Open-access Ser pessoa idosa com síndrome pós-covid-19: estudo qualitativo

Resumo

Objetivo  compreender os sentidos e significado de Ser-pessoa-idosa com síndrome pós-covid-19.

Método  estudo qualitativo, fenomenológico, desenvolvido no Centro Municipal de Referência pós-covid-19, do município de São Luís, Maranhão, Brasil, nos meses de maio a julho de 2022. Foram realizadas entrevistas com dez pessoas idosas. O referencial teórico-filosófico utilizado foi o de Martin Heidegger e o círculo hermenêutico heideggeriano subsidiou a análise e interpretação do fenômeno.

Resultados  As repercussões na saúde física, mental e na funcionalidade colocaram a pessoa idosa diante de uma nova condição, um novo Ser-aí consigo mesmo, com o mundo e com o outro. Resignado à facticidade do existir, o ser-aí lançado em um mundo sem escolhas, conduziu a pessoa idosa a vivência do adoecimento do corpo pela covid-19, deparando-se com a angústia existencial gerada pela dor e sofrimento da sua condição clínica, insegurança e medo em relação ao futuro e da vida daqueles que ama. Buscou-se em “si mesmo” possibilidades de lidar com a doença, revelando ser a portadora do seu próprio cuidado.

Conclusão  A pessoa idosa que vivenciou as circunstâncias do adoecimento foi permeada por sentimentos negativos de insegurança, frustração, tristeza, angústia e solidão que lhes sequestraram o bem-estar, resultando em uma qualidade de vida prejudicada.

Palavras-Chave:
Idoso; Síndrome de Covid-19 Pós-Aguda; Filosofia; Pesquisa Qualitativa

Abstract

Objective  to understand the meanings of the experience of Being an older adult with COVID-related complications.

Method  A qualitative, phenomenological study was conducted at the Post-COVID-19 Municipal Reference Center in the city of São Luís, Maranhão, Brazil, between May and July 2022. Interviews of 10 older adults were carried out. The theoretical-philosophical framework used was that of Martin Heidegger, and the Heideggerian hermeneutic circle supported the analysis and interpretation of the phenomenon.

Results  Six meaning units were identified. The impacts on physical and mental health, and on functioning , forced older individuals into a new context, a new Dasein (form of Being), being-in-the-world and being-with others. Resigned to the facticity of existence, a Dasein thrown into a world without choices, led the older adults to experience the body becoming ill due to COVID-19, facing the existential anguish caused by the pain and suffering of their clinical condition, insecurity and fear for the future and for the lives of their loved ones.

Conclusion  Older adults who experienced the circumstances of illness were permeated by negative feelings of insecurity, frustration, sadness, anguish and loneliness that deprived them of their well-being, resulting in impaired quality of life.

Keywords
Aged; Post-Acute COVID-19 Syndrome; Philosophy; Qualitative Research

INTRODUÇÃO

A síndrome pós-covid-19 caracteriza-se pela presença de sintomas persistentes, quatro semanas após a infecção pelo Sars-Cov 2, independente da gravidade da doença, sendo mais prevalentes os sintomas pulmonares (fadiga, tosse e dispneia), neurológicos (cefaleia, tontura, disfunções olfativas e gustativas e deficit cognitivo) e os cardíacos (lesão miocárdica, fibrose intersticial e hipóxia)1.

É uma condição complexa, que ainda demanda um maior conhecimento, impacta a qualidade de vida e é, claramente, uma preocupação de saúde pública2. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estimou que 10 a 20% das pessoas que se infectaram pelo Sars-Cov 2 apresentaram a síndrome pós-covid-19 e, mais da metade dos pacientes que desenvolveram as formas moderada a grave da covid-19 relataram, pelo menos, uma sequela funcional relacionada a gravidade dos sintomas, comorbidades preexistentes e idade avançada3,4.

O cenário pós-pandemia permanece marcado pelo aumento da suscetibilidade para desfechos desfavoráveis e pela síndrome pós-covid-19. Um estudo realizado em Israel apontou que a maioria (79,8%) das pessoas que desenvolveram síndrome pós-covid-19 tinham mais de 60 anos de idade5. Outro estudo identificou maior mortalidade entre pessoas idosas, hospitalização aumentada, recuperação clínica retardada, comprometimento pulmonar e progressão rápida da doença6. Grande parcela das pessoas com síndrome pós-covid-19, apresenta declínio da qualidade de vida, desempenho prejudicado e dependência para realização das atividades diárias2-7.

Além dos aspectos fisiopatológicos, é importante destacar os aspectos psicossociais. Diante da necessidade do distanciamento social, as pessoas idosas se viram em situação de isolamento, diminuição do convívio com familiares e amigos, exposição a noticiários de mortes, colapsos no sistema de saúde, gerando sentimentos de medo, ansiedade e solidão8. Apesar das ferramentas tecnológicas terem sido amplamente divulgadas com o objetivo de manter a comunicação e aproximar família e amigos, a maioria da população idosa apresenta baixa escolaridade e dificuldade no manuseio desses recursos9.

A interrupção de tratamentos de saúde e atividades de lazer, física, laboral, espiritual, dentre outras, e o medo de contrair a infecção comprometeu o cuidado consigo mesmo, gerando impacto na socialização e na funcionalidade7.

Nesse contexto, as pessoas idosas com a síndrome pós-covid-19 apresentam piora das condições de saúde física, psíquica, social e econômica, o que gera uma demanda de cuidados, de serviços de saúde2 e a necessidade da produção de conhecimento científico sobre as consequências da Covid-19 a longo prazo e como impactam a sua vida. O cenário da pandemia covid-19 trouxe o desafio de ressignificar o cuidado a pessoa idosa, compreendendo que existem diversas realidades para o mesmo grupo populacional. Avaliar essa condição, sob uma perspectiva fenomenológica heideggeriana, traz importantes contribuições para o pensar e fazer na área da saúde, penetrando nos significados do fenômeno e revelando como se manifestam por si mesmo.

Segundo Martin Heidegger10, fenômeno é aquilo que se revela, aquilo que se mostra em si mesmo, é o conjunto (totalidade). Em sua obra “Ser e Tempo” o filósofo descreve que a fenomenologia mostra o “Ser” do ente, seus sentidos, suas modificações. O “ente” é algo que está sendo, são as coisas que podem ser descritas e que existem nesse mundo. O “Ser” diz respeito ao que vem acompanhado de uma consciência, que é capaz de pensar e refletir sobre sua existência, ou seja, o ser humano. E, para designar o “ente” ou a pessoa que possui esse “Ser”, utiliza a palavra “Dasein”, expressão original que permeia toda sua obra e no português significa “Ser-aí”. O Ser-aí refere se ao ser humano colocado no mundo e carregando consigo as várias possibilidades de “Ser”, de poder “Ser”.

Assim, o encontro entre a fenomenologia como método de pesquisa e a intersecção com a Gerontologia colabora para um cuidado que valorize as questões existenciais do Dasein, o Ser-aí em suas diversas dimensões: física, psicológica, social e espiritual, possibilitando um cuidar baseado na compreensão de que a pessoa idosa vivencia de maneira única e particular o seu processo de envelhecimento, de adoecimento, a sua existência. Assim, faz-se necessário reconhecer que o corpo não pode ser visto como uma redução do indivíduo e que a interpretação do mundo que surge intencionalmente à consciência, enfatiza a experiência pura do sujeito.

A fenomenologia de Martin Heidegger10 foi o referencial teórico-filosófico utilizado tendo como reflexão a obra “Ser e Tempo” que se dedica a apresentar o sentido da existencialidade do “Ser”. Sob essa lógica, o estudo objetivou compreender os sentidos e significado de Ser-pessoa-idosa com sequela da covid-19.

MÉTODO

Trata-se de um estudo qualitativo, fenomenológico, tendo como referencial teórico-filosófico a obra “Ser e Tempo” de Martin Heidegger e como referencial metodológico a análise hermenêutica10.

O estudo foi desenvolvido no Ambulatório do Centro Municipal de Referência pós-covid-19, da Secretaria Municipal de Saúde (SEMUS) de São Luís, Maranhão (MA), Brasil. A determinação do tamanho amostral deu-se pelo critério de saturação dos dados e atendimento satisfatório aos objetivos propostos. O período de coleta de dados ocorreu entre maio e julho de 2022. Participaram da pesquisa pessoas idosas (com idade igual ou superior a 60 anos) que frequentaram o ambulatório no período de estudo, foram atendidas por pelo menos dois profissionais, sendo um deles o enfermeiro (a) e apresentaram uma pontuação igual ou superior a um na escala Post-Covid-19 Funcional Status (PCFS), registrada no prontuário do paciente.

A PCFS é um instrumento desenvolvido por um painel de especialistas internacionais com o objetivo de identificar o comprometimento funcional e apresenta graduação que variam de zero a quatro, quanto maior o valor identificado, maior o comprometimento11,12. No grau “zero” a pessoa não apresenta limitações diárias e não tem sintomas como dor, depressão ou ansiedade relacionados à infecção. No grau “um” a pessoa tem limitações insignificantes em sua vida diária, embora tenha sintomas persistentes como dor, depressão ou ansiedade. No grau “dois” a pessoa sofre de limitações diárias e precisa evitar ou reduzir atividades usuais, ou distribuí-las ao longo do tempo devido sintomas, dor, depressão ou ansiedade. No grau “três” não é capaz de realizar as atividades usuais e no grau “quatro” possui graves limitações diárias, não é capaz de se cuidar e depende de outra pessoa devido os sintomas, dor, depressão ou ansiedade13. Ademais, foram excluídas as pessoas idosas que apresentavam demência ou algum deficit cognitivo.

Houve contato prévio por telefone com os participantes e informado sobre os objetivos da pesquisa. As entrevistas foram realizadas por uma das pesquisadoras, enfermeira, cursando mestrado e ocorreram no Ambulatório, de segunda a sexta-feira, nos turnos matutino e vespertino, de acordo com a disponibilidade dos participantes.

A pesquisa foi norteada pelas seguintes questões: Como foi para o (a) senhor (a) ter contraído a covid-19? Quais problemas de saúde que surgiram após a covid-19? Esses problemas de saúde afetam a sua vida? Como afetam? Existe alguma mudança na sua vida que o (a) senhor (a) atribui a covid-19? Fale sobre suas experiências, vivências e sentimentos de Ser-Pessoa Idosa com sequela da covid-19.

A duração das entrevistas foi de aproximadamente uma hora, com o consentimento dos participantes, utilizado um gravador de voz digital para o registro das informações e a pesquisadora esteve atenta às diversas formas de discurso como gestos, pausas e reticências, silêncios e expressões faciais. Um diário de campo foi adotado para anotações dessas percepções e dados complementares que a entrevistadora julgou pertinente. Não houve repetição de entrevista.

As transcrições das gravações foram realizadas na íntegra. Em seguida, três enfermeiras (duas doutoras e uma mestranda), com experiência em estudos qualitativos, chegaram à unidade de significação. Inicialmente foi realizada uma leitura flutuante que depois tornou-se mais precisa, mediada pelas hipóteses emergentes, recortes do texto, seleção de conteúdo e, por consenso das pesquisadoras, foram identificadas as unidades de significado, confrontando com o referencial teórico-filosófico e o pertinente na literatura.

O círculo hermenêutico heideggeriano subsidiou a análise e interpretação do fenômeno, composto por três fases: pré-compreensão, compreensão e interpretação. Na pré-compreensão são abandonados posicionamentos estruturados, concebidos, ou pré-conceitos, suprimindo julgamentos. A compreensão é evidenciada pelo fenômeno expresso e de modo vago, permanecendo na instância ôntica, dos fatos. E, na interpretação o fenômeno é envolto para além do ôntico, no sentido do ser, o seu caráter ontológico (hermenêutico)11,12.

Para assegurar o anonimato dos participantes, as pessoas idosas são apresentadas por meio do código “PI” (Pessoa Idosa) acompanhada do número que a identifica na pesquisa. Em atendimento à Resolução nº 466/12 do Conselho Nacional de Saúde13, o projeto foi encaminhado para apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) do Hospital Universitário da Universidade Federal do Maranhão e recebeu parecer favorável nº 5.241.776, de 14 de fevereiro de 2022.

RESULTADOS

Das 45 pessoas idosas que tiveram o preenchimento da PCFS, 22 obtiveram a pontuação igual ou maior a um, e dez pessoas idosas participaram da entrevista. A maioria dos participantes foi do sexo masculino (seis); idades entre 62 e 77 anos; casados (sete) e metade possuía renda de até um salário-mínimo (cinco). Foram identificadas seis unidades de significado e significação: O ser-doente-com síndrome pós-covid-19; O Ser-físico com síndrome pós-covid-19; O Ser-psicológico com síndrome pós-covid-19; O Ser-dependente com síndrome pós-covid-19; O Ser-com com síndrome pós-covid-19 e o O Ser-espiritual com síndrome pós-covid-19.

O Ser-doente com síndrome pós-covid-19

As vivências compartilhadas evidenciam que, passada a fase aguda da doença, e à medida que a pessoa idosa reconhece a presença e persistência da síndrome pós-covid-19, existe uma mudança na relação com seu corpo e com o mundo em que está inserido, uma experiência que altera o estar-no-mundo, que até então, era conhecido:

“Eu não fiquei bom. Fiquei com sequelas, bastante graves, cansaço, moleza, febre, calafrio, ânsia de vômito, dor de cabeça (…) até hoje não consegui ficar totalmente bom das sequelas que eu tenho” (PI 1);

“Fiquei cansada demais, não posso nem caminhar que fico cansada. É muito ruim esse problema, vivo com esses problemas até hoje, nunca fiquei boa. Já fui no médico, fiz exame, mas não melhorei não, fiquei com uma dor no braço também, já tomei injeção, medicação, fiz fisioterapia. Mas não consigo levantar muito o braço” (PI 3).

O Ser-físico com síndrome pós-covid-19

O seu ser no mundo fica fragilizado e as atividades de vida diária foram transformadas em verdadeiras provações, demandando da pessoa idosa possibilidades e tentativas de superação:

“Eu não sou mais como era antes. Eu começava a fazer minhas coisas de manhã e só parava cinco horas da tarde, eu ia direto e agora eu não posso mais. Fico cansada, desanimada… menina, eu fiquei com tanto problema que Deus me livre” (PI 3);

“Cheiro, nunca mais senti... ficou ruim, ainda fiz tratamento com a fonoaudióloga, o gosto também é pouco. Eu sinto, mas tem coisas que sinto mais e outras não. E cheiro, quando eu sinto o cheiro...” (PI 5).

O ser-físico com a síndrome pós-covid-19 percebe-se incomodado pela nova condição clínica do quadro, o que ocasiona mudanças em sua vida diária e sentimentos perturbadores, que lhe furtam a tranquilidade e preenchem seu cotidiano de inseguranças quanto ao futuro, resultando em uma qualidade de vida prejudicada.

O Ser-psicológico com síndrome pós-covid-19

Revela-se como um processo angustiante e temor pela vida das pessoas importantes, o que exige suporte adequado:

“Sinto muita solidão por viver só e com a pandemia, piorou. Eu fiquei isolada porque não tinha ninguém pra ficar comigo. Quando estava doente, meu filho não teve coragem de chegar perto de mim. Isso me magoou bastante” (PI 2);

“Fiquei muito nervosa, irritada, tudo eu brigo dentro de casa (risos), me irrito fácil, sem paciência. Choro com facilidade, sem motivo às vezes. Eu não era assim não” (PI 3);

"O que surgiu mesmo depois da covid foi a questão do humor. Uma irritabilidade, sou impaciente demais. Eu fico irritado, chateado, triste” (PI 7).

Os sintomas presentes na síndrome pós-covid-19 podem levar a pessoa a um comprometimento físico mais intenso, afetando as atividades laborais, e, consequentemente, a condição econômica. A incapacidade de retorno ao trabalho e a perda do rendimento familiar vivenciado, foi uma realidade durante a pandemia, que agrava as desigualdades sociais e de saúde, causando grande sentimento de tristeza e afetando a esperança de uma vida saudável:

Foi uma época muito difícil, eu perdi o emprego, minha filha perdeu o emprego, meu genro também e ainda fui assaltado no meio da rua com a pistola na cabeça…aí quando você junta com os problemas normais do dia a dia, vai acumulando junto com a doença e aí gera uma carga e essa carga te maltrata” (PI 8).

Nessa perspectiva, foi desvelado o medo da morte. A percepção da finitude e a insegurança em relação ao seu desfecho clínico gerou sentimento de medo e desespero, culminando em angústia:

“Eu tive medo de morrer, um medo muito grande porque como a gente via todo tempo as pessoas morrendo, a gente achava que poderia ser também a nossa vez, né?” (PI 5);

“Ainda teve as mortes, as pessoas próximas da gente que morreram, um sobrinho, vizinhos… isso tudo vai mexendo com a mente da gente. Essa covid acabou com a gente” (PI 3).

O Ser-dependente com síndrome pós-covid-19

A capacidade funcional da pessoa idosa também é afetada pela síndrome pós-covid-19, a medida em que prejudica a realização das atividades diárias, antes desempenhadas com tranquilidade, representando mais um desafio a esse grupo etário:

“Hoje eu vivo com muita dor atrapalhando tudo que faço. As minhas pernas são como se estivesse, todo tempo, paralisadas. De manhã, quando amanheço é insuportável, quase não consigo colocar os pés no chão, dificultando até eu caminhar” (PI 5);

“Perdi a força pra carregar e sinto muita dor na coluna, devido aos problemas que tenho. E, se eu digo uma coisa agora, duas horas depois não sei mais o que eu disse. Esse esquecimento surgiu também depois da covid” (PI 6).

O impacto da síndrome pós-covid-19 na funcionalidade do Ser-pessoa-idosa alcança um nível que exige um processo de volta a si mesmo, de ressignificações, com estabelecimento de novas prioridades a partir da condição clínica. A síndrome pós-covid-19 compromete significativamente sua vida cotidiana gerando dificuldades frente a nova condição:

“Depois que contraí o coronavírus, ele me deixou essa sequela de não poder ser a mesma pessoa, de não poder fazer as mesmas coisas que fazia antes” (PI 1);

“Eu esqueço de tudo. Se eu sair do meu quarto pra pegar um remédio, eu chego na cozinha, que é praticamente porta a porta, eu já não sei o que eu fui fazer. Aí tenho que voltar pro meu quarto, aí já não sei mais o que fui fazer também. Isso tá acontecendo desde que peguei essa covid” (PI 6);

“E agora estou com dificuldades tanto para realizar minhas atividades por conta da minha mobilidade que ficou prejudicada depois da covid” (PI 7).

O ser-dependente com síndrome pós-covid-19 enfrenta uma realidade de insegurança e fragilidade, tendo seu mundo modificado pelos impactos na capacidade funcional e, portanto, exigindo que encontre novas formas de coexistir. A fragilidade advinda da mudança na sua forma de ser-no-mundo, a situação atinge um nível de grande angústia e necessidade de ressignificação nas formas de ser-aí-no-mundo e ser-com-os-outros. O que outrora era normal, parte do cotidiano, assume uma dimensão de incerteza, insegurança e angústia quando se analisa as possibilidades de perda que o vírus provoca.

O ser-com com síndrome pós-covid-19

A rede de apoio familiar e social desvelou o Ser-com como medida de apoio e suporte nesse momento desafiador. Mesmo em meio a uma pandemia, em que as orientações dos órgãos sanitários são pelo distanciamento social como medida de prevenção, os arranjos familiares onde o idoso está inserido podem se caracterizar como algo benéfico:

“Apresento várias sequelas da covid até hoje: coceira, ardor, e como já tinha lesões no tornozelo esquerdo e joelho direito elas se acentuaram né... eu sempre fui ativo, nuca fui de ficar parado... eu quero fazer as coisas, mas canso e isso chateia a gente” (PI 7);

“Uma situação mais calma e me traz um problema muito grande porque eu moro só, graças à Deus eu tenho essa amiga que estava acompanhando ele que é muito preocupada comigo e talvez isso tá me dando mais de força” (PI 1);

“Ela (a filha) tem muita preocupação comigo. Todo dia eu agradeço a Deus pela família que eu tenho. Graças a Deus sempre me ajuda demais. Se não fosse eles, hoje estava perdido” (PI 6).

O apoio familiar e de amigos é importante na superação das adversidades geradas pela pandemia, principalmente para os idosos.

A presente unidade de significado revelou O ser-com com sequela da covid-19 como possibilidade da transcendência sobre si e sobre o mundo e à manifestação do ser como possibilidade de ressignificação no cenário pós-covid-19, evidenciando que a dimensão do ser-com-os outros constitui um aspecto da existência do ser humano essencial no enfrentamento de situações de adversidades e sofrimentos.

O ser-espiritual-com síndrome pós-covid-19

Um caminho encontrado no enfrentamento dessa realidade foi a vivência da espiritualidade, que compreende práticas de grande relevância, pois oferece suporte, aceitação e superação, principalmente em momentos estressores. Isso pode ser observado nas falas a seguir:

“Tem dia que tenho medo até de sair de casa… aí respiro fundo e fico pensando na minha vida, pedindo força pra Deus, respirando, pego meu terço, fico rezando, peço pra Deus tirar isso de mim” (PI 2);

“Eu sou uma pessoa que tenho muita fé. Eu gosto de orar, eu gosto de conhecer a palavra de Deus (…) Hoje, lembrando a minha vivência, Deus me resgatou do fundo do poço, porque eu me senti nas trevas e fui transportado pra luz” (PI 4).

O contexto pandêmico leva a diminuição de funções, perdas e desafios para a vida do idoso, como o surgimento de doenças, fazendo-os adotar mecanismos de enfrentamento para se adaptar às mudanças e novos cenários de vida. A espiritualidade é relatada pelos entrevistados como um recurso importante utilizado para superar o quadro clínico O ser-espiritual com síndrome pós-covid-19 garantiu a pessoa idosa a oportunidade de ressignificar percepções negativas das novas possibilidades de ser e transcender.

DISCUSSÃO

A situação vivenciada desvela que o Ser-pessoa-idosa-com síndrome pós-covid-19 é caracterizado por impactos negativos nas suas capacidades funcionais, bem-estar físico, psicológico e qualidade de vida14. A dor, tristeza, incômodos, alterações na forma de viver e perda de significado para a existência15, que desvelam facetas de um modo de ser sofrido, inseguro quanto ao futuro, pautado no isolamento, revelando a facticidade do ser-aí, lançado no mundo. A pessoa idosa percebe-se incomodada pela nova condição, o que ocasiona mudanças em sua vida diária e sentimentos perturbadores, que lhe furtam a tranquilidade e preenchem seu cotidiano de inseguranças.

A “dor de ser” refere-se à angústia existencial. A angústia é a demonstração de um ente para o ser lançado num mundo fundamentalmente inusitado, perturbador, preocupante e, até mesmo, ofensivo. Nesse contexto, o Dasein sente-se um estranho, até mesmo intruso e acaba sendo afetado por sentimentos de desconfiança, vulnerabilidade, inquietação e estresse que se confronta com o próprio ser15,16.

A angústia experienciada esteve presente nos discursos de quase todas as unidades de significado, desvelando-se em um sofrimento significante. Isso é perceptível nos relatos de dor, desespero, preocupação, insegurança, solidão e incertezas.

O cenário pós-covid-19 inclui o medo do desconhecido, medo da morte, estresse, sintomas de depressão, ansiedade, insônia, o que gera um maior risco ao suicídio17. O Ser-psicológico-com síndrome pós-covid-19 desvela-se como um Ser abalado, principalmente, pelo isolamento social, mudanças de humor, medo da morte e luto18.

Durante a pandemia da covid-19, as pessoas idosas apresentaram sintomas depressivos associados a diferentes fatores, o que suscitou o medo de morrer, de perder um amigo ou um ente querido e que provocou sentimentos de desesperança em algumas pessoas fazendo com que essas sentissem sem vontade de viver19. A finitude se apresenta muito próxima da realidade e se torna sufocante, contudo, é na perda concretizada que se revela a dor mais profunda.

A pandemia agravou o isolamento familiar e social. Os relacionamentos expressivos, valorosos e a rede de apoio configuram como os maiores preditores de satisfação com a vida e de longevidade, contribuindo para o pleno bem-estar físico, mental e social20. As relações sociais e familiares funcionam como recursos de enfrentamento das tribulações, facilitando a aceitação e adaptação à nova situação, o que proporciona acolhimento e bem-estar. São ferramentas que oportunizam a criação de laços importantes para a pessoa idosa, no fortalecimento dos relacionamentos e criação de um sentimento de pertencimento e suporte emocional a estes, além de contribuir para a melhora na saúde mental 21.

Para o filósofo10 estamos lançados no mundo desde o momento em que nascemos. Isso quer dizer que sempre estamos como Daseins projetados em uma direção, e desta forma, nos encontramos dispostos de diferentes maneiras. Estamos sempre lançados em direção à nossa morte. Na medida em que existimos, somos sempre ser-para-a-morte. Somos um projeto finito, pois podemos morrer a qualquer momento e isso é para nós uma realidade certa e incontestável22.

Assim, abre-se para a possibilidade da transcendência sobre si e sobre o mundo que pertence à constituição ontológica do seraí. Segundo o pensamento heideggeriano, a transcendência é reconhecida como a superação ao vivenciar a angústia, é a condição mais imediata de possibilidade da compreensão de ser, na perspectiva ontológica10, 23.

Enfrentar um processo de adoecimento com diversas repercussões negativas na vida como um todo potencializa as inseguranças, tristeza, temores e ansiedade. Além disso, o próprio envelhecimento leva a alterações fisiológicas como parte de um processo natural e progressivo vivenciado por todo ser, que resultam em modificações no organismo. É singular, subjetivo e apresenta constantes mudanças nos aspectos comuns na vida, como a relação com outras pessoas, fatores biopsicossociais e culturais24.

A espiritualidade está relacionada a compreensão da essência, sentido e finitude da vida, a uma questão universal sobre o sagrado e divino, o que pode ou não levar a uma prática religiosa. Esta pode funcionar “como um recurso interno do indivíduo, que pode ser acionado pelo contato com a natureza, com as artes, com a experiência de doação de si ou com o engajamento em causas que visam ao bem coletivo”21.

A espiritualidade configura-se como importante estratégia de enfrentamento que colabora e causa efeitos benéficos na saúde física, mental, social e no bem-estar dos idosos, e no enfrentamento do processo de envelhecimento, enfermidades ou eventos estressores, como o cenário pandêmico da covid-19 vivenciado por toda população mundial25. Só podemos viver em nosso próprio tempo, aceitando suas dádivas e lutando contra as ameaças26.

No cenário vivenciado, o sentido de existir é, de maneira abrupta e continuada, “ajustado” a cada nova vivência. Essa transformação da existência motivada pelo surgimento da pandemia, desconhecida e que provoca sequelas a longo prazo, se comunica com o que o filósofo chama de facticidade, que é “a designação para o caráter ontológico do ser-aí em cada ocasião, ou seja, é aquele aspecto da existência humana que é definido pelas situações em que nos encontramos, o “facto” que somos forçados a confrontar. A facticidade é vista como constituinte básico do Dasein, que se desvela no horizonte do tempo e que nos coloca novas possibilidades de ser-no-mundo 10.

Na circunstância imprevisível que se experiencia, a síndrome pós-covid desvela-se como um ser-aí é aprisionado à facticidade. Por isso, o Dasein passa a sofrer com a dor de ser e todos nós, em algum momento, podemos sentir a dor de ser. A sensação é a de ser estrangeiro em nossa própria vida, com a invasão de um vazio e perda de significado para a existência26,27.

Durante esse processo, cada pessoa idosa mergulhou na essência de suas vivências, aproximando-se da consciência que permitiu o acesso ao fenômeno. Nessa perspectiva, compreende-se que o cuidado voltado deve ser individualizado, trazendo essas vivências como centro da questão e como processos singulares. Portanto, trazer a fenomenologia para a ciência, no que se refere ao cuidado de pessoas idosas no pós-covid-19 é permitir um olhar ao vivido por elas e como se deu esse processo de adoecimento, respeitando suas singularidades, e ampliando o olhar em direção a uma abordagem multidimensional.

A atenção a pessoa idosa implica na construção de um novo paradigma das práticas de saúde, na medida em que demanda a ampliação do olhar em relação ao modelo vigente focado na doença e na cura28. Constatamos a necessidade de ressignificar as ações de assistência a pessoa idosa, considerando a diversidade do envelhecimento e da vivência dos fenômenos, oportunizando desvelar outras realidades.

CONCLUSÃO

Compreendemos que o sentido de ser-pessoa-idosa na síndrome pós-covid-19 desvela-se como resignada à facticidade do existir. Em uma instância ôntica, a facticidade do ser-aí lançado em um mundo sem escolhas, conduziu o ente idoso para a vivência do adoecimento do corpo pela covid-19, deparando-se com a angústia existencial, inseguranças em relação ao desfecho clínico e medo da própria morte e daqueles que ama.

Passada a fase aguda da doença, inicialmente o Ser-pessoa-idosa com síndrome pós-covid-19 desvelou-se incomodado com essa nova realidade. As repercussões na saúde física, mental e na funcionalidade colocaram o ente pessoa idosa diante de uma nova condição, um novo Ser-aí consigo mesmo, com o mundo e com o outro. Ao deparar-se com um corpo e mente com limitação o idoso se viu diante de transformações em sua vida diária, despertando sentimentos perturbadores como insegurança, frustração, tristeza, angústia e solidão, que lhes sequestraram o bem-estar, resultando em uma qualidade de vida prejudicada.

O enfrentamento de uma realidade com fragilidade foram fatores de risco para a instalação de quadros de depressão, ansiedade, insônia, comprometimento cognitivo e impactos na capacidade funcional, levando-os a alteração significativa em seu mundo. Constatou-se que a espiritualidade e a rede de apoio familiar e social constituíram importantes ferramentas de enfrentamento das adversidades, facilitando a aceitação e adaptação à nova situação, o que oportunizou a ressignificação das vivências, o estabelecimento de laços valorosos, viabilizando, assim, a resiliência, melhora do bem-estar e da qualidade de vida.

A síndrome pós-covid-19 constitui-se em um desafio para os profissionais e serviços de saúde, no restabelecimento das capacidades das pessoas idosas e na integralidade do cuidado, sob a perspectiva da plenitude da existência humana.

Que este estudo possa contribuir para a conscientização de estabelecer novas estratégias de cuidado à população idosa, fomentando outras pesquisas.

  • Financiamento da Pesquisa: PROGRAMA NACIONAL DE COOPERAÇÃO ACADÊMICA NA AMAZÔNIA-Edital Nº 21/2018- Procad Amazônia (processo Nº 88881.200531/2018-01)
  • DISPONIBILIDADE DE DADOS
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente.

REFERÊNCIAS

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Editado por

  • Editado por: Isac Davidson S. F. Pimenta

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Jan 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    19 Mar 2024
  • Aceito
    03 Out 2024
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