RESUMO
Foram realizados exames clínicos e bacteriológicos no aparelho genital de 183 vacas leiteiras com sintomas clínicos de endometrites, em dois períodos, durante e após o puerpério, em 15 propriedades rurais na região de Bauru, Estado de São Paulo. As endometrites de l º grau foram predominantes sobre as demais, para uma freqüência de 63 (55,3%) animais no puerpério e 83 (79,8%) no pós-puerpério (P<0,0009). Os principais microrganismos isolados e identificados como causadores de infecções endometriais foram: Escherichia coli 69 (39,7%), Staphylococcus spp. 30 (l 7,3%), Streptococcus spp. 28 (16,l %) e Corynebacterium spp. 8 (4,6%), apresentando-se tanto em cultura pura como em associação. Em 35 (29,0%) casos de endometrite clínica, as culturas apresentaram-se estéreis. A Escherichia coli foi o microrganismo isolado com maior freqüência em ambos os grupos, sendo 37 (32,4%) no puerpério e 32 (30,8%) no póspuerpério. Houve maior número de casos de isolamento de Streptococcus spp. e Staphylococcus spp. no período pós-puerperal (P=0,0009). O Streptococcus spp. eram mais freqüentes em maior número de casos 22 (20,4%) nas endometrites do primeiro grau e o Corynebacterium spp. 4 (10,3%) nas do segundo grau (P=0,5819).
PALAVRAS-CHAVE:
Endometrites; gado leiteiro; Escherichia coli; Staphylococcus spp.; Streptococcus spp.
ABSTRACT
Clinicai and bacteriological exams were carried out on the genitais of 183 dairy cows with clinicai symptoms of endometritis, in two periods, during and after the puerperium, in 15 rural properties in the area of Bauru, state of São Paulo. The endometritis of first degree was predominant with a frequency of 63 (55.3%) animais in the puerperiurn and 83 (79.8%) in the post-puerperiurn (P<0.0009). The rnain isolated rnicroorganisrns and identified as cause of infections of the endometriurn were: Escherichia coli, 69 (39.7 %), Staphylococcus spp., 30 (17.3%), Streptococcus spp., 28 (16.1 % ), and Corynebacterium spp., 8 (4.6%), corning so rnuch in pure culture as in association. In 35 cases of clinicai endornetritis, the culture carne sterile. Escherichia coli was the rnicroorganisrn isolated with largest frequency in both groups, being 37 (32.4%) in the puerperiurn and 32 (30.8%) in the postpuerperium. There was a large number of cases of isolation of Streptococcus spp. and Staphylococcus spp. in the post-puerperiurn period ( P=0.0009). Streptococcus spp. were frequent in a large number of cases (22, 20.4%) in the endornetritis of degree and Corynebacterium spp. (4, 10.3%) in the one of second degree (P = 0.5819).
KEY WORDS:
Endornetritis; dairy cows; Escherichia coli; Staphylococcus spp.; Streptococcus spp.
INTRODUÇÃO
As infecções genitais têm sido apontadas como uma das principais causas de problemas reprodutivos do rebanho leiteiro bovino, responsáveis pela maioria das infertilidades, temporárias ou permanentes, em fêmeas reprodutoras (Coleman et al., 1985 ).
Ferràira & Ferreira de Sá (1987) relatam a endometrite como uma enfermidade comum que acomete 21,6% das vacas não gestantes. Ocorrem mais freqüentemente no período pós-parto ou no aborto, quando a penetração de agentes causais é facilitada pela dilatação do cérvix, vagina e vulva, ou mesmo quando a microbiota vaginal rompe os mecanismos de defesa orgânica, devido à baixa resistência local.
Além da influência hormonal, nutricional e estresse, lóquios e fluídos presentes no pós-parto constituem um meio de enriquecimento ótimo para o crescimento microbiano (Carvalho et al.,1982; Marques, 1993 ).
O estabelecimento da infecção deve-se principalmente a microrganismos como Staphylococcus spp., Streptococcus spp., Escherichia coii e Corynebacterium spp. (Batista et al.,1971; Decarlis & Moreno, 1974; Neves, 1976; Cordeiro,1988). Como conseqüência ocorre uma reação inflamatória do tecido endometrial do útero da vaca, alterando os seus constituintes e influenciando na fertilidade, impedindo a sobrevivência do óvulo e espermatozóide, que não encontram condições favoráveis de mobilidade, nutrição e nidação (Dawson, 1960; Derivaux,1976).
O objetivo deste trabalho foi estabelecer a freqüência das endometrites nos períodos pullrperais e pós-puerperais e correlacionar sua prevalência com os diversos microrganismos isolados.
MATERIAL E MÉTODOS
Foram examinadas 183 vacas do rebanho leiteiro de 15 propriedades localizadas na 7ª Região Noroeste Administrativa do Estado de São Paulo. De acordo com Grunert (1977) os animais foram divididos em dois grupos: aqueles que se encontravam no período puerperal e os que estavam no pós-puerpério (próximo de 45 dias pós-parto).
Para o reconhecimento das endometrites, realizou-se exame ginecológico utilizando vaginoscópio. A classificação das endometrites baseou-se no caráter da secreção, formato da cérvix e abertura do canal cervical, cor e umidade das mucosas vaginais e cervicais; segundo classificação utilizada por Cordeiro (1988):
Primeiro grau - secreção mucosa aumentada, hiperemia cervical, freqüente prolapso de seu primeiro anel (suave);
Segundo grau - secreção aumentada, turva ou com flocos de pus, hiperemia e prolapso do primeiro anel cervical (moderada);
Terceiro grau - secreção purulenta, hiperemia intensa e prolapso do terceiro anel (severa).
1- Amostragem
Foram coletadas amostras de secreções genitais de bovinos portadores de diversos graus de endometrites e com histórico de problemas reprodutivos. A colheita do material foi feita através de um espéculo tubular metálico, medindo 40x3,5cm, esterilizado, por onde uma zaragatoa adaptada a uma pipeta de inseminação artificial era embebida em secreções dentro do cólon uterino. A seguir o material foi colocado dentro de tubos de ensaio esterilizados, acondicionados em isopor com gelo e remetidos para exames laboratoriais no Laboratório de Bacteriologia Animal do Instituto Biológico.
2 - Isolamento e identificação do agente
Amostras do exudato cérvico-uterino foram semeadas em caldo simples e simultâneamente em placas de Petri contendo meios de ágar sangue e ágar Mac Conkey, incubadas a 37ºC por 24 horas. Após crescimento bacteriano nestes meios, realizou-se a bacterioscopia para caracterização morfológica dos microrganismos isolados, através de esfregaços das diferentes colônias coradas pelo métedtrde Gram. A seguir, estas foram repicadas em caldo simples, para posterior identificação bioquímica.
3 - Análise estatística
Os resultados foram analisados através do uso de teste "Qui-quadrado" para comparação entre proporção de ocorrência dos tipos de endometrites e microrganismos isolados, para as fases puerperais e pós-puerperais.
RESULTADOS
De um total de 183 exames bacterilógicos, registrou-se a presença de um ou mais gêneros de microrganismos em 130 (71,0%) cultura, e uma alta porcentagem 53 (29%) de amostras de culturas estéreis.
Na Tabela 1, encontram-se os diversos tipos de microrganismos obtidos em cultura pura e em associação, isolados e identificados dos "swabs" de secreções cérvico-uterinas. A Escherichia coli foi isolada em maior porcentual e esteve presente em 38 (29,2%) amostras de catarros genitais obtidas em cultura pura e em 31 (23,8 %) dos casos, associada a um ou mais microrganismos. A seguir o Staphylococcus spp. presente em 17 ( 13,1%) das amostras em cultura pura e 13 (10,0 %) em associação. O Streptococccus spp. aparece em terceiro lugar com 9 (6,9%) amostras em cultura pura e em associação 19 (14,6%). Também constatou-se, embora em menor freqüência, diversos outros agentes infecciosos importantes para endometrites como Corynebacterium spp., Klebsiella spp. e leveduras.
Na Figura 1, demostrou-se os resultados de detecção das endometrites e dos grupos de animais, classificados em períodos puerperais e pós puerperais. As endometrites suaves foram predominantes em ambos os estágios, porém no pós puerpério com 83 (79,8%) e no puerpério, menos freqüentes com 63 (55,3%). ns endometrites moderadas e severas foram mais significativas no período puerperal (P<0,0001).
A presença de microrganismos nos dois períodos em estudo é mostrada na figura 2. Verificou-se que a Escherichia coli foi a bactéria mais freqüentemente isolada em ambos os grupos, e o maior número de casos de isolamentos de Streptococcus spp. 20 (19,2%) e Staphylococcus spp. 20 (19,2%) ocorreu no período pós-puerperal (P=0,0009% ).
Como é demonstrado na Figura 3, os animais foram divididos em três grupos de acordo com o tipo de catarro genital (1º, 2º e 3º graus). Verificou-se que o Streptococcus spp. esteve freqüente em maior número de casos 22 (20,4%) nas endometrites de 1º grau e o Corynebacterium spp. 4 (10,3 %) nas de segundo grau, embora não haja estatisticamente diferença significativa (P=0,5819), na amostra estudada.
Relação de microrganismos isolados de secreções cérvico-uterinas de vacas leiteiras portadoras de endometrites.
DISCUSSÃO
Nos animais examinados clinicamente em ambos os períodos, verificou-se uma maior incidência de endometrites suaves com exudatos de aspecto mucoso e presença de estrias de pús, resultados similares aos encontrados por Ferraira & Ferreira de Sá, 1987; Ribeiro et al., 1990.
A presença de culturas estéreis de fêmeas portadoras de catarros genitais foi fato também constatado nos trabalhos de Santos et al. (1971) e de Decarlis & Moreno (1974). Isto não significa que os animais estejam totalmente livres de· infecção bacteriana, devido a possíveis fatores como: a existência de microrganismos mais exigentes aos meios de crescimento utilizados, a persistência de uma inflamação asséptica, antibioticoterapia prolongada, a simples cura bacteriológica ou mesmo a presença de micro-abscessos que mantém os germes encistados.
Os principais microrganismos isolados Escherichia coli, Staphylococcus spp. Streptococcus spp. e Corynebacterium spp., são considerados agentes etiológicos causadores de endometrites (Batista et al.,1971; Shah & Dholakia, 1983; Cordeiro et al., 1989) e os resultados não diferem significativamente, tanto em cultura pura como em associação com outros germes, dos resultados encontrados neste trabalho. A freqüência mais alta de Escherichia coli e outras enterobactérias em ambos os períodos, não surpreendeu. Mas, devido a proximidade com o trato digestivo, tais microrganismos podem ganhar o trato genital e constantemente provocar recontaminação e reinfecção. Ribeiro et al. (1990) relacionam a Escherichia coli e Staphylococcus spp. a lesões endometriais com fibrose e atrofia do epitélio glandular. Os Staphylococcus spp. e Streptococcus spp. isolados em culturas puras e em associação com outros microrganismos, respectivamente, foram mais representativos nas endometrites de primeiro e terceiro graus, principalmente nas endometrites póspuerperais crônicas. Neves (1976) relacionou apresença destes agentes a lesões endometriais.
Observou-se uma microbiota variada e flutuante em ambos os períodos e para os diversos graus de endometrite. O gênero Bacillus, considerado saprófita, em condições de "stress', pode ser patogênico (Decarlis & Moreno,1974). O aparecimento de leveduras é secundário ao tratamento prolongado com antibióticos, quimioterápicos e corticosteróides. Kirkbride et al.(1971) consideram esses microrganismos como importantes agentes etiológicos mesmo em casos de aborto infeccioso em bovinos.
As endometrites do primeiro e segundo grau, apresentaram-se visíveis clinicamente pela presença de exudato na vulva e períneo para a maioria dos bovinos examinados. Já as endometrites do primeiro grau, principalmente as pós-puerperais, foram visíveis somente durante o cio dos animais, pela presença de muco com estrias e flocos de pús, às vezes opaco. A vaginoscopia mostrou-se um excelente método para se diagnosticar as endometrites além de auxiliar no tratamento e na coleta de materiais para exames laboratoriais.
Bactérias isoladas de swabs de secreção cérvico-uterina de endometrites puerperais e pós-puerperais.
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem ao Prof. Dr. Antonio C. Marconi Sttipp, da Faculdade de Odontologia, USP, Campus de Bauru, pelo auxílio nas análises estatísticas.
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