Open-access Análise da capacidade funcional em idosos do município de Avaré-SP: fatores associados

Resumo

Objetivo:  Este estudo objetivou avaliar a influência da qualidade de vida e aspectos socioeconômicos na capacidade funcional em idosos moradores do município de Avaré-SP.

Métodos:  Trata-se de estudo transversal. A amostra foi composta por 365 idosos, moradores da zona urbana de Avaré-SP. Os instrumentos utilizados foram: questionário sociodemográfico, escala de Qualidade de Vida de Flanagan (EQVF), escala de Atividades Básicas da Vida Diária (ABVD) de Katz e Atividades Instrumentais da Vida Diária (AIVD) de Lawnton & Brody.

Resultados:  Foram encontradas associações positivas entre ABVD e AIVD para os idosos que referiram não ter qualidade de vida. O mesmo ocorreu com alguns aspectos da qualidade de vida, medida pela EQVF; entre os 15 itens, quatro influenciaram as ABVDs: saúde, autoconhecimento, trabalho e lazer. Para as AIVDs, sete itens, entre os 15, influenciaram mais a capacidade funcional: autoconhecimento, saúde, trabalho, participação na comunidade, reunir com os amigos, socialização (fazer amigos) e aprendizagem em cursos e palestras.

Conclusão:  Idosos com boa qualidade de vida e com condição socioeconômica melhor apresentam menos dependência funcional, e há aspectos específicos da qualidade de vida que influenciam mais a incapacidade funcional, tanto para as ABVDs como para as AIVDs.

Idoso; Capacidade Funcional; Qualidade de Vida


Abstract

Objective:  The aim of the present study was to evaluate the influence of quality of life and socio-economic aspects on the functional capacity of elderly residents in the town of Avaré, São Paulo.

Methodology:  A cross-sectional study of 365 elderly persons living in the urban area of Avaré was performed. A sociodemographic questionnaire, the Flanagan Quality of Life Scale (FQLS), the Katz Activities of Daily Living Scale (ADL) and the Lawton & Brody Instrumental Activities of Daily Living Scale (IADL) were used for data collection.

Results:  Positive associations were found between the ADL and IADL of elderly persons who reported having a poor quality of life. The same was found for certain aspects of quality of life as measured by the FQLS. Of the 15 items of this scale, four influenced ADL: health, self-awareness, work and leisure, while seven influenced IADL: self-awareness, health, work, community involvement, relations with friends, socializing (making friends) and learning through courses and lectures.

Conclusion:  Elderly people with a good quality of life and more elevated socio-economic status are less functionally dependent, and there are specific aspects of quality of life that most influence functional disability in the performance of ADL and IADL.

Elderly; Functional Capacity; Quality of Life


INTRODUÇÃO

A partir dos 30 anos de idade o desempenho funcional dos indivíduos declina progressivamente, devido ao processo fisiológico do envelhecimento.1 Estudos mostram que a capacidade funcional torna-se um novo paradigma na saúde do idoso, e a autonomia é um dos principais fatores considerado em relação a políticas de saúde da pessoa idosa, ou seja, a capacidade de escolher seus próprios desígnios, como resultado entre sua saúde física, saúde mental, independência funcional, integração social, suporte familiar e independência financeira.2

A capacidade funcional ou limitação funcional pode ser definida como a capacidade do indivíduo de cuidar de si próprio e viver de forma independente, ou seja, manter suas capacidades físicas e mentais em suas atividades básicas e instrumentais.3 - 5 Para as atividades básicas, a capacidade funcional consiste na aptidão de uma pessoa cuidar de si, tais como: comer, tomar banho, vestir-se, ir ao banheiro, andar, passar da cama para a cadeira, mover-se da cama e controle de esfíncter.6 Já para as atividades instrumentais consiste na habilidade dos idosos administrarem o ambiente em que vivem como: preparar os alimentos, lavar as roupas, cuidar da casa, fazer compras, ir ao médico, e compromissos sociais e religiosos.6

As limitações funcionais, muitas vezes, apresentam maior repercussão na vida diária do que as doenças crônicas, desde que controladas.2 Desse modo, capacidade funcional e qualidade de vida são os novos paradigmas sociais quando se trata da saúde da população idosa, ou seja, é valorizar uma pessoa idosa de forma autônoma, mesmo sendo portador de uma ou mais doenças crônicas.

Sendo assim, o objetivo do presente estudo foi avaliar a influência da qualidade de vida e aspectos socioeconômicos na capacidade funcional em idosos moradores do município de Avaré, São Paulo.

MÉTODOS

Trata-se de estudo transversal desenvolvido na zona urbana do município de Avaré-SP. A população estudada foi formada por pessoas com 60 anos de idade ou mais. A coleta de dados foi realizada no perído de janeiro a agosto de 2011.

Para a obtenção da amostra foi formado um banco de dados com base nas informações das Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Estratégia da Saúde da Família (ESF) do município.

Para o cálculo do tamanho da amostra foi utilizada uma prevalência desconhecida de 50% para a qualidade de vida com um coeficiente de confiança de 95% e uma margem de erro de 5%, resultando num tamanho mínimo de 365 idosos, valendo-se de um fator de correção para população finita.

O sorteio dos idosos foi realizado por meio do programa SAS for Windows, versão 9.2, utilizando o procedimento Survey Selecte do método PPS (Probality Proportionalto Size) proporcional à idade. E quando o idoso sorteado não era encontrado ou então falecido, um novo indivíduo era sorteado para compor a amostra.

Após a obtenção da amostra, os idosos foram entrevistados em suas residências por profissionais treinados, aplicando-se os instrumentos: questionário sociodemográfico (idade, gênero, trabalho, renda, escolaridade, estado civil, aposentadoria), Escala de Qualidade de Vida de Flanagan (EQVF),7 traduzido e validado por Nassar & Gonçalves,8 escala de Atividades Básicas da Vida Diária (ABVD)9 e a escala de Atividades Instrumentais da Vida Diária (AIVD).10

Os dados foram analisados com o auxílio do programa SAS for Windows, versão 9.2. Inicialmente, foram calculadas frequências e porcentagens para as variáveis qualitativas referentes aos dados sociodemográficos, ABVDs, AIVDs e a EQVF, além das medidas descritivas para as variáveis quantitativas para a caracterização da amostra. A associação entre a capacidade funcional e a qualidade de vida foi feita por meio do teste Qui-quadrado.

Considerando as ABVDs e AIVDs como variável resposta binária (dependente/independente), foi ajustado um modelo de regressão logística levando em conta as características sociodemográficas e a qualidade de vida como variável resposta como complemento à análise bivariada. Em todos os testes foi considerado o nível de significância de 5% ou p-valor correspondente. O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina de Botucatu (protocolo no255/2010). Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

RESULTADOS

Foram entrevistados 365 idosos moradores do município de Avaré-SP, dos quais 241 (66,02%) eram mulheres e 124 (33,98%) homens. A maior frequência de idosos estava na faixa etária de 60 a 69 anos (41,91%) e a faixa etária com menor frequência foi acima de 80 anos (17,80%). Além disso, predominaram idosos aposentados, com baixo nível de escolaridade e renda (tabela 1).

Tabela 1
Distribuição das características sociodemográficas dos idosos. Avaré-SP, 2011.

A prevalência de dependência para as ABVDs foi de 8,49%. Avaliando cada item do instrumento, vestir-se sem ajuda foi a atividade que mais apresentou nível de dependência (3,01%), seguida de tomar banho sozinho (2,46%) e urinar e evacuar (2,20%).

Para as AIVDs foi encontrada uma prevalência de 10,96%. Avaliando cada item do instrumento, lavar e passar a própria roupa foram as atividades com maior dependência (10,95%), seguidas de trabalhos domésticos, como pequenos reparos (9,86%), e cuidar de suas finanças (6,02%).

Foram encontradas associações das ABVDs e AIVDs com referência à qualidade de vida (satisfeitos/não satisfeitos) (p=0,0002; p=0,0011, respectivamente) e estado civil (casado/não casado) apenas para as AIVDs (p=0,0164). As demais variáveis não apresentaram associação significativa com as ABVDs e AIVDs. As mulheres registraram mais dependência funcional (9,12%) para ABVD comparadas aos homens (10,78%). Já os homens, apresentaram mais dependência funcional nas AIVDs (11,29%; 10,78%, respectivamente) (tabela 2).

Tabela 2
Resultado da análise bivariada entre as atividades funcionais para ABVDs e AIVDs com qualidade de vida e variáveis socioeconômicas. Avaré-SP, 2011.

Para as ABVDs, a qualidade de vida foi um fator de risco para a dependência funcional [OR=4,995, IC95%=(2,024-12,329)] enquanto que a idade foi um fator protetor [OR=0,931, IC95%=(0,885-0,979)] (tabela 3).

Tabela 3
Resultado do ajuste do modelo de regressão logístico de variáveis associados ou não às Atividades Básicas da Vida Diária (ABVDs). Avaré-SP, 2011.

Dos 15 itens que compõem a EQVF, quatro se associaram com as ABVDs: autoconhecimento (reconhecer suas potencialidades e limitações) (p=0,0093), saúde (p<0,0001), trabalho (p=0,0002) e lazer (p=0,0007).

Em relação às AIVDs, após o ajuste do modelo de regressão logística referenciar, não ter qualidade de vida e ser do sexo feminino foram fatores de risco para a dependência funcional, [OR=3,551, IC95%=(1,586-7,951)] e [OR=2,592, IC95%=(1,122-5,985)], respectivamente. A idade menor aparece como um fator protetor para a dependência funcional [OR=0,899, IC95%= (0,856-0,944)] (tabela 4).

Tabela 4
Resultado do ajuste do modelo de regressão logístico de variáveis associados ou não às Atividades Instrumentais da Vida Diária (AIVDs). Avaré-SP, 2011.

Em sete dos 15 itens da EQVF foram encontradas associações com as AIVDs: saúde (p<0,0001); trabalho (p<0,0001); autoconhecimento (reconhecer suas potencialidades e limitações) (p<0,0001); reunir com os amigos (p=0,0028); socialização (fazer amigos) (p=0,0189); participação na comunidade (p=0,0009) e aprendizagem em cursos e palestras (p=0,0334).

DISCUSSÃO

Algumas limitações do presente estudo precisam ser consideradas. Apesar de ter sido calculado um tamanho amostral e feito um sorteio dos idosos segundo faixa etária, os dados obtidos nas UBSs e ESFs estavam desatualizados, isto é, muitos tinham falecido ou não foram encontrados. Isso fez com que vários idosos fossem substituídos e desse modo a amostra tornou-se de conveniência, introduzindo um viés seletivo, sendo pouco representativa da população.

Provavelmente, por esse viés de seleção, explica-se apresentar predomínio do sexo feminino em 66% da amostra. Entretanto, em outras pesquisas populacionais, o sexo feminino prevalece com maior número em relação à população.9 - 11 Além disso, de acordo com o último censo, entre os idosos as mulheres representavam 55% do total de idosos no país.12

No município de Avaré-SP houve predomínio de idosos com baixo nível de escolaridade (76,98% frequentaram a escola por menos de oito anos) e com nível de renda familiar abaixo de dois salários minímos (63,71%), fato esse que corrobora os resultados encontrados em pesquisas realizadas nas cidades de Goiânia-GO, Botucatu-SP e São Paulo-SP.11 , 13 - 15 Ademais, o baixo nível de escolaridade e renda são características dessa geração de idosos brasileiros, visto que 25% dessa população ainda são analfabetos e mais de 44 milhões de brasileiros sobrevivem com uma renda mensal de até um salário mínimo.13

De acordo com os resultados obtidos nessa amostra, 8,49% dos idosos eram dependentes funcionais para as ABVDs e 10,96% para as AIVDs, dados considerados baixos comparados a outros municípios brasileiros.15 - 17 Porém, o fato de existir vários instrumentos para avaliação da capacidade funcional e o ponto de corte não ser padronizado dificulta as comparações com outros estudos.

Estudo realizado na cidade de Pelotas-RS encontrou uma prevalência de incapacidade funcional de 28,3% para as ABVDs e 26,8% para as AIVDs.18 Outra pesquisa, de base populacional, realizada no municipio de Botucatu-SP assemelha-se aos resultados desse estudo, ou seja, 5,7% dos idosos apresentaram incapacidade funcional para ABVDs e 14,0% para AIVDs.19

Trabalho realizado com idosos moradores da zona rural do município de Uberaba-MG registrou percentual inferior para ABVDs em relação aos encontrados no presente estudo (0,2%); já para as AIVDs, os resultados foram próximos (13,1%).20 Nesse sentido, a diferença encontrada entre idosos moradores na zona rural e moradores da zona urbana pode sugerir que as atividades do campo podem ser fatores de proteção à incapacidade funcional.21

Idosos da região urbana de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, apresentaram maior dependência funcional grave, ou seja, dependência em pelo menos sete atividades básicas e instrumentais, comparados aos idosos moradores da zona rural do município de Encruzilhada do Sul, RS.22

Com relação a cada ABVD, vestir-se (3,01%) e tomar banho (2,46%) tiveram maior prevalência de incapacidade. Para as AIVDs, lavar e passar a própria roupa (10,95%) e trabalhos domésticos, como pequenos reparos (9,86%), foram as atividades mais prejudicadas. Resultados iguais foram encontrados em outros estudos para ABVDs. Idosos de Uberaba-MG relataram mais incapacidade funcional para tomar banho (0,5%) e vestir-se (0,5%) para ABVDs; e nas AIVDs, usar o telefone (6,7%) e lavar e passar a própria roupa (6,1%) foram as atividades mais prejudicadas.20

No presente estudo, as mulheres apresentaram mais incapacidade funcional para as ABVDs comparadas aos homens (9,12% e 7,25%, respectivamente). Já os homens, maior dependência funcional nas AIVDs (11,29% e 10,78%, respectivamente). Alguns estudos mostram que as mulheres idosas têm mais dependência funcional, porém, outros discordam, são os homens que apresentam mais dependência funcional para as atividades instrumentais.18 , 23

Entre todas as variáveis sociodemográficas, apenas as variáveis sexo e idade associaram-se às AIVDs. Estudos encontrados na literatura mostram associação positiva com as variáveis sociodemográficas (raça, escolaridade e estado civil), tanto para as ABVDs como para as AIVDs.24 - 26

No presente estudo, as características sociodemográficas: mulheres, não casado, não trabalhar, aposentados e baixo nível de escolaridade apresentaram maior dependência funcional para as ABVDs. E com relação às AIVDs, essas características foram: homens, não casado, não trabalhar, aposentados e pouca escolaridade.

Os resultados deste estudo demonstraram que a qualidade de vida teve forte influência nas atividades funcionais. Os idosos que relataram ter pouca qualidade de vida têm 4,99 vezes mais chance de ter incapacidade funcional para as ABVDs e 3,55% para as AIVDs.

Dos 15 componentes da EQVF, apenas os aspectos como saúde, trabalho, autoconhecimento (reconhecer seus potencias e limitações) e reunir com os amigos associaram-se às ABVDs.

Quanto às AIVDs, foi encontrada associação positiva com relação aos aspectos: autoconhecimento (reconhecer suas potencialidades e limitações), saúde, trabalho, participação na comunidade, reunir com os amigos, socialização, fazer amigos e aprendizagem em cursos e palestras. Outros autores encontraram tais associações, mas com o uso de outros instrumentos, como o WHOQOL-Brief26 e o WHOQOL-Old.27 Não foram encontrados estudos utilizando a EQVF nesse contexto.

Mas o fato é que a manutenção da capacidade funcional tem implicações diretas na qualidade de vida, por estar relacionada com a capacidade de os idosos se entrosarem, trabalharem, realizarem atividades dentro e fora da casa, desfrutarem de lazer e de todos os aspectos que a vida oferece em todos os sentidos e faces.

Portanto, o envelhecimento bem-sucedido é resultado da interação de fatores relacionados à saúde física, mental, independência na vida diária, aspectos econômicos e psicossociais.

CONCLUSÃO

De acordo com os resultados obtidos no presente trabalho, observou-se que os idosos com boa qualidade de vida geral e com condição socioeconômica melhor apresentam menos dependência funcional. E aspectos especificos da qualidade de vida influenciam mais a capacidade funcional, tanto para ABVDs como para AIVDS. As ABVDs são influenciadas pelos aspectos: saúde, trabalho, lazer e autoconhecimento (reconhecer suas potencialidades e limitações). As AIVDs são influenciadas pelos aspectos: saúde, trabalho, reunir-se com os amigos, socialização (fazer amigos), participação na comunidade, aprendizagem em cursos e palestras e autoconhecimento (reconhecer suas potencialidades e limitações).

Nesse sentido, o trabalho traz informações relevantes para que planejamentos de políticas públicas de saúde para a pessoa idosa estejam na agenda de prioridades, focadas nos esforços em aperfeiçoar e ampliar a humanização do atendimento aos idosos, melhorando a qualidade de vida dessa população. E como a qualidade de vida tem forte influência na capacidade funcional, torna-se necessário investir em estratégias que visem não apenas tratar da doença, mas, também, da saúde e da qualidade de vida.

Nessa compreensão, uma equipe multiprofissional formada por médicos, fisioterapeutas, psicólogos e assistentes sociais deve desenvolver ações integradas aos idosos, principalmente na atenção básica.

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Apoiado por

Financiamento: Fundação para o Desenvolvimento da Universidade Estadual Paulista (FUNDUNESP).

Correspondência

Correspondência / CorrespondenceCarlos Alexandre Kagawa E-mail: alexandrekagawa@superig.com.br

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    July-Sep 2015

Histórico

  • Recebido
    15 Jul 2014
  • Revisado
    22 Jan 2015
  • Aceito
    05 Fev 2015
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