão necessários para avaliar o impacto econômico da doença nestas populações, a fim de direcionar programas para seu controle.
Porcentagem de animais positivos por propriedade segundo o tipo de exploração. (1)= limite inferior da distribuição; (2)= 1º quartil; (3)= mediana; (4) =3º quartil; (5)= limite superior da distribuição.
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem a valiosa colaboração da equipe de Médicos Veterinários da PFIZER responsável pelas colheitas a campo: Felipe Vieira Furtado, Arthur Bergo Sestito, José Roberto Baltazar, Pedro Eduardo Longuinho, Carlos Scalon, Alexandre Rosa Gonçalves, Francisco Carlos Miceli, Fernando Reis Pereira, Lineu R. Padovesi, Aristócles Borges da Mata Júnior e Marcos Antonio de A. Maia.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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