Open-access SOROAGLUTINAÇÃO, SÊMEN PLASMA AGLUTINAÇÃO E EXAME ANDROLÓGICO NO DIAGNÓSTICO DA BRUCELOSE EM MACHOS BOVINOS

SEROAGGLUTINATION, SEMEN PLASM AGGLUTINATION AND ANDROLOGIC EXAM IN DIAGNOSIS OF BOVINE BRUCELLOSIS IN BULLS

RESUMO

Avaliou-se a ocorrência de aglutininas anti-Brucella abortus nas provas de soroaglutinação rápida em placa (SAR), antígeno acidificado tamponado (AAT), 2-Mercaptoetanol (2-ME) e sêmen plasma aglutinação (SPA), associados ao exame andrológico no diagnóstico da brucelose em 191 machos bovinos. Dos animais examinados, 58 (30,4%) apresentaram reações positivas na prova de SAR, dos quais 29 (50,0%) com título 25, 21 (36,2%) com título 50 e 08 (13,8%) com título 100. Nenhum dos animais reagiu nas provas do AAT, 2-ME e no SPA. No exame andrológico, 10 animais (5,2%) foram considerados inaptos para reprodução, dos quais, nenhum apresentou reação nos testes sorológicos ou no SPA. Observou-se concordância dos testes AAT e 2-ME com a prova de SPA.

PALAVRAS-CHAVE:
Brucella abortus; machos bovinos; sorodiagnóstico; sêmen plasma aglutinação; exame andrológico.

ABSTRACT

Anti-Brucella abortus agglutinins in plate agglutination, rose bengal plate, mercaptoethanol, semen plasm agglutination tests, and andrologic exams in 191 bulls for the brucelosis diagnosis was evalluated. By means of plate agglutination 58 animals(30.4%) showed positive reactions with 25 UI(29 animals), 50 UI(21 animals) and 100 UI(8 animals) titres. None of tested bulls reacted to rose bengal plate, mercaptoethanol, and semen plasm agglutination tests. In the andrologic exam, 10(5.2%) were considered unusefull to reproduction. Anything reproved bulls react to agglutination tests or semen plasm agglutination. The rose bengal plate and mercaptoethanol agreed with semen plasm agglutination.

KEY WORDS:
Brucella abortus; bulls; bovine; serodiagnosis; semen plasm agglutination; andrologic exam

A brucelose bovina é uma doença infecto-contagiosa de evolução crônica, causada pela Brucella abortus (B. abortus) (NIELSEN & DUNCAN, 1990).

A enfermidade possui distribuição mundial, acarretando nos animais, severos prejuízos de ordem econômica (FAO/WHO, 1986), além de apresentar importância em saúde pública, em virtude da possibilidade de infecção do homem (ACHA, 1977).

Na espécie bovina, a sintomatologia da enfermidade está principalmente relacionada à esfera reprodutiva. Nas fêmeas a brucelose caracteriza-se por aborto, metrite e retenção de placenta (VASCONCELLOS et al., 1987).

Nos machos bovinos a patogenicidade do agente está associada à lesão testícular e das glândulas acessórias (HAFEZ, 1995), manifestada por quadros de orquite, epididimite e vesiculite (RADOSTITS et al., 2000), levando freqüentemente os animais infectados a subfertilidade e/ou infertilidade (NICOLETTI, 1986).

A infecção pelo gênero Brucella, tanto em machos como em fêmeas bovinas, induz resposta imune do tipo celular e humoral. A resposta humoral frente à infecção natural pelo agente, caracteriza-se pela elevação quase simultânea das concentrações de imunoglobulinas (Ig) das classes IgM e IgG. Nestes animais, as Ig da classe IgM declinam com tendência ao desaparecimento algumas semanas após a infecção, ao contrário das Ig da classe IgG, que se estabelecem e persistem nos animais cronicamente infectados (SUTHERLAND, 1980).

O isolamento de B. abortus é considerado o método mais confiável para o diagnóstico individual da brucelose bovina. Entretanto, a complexidade de execução e elevado custo dificultam o emprego do diagnóstico microbiológico como método de controle massal da doença (VASCONCELLOS et al., 1987). Neste contexto, devido às limitações dos procedimentos laboratoriais que se apoiam no cultivo do gênero Brucella, o diagnóstico da brucelose bovina tem sido fundamentado na investigação de aglutininas antiBrucella abortus no soro sangüíneo, bem como no sêmen, leite e muco vaginal (CASAS OLASCOAGA, 1976).

As provas de soroaglutinação rápida em placa (SAR), lenta em tubos (SAT), antígeno acidificado tamponado (AAT), 2-mercaptoetanol (2-ME), sêmen plasma aglutinação (SPA) e reação de fixação de complemento (RFC), têm sido amplamente utilizadas no sorodiagnóstico da brucelose bovina (RADOSTITIS et al., 2000). Dentre as provas fundamentadas na pesquisa de aglutininas séricas, a SAR caracteriza-se pela detecção de Ig das classes IgM e IgG, utilizada como teste de triagem, em virtude da sua alta sensibilidade. De maneira similar, em anos recentes, a AAT tem sido indicada como prova de triagem, em substituição à SAR, atribuída à alta sensibilidade da prova do antígeno acidificado. Em contraste, o 2-ME que se caracteriza pela detecção de Ig da classe IgG (considerada a principal classe de Ig presente em animais infectados por B. abortus), tem sido preconizado como prova confirmatória de animais reagentes em testes de triagem (BRASIL, 2001).

Por outro lado, a localização preferencial do agente no testículo e glândulas acessórias nos machos bovinos, pode gerar a formação de baixos títulos séricos de Ig, dificultando o diagnóstico por métodos sorológicos de triagem (Radostitis et al., 2000).

CASAS OLASCOAGA (1976) assinala que machos bovinos acometidos por B. abortus podem reagir à infecção com baixos títulos de Ig séricas. Em contraste, VASCONCELLOS et al. (1987) e RADOSTITS et al. (2000) referem a possibilidade de ausência de aglutininas séricas anti-Brucella abortus em provas de soroaglutinação, embora o microrganismo esteja presente no sêmen.

Desta forma, na vigência de baixos títulos de aglutininas séricas em machos bovinos em provas sorológicas de triagem, recomenda-se a confirmação sorodiagnóstica em testes como 2-ME ou RFC. Adicionalmente, o diagnóstico pode ser também confirmado pela técnica de SPA, que se fundamenta na detecção de IgG e IgA no sêmen, decorrentes da reação inflamatória testicular frente ao agente (CASAS OLASCOAGA, 1976; SUTHERLAND, 1980; VASCONCELLOS et al., 1987; GRASSO & CARDOSO, 1998; RADOSTITIS et al., 2000).

No Brasil, os estudos conduzidos na investigação da brucelose em machos bovinos limitam-se, em sua grande maioria, à pesquisa de aglutininas séricas anti-Brucella abortus empregando basicamente provas de triagem (TEIXEIRA et al.,1996).

Segundo o MINISTÉRIO DA AGRICULTURA DO BRASIL (1983), machos bovinos que soroconvertam a títulos iguais ou superiores a 100 UI nas provas de SAR e SAT devem ser considerados positivos.

O presente estudo procurou investigar a ocorrência de aglutininas anti-Brucella abortus nas provas de soroaglutinação rápida em placa, antígeno acifidicado tamponado, 2-Mercaptoetanol e sêmen plasma aglutinação, associados ao exame andrológico, no diagnóstico da brucelose em machos bovinos.

Foram utilizados 191 machos bovinos de diferentes raças, provenientes de diferentes Estados, com idade acima de 30 meses, examinados a partir do material de rotina diagnóstica do Laboratório de Reprodução Animal do Hospital Veterinário da Universidade do Oeste Paulista - UNOESTE, Presidente Prudente, SP. Na totalidade dos animais procedeu-se à colheita de sangue por venopunção da jugular, para a obtenção de amostras de soro, enquanto para a obtenção do plasma seminal, submeteu-se os animais à eletroejaculação.

As 191 amostras de soro foram testadas indistintamente nas provas de SAR (ALTON et al., 1976), AAT (ALTON et al., 1975) e 2-ME (ALTON et al., 1976). Após a obtenção do sêmen por eletroejaculação, todos os animais foram submetidos ao exame andrológico (HAFEZ, 1995). Simultaneamente, uma alíquota do sêmen foi destinada à realização da prova de SPA (CASAS OLASCOAGA, 1976).

Das 191 amostras de soro examinadas, 58 (30,4%) apresentaram reações na prova de SAR, das quais 29 (50,0%) com título 25, 21 (36,2%) com título 50 e 08 (13,8%) com título 100. Nenhum dos animais apresentou reação nas provas do AAT, 2-ME e no teste de SPA (Tabela 1). No exame andrológico, 10 animais (5,2%) foram considerados inaptos para serviços reprodutivos. Nenhum destes animais soroconverteu nas provas de SAR, AAT, 2-ME e SPA.

Ainda que diferentes autores afirmem que machos bovinos acometidos por B. abortus, possam reagir à infecção com baixos títulos de Ig séricas, (CASAS OLASCOAGA, 1976), ou mesmo não reagirem em provas de soroaglutinação (VASCONCELLOS et al., 1987; RADOSTITS et al., 2000), no presente estudo, todos os animais com títulos 25 (29 animais) e 50 (21 animais) na SAR resultaram negativos nas provas de AAT e 2-ME, bem como na SPA. A presença destes animais reagentes com baixos títulos na SAR, com resultados negativos nas provas de AAT, 2-ME e na SPA, pode encontrar justificativa na detecção de Ig da classe IgM pela SAR, que determinam reações inespecíficas nesta prova (CORBEL, 1985; SUTHERLAND, 1980).

Embora o Ministério da Agricultura (BRASIL, 1983), considere que machos bovinos com títulos iguais ou superiores a 100 na SAR e SAT devam ser caracterizados como positivos, no presente estudo, nenhum dos 8 (13,8%) animais com título 100 na SAR reagiu nas provas de AAT e 2-ME. Esses resultados ratificam as diretrizes do Programa Nacional de Controle e Erradicação da Brucelose Animal (BRASIL, 2001), que prevê a substituição da prova de SAR pela AAT, em virtude da elevada freqüência de reações inespecíficas na SAR (atribuídas a detecção de IgM), comparativamente a alta sensibilidade e especificidade verificada na prova de AAT.

Apesar de 10 animais (5,2%) terem sido considerados inaptos para serviços reprodutivos, nenhum destes animais soroconverteu nas provas de 2-ME e na SPA. Estes resultados demonstraram alta concordância na pesquisa de aglutininas séricas anti-Brucella abortus por estas provas, e no sêmen, pela técnica de sêmen plasma aglutinação, sugerindo a indicação das provas de 2-ME e SPA na confirmação de machos bovinos reagentes em testes de triagem. Adicionalmente, a concordância observada no presente estudo entre os resultados da AAT e 2-ME, reforçam a indicação destas provas para o sorodiagnóstico da brucelose bovina pelo recente Programa Nacional contra a brucelose (BRASIL, 2001), visando o controle e erradicação desta importante enfermidade no contexto de sanidade animal e saúde pública.

Tabela 1
Ocorrência de aglutininas anti-Brucella abortus em machos bovinos nas provas sorológicas e na sêmen plasma aglutinação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • ACHA, P.N. & SZYFRES, B. Zoonosis y enfermedades transmissibles comunes al hombre y a los animales Washington: OPAS, 1977. p.6-24.
  • ALTON, G.G.; JONES, L.M.; PITES, D.E. Las técnicas de laboratorios en la brucellosis. 2 ed. Ginebra: FAO/ WHO, 1976, p.55-133.
  • ALTON, G.G.; MAW, J.; ROGERSON, B.A. Serological diagnosis of bovine brucelosis: an of complement fixation, serum agglutination and Rose Bengal test. Aust. Vet. J, Brunswick, v.51, p.57-63, 1975.
  • BRASIL. Ministério da Agricultura. Secretaria de Defesa Sanitária Animal. Manual de procedimentos: movimento interestadual de animais e produtos. Brasília: MA, Secretaria de Defesa Sanitária Animal, 1983, p.20-29.
  • BRASIL. Ministério da Agricultura. Defesa Sanitária Animal. Decreto no 2 de 16 de Janeiro de 2001. Programa Nacional de Controle e Erradicação da Brucelose e Tuberculose Animal Brasilia, 2001.
  • CASAS OLASCOAGA, R. Diagnóstico serológico de la brucelosis. Zoonosis, WHO, v.18, 1976. p.107-141.
  • CORBEL, M.J. Recent advances in the study of Brucella antigens and their serological cross-reactions. Vet. Bull., v.55, p. 927-942, 1985.
  • GRASSO L.M.P.S. & CARDOSO, M.V. Brucelose bovina. Biológico, São Paulo, v.60, n.1, p.71-79, 1998.
  • HAFEZ, E.S.E. Reprodução animal São Paulo : Manole, 1995.
  • JOINT FAO/WHO. Commite on Brucellosis. Expert Sixth Report. Genebra: FAO/WHO, 1986. (Technical Report Series).
  • NICOLETTI, P. Brucellosis on bovine reproductive efficiency. In: MORROW, D.A. Current Therapy in Theriogenoly Philadelphia: W.B. Saunders, 1986. p.271-274.
  • NIELSEN, K. & DUNCAN, R. Animal brucellosis Boca Raton: CRC Press, 1990.
  • RADOSTITS, O.M.; GAY, C.C.; BLOOD, D.C.; HINCHCLIFF, K.W. Veterinary Medicine, 2000, p.867-891. Diseases caused by Brucella spp.
  • SUTHERLAND, S.S. Immunology of bovine brucellosis. Vet. Bull, v.50, p.359-368, 1980.
  • TEIXEIRA, J.L.R.; AVILA, M.O.; MARTINS, J.D. Brucelose bovina em machos: prevalência a nível de matadouro em quatro microregiões homogêneas do Rio Grande do Sul. In: CONGRESSO PANAMERICANO DE CIÊNCIAS VETERINÁRIAS, 1996, Campo Grande, MS. Anais Campo Grande: 1996. p.240.
  • VASCONCELLOS, S.A.; ITO, F.H.; CÔRTES, J.A. Bases para a prevenção da brucelose animal. Com. Cient. Fac. Med. Vet. Zootec. Univ. São Paulo, v.11, n.1, p.25-36, 1987.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Out 2024
  • Data do Fascículo
    Jul-Dec 2001

Histórico

  • Recebido
    06 Fev 2001
  • Aceito
    24 Mar 2001
location_on
Instituto Biológico Av. Conselheiro Rodrigues Alves, 1252 - Vila Mariana - São Paulo - SP, 04014-002 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: arquivos@biologico.sp.gov.br
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro