Open-access Fatores associados à injúria renal aguda em pessoas idosas com covid-19 no período pré-vacinação: um estudo de coorte

Resumo

Objetivo  analisar a incidência de injúria renal aguda e os fatores associados em pessoas idosas com covid-19 no período pré-vacinação.

Métodos  estudo de coorte retrospectivo, realizado com 137 indivíduos, com idade igual e superior a 60 anos e diagnóstico confirmado de covid-19, internados em hospital público, na cidade do Recife, Pernambuco, Brasil, no período de abril de 2020 a abril de 2021. Os dados foram analisados por meio da estatística descritiva, inferencial e análise de regressão logística multivariada.

Resultados  a injúria renal aguda ocorreu em 36,3% das pessoas idosas com covid-19, sendo 45,5% homens, com predomínio de indivíduos com 70 anos ou mais. Foi observada uma incidência de 61,2% de pacientes necessitando de hemodiálise, dos quais 70,2% não recuperaram a função renal e 63,3% faleceram. Na análise multivariada, a injúria renal aguda foi associada à doença renal crônica no estágio conservador [OR 8,59 (1,33-55,32), p=0,024], internação em unidade de terapia intensiva [OR 3,71 (1,10-12,53), p=0,034] e uso de drogas vasoativas [OR 7,07 (2,41-20,79), p<0,001].

Conclusão  a identificação das variáveis envolvidas nesse processo e a implementação de estratégias são fundamentais para otimizar o diagnóstico oportuno e medidas de tratamento a fim de dirimir a ocorrência de disfunção renal e de suas potenciais complicações.

Palavras-Chave:
Idoso; Covid-19; Injúria Renal Aguda; Fatores de Risco; Hospitalização

Abstract

Objective  acute kidney injury occurred in 36.3% of the older adult with COVID-19, 45.5% were men, and most were aged ≥70 years. Overall, 61.2% of patients required hemodialysis, 70.2% did not recover renal function and 63.3% died. On multivariate analysis, acute kidney injury was associated with chronic kidney disease in the conservative stage [OR 8.59 (1.33-55.32), p=0.024], admission to an intensive care unit [OR 3.71 (1.10-12.53), p=0.034] and use of vasoactive drugs [OR 7.07 (2.41-20.79), p<0.001].

Method  acute kidney injury occurred in 36.3% of the older adult with COVID-19, 45.5% were men, and most were aged ≥70 years. Overall, 61.2% of patients required hemodialysis, 70.2% did not recover renal function and 63.3% died. On multivariate analysis, acute kidney injury was associated with chronic kidney disease in the conservative stage [OR 8.59 (1.33-55.32), p=0.024], admission to an intensive care unit [OR 3.71 (1.10-12.53), p=0.034] and use of vasoactive drugs [OR 7.07 (2.41-20.79), p<0.001].

Results  acute kidney injury occurred in 36.3% of the older adult with COVID-19, 45.5% were men, and most were aged ≥70 years. Overall, 61.2% of patients required hemodialysis, 70.2% did not recover renal function and 63.3% died. On multivariate analysis, acute kidney injury was associated with chronic kidney disease in the conservative stage [OR 8.59 (1.33-55.32), p=0.024], admission to an intensive care unit [OR 3.71 (1.10-12.53), p=0.034] and use of vasoactive drugs [OR 7.07 (2.41-20.79), p<0.001].

Conclusion  the identification of the variables involved in this process and implementation of strategies are essential to optimize timely diagnosis and treatment measures to help prevent the occurrence of renal dysfunction and its potential complications.

Keywords
Aged; COVID-19; Acute Kidney Injury; Risk Factors; Hospitalization

INTRODUÇÃO

A doença infecciosa do novo coronavírus (covid-19), causada pelo vírus Severe Acute Respiratory Syndrome-Coronavirus-2 (SARS-CoV-2) é responsável pelo comprometimento das vias aéreas superiores e inferiores, podendo acometer outros órgãos nas formas mais severas, como os rins. É observada alta taxa de morbimortalidade e evolução prolongada da doença em grupos populacionais vulneráveis como as pessoas idosas, indivíduos com imunossupressão, cardiopatia, Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS) e Diabetes Mellitus (DM)1.

A população idosa tem maior vulnerabilidade à contaminação pelo SARS-CoV-2, assim como à evolução de desfechos negativos, apresentando sintomatologia clínica mais severa, tempo de duração da doença mais prolongado, maior necessidade de internação em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e uso de Ventilação Mecânica (VM), estando esses fatores associados às comorbidades prévias. Tal fato deve-se à imunossenescência das pessoas idosas, agravada pela existência de doenças crônicas metabólicas, que exacerbam a imunossupressão, predispondo-as à infecção pela covid-19 e suas complicações2.

A Injúria Renal Aguda (IRA) é uma complicação hospitalar com alta incidência em pessoas idosas, caracterizada pela redução abrupta da função renal, que acarreta severos prejuízos como a elevada taxa de mortalidade, o maior risco de evolução para Doença Renal Crônica (DRC) e a maior necessidade de procedimentos invasivos e intervenções terapêuticas3.

Dados epidemiológicos indicam que a IRA afeta mais de 13 milhões de pessoas em todo o mundo, com evolução para óbito em cerca de 1,7 milhão delas. Sabe-se que sua prevalência varia de acordo com a população estudada e o protocolo utilizado para diagnóstico e estadiamento, sendo observada em cerca de 7 a 18% dos pacientes hospitalizados, com metade desses alocados em UTI4.

Uma revisão de escopo aponta que a IRA secundária à covid-19 ocorre em cerca de um terço dos pacientes críticos no curso do internamento hospitalar, entre os quais a maior parcela evolui com necessidade de Suporte Renal Artificial (SRA) e mais de 80% dos pacientes em VM cursam com IRA5.

O aumento na morbimortalidade, tempo de internamento prolongado e custos excessivos na saúde são resultantes do cenário de IRA em pessoas idosas com covid-19, consistindo em um problema de saúde coletiva. No Brasil, em 2020, no período pré-vacinação, os óbitos por covid-19 em pessoas idosas representavam 53%, mostrando a vulnerabilidade destes frente à pandemia. Com o advento da vacinação para covid-19 no Brasil, houve uma mudança no perfil epidemiológico dessa doença, culminando na redução do número dos casos, assim como queda nas taxas de complicações6.

Considerando a alta incidência da IRA, a diversidade e a complexidade dos fatores associados à pessoa idosa com injúria renal no período prévio à vacinação contra a covid-19, este estudo se justifica pela necessidade de ampliação do conhecimento acerca da sua incidência, ao longo da evolução da história natural da doença, e sua associação com as variáveis envolvidas no processo, a fim de subsidiar a elaboração de estratégias que visem intervir nos fatores contribuintes para a evolução do quadro, almejando a redução dos danos.

Mediante essas considerações, este estudo tem como objetivo analisar a incidência de Injúria Renal Aguda e os fatores associados em pessoas idosas com covid-19.

MÉTODO

Trata-se de um estudo de coorte retrospectivo, com abordagem quantitativa, realizado no período de abril de 2020 a abril de 2021. O estudo seguiu as diretrizes da iniciativa Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE)7 para garantir a qualidade e a transparência do relato da pesquisa. A casuística foi de 137 prontuários de pessoas idosas internadas na enfermaria e UTI covid de um hospital universitário, localizado na cidade do Recife, PE, Brasil. O estudo teve uma abordagem censitária, por isso, não foi realizado o cálculo amostral.

Participaram do estudo indivíduos com idade igual ou superior a 60 anos, de ambos os sexos, com diagnóstico de covid-19, confirmado pelo teste de Transcrição Reversa seguida de Reação em Cadeia de Polimerase em tempo real (RT-PCR), realizado por swab nasofaríngeo e internadas por um período maior de 24 horas. Foram excluídos àqueles com história prévia de DRC nos estágios quatro e cinco e/ou em SRA previamente à internação. Salienta-se que todos os prontuários das pessoas idosas com DRC em estágio conservador foram incluídos no estudo.

A coleta de dados foi realizada por equipe de pesquisa previamente treinada, para obtenção dos dados secundários, por meio da consulta ao prontuário de pessoas idosas com covid-19, tendo como variável dependente e desfecho principal a IRA. Esta foi identificada a partir do diagnóstico médico devidamente registrado em prontuário, sendo categorizada quanto à sua ocorrência. Concernente às variáveis independentes elencadas para o estudo, estas compreenderam: variáveis sociodemográficas (sexo, idade, estado civil, etnia, renda pessoal, escolaridade, zona de residência e munícipio de procedência), variáveis clínicas (presença de comorbidades, DM, HAS, DRC, internação em UTI, tempo de internação hospitalar, uso de VM, tempo de VM, ocorrência da IRA, hemodiálise (HD), reversão da IRA, drogas vasoativas e desfecho clínico), variáveis do estilo de vida, obtidas por meio de critérios autorreferidos na admissão hospitalar e registradas em prontuário (tabagismo e etilismo).

No seguimento das pessoas idosas com covid-19, foram coletados os dados supracitados nos seguintes momentos: admissão hospitalar, admissão na enfermaria, intercorrência na enfermaria, admissão na UTI e 12 horas após internamento na UTI.

Os dados obtidos foram analisados através da estatística descritiva e inferencial e a análise de regressão logística multivariada.

A fim de caracterizar o perfil sociodemográfico, clínico e do estilo de vida dos pacientes avaliados, foram calculadas as frequências percentuais e construídas as respectivas distribuições de frequências.

Para analisar os fatores associados à presença da IRA, foram construídas as tabelas de contingência e aplicado o teste qui-quadrado de independência de Pearson ou o teste exato de Fisher. Todas as conclusões foram tiradas considerando o nível de significância de 5%.

Para entrada no modelo logístico multivariado, foi considerado o nível de significância de até p=0,20 (20%) na análise bivariada, sendo ajustado o modelo com variância robusta para avaliação da chance de desenvolvimento da IRA. Para permanência dos fatores no modelo, foi considerado o nível de significância de 5%. Também foram calculados os Intervalos de Confiança (IC) para as razões de chances e aplicado o teste de Wald na comparação das chances de desenvolvimento da IRA entre os níveis dos fatores em estudo.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), sob o número de aprovação 5.791.775, sendo respeitados os preceitos éticos e legais estabelecidos na Resolução 466/12, que regulamenta sobre as Normas de Pesquisa envolvendo Seres Humanos8, assim como na Resolução 510/2016, que dispõe sobre as normas aplicáveis às pesquisas em Ciências Humanas e Sociais9. Por se tratar de um estudo com dados secundários, por meio da consulta aos prontuários da unidade de saúde, foi dispensado o uso do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, devido à natureza retrospectiva e anônima do estudo.

RESULTADOS

Dos 137 prontuários incluídos no estudo, 49 pacientes apresentaram IRA durante o internamento hospitalar (36,3%), dos quais, 16 (32,7%) tiveram alta hospitalar e 31 (63,3%) evoluíram para óbito. Comparado ao grupo sem IRA, os pacientes do grupo com IRA obtiveram maior prevalência de mortalidade e pior desfecho, como evidenciado pelo fluxograma que detalha a seleção dos participantes do estudo e o desfecho da IRA em pessoas idosas hospitalizados com covid-19 (Figura 1).

Figura 1
Fluxograma da seleção dos prontuários dos participantes do estudo e desfecho da injúria renal aguda em pessoas idosas hospitalizadas com covid-19, Recife, PE, 2023.

No universo de 137 prontuários de pessoas idosas, referente à distribuição da IRA segundo o perfil sociodemográfico, observa-se uma predominância de homens (45,5%), com idade igual ou superior a 70 anos (40,0%), que possuem companheiro (a) (40,0%), com mais de nove anos de estudo (50,0%), de etnia não branca (36,0%), baixa renda familiar, menor ou igual a um salário mínimo (40,4%), residente da zona urbana (36,7%), procedente da região metropolitana da cidade do Recife, PE, Brasil (37,1%). Na análise bivariada apenas o sexo esteve associado à IRA (p-valor=0,030) (Tabela 1).

Tabela 1
Potenciais fatores sociodemográficos associados à Injúria Rena Aguda em pessoa idosa hospitalizada com covid-19. Recife, PE, 2023.

A maior incidência da injúria renal ocorreu em pessoas idosas sem comorbidades (43,7%). Quanto à presença de comorbidades, a IRA foi associada à DRC estágio conservador (75,0%) e predominou no grupo de indivíduos que não possuía HAS (40,0%), nunca fumou (36,4%), etilista (41,7%), com necessidade de internação em UTI (55,7%), tempo de internação hospitalar igual ou superior a 30 dias (44,4%), uso de VM (45,2%), tempo de VM igual ou inferior a 30 dias (47,6%) e uso de droga vasoativa (70,0%). Mesmo sendo encontrada maior incidência de injúria renal no grupo de pessoas idosas com o perfil descrito, o teste de independência foi significativo apenas para os fatores: DRC conservador (p-valor <0,001); internação em UTI (p-valor <0,001); uso de VM (p-valor =0,001); e uso de Droga vasoativa (p-valor <0,001) (Tabela 2).

Tabela 2
Potenciais fatores clínicos e estilo de vida associados à Injúria Renal Aguda em pessoas idosas hospitalizadas com covid-19. Recife, PE, 2023.

Foram incluídas no modelo logístico multivariado as variáveis: sexo (p-valor =0,030), DRC conservador (p-valor <0,001); internação em UTI (p-valor <0,001), VM (p-valor =0,001) e uso de droga vasoativa (p-valor <0,001). Após ajuste das variáveis confundidoras, DRC no estágio conservador (p-valor <0,001); internação em UTI (p-valor <0,001), VM (p-valor =0,001), e uso de droga vasoativa (p-valor <0,001) tiveram significância estatística menor que 0,05, apresentando-se como bons preditores para IRA.

Observa-se que o grupo de pessoas idosas que possui DRC no estágio conservador apresenta 8,59 vezes a chance de desenvolver a IRA quando comparado ao grupo sem DRC conservador. As pessoas idosas internadas na UTI apresentam 3,71 vezes a chance de desenvolver a IRA quando comparado àquelas que não foram admitidos na UTI. Já os indivíduos que utilizaram droga vasoativa apresentaram 7,07 vezes a chance de desenvolver a IRA quando comparado àqueles que não fizeram uso de droga vasoativa (Tabela 3).

Tabela 3
Ajuste final do modelo logístico multivariado para estimativa da Injúria Renal Aguda em pessoas idosas hospitalizadas com covid-19. Recife, PE, 2023.

Verifica-se que a maioria das pessoas idosas do grupo que apresentou IRA realizou HD (61,2%), não teve reversão do quadro (70,2%) e foi a óbito (63,3%), evidenciando pior prognóstico. No grupo de pessoas idosas que não apresentou IRA, a maioria não necessitou de HD (98,8%) e teve como desfecho clínico a alta hospitalar ou transferência para outro hospital (84,9%). O teste de homogeneidade foi significativo em todos os fatores avaliados (p-valor ≤0,05), indicando que a distribuição do prognóstico para as pessoas idosas que apresentam injúria renal é estatisticamente diferente (Tabela 4).

Tabela 4
Distribuição da hemodiálise, reversão da Injúria Renal Aguda e o desfecho clínico, segundo a presença ou ausência da Injúria Renal Aguda em pessoas idosas hospitalizadas com covid-19. Recife, PE, 2023.

DISCUSSÃO

A IRA ocorreu em mais de um terço das pessoas idosas investigadas e foi associada à presença de DRC no estágio conservador, internação em UTI e uso de droga vasoativa. A incidência da IRA obtida, neste estudo, foi semelhante ao descrito em uma coorte retrospectiva, em que 44,9% das pessoas idosas estudadas apresentaram injúria renal10. De modo similar, outra coorte realizada na China evidenciou uma prevalência de disfunção renal em 39% da população analisada, acometendo apenas os indivíduos idosos, estando relacionada à elevada morbimortalidade e maior necessidade de procedimentos invasivos11.

O presente estudo revelou maior incidência da IRA em pessoas com idade igual ou superior a 70 anos. É sabido que a idade avançada é considerada um fator preditivo para disfunção renal, nesse contexto, estudo observacional desenvolvido em Estocolmo, reforça esse dado ao analisar grupos de indivíduos idosos quanto à presença ou não da covid-19 associada ao desenvolvimento da IRA durante hospitalização. A investigação apontou que os pacientes com covid-19 tiveram maior ocorrência de IRA (29%), com maiores chances de apresentar disfunção renal e pior índice de marcadores inflamatórios, destacando a doença viral como fator predisponente para injúria renal durante hospitalização. Àqueles com IRA atrelada à covid-19 apresentaram uma taxa de mortalidade 80 vezes maior e internação mais prolongada12.

A predisposição para IRA secundária à covid-19 na população idosa é justificada pelo tropismo do SARS-COV-2 aos túbulos e podócitos renais, ocasionando lesão direta ao respectivo órgão-alvo, e pelo processo inflamatório sistêmico, responsável pelo status de inflamação renal associado ao envelhecimento, em que os rins sofrem remodelação estrutural e alterações morfofuncionais, como: glomeruloesclerose, alterações vasculares intrarrenais, perda progressiva de néfrons e redução da Taxa de Filtração Glomerular (TFG)13 Desta forma, é vista a importância da covid-19 para instalação da IRA, bem como o agravamento do seu quadro em pessoas idosas. É visto que essa população é caracterizada pela maior prevalência de comorbidades e polifarmácia associadas, potencializando o risco para nefrotoxicidade e IRA, devido à farmacocinética e farmacodinâmica alterada nesse grupo etário14.

As comorbidades apresentam importante papel no agravamento e complicação da covid-19 em indivíduos idosos, sendo evidenciada alta mortalidade nessa população, no período anterior à vacina para covid-19, contando com 69,3% dos óbitos, onde 64% desses indivíduos possuíam ao menos uma morbidade presente, evidenciando que o risco de gravidade é diretamente proporcional ao avançar da idade associada à existência de doenças crônicas15.

Com o início da imunização no Brasil contra o SARS-CoV-2, observa-se um decréscimo no número de casos, internação em UTI e óbitos pela covid-19 nas pessoas idosas portadoras de comorbidades, grupo em que foi registrada uma redução de 46,26% na notificação de casos. Com relação à hospitalização em leitos intensivos, constatou-se que apenas 7,14% das pessoas idosas com morbidades foram encaminhadas para UTI, o que mostra a relevância da vacina na redução de casos graves se comparado com o cenário pré-vacinação, em que havia superlotação desses leitos. Os óbitos por covid-19 reduziram de oito para dois casos, indicando a relevância da vacina para redução e prevenção de casos fatais16.

Nesta coorte, A DRC estágio conservador teve papel preditivo para o estabelecimento do agravo renal, apresentando 8,59 vezes a chance de desenvolver a IRA, quando comparado aos pacientes sem DRC. Estudo de coorte realizado na China obteve resultados semelhantes, identificando alta prevalência de pacientes com covid-19, internados em um hospital Chinês, com doença renal na admissão e evolução para IRA hospitalar. A incidência de disfunção renal foi maior naqueles com TFG estimada abaixo de 60 ml/min por 1.73m2 (13,1%), creatinina sérica e ureia elevadas (14,4%) e (13,1%), respectivamente. O estudo apontou que a doença renal na admissão hospitalar esteve associada à internação em UTI e necessidade de VM, representando maior risco para deterioração orgânica e IRA17. Uma investigação realizada em Milão apontou que a maior parcela dos pacientes que desenvolveram a injúria renal com necessidade de SRA, possuíam DRC18.

Outro estudo de coorte reforça a magnitude da DRC preexistente como precursora da IRA, no qual 45% dos pacientes que desenvolveram injúria renal (22,6%) evoluíram com piora aguda de DRC prévia, cuja prevalência foi de 28,6%. A DRC mostrou um risco duas vezes maior para a instalação da IRA19.

A DRC, como um fator de risco para IRA, pode estar associada à idade avançada e multimorbidade, as quais contribuem para o desfecho durante a hospitalização. Dessa forma, observam-se maiores chances de pessoas idosas evoluírem para IRA ao serem expostas a fatores desencadeantes de insulto renal, visto o comprometimento pré-existente na respectiva população17.

Observa-se que a redução acentuada da TFG estimada vulnerabiliza a pessoa idosa a desenvolver a IRA, tendo em vista a presença de alterações estruturais, funcionais, redução no número de néfrons funcionantes e queda do filtrado glomerular, previstas em decorrência do processo de senescência. Essa condição é agravada mediante a exposição a agentes que propiciem o dano renal13. A TFG é influenciada por fatores como idade, sexo e raça, podendo sofrer alterações negativas diante de multimorbidades crônicas e internamento prolongado. Evidências científicas revelam que a queda no Ritmo de Filtração Glomerular (RFG) prevê disfunção renal e maior morbimortalidade14, 20.

A internação em UTI foi considerada fator primordial para o estabelecimento da IRA neste estudo, estando associada a outros indicadores de gravidade e deterioração orgânica que justificam a disfunção renal, sendo eles: tempo de internação hospitalar prolongada (44,4%), necessidade de VM (45,2%) e uso de droga vasoativa (70%). A literatura aponta que cerca de 8 a 15% dos pacientes com covid-19 evoluem para forma grave e necessitam de internação em UTI, com curso hospitalar prolongado, maior tempo de permanência em ambiente intensivo e maior prevalência de IRA21. Uma metanálise recente demonstrou que a incidência de IRA intra-hospitalar em pacientes com covid-19 foi de 3%, aumentando esse percentual para 19% ao comparar com os indivíduos que necessitaram de cuidados intensivos em UTI, revelando o risco de disfunção renal atrelado ao respectivo ambiente e suas possíveis implicações associadas, representando potenciais fatores de risco para IRA22.

Observa-se que o perfil de pacientes com covid-19 em UTI revela um cenário de muitos indivíduos apresentando instabilidade hemodinâmica e gravidade clínica, com necessidade de exames, cuidados intensivos e procedimentos invasivos, como uso de VM e infusão de drogas para suporte hemodinâmico23. Desta forma, constatou-se que a complexidade do tratamento associado aos mais variados tipos de drogas, como vasoativas, nefrotóxicas, sedativos e contrastes acarreta sobrecarga e colapso renal, com maior suscetibilidade para IRA. Além disto, os pacientes que necessitam de suporte intensivo e internação em UTI, no âmbito da covid-19, comumente são pessoas idosas, com um maior número de comorbidades, em uso de mais medicações para controle de doenças de base e maior prevalência de distúrbios hidroeletrolíticos e acidobásicos, que consistem em fatores de risco conhecidos para injúria renal, aumentado ainda mais as chances para sua ocorrência18.

A utilização de drogas vasoativas mostrou ser um forte preditor para IRA nesta coorte, contando com uma distribuição de 70% dos casos e 7,07 vezes a chance para o desfecho, se comparado ao grupo de pacientes que não utilizou droga vasoativa. Estudo transversal, realizado com dados de pacientes internados em uma UTI de Pernambuco, reforça esse resultado, evidenciando que 8,3% dos pacientes que desenvolveram IRA em seu estudo fizeram uso de drogas vasoativas, como noradrenalina, nitroglicerina e dobutamina. Ao ser associada à VM, esses números saltavam para 45,9%24. Outro estudo, desenvolvido no Paraná, apresentou resultados semelhantes, demonstrando que cerca de 70% dos pacientes em uso de vasopressores, cursaram com disfunção renal. Foi visto que a taxa de nefrotoxicidade das drogas vasoativas representou 50%, especificamente a dobutamina, epinefrina e vasopressina25.

Essa forte associação é explicada pelas características dos pacientes com covid-19 internos em UTI, que apresentam maior criticidade do quadro clínico, sendo mais expostos aos procedimentos e terapias inerentes ao ambiente, como intubação orotraqueal, punção de acesso venoso central e uso de drogas vasoativas. Os compostos vasoativos são considerados nefrotóxicos e aumentam as chances da instalação da IRA, ocasionando vasoconstricção e hipoperfusão renal, resultando em isquemia e Necrose Tubular Aguda (NTA)26.

Entre as possíveis limitações do estudo, salienta-se a impossibilidade da realização do cálculo amostral, pelo fato de ter utilizado uma abordagem censitária. Em contrapartida, a lacuna quantitativa de estudos desta temática, na população idosa, torna-se um convite para explorar a escassez de pesquisas nessa área, em contraste com a relevância e o impacto sobre tratamentos futuros, abrindo um leque de oportunidades para inovação. Dessa forma, essas novas perspectivas impulsionam o desenvolvimento de novos estudos. Além disso, o ineditismo deste trabalho contribui com a disseminação científica e com subsídios para tomada de decisão clínica.

CONCLUSÃO

A IRA possui elevada incidência em pessoas idosas com covid-19 e está associada à DRC no estágio conservador, internação em UTI e uso de droga vasoativa. Tendo em vista o relevante papel da IRA no curso clínico da covid-19 em pessoas idosas e de seus possíveis desfechos, é imprescindível haver o rastreio dos seus potenciais fatores de risco, bem como a detecção precoce da alteração da função renal nessa população, a fim de implementar estratégias com vistas a otimizar o diagnóstico oportuno e estipular um tratamento buscando medidas que visem dirimir a ocorrência de disfunção renal e suas potenciais complicações.

Logo, é imprescindível haver a elaboração de estudos com foco na detecção precoce de sinais e sintomas da IRA secundária à covid-19 em enfermarias, bem como o desenvolvimento de pesquisas desenvolvidas em UTIs com protocolos que visem adoção de medidas para dirimir o prejuízo da função renal, tendo em vista a relevância e magnitude dessa temática no âmbito biopsicossocial e econômico da pessoa idosa.

  • Não houve financiamento para a execução deste trabalho.
  • DISPONIBILIDADE DE DADOS
    O conjunto de dados que embasa os resultados deste estudo foi disponibilizado no Open Science Framework (OSF) e pode ser acessado em https://doi.org/10.17605/OSF.IO/K2NXF.

REFERÊNCIAS

  • 1 Xavier AR, Silva JS, Almeida JPCL, Conceição JFF, Lacerda GS, Kanaan S. COVID-19: clinical and laboratory manifestations in novel coronavirus infection. J Bras Patol Med Lab [Internet]. 2020; 56:1-9. Disponível em: https://doi.org/10.5935/1676-2444.20200049.
    » https://doi.org/10.5935/1676-2444.20200049
  • 2 Nascimento VA, Oliveira JA, Moreira MNG, Bueno de Oliveira J, Gonzaga VR, Haddad MF. Características clínicas e efeitos da Covid-19 nos pacientes idosos: uma revisão integrativa. Arch Health Invest [Internet]. 2020 Dez 20 [citado 16 Ago 2024]; 9(6): 617-622. Disponível em: http://dx.doi.org/10.21270/archi.v9i6.5268.
    » https://doi.org/10.21270/archi.v9i6.5268
  • 3 Duarte TT da P, Lima WL de, Magro MC da S. Severity of the non-critical patient with hospital acquired acute kidney injury. Research, Society and Development [Internet]. 2022 Nov. 9 [cited 2024 Aug 16]; 11(15): e46111536634. Disponível em: https://doi.org/10.33448/rsd-v11i15.36634.
    » https://doi.org/10.33448/rsd-v11i15.36634
  • 4 Maciel C de G, Vasconcelos EMR, Cavalcanti BRV da S, Lins ENP, Borba AK de OT. Fatores associados à injuria renal aguda em pessoas idosas hospitalizadas: revisão integrativa. Cien Saude Colet [Internet]. 2024 Jun. [citado 16 Ago 2024]. Disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/fatores-associados-a-injuria-renal-aguda-em-pessoas-idosas-hospitalizadas-revisao-integrativa/19296.
  • 5 Pecly IMD, Azevedo RB, Muxfeldt ES, Botelho BG, Albuquerque GG, Diniz PHP, et al. A review of Covid-19 and acute kidney injury: from pathophysiology to clinical results. Braz J Nephrol [Internet]. 2021 May 28; 43(4): 551–571. Disponível em: https://doi.org/10.1590/2175-8239-JBN-2020-0204.
    » https://doi.org/10.1590/2175-8239-JBN-2020-0204
  • 6 Souto EP, Kabad J. Hesitação vacinal e os desafios para enfrentamento da pandemia de COVID-19 em idosos no Brasil. Rev Bras Geriatr Gerontol [Internet]. 2020; 23(5): e210032. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1981-22562020023.210032.
    » https://doi.org/10.1590/1981-22562020023.210032
  • 7 Cuschieri S. The STROBE guidelines. Saudi J Anaesth [Internet]. 2019 Apr.; 13(1):31-34. Disponível em: https://doi.org/10.4103/sja.SJA_543_18.
    » https://doi.org/10.4103/sja.SJA_543_18
  • 8 BRASIL. Ministério da Saúde (MS). Conselho Nacional de Saúde. Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012. Aprova as diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos [Internet]. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 2013 Jun. 12 [citado 16 Ago 2024]. Disponível em: http://conselho.saude.gov.br/resolucoes/2012/Reso466.pdf.
  • 9 BRASIL. Ministério da Saúde (MS). Conselho Nacional de Saúde. Resolução 510, de 7 de abril de 2016. Trata sobre as diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisa em ciências humanas e sociais [Internet].Diário Oficial da União, Brasília, DF, 2016 Mai. 24 [citado 16 Ago 2024]. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/cns/2016/res0510_07_04_2016.html.
  • 10 Li Q, Zhang TY, Li F, Mao Z, Kang H, Tao L, et al. Acute Kidney Injury Can Predict In-Hospital Mortality in Elderly Patients with COVID-19 in the ICU: A Single-Center Study. Clin. Interv. Aging [Internet]. 2020 Nov.; 9(15): 2095-2107. Disponível em: DOI: 10.2147/CIA.S273720.
  • 11 Xu JY, Xie XF, Du B, Tong Z, Qiu H, Bagshaw SM. Clinical Characteristics and Outcomes of Patients With Severe COVID-19 Induced Acute Kidney Injury. J. Intensive Care Med [Internet]. 2021 Dec.; 36(3):319-326. Disponível em: https://doi.org/10.1177/08850666209708
    » https://doi.org/10.1177/08850666209708
  • 12 Xu H, Garcia-Ptacek S, Annetorp M, Bruchfeld A, Cederholm T, Johnson P, et al. Acute kidney injury and mortality risk in older adults with COVID19. J Nephrol [Internet]. 2021; 34(2): 295-304. Disponível em: doi: 10.1007/s40620-021-01022-0.
  • 13 Stille K, Kribben A, Herget-Rosenthal S. Incidence, severity, risk factors and outcomes of acute kidney injury in olders adults: systematic review and meta-analysis. J Nephrol [Internet]. 2022; vol (35): 2237-2250. Disponível em: doi: 10.1007/s40620-022-01381-2.
  • 14 Junior EVS, Costa EL, Matos RA, Cruz JS, Maia TF, Nunes GA, et al. Epidemiologia da morbimortalidade e custos públicos por insuficiência renal. Rev. Enferm UFPE [Internet]. 2019; 13 vol (3):647-54. Disponível em: https://doi.org/10.5205/1981-8963-v13i03a236395p647-654-2019.
    » https://doi.org/10.5205/1981-8963-v13i03a236395p647-654-2019
  • 15 Barbosa IR, Galvão MHR, Souza TA de, Gomes SM, Medeiros A de A, Lima KC de. Incidência e mortalidade por COVID-19 na população idosa brasileira e sua relação com indicadores contextuais: um estudo ecológico: COVID-19 em idosos e fatores contextuais. Rev. Bras. Geriatr. Gerontol [Internet]. 2020; 23(1):e200171. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1981-22562020023.200171.
    » https://doi.org/10.1590/1981-22562020023.200171
  • 16 Tomaz J, Borilli DK, Pereira DKS. A influência da vacinação em pacientes com comorbidades e reincidentes ao vírus da covid-19. Rev Foco [Internet]. 2023; 16(7): e2338. Disponível em: https://doi.org/10.54751/revistafoco.v16n7-019.
    » https://doi.org/10.54751/revistafoco.v16n7-019
  • 17 Cheng Y, Luo R, Wang K, Zhang M, Wang ZX, Dong L, et al. Kidney disease is associated with in-hospital death of patients with COVID-19. Kidney Int [Internet]. 2020; 97(5): 829-838. Disponível em: doi: 10.1016/j.kint.2020.03.005.
  • 18 Fominsky EV, Scandroglio AM, Monti G, Calabro MG, Landoni G, Dell’Acqua A, et al. Prevalence, characteristics, risk factors, and outcomes of invasively ventilated COVID-19 patients with Acute Kidney Injury and Renal Replacement Therapy. Blood Purif [Internet]. 2021; 50(1):102-109. Disponível em: doi: 10.1159/000508657.
  • 19 Russo E, Esposito P, Taramasso L, Magnasco L, Saio M, Briano F. Kidney disease and allcause mortality in patients with COVID19 hospitalized in Genoa, Northern Italy. J Nephrol [Internet]. 2021; 34(1):173-183. Disponível em: doi: 10.1007/s40620-020-00875-1.
  • 20 Duarte TTP, Costa LC, Lima WL, Magro MCS. Influência de fatores clínicos na Lesão Renal Aguda. Cienc. Enferm [Internet]. 2020; 26:6. Disponível em: http://dx.doi.org/10.4067/s0717-95532020000100205.
    » https://doi.org/10.4067/s0717-95532020000100205
  • 21 Poloni JAT, Jahnke VS, Rotta LN. Insuficiência Renal Aguda em pacientes com covid-19. RBAC [Internet]. 2020; 52(2):160-167. Disponível em: doi: 10.21877/2448-3877.20200017.
  • 22 Ng JJ, Luo Y, Phua KY, Choong AMTL. Acute kidney injury in hospitalized patients with coronavirus disease 2019 (COVID-19): A meta-analysis. J Infect [Internet]. 2020; 81(4):647-679. Disponível em: doi: 10.1016/j.jinf.2020.05.009.
  • 23 Dantas LAL, Vieira AN, Oliveira LC de, Araújo ME da S, Maximiano LC de S. Fatores de risco para Lesão Renal Aguda em Unidade de Terapia Intensiva. Research, Society and Development [Internet]. 2021 Mai. 31[citado 2024 Ago 16]; 10(6):e32210615700. Disponível em: https://doi.org/10.33448/rsd-v10i6.15700.
    » https://doi.org/10.33448/rsd-v10i6.15700
  • 24 Souza JMG, Silva FMI. Pacientes de uma UTI do interior de Pernambuco que evoluem com disfunção renal: prevalência e características. Rev. Multi. Sert [Internet]. 2022; 4(4):361-367. Disponível em: DOI:https://doi.org/10.37115/rms.v4i4.453.
    » https://doi.org/10.37115/rms.v4i4.453
  • 25 Kuligoski LR, Ferreira EB, Dias MB, de Oliveira MIL, Faccin TS, Inoue KC, et al. COVID-19: análise do potencial nefrotóxico de medicamentos utilizados em pacientes com lesão renal aguda dialítica. CLCS [Internet]. 2023;16(8):9722-9735. Disponível em: doi: 10.55905/revconv.16n.8-092.
  • 26 Benichel CR, Meneguin S. Fatores de risco para lesão renal aguda em pacientes clínicos intensivos. Acta Paul Enferm [Internet]. 2020;(33):e-APE20190064. Disponível em: http://dx.doi.org/10.37689/acta-ape/2020AO0064.
    » https://doi.org/10.37689/acta-ape/2020AO0064

Editado por

  • Editado por: Camila Alves dos Santos

Disponibilidade de dados

O conjunto de dados que embasa os resultados deste estudo foi disponibilizado no Open Science Framework (OSF) e pode ser acessado em https://doi.org/10.17605/OSF.IO/K2NXF.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Jan 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    24 Abr 2024
  • Aceito
    05 Out 2024
location_on
Universidade do Estado do Rio Janeiro Rua São Francisco Xavier, 524 - Bloco F, 20559-900 Rio de Janeiro - RJ Brasil, Tel.: (55 21) 2334-0168 - Rio de Janeiro - RJ - Brazil
E-mail: revistabgg@gmail.com
rss_feed Stay informed of issues for this journal through your RSS reader
Go to top Report error