Open-access ANASTREPHA AMITA ZUCCHI (DIP., TEPHRITIDAE): PRIMEIRO REGISTRO HOSPEDEIRO, NÍVEL DE INFESTAÇÃO E PARASITÓIDES ASSOCIADOS 1

ANASTREPHA AMITA ZUCCHI (DIPTERA: TEPHRITIDAE): FIRST HOST RECORD, INFESTATION LEVELS AND ASSOCIATED PARASITOIDS

RESUMO

O presente trabalho teve como objetivo registrar o primeiro hospedeiro de Anastrepha amita Zucchi, com informações da infestação e do parasitismo natural, nas condições do Estado de São Paulo. Os caracteres taxonómicos de A. amita foram discutidos. O estudo foi realizado no período de fevereiro de 1994 a janeiro de 1997 abrangendo cinco municípios. Citharexylum myrianthum Cham. (Verbenaceae ), conhecido popularmente como pombeiro é uma árvore nativa da Floresta Pluvial Atlântica, sendo a primeira espécie hospedeira dessa família associada a uma espécie deAnastrepha. Foram coletados 11.873 frutos (8,99 kg) originando 1.867 pupários de Tephritoidea. Emergiram 1 .026 exemplares de moscas frugívoras representadas por 927 adultos deAnastrepha (443 fêmeas) e 99 adultos de Neosilba spp. (Lonchaeidae). Das fêmeas de Anastrepha, apenas exemplares de A. amita foram identificadas. Os frutos apresentaram uma infestação média de O,16 pupário/fruto e 216 pupários/kg de fruto. Os parasitóides obtidos totalizaram 434 exemplares, compreendendo as famílias Braconidae (98,8%), Figitidae (1,6%) e Diapriidae (1,6%), sendo que Doryctobracon areolatus (Szépligeti) representou 83,4% dos exemplares. O índice de parasitismo geral alcançou 24,6%.

PALAVRAS-CHAVE:
Insecta; mosca-das-frutas; Anastrepha amita; Cithare.:rylum myrianthum; Neosilba; Doryctobracon areolatus.

ABSTRACT

The objective of this paper was to record the first host plant for Anastrepha amita Zucchi, providing information about the fruit-fly infestation and the natural parasitism rate in the State of São Paulo. The taxonomic characters of A. amita were discussed. The study was carried out from February 1994 to January 1997 in five counties. Citharexylum myrianthum Cham. (Verbenaceae) is an Atlantic rain forest native tree and the first host-plant species of this family associated to an Anastrepha species. A total J J ,873 (8.99 kg) fruits were collected, from which 1,867 puparia of Tephritoidea was originated. The 1,026 specimens of frugivorous flies were represented by 927 Anastrepha (443 females) and 99 Neosilba spp. (Lonchaeidae). From ali emerged Anastrepha females, only A. amita were identified. The 434 parasitoids recovered were belonging to Braconidae (98.8%), Figitidae (1.6%) and Diapriidae (1.6%). Doryctobracon areolatus (Szépligeti) represented 83,4% of the specimens. The general parasitism rate reached 24.6%.

KEY WORDS:
Insecta; fruit fly; Anastrepha amita; Citharexylum myrianthum; Neosilba; Doryctobracon areolatus.

INTRODUÇÃO

Estima-se que apenas 50% das espécies de Anastrepha (Dip.: Tephritidae) tenham hospedeiros conhecidos, pois muitas espécies foram descritas de exemplares coletados em frascos caça-moscas (Zucchi, 1988). Anastrepha amitaZucchi, 1979 é um exemplo típico, pois sua descrição foi baseada em duas fêmeas coletadas no município de Cruz das Almas, Bahia (Zucchi, 1979). Outros exemplares de A. amita foram capturados através de frascos caçamoscas, em estudos de dinâmica populacional conduzidos por Orth et al. (1986) em Santa Catarina, Zahler (1990,1991) no Distrito Federal e Veloso ( 1997) em Goiás.

Em 1994, como parte de um projeto de levantamento de hospedeiros e parasitóides de moscas-das-frutas, iniciou-se a coleta de frutos de diversas plantas nativas não exploradas comercialmente, dentre elas, Citharexylum myrianthum Cham. (Verbenaceae), conhecida popularmente como pombeiro. É árvore nativa da Floresta Pluvial Atlântica (Ombrófila Densa), principalmente nas f9rmações Aluvial e Baixo-Montana (Carvalho, 1994), sendo conhecida também por tucaneira, tarumã-branco, jacareúba, baga-de-tucano e pau-de-viola (Reitz et al., 1988; Lorenzi, 1992). É árvore decidual, de 15 a 25 metros de altura, com inflorescências em forma de cachos axilares e fruto tipo drupa, elíptico ede cor avermelhada quando maduro (Reitz et al., 1988). Os frutos de C. myrianthum atraem animais frugívoros, especialmente os macacospregos (Galetti, 1995). No Brasil distribui-se da costa que vai da Bahia ao Rio Grande do Sul (Sanchotene, 1989). Ocorre naturalmente também na Argentina e Paraguai.

Além do registro de hospedeiro, este trabalho teve como objetivo quantificar a infestação de A. amita e determinar o parasitismo natural em C. myrianthum, nas condições do Estado de São Paulo. Também, caracteres taxonôrnicos de A. amita são discutidos, com base na série de exemplares coletados.

MATERIAL E MÉTODOS

Um total de 14 amostras de frutos de pombeiro foi coletado entre 1994 e 1997, em cinco municípios do Estado de São Paulo: Campinas (22º53'; 47º04'; 690m), Cananéia (24º56'; 47º57'; 7m), São Bento do Sapucaí (22º41'; 45º45'; 875m), São Paulo (23º27'; 46º37'; 775m) e Ubatuba (23º27'; 46º37'; 5m). Foram amostrados os frutos na planta e também aqueles recém-caídos ao solo. No laboratório, os frutos foram contados, pesados e acondicionados em caixas de isopor (7.000 cm3 ) contendo areia no fundo, sob temperatura e umidade ambiente.

Aproximadamente 12 dias após cada coleta, os pupários das moscas frugívoras foram separados da areia, contados e dispostos em placas de Petri no interior de gaiolas de vidro de 5.000 cm3 , com água e alimento (3:1 de açúcar e extrato de levedo). Cerca de 15 dias após o início da emergência, avaliou-se o número de adultos de moscas e parasitóides.

A densidade populacional de moscas-das-frutas nos frutos de pombeiro foi baseada em dois índices de infestação: número médio de pupários/fruto e número médio de pupários/kg de fruto. O nível de parasitismo foi calculado através do número de pupários obtidos, baseando-se em Hemández-Ortiz et al. (1994).

A identificação específica de Anastrepha foi realizada através das fêmeas, com base na sua terminália (ápice do acúleo), por intermédio da chave descrita por Zucchi (1978). Os parasitóidesbraconídeos foram identificados com base nos estudos de Leonel Junior (1991 ), enquanto que a identificação dos espécimens de eucoilíneos fundamentou-se em Guimarães (1998).

Exemplares de Anastrepha amita, parasitóides braconídeos e eucoilíneos foram depositados no Laboratório de Entomologia Econômica do Centro Experimental do Instituto Biológico e na coleção do Setor de Entomologia da ESALQ/USP.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Ocorrência e distribuição geográfica

Em todas as coletas realizadas nos cinco municípios paulistas foram constatadas infestações de A. amita (Tabela 1 ). Este é o primeiro e único registro de um hospedeiro para esse tefritídeo. As larvas de A. amita alimentam-se apenas da polpa dos frutos de C. myrianthum, tendo sido observada uma larva por fruto. No final do último ínstar, a larva ocupa grande parte da polpa, tendo consumido grande proporção. O desenvolvimento larval foi constatado somente em frutos maduros de C. myrianthum, que se caracterizam por uma.cor vermelha intensa (Figs. 1 e 2).

Tabela 1
Número de adultos de tefritídeos e lonqueídeos provenientes de Citharexylum myrianthwn coletados em cinco municí- pios do Estado de São Paulo.

De um total de 927 adultos de Anastrepha obtidos de frutos de C. myrianthum, apenas exemplares de A. amita emergiram. A identificação foi baseada em 443 fêmeas (47,8% dos exemplares). Além de A. amita, dos frutos de C. myrianthum, emergiram também 99 exemplares de Neosilba spp. (Dip.: Lonchaeidae). Portanto, C. myrianthum também se caracteriza como hospedeiro de tefritídeos e lonqueídeos, à semelhança do observado para outras espécies de outros frutos hospedeiros (Malavasi et al., 1980; Raga et al., 1996; Raga et al., 1997).

A obtenção de frutos infestados em todas as coletas, indica que a infestação de A. amita coincide com o período de maturação dos frutos de C. myrianthum, que varia de janeiro a março, em função das condições edafo-climáticas do Estado de São Paulo. Anastrepha pallens Coquillett e A. cordata Aldrich aparentemente também são espécies que estão adaptadas à fenologia de suas únicas espécies hospedeiras Bumelia spiniflora A. DC. (Sapotaceae) e Tabernaemontana alba Mill. (Apocynaceae) (Norrbon & Kim, 1988; Hemández-Ortis, 1992). Segundo pesquisa realizada por Zahler (1990) no Distrito Federal, o número de espécimens de A. amita representou 3,4% dos indívíduos do gênero, capturados através de frascos caça-mosca instalados em pomares mistos, com a detecção registrada entre maio e novembro de 1986. No município de Goiânia, A. mnita foi coletada no período de setembro a outubro (Veloso, 1997).

Em razão dessas coletas no Centro-Oeste do Brasil, há indícios de que outras espécies sejam hospedeiras de A. amita, uma vez que C. myrianthum não ocorre na região Centro-Oeste do Brasil. Provavelmente, a mosca esteja estreitamente relacionada aos frutos de plantas verbenáceas, considerando que o C. myrianthum é a primeira espécie hospedeira dessa família associada a uma espécie de Anastrepha.

Anastrepha amita não é encontrada por um período prolongado do ano, levando em consideração a fenologia de C. myrianthum e os levantamentos com frasco caça-moscas. Para esse comportamento, Canal (1997) considerou duas explicações prováveis: migração e diapausa. Contudo, os estudos referentes a esses processos são incipientes nesse grupo de insetos, levando-se em conta que a maior parte das espécies de Anastrepha localiza-se na região tropical e é multivoltina (Aluja, 1994).

Caracterização de Anastrepha amita

Essa espécie descrita por Zucchi (1 979), sumariamente apresenta as seguintes características: espécie pequena de cor amarelada (Fig. 3); asas com as faixas C e S estreitamente ligadas ou não e faixa V pouco nítida no vértice e separada da S (Fig. 4); acúleo (como ovipositor) com 2,0 mm de comprimento com o ápice apresentando leve constrição antes da serra e esta com dentes arredondados e pouco salientes sobre a metade apical (Fig. 5).

Tabela 2
Índices de infestação de moscas frugívoras em Citharexylum myrianthum coletados em cinco municípios do Estado de São Paulo.

Os exemplares descritos por Zucchi (1979) não apresentavam faixas escuras no mediotergito e no subescutelo. No entanto examinando-se uma quantidade maior de exemplares, pôde-se verificar que A. antita apresenta variação intraespecífica com relação às faixas escuras do mediotergito e subescutelo, ou seja, ambos podem ser totalmente amarelados ou ambos podem apresentar faixas escuras laterais.

Níveis de infestação de Tephritoidea

Obteve-se um total de 1.867 pupários de tefritóideos, oriundo de 11.873 frutos de C. myrianthum e resultando nas médias de O,16 (0,02-0,40) pupário/fruto e 216 (33-619) pupários/kg de fruto (Tabela 2). O maior número de pupários/fruto e pupários/kg foi alcançado em Campinas (0,40 e 619, respectivamente), município localizado na região centro-sul do Estado e representado por grande diversidade frutífera e pouca vegetação nativa remanescente. Os menores valores foram obtidos no município de Cananéia (0,02 e 33, respectivamente), região litorânea do extremo sul do Estado. Verificase que os resultados dos índices apresentam uma grande variação de valores para uma mesma espécie hospedeira, que pode ser atribuída, à semelhança do que foi observado por outros autores (Malavasi & Morgante, 1980; Bressan & Teles, 1991) aos seguintes aspectos: ( l) fase de amadurecimento do fruto, (2) época e local de coleta, (3) variação sazonal, (4) diversidade hospedeira e (5) disponibilidade de frutos por um longo período.

Raga et al.{1996) registraram 0,27 pupário/fruto e 270 pupários/kg de fruto de café 'Mundo Novo', em Pindorama, SP, enquanto que Malavasi & Morgante (1980) obtiveram em pitanga um dos maiores índices médios com 0,61 larva/fruto e 243,63 larvas/kg de fruto. Frutos de café (Coffea arabica L.) e pitanga (Eugenia uniflora L.) apresentam pesos semelhantes aos frutos de C. myrianthum quando encontram-se no estágio maduro, embora nos tamanhos sejam ligeiramente superiores, podendo ser duas vezes maior. Considerando a relação entre o tamanho do fruto e o número de pupários/kg de fruto, observa-se que os frutos de C. myrianthum são pequenos e no entanto, apresentam níveis de infestações consideráveis. Geralmente os frutos menores apresentam uma alta relação superfície/volume, o que equivale a uma maior superfície para oviposição e, assim, são mais infestados (Malavasi & Morgante, 1980).

Canal et al. ( 1998), avaliando o nível de infestação de Anastrepha zenildae Zucchi e A. sororcula Zucchi, entre janeiro e abril de 1996, na região norte de Minas Gerais, calcularam em 84,0 e 32,0, os valores máximos de larvas/kg de goiaba, respectivamente.

Nível de parasitismo e espécies de parasitóides

Um total de 434 parasitóides emergiu dos pupários de Tephritoidea (Tabela 3), dos quais 96,8% eram braconídeos, com ma10r freqüência de Doryctobracon areolatus (Szépligeti) (83,4%). Doryctobracon brasiliensis (Szépligeti) e Utetes anastrephae (Viereck) representaram apenas 12,0% e 1,4%, respectivamente. Mais de 94% dos parasitóides coletados por Leonel Junior et al. (1996) na região de Limeira e Piracicaba (SP) foram representados por braconídeos, principalmente por Opiinae (92,2%), com destaque para D. areolatus, que representou 83,5% dos espécimens obtidos. Canal et al. (1994), realizando estudo de parasitismo de moscas-das-frutas no Estado do Amazonas, obtiveram apenas 7,33% de D. areolatus do total de parasitóides coletados em cinco espécies de Anastrepha. Doryctobracon areolatus representou mais de 80% dos parasitóides obtidos deAnastrepha spp. por Aguiar-Menezes & Menezes (1997) em 11 espécies botânicas. Matrsngolo et al. (1998) encontraram D. areolatus e U. anastrephae em pitanga, goiaba, carambola e manga, coletadas no município de Conceição da Almeida, BA, com freqüências médias de 81,4% e O, 7%, respectivamente. Os eucoilíneos (Figitidae) representaram somente 1,6% dos adultos obtidos: Aganaspis pelleranoi (Brethes) (0,9%), Dicerataspis flavipes (Kieffer) (0,5%) e Lopheucoila anastrephae (Rhower) (0,2%).

Tabela 3
Espécies de parasitóides Braconidae, Figitidae e Diapriidae obtidos de larvas de Tephritoidea oriundas de frutos de Citharexylum myrianthum, coletados no Estado de São Paulo.

Fig. 1
Citharexylum myrianthum (pombeiro) em plena frutificação.

Fig. 2
Detalhe dos frutos de Citharexylum myrianthum (pombeiro).

Fig. 3
Fêmeas de Anastrepha amita.

Fig. 4
Detalhe da asa de Anastrepha amita.

Sem dúvida, os frutos de pombeiro infestados por A. amita são excelentes substratos para sobrevivência e multiplicação dos parasitóides, pois alcançaram um índice geral de parasitismo de 24,6% (Tabela 3). De acordo com Hernández Ortis et al. (1994), frutos de tamanho reduzido apresentam maiores níveis de parasitismo. Os frutos de C. myrianthum possuem epicarpo fino e mesocarpo raso, consideradas características favoráveis ao parasitismo por Leonel Junior et al. (1996).

Fig. 5
Detalhe do ápice do acúleo de Anastrepha amita.

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem ao Engº Agrônomo Takanoli Tokunaga (CATI) pelo auxílio técnico no desenvolvimento do trabalho de campo, Biólogo Ms. Jorge Anderson Guimarães pela identificação das espécies de Figitidae e ao Prof. Dr. ManoelA. Uchôa Fernandes pela.identificação de Lonchaeidae.

  • 1
    Este artigo faz parte da Dissertação de Mestrado do primeiro autor.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jul-Dec 1999

Histórico

  • Recebido
    12 Maio 1999
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