Open-access Incidência de hipertensão arterial e desfechos na população idosa de São Paulo: estudo de coorte SABE

Resumo

Objetivos  Estimar a incidência cumulativa de hipertensão arterial (HA) em um período de seis anos, identificar fatores de risco e desfechos associados relacionados à HA na população idosa da cidade de São Paulo.

Métodos  Este estudo longitudinal utilizou dados da Pesquisa SABE - Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento, com amostra probabilística representativa de pessoas idosas residentes na cidade de São Paulo. A coleta de dados ocorreu em 2010 e 2016. Modelos de regressão de Poisson foram empregados para avaliar os fatores de risco para a incidência de hipertensão em 2016 e para analisar a associação entre as categorias de hipertensão em 2010 e os desfechos de saúde no período 2010-2016.

Resultados  Entre as pessoas idosas normotensas em 2010, 36,1% desenvolveram HA até 2016. A incidência de HA associou-se positivamente à idade ≥75 anos, pré-hipertensão, doença coronariana, hipercolesterolemia e diabetes. A baixa filtração glomerular foi o desfecho de saúde mais observado em 2016 entre os hipertensos. Hipertensão não controlada e hipertensão resistente aparente foram associadas à incidência de sintomas depressivos e redução da taxa de filtração glomerular no período de seis anos, respectivamente.

Conclusões  A incidência de hipertensão foi elevada na população idosa de uma megalópole de um país em desenvolvimento. O descontrole da pressão arterial foi associado a resultados adversos de saúde clínica e psicológica ao longo do tempo. Os fatores observados neste estudo devem ser foco de estratégias preventivas implementadas pelos serviços de saúde e pelas políticas públicas.

Palavras-Chave:
Estudos De Coortes; Incidência; Pessoa Idosa; Hipertensão Arterial; Doença Crônica

Abstract

Objectives  The aim of this study was to estimate the cumulative incidence of arterial hypertension (AH) over a six-year period and to identify its risk factors and associated outcomes in older adults living in São Paulo, Brazil.

Methods  This longitudinal study utilized data from the SABE - Health, Well-being and Aging Survey of a representative probabilistic sample of older adults in the city of São Paulo. Data collection took place in 2010 and 2016. Poisson regression models were employed to assess risk factors for hypertension incidence in 2016 and to analyze the association between hypertension categories in 2010 and health outcomes throughout the 2010-2016 period.

Results  The prevalence of hypertension in 2010 was 80.4% and the incidence in 2016 was 36.1% among older adults who were normotensive in 2010. Significant positive associations were identified with age ≥75 years, prehypertension, coronary heart disease, hypercholesterolemia, and diabetes. The incidence of low glomerular filtration was the most observed health outcome in 2016 among hypertensive individuals. Uncontrolled and apparent resistant hypertension were associated with the incidence of depressive symptoms and low glomerular filtration rate over the six-year period, respectively.

Conclusions  The incidence of hypertension was high among older adults from a megalopolis of a developing country. Uncontrolled blood pressure was associated with adverse clinical and psychological health outcomes over time. The factors observed in this study should be the focus of preventive strategies implemented by healthcare services and public policies.

Keywords
Cohort Studies; Incidence; Aged; Hypertension; Chronic Disease

Introdução

A hipertensão arterial (HA) afeta uma proporção considerável da população adulta mundial, particularmente em contextos socioeconomicamente desfavorecidos, representando um desafio significativo para a saúde pública devido às suas baixas taxas de controle entre pessoas idosas1-3. Estima-se que aproximadamente 60% da população mundial com 60 anos ou mais tenha hipertensão, sendo essa prevalência maior que 70% nos octogenários3,4. Estudos de prevalência no Brasil mostram que as principais características associadas à HA são o sexo feminino, ter 70 anos ou mais, cor da pele não branca e ter doenças crônicas preexistentes5.

Níveis elevados de pressão arterial (PA) durante a vida estão associados ao aumento de risco para desfechos de saúde fatais e não fatais6, mas ainda há escassez dados epidemiológicos populacionais sobre a incidência de HA, particularmente em países de baixa e média-baixa renda. Até o momento, apenas um estudo de coorte no Brasil7 investigou especificamente a incidência de HA em pessoas idosas, e não foi identificado nenhum estudo de coorte que avaliou a associação entre HA e desfechos além da mortalidade8.

Este estudo teve como objetivo estimar a prevalência de HA entre indivíduos com 60 anos ou mais residentes na cidade de São Paulo, a incidência cumulativa de HA ao longo de um período de seis anos entre aqueles inicialmente normotensos, identificar seus fatores de risco e avaliar a associação entre os níveis de HA em 2010 e a incidência de desfechos de saúde fatais e não fatais em 2016.

METODOLOGIA

Desenho e população do estudo

Este estudo longitudinal utilizou dados do “Estudo SABE – Saúde, Bem-estar e Envelhecimento”, um estudo de coortes múltiplas iniciado em 2000, com uma amostra probabilística de pessoas idosas (≥60 anos) residentes na cidade de São Paulo. Foram utilizados os dados coletados em 2010 e 2016, quando as medidas de PA foram introduzidas. Foi empregada uma abordagem de amostragem por conglomerados em dois estágios, com conglomerados alocados proporcionalmente com base no tamanho do setor censitário e residência9.

Todas as informações referentes ao tamanho amostral, métodos e pesos amostrais das ondas do estudo podem ser encontradas em Lebrão9. Na primeira onda, o número de participantes foi proposto pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) para o estudo multicêntrico (n=1500), além da sobreamostragem de idosos com 75 anos ou mais. Para o cálculo do tamanho amostral da coorte B em 2006, foi considerada a prevalência de hipertensão em 2000 (50%); o efeito do delineamento igual a 1,5; e margem de erro de 7%. Para a coorte C em 2010, foi utilizado o mesmo processo anterior, considerando a população de 60 a 64 anos em 2010 (413.563), conforme dados do censo9. Dos 2.143 idosos entrevistados em 2000 (coorte A00), 1.115 pessoas foram localizadas e avaliadas novamente em 2006 (coorte A06) e 748 em 2010 (coorte A10). Além da reavaliação da coorte A nas ondas de estudo seguintes, o estudo SABE incluiu novas coortes de pessoas de 60 a 64 anos residentes na área urbana de São Paulo nos anos de 2006 (coorte B06 n=298 em 2006, reavaliados em 2010 - B10 n=230) e 2010 (coorte C10 n=356). Uma nova coorte de pessoas de 60 a 64 anos foi incluída na quarta onda (2016), porém, elas não estão incluídas nessa análise. Para o presente estudo, foram utilizados dados de participantes das coortes A10, B10 e C10, pois foram reavaliadas em 2016. Os pesos amostrais foram calculados em 2010 para que os entrevistados representassem a população idosa da cidade de São Paulo em 2010, de acordo com informações censitárias.

Profissionais treinados realizaram visitas domiciliares para aplicação do questionário. Amostras de sangue foram coletadas e avaliações físicas foram realizadas, incluindo três medidas de PA. A PA foi medida usando um monitor de pressão digital HEM-75CP Intellisense após o repouso inicial de 5 minutos. Os indivíduos foram instruídos sobre a posição apropriada para realizar a medida da PA, e três medidas foram feitas, com um intervalo de um minuto entre cada uma.

O tamanho do manguito utilizado foi escolhido de acordo com a circunferência do braço do participante. A primeira medida de PA foi excluída, e o valor final da PA foi a média das duas últimas medidas. Em relação à circunferência da cintura, uma fita métrica padrão foi posicionada entre a crista ilíaca e as costelas inferiores. Para o procedimento, o indivíduo ficou em pé, com as pernas afastadas, abdômen relaxado e braços estendidos ao longo do corpo. Foram feitas três medidas, e a média foi usada como valor final.

O Estudo SABE (Saúde, Bem-estar e Envelhecimento) obteve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo para todas as ondas de coleta de dados. Os dados utilizados neste estudo foram aprovados sob os protocolos nº 2.044 (2010) e nº 3.600.782 (2016). Todos os participantes ou seus responsáveis forneceram consentimento informado por escrito previamente aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, e suas informações pessoais foram tratadas como confidenciais.

Variáveis

Hipertensão arterial: A ausência de HA em 2010 foi determinada pela resposta negativa à pergunta “Algum médico ou enfermeiro já disse que você tem hipertensão?”, PA média <140/90mmHg e ausência de uso de medicação anti-hipertensiva segundo o Anatomical Therapeutic Chemical Classification System (ATC)10. Indivíduos normotensos apresentaram pressão arterial sistólica (PAS) <130mmHg e pressão arterial diastólica (PAD) <85mmHg, enquanto indivíduos pré-hipertensos apresentaram PAS entre 130 e 139 e PAD entre 85 e 89mmHg.

Os indivíduos hipertensos foram classificados de acordo com as Diretrizes Brasileiras de HA11: Estágio 1 (PAS 140-159 e/ou PAD 90-99mmHg), Estágio 2 (PAS 160-179 e/ou PAD 100-109mmHg) e Estágio 3 (PAS≥180 e/ou PAD≥110mmHg). Hipertensão controlada (HC) foi definida como indivíduos hipertensos com PA <140/90mmHg.

Casos incidentes de HA foram identificados em indivíduos sem HA em 2010 por meio do diagnóstico relatado, PA média ≥140/90 mmHg ou uso de medicação anti-hipertensiva em 2016.

Para analisar a associação da HA com os desfechos, os indivíduos foram classificados de acordo com sua PA em 2010: normotensos (normal/pré-hipertensos), controlados (PA < 140/90 mmHg em hipertensos), não controlados (PA ≥ 140/90 mmHg) e hipertensão resistente aparente (HRA) (PA ≥ 140/90 mmHg, em uso de ≥ 3 classes de anti-hipertensivos, ou ≥ 4 classes de anti-hipertensivos independentemente da PA)12.

As características sociodemográficas avaliadas foram sexo, idade (60-74, ≥75 anos) e anos de escolaridade (0-3, 4-7, ≥8).

As características de saúde avaliadas foram presença de diabetes mellitus (glicemia relatada e/ou em jejum ≥126 mg/dl e/ou hemoglobina glicada ≥6,5%), doenças coronarianas e cerebrovasculares (relatadas), hipercolesterolemia isolada (colesterol LDL>160 mg/dl e/ou uso de hipolipemiantes), triglicerídeos elevados (níveis em jejum >150 mg/dl), ácido úrico elevado (>7 mg/dl em homens e >5,7 mg/dl em mulheres)11, declínio cognitivo (≤12 pontos no miniexame do estado mental (MEEM), adaptado para o Estudo SABE)13, redução da taxa de filtração glomerular (TFG) (<60 mL/min/1,73 m2, estimada pela equação de creatinina CKD-EPI)14 e presença de sintomas depressivos (pontuação ≥ 6 na Escala de Depressão Geriátrica (EDG) com 15 itens)15.

A antropometria e os hábitos de vida avaliados foram: histórico de tabagismo (nunca fumou, fumantes/ex-fumantes), consumo de álcool (sim/não), atividade física (suficientemente ativo se ≥150 minutos de atividade física moderada e/ou vigorosa por semana de acordo com o Questionário Internacional de Atividade Física – IPAQ)16 e circunferência da cintura (CC) elevada (>102 cm para homens e >88 cm para mulheres)11.

A utilização dos serviços de saúde foi avaliada por meio do relato de consultas médicas (sim/não) e internação por hipertensão (sim/não) no ano anterior.

Os desfechos de saúde examinados incluíram eventos coronários ou cerebrovasculares recentemente notificados em 2016 ou óbitos registrados entre 2010 e 2016, correspondentes aos códigos do CID-10 I25, I25.0, I25.1, I25.2, I25.3, I25.4, I25.5, I25.6, I25.8 e I25.9, I21, I21.0, I21,1, I21.2, I21.3, I24.4 e I21.9, I63.9, I69.3, I64 e I69.4 no Programa de Aprimoramento de Informações sobre Mortalidade da Prefeitura Municipal de São Paulo17. Mortes por causas externas ou desconhecidas foram excluídas das análises. Outros desfechos avaliados foram declínio cognitivo (pontuação <12 no MMSE em 2016 para indivíduos que pontuaram ≥12 em 2010), sintomas depressivos (pontuação ≥6 no GDS em 2016 em indivíduos que pontuaram <6 em 2010) e TFG reduzida (<60 mL/min/1,73m² em 2016 em indivíduos com TFG ≥60 em 2010).

Análise Estatística

Dos 1.344 participantes avaliados inicialmente em 2010, 308 faleceram, 200 se recusaram a participar, não foram localizados, mudaram de endereço ou foram institucionalizados, restando 836 participantes que foram reavaliados em 2016. Dos 1.344 participantes iniciais, 229 eram normotensos em 2010, e 152 permaneceram no estudo até 2016, constituindo a amostra para estimar a incidência cumulativa de HA. Para garantir a representatividade da população dentro da amostra, todas as análises incorporaram pesos amostrais calculados para o Estudo SABE em 2010, e proporções ponderadas são relatadas. As comparações de grupo foram conduzidas usando o teste qui-quadrado de Rao-Scott.

A análise de regressão de Poisson foi utilizada para avaliar a associação entre a incidência de HA (referência: participantes normotensos em ambas as ondas) e as variáveis independentes medidas em 2010. As variáveis com valor de p < 0,20 na análise univariada foram incluídas no modelo de regressão múltipla. Foi adotado intervalo de confiança de 95% (IC95%). O modelo inicial incluiu idade, escolaridade, nível de PA, CC, triglicerídeos, diabetes, doenças coronarianas, hipercolesterolemia, consulta médica no último ano e consumo de álcool, ajustados por sexo. Para a análise de regressão, utilizou-se a técnica stepwise backwards, mantendo as variáveis que modificaram em ≥10% nos coeficientes beta de outras variáveis no modelo após sua remoção.

A regressão de Poisson também foi usada para avaliar a associação entre HA em 2010 e a incidência de desfechos em 2016. Os modelos brutos incluíram inicialmente categorias de HA (exposição) e desfecho específico, seguidos pela adição de variáveis demográficas, socioeconômicas e de saúde para posterior ajuste.

RESULTADOS

No início do estudo, 96 participantes não tinham dados completos sobre autorrelato ou medidas de PA e, portanto, foram excluídos das análises a seguir. Em 2010, a prevalência de hipertensão entre pessoas idosas residentes em São Paulo foi de 80,4%, com 33,8% de hipertensão controlada, 38,7% de hipertensão não controlada (HNC) e 7,9% de hipertensão resistente aparente. Indivíduos hipertensos eram mais velhos, tinham menor nível educacional e aqueles com HRA apresentaram maior prevalência de diabetes, hipercolesterolemia e CC elevada (Tabela 1).

Tabela 1
Descrição inicial das principais características de vida e saúde, segundo as categorias de hipertensão arterial (HA), de idosos residentes em São Paulo em 2010. São Paulo, SP, 2010.

O estágio mais comum de hipertensão observado em 2010 foi o estágio 1, mais prevalente entre indivíduos com HNC, enquanto aqueles com HRA apresentaram maior frequência do estágio 2. Aproximadamente um quinto das pessoas com HRA relatou pelo menos uma hospitalização devido à hipertensão no ano anterior, o dobro da taxa de indivíduos com HC e HNC (Tabela 1).

Um terço dos indivíduos mais velhos com HNC em 2010 não estava tomando nenhum medicamento, enquanto metade daqueles com HC estava tomando ≥2 medicamentos para atingir o controle adequado da PA. Diuréticos e inibidores da enzima conversora de angiotensina (ECA) foram comumente usados em todas as categorias de hipertensão (38,5% e 39,5% respectivamente). Os inibidores da ECA estavam em uso por 45,8%, 29,6% e 84,4% dos indivíduos com HC, HNC e HRA, respectivamente. Entre aqueles com HRA, 73% utilizavam bloqueadores dos canais de cálcio.

Entre os indivíduos mais velhos sem hipertensão em 2010, 73% eram normotensos e 27% eram pré-hipertensos. A incidência cumulativa de HA entre 2010 e 2016 foi de 36,1% (IC95% 28,3 – 44,8), com 31,6% entre normotensos e 47,8% entre pré-hipertensos em 2010. Mais da metade dos casos incidentes permaneceram sem diagnóstico com PA não controlada em 2016 (Tabela 2).

Tabela 2
Diagnóstico, tratamento e controle em pessoas idosas com hipertensão arterial (HA) incidente na cidade de São Paulo em 2016. São Paulo, SP, 2010-2016.

Entre os casos incidentes, 56% estavam usando medicação anti-hipertensiva em 2016, predominantemente medicamentos betabloqueadores (23,8%) e diuréticos (15,5%). Bloqueadores dos canais de cálcio foram observados com menos frequência (2,9%). Estratégias não farmacológicas para tratamento de HA, incluindo mudanças na dieta e atividade física, foram relatadas por 46,9% e 23,1%, respectivamente. Os fatores associados à HA incidente incluíram idade ≥75 anos, pré-hipertensão, hipercolesterolemia isolada, diabetes e doença coronariana em 2010, enquanto o relato de pelo menos uma consulta médica no ano anterior foi associada a uma menor incidência de hipertensão (Tabela 3).

Tabela 3
Fatores associados à incidência de hipertensão arterial no período de 2010-2016. São Paulo, SP, 2010-2016.

Os desfechos de saúde entre 2010 e 2016 foram mais frequentes entre hipertensos quando comparados aos normotensos em 2010. A TFG reduzida foi o desfecho mais comumente observado. Indivíduos hipertensos, com HA controlada e não controlada, apresentaram maior frequência de sintomas depressivos do que os normotensos, e o desfecho de óbito foi mais frequente nos indivíduos com HRA (Tabela 4).

Tabela 4
Resultados relacionados à hipertensão no período de 2010-2016 de acordo com a categoria de hipertensão arterial (HA) anterior em 2010. São Paulo, SP, 2010-2016.

Após seis anos de follow-up, o risco de redução da TFG em 2016 nas pessoas idosas com TFG ≥60mL/min/1,73m2 e ARH em 2010 foi 2,1 vezes maior do que aqueles sem hipertensão. Em indivíduos com HNC em 2010, o risco de desenvolver sintomas depressivos foi 2,1 vezes maior.

Tabela 5 Resultados dos modelos de regressão de Poisson para associação entre categorias de hipertensão em 2010 e incidência de taxa de filtração glomerular (TFG)<60mL/min/1,73m2* e sintomas depressivos** em 2016. São Paulo, SP, 2000-2016.
Categorias de hipertensão em 2010 Modelo bruto para incidência de baixa TFG RR(95% IC) ¶ Modelo ajustado 1 # RR (95% IC) Modelo ajustado 2 ¥ IRR (95% IC)
Controlada 1,3 (0,8 - 2,2) 1,3 (0,8 - 2,1) 1,2 (0,7 - 2,0)
Não controlada 1,3 (0,8 - 2,1) 1,2 (0,7 - 1,9) 1,2 (0,7 - 2,0)
Resistente aparente 2,3 (1,2 - 4,2) 2,2 (1,2 - 4,1) 2,1 (1,1 - 4,0)
Normotensos 1 1 1
Modelo bruto para incidência de sintomas depressivos RR (95% IC) Modelo ajustado 1 # RR (95% IC) Model ajustado 2 ¥ IRR (95% IC)
Controlada 2,0 (0,9 - 4,3) 1,8 (0,8 - 3,9) 1,8 (0,8 - 3,9)
Não controlada 2,3 ( 1,1 - 4,6) 2,1 (0,9 - 4,3) 2,1 (1,1 - 4,4)
Resistente aparente 0,7 (0,2 - 2,5) 0,6 (0,2 - 2,2) 0,6 (0,1 - 2,2)
Normotensos 1 1 1
  • * Em pessoas que apresentaram TFG≥60mL/min/1,73m2 em 2010; **Em pessoas que pontuaram <6 na escala de depressão geriátrica em 2010; ¶ Intervalos de confiança; # Ajustado por sexo, faixa etária e anos de escolaridade;
    ¥ Ajustado pelas variáveis do modelo 1+ atividade física, circunferência da cintura, diabetes, tabagismo, uso de álcool e hipercolesterolemia.
  • DISCUSSÃO

    Neste estudo com uma amostra representativa de idosos residentes na cidade de São Paulo, foi observada uma prevalência notavelmente alta de HA, com predomínio de hipertensão não controlada. Mais de um terço dos indivíduos normotensos em 2010 desenvolveram HA até 2016, com piores condições de saúde e pré-hipertensão aumentando significativamente o risco de desenvolvimento de HA. Os desfechos de saúde avaliados em 2016 foram geralmente mais frequentes entre aqueles com HRA e HNC.

    Como esperado, alta prevalência de UH foi observada em 20102. A presença de comorbidades e alterações fisiológicas relacionadas ao envelhecimento podem afetar o controle adequado da PA em idosos. Neste estudo, 7,9% dos indivíduos (9,9% dos idosos hipertensos) preencheram os critérios para HRA, consistente com a definição usada em outros estudos populacionais12,18. Essa prevalência superou a de 6,5% relatada em um estudo de coorte prospectivo de idosos na França19. A prevalência global de HRA varia de 10% a 20% entre indivíduos hipertensos, dependendo da definição aplicada20.

    A incidência cumulativa de hipertensão no estudo foi de 36%, com um aumento médio anual de 6%, menor do que as taxas observadas em estudos com critérios diagnósticos semelhantes, como a taxa de incidência de 37,7% observada em estudo de cinco anos com coreanos com idade ≥65 anos (um aumento médio de 7,5% ao ano)21.

    Aproximadamente metade dos indivíduos pré-hipertensos evoluíram para hipertensão entre 2010 e 2016, com um aumento médio anual de 8%, apresentando um risco 60% maior em comparação aos indivíduos normotensos em 2010. Essa taxa de progressão foi maior do que os achados em um estudo conduzido em Taiwan22, onde 31,3% dos participantes pré-hipertensos com idade média de 64,4 anos desenvolveram hipertensão ao longo de cinco anos (um aumento médio anual de 6,3%). Entretanto, o Estudo de Framingham, após quatro anos de acompanhamento de indivíduos pré-hipertensos, relatou uma taxa de progressão ainda maior, com uma incidência cumulativa de 49,5% entre indivíduos com idade ≥65 anos (um aumento médio anual de 12,4%)23.

    Pessoas idosas com idade ≥75 anos apresentaram um risco 90% maior de desenvolver hipertensão, corroborando com achados que indicam de que a idade avançada é um fator de risco significativo para o início da HA devido a alterações fisiológicas e exposição ao longo da vida a fatores de risco5.

    Apenas 56% dos casos de hipertensão incidente estavam em uso de medicamentos anti-hipertensivos, refletindo desafios na adesão ao tratamento farmacológico, possivelmente influenciados por fatores como conhecimento limitado sobre HA e condições socioeconômicas desfavoráveis, como baixos níveis educacionais24. Ter maior nível de escolaridade é frequentemente associado a maiores taxas de diagnóstico e tratamento de HA, letramento em saúde e maior uso de serviços de saúde, incluindo a aquisição de assistência médica privada24-26. Além disso, o uso da PA para identificar HA neste estudo pode ter auxiliado a detecção de casos incidentes mesmo antes do diagnóstico, contribuindo para o baixo uso de tratamento farmacológico observado.

    Pessoas idosas com consultas médicas recentes em 2010 apresentaram risco 50% menor de HA incidente, enfatizando o papel do acesso à saúde em melhores desfecho de saúde na velhice27. Maior acesso permite o planejamento de estratégias preventivas e melhor manejo das doenças pré-estabelecidas.

    A hipercolesterolemia isolada foi associada à incidência de HA, o que é consistente com os achados de um estudo de 12 anos de follow-up com idosos coreanos28. Além do colesterol, as evidências sugerem uma associação entre a incidência de HA e os níveis de triglicerídeos e ácido úrico29,30, embora essas associações não tenham sido observadas no presente estudo.

    Ter diabetes aumenta o risco de desenvolver hipertensão em 90%. Apesar dos fatores de risco comuns compartilhados por essas doenças, indivíduos diabéticos também podem apresentar aumento da rigidez arterial e distúrbios cardiometabólicos que estão ligados à incidência de hipertensão31. Doença coronariana preexistente também foi associada à HA incidente em 2016. Mais de 40% dos indivíduos avaliados em 2010 apresentavam características como hipercolesterolemia e CC elevada, o que pode ter contribuído para a ocorrência de doenças coronárias antes mesmo do início da HA.

    Entre os indivíduos com TFG ≥60 mL/min/1,73m² em 2010, mais de um quinto apresentou TFG <60 em 2016, com aqueles com HRA prévia apresentando um risco 2,1 vezes maior do que os idosos normotensos de desenvolverem baixa TFG em 2016. Um estudo de coorte conduzido com americanos com idade ≥50 também observou maior frequência desse desfecho entre indivíduos com HRA em comparação àqueles avaliados com hipertensão não resistente32. A presença de HRA está associada à piora da função renal em pessoas idosas e ao aumento da mortalidade cardiovascular e renal, mesmo em indivíduos mais jovens18,33.

    A hipertensão não controlada foi associada à incidência de sintomas depressivos em 2016, embora a associação entre HNC e sintomas depressivos na literatura ainda seja um tópico de discussão. Em um estudo de follow-up de dois anos, indivíduos hipertensos com idade ≥60 no México apresentaram um risco 18% maior de desenvolver sintomas depressivos em comparação aos indivíduos normotensos34. Lesões na substância branca cerebral causadas por HA podem explicar parcialmente o aparecimento de sintomas depressivos em indivíduos hipertensos ao longo do tempo34. No entanto, não foram identificados estudos longitudinais examinando especificamente a associação entre HNC e a incidência de sintomas depressivos nessa faixa etária.

    A incidência de eventos coronários e mortalidade por todas as causas foram desfechos frequentes entre 2010 e 2016. Embora a associação da HA com a mortalidade geral tenha sido relatada35, este estudo não observou associação entre várias categorias de hipertensão e eventos coronários (incluindo mortes) ou mortalidade geral.

    O foco do estudo SABE na população com idade ≥60 anos o distingue de outros estudos populacionais onde as avaliações de pessoas idosas são secundárias, faltando uma amostra específica para essa faixa etária. A metodologia deste estudo inclui informações bioquímicas e medidas de PA, permitindo o uso de dados além das informações autorrelatadas. Vale ressaltar que estudos longitudinais envolvendo idosos hipertensos são pouco explorados na literatura devido aos desafios associados à condução de tais estudos, incluindo seus custos, necessidade de uma grande infraestrutura de pesquisa e a exigência de observação de longo prazo.

    Apesar de seus pontos fortes, o presente estudo também tem limitações. A PA foi medida apenas uma vez durante cada onda de coleta de dados. Por isso, o diagnóstico relatado e o uso de medicamentos anti-hipertensivos também foram usados para uma identificação mais precisa dos casos de HA. Para minimizar a influência potencial do “efeito do avental branco”, a primeira medição da PA foi excluída da análise. A considerável perda de participantes observada entre as ondas de estudo, um fenômeno comum em estudos de coorte envolvendo indivíduos mais velhos, constitui uma limitação adicional. Essa característica pode ter resultado em uma subestimação da incidência de AH e dificultado a análise de resultados além da mortalidade. Os indivíduos perdidos no acompanhamento, predominantemente devido à mortalidade, eram mais velhos e tinham mais comorbidades em comparação com aqueles que permaneceram no estudo. Embora essas perdas possam introduzir viés de sobrevivência nas estimativas, elas representam um componente intrínseco e inevitável de estudos longitudinais envolvendo populações mais velhas.

    CONCLUSÕES

    Este estudo longitudinal forneceu uma descrição abrangente da população idosa residente na cidade de São Paulo quanto aos estágios e controle da hipertensão.

    Em resumo, a incidência cumulativa de hipertensão de 2010 a 2016 foi de 36%, com uma incidência maior entre indivíduos que eram pré-hipertensos. A doença também foi associada a características de saúde desfavoráveis na avaliação basal. Por outro lado, indivíduos mais velhos com consultas recentes ao médico tiveram uma incidência menor de hipertensão.

    Idosos hipertensos apresentaram taxas de mortalidade elevadas. Aqueles identificados com hipertensão não controlada e hipertensão resistente aparente em 2010 tiveram risco aumentado de desenvolver sintomas depressivos e função renal reduzida em 2016, mesmo após ajuste para variáveis demográficas, socioeconômicas e relacionadas à saúde.

    Estudos longitudinais desempenham um papel fundamental na avaliação dos fatores de risco associados à incidência de hipertensão, o que é especialmente importante, dado o impacto substancial dessa condição no bem-estar de pessoas idosas. A pré-hipertensão surge como um fator intermediário que predispõe os indivíduos à hipertensão, destacando o papel do controle da pressão arterial como alvo para intervenções preventivas por profissionais de saúde, equipes, serviços e políticas. Além disso, avaliar a associação entre hipertensão e desfechos fatais e não fatais enfatiza a importância das estratégias de prevenção e controle da hipertensão, com o objetivo geral de mitigar as consequências associadas.

    Para concluir, esta investigação abrangente fornece informações importantes sobre a prevalência, incidência e resultados da hipertensão entre a população mais velha. As descobertas podem contribuir para a formulação e aprimoramento de estratégias preventivas para assistência médica, tanto em níveis individuais quanto populacionais, enfatizando a importância de iniciativas voltadas para a detecção precoce e melhor controle da pressão arterial no nível de atenção primária para prevenir desfechos fatais e não fatais relacionados.

    • Financiamento: Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (FAPESP) – Estudo SABE 2010: Saúde, bem-estar e envelhecimento. Número do processo: 09/53778-3. Este estudo foi financiado em parte pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código Financeiro 001.
    • DISPONIBILIDADE DE DADOS
      O banco de dados utilizados no presente estudo foi usado sob licença e não está disponível publicamente devido às políticas do Estudo SABE.

    REFERÊNCIAS

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    Editado por

    • Editado por: Camila Alves dos Santos

    Disponibilidade de dados

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    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      27 Jan 2025
    • Data do Fascículo
      2025

    Histórico

    • Recebido
      03 Jun 2024
    • Aceito
      15 Nov 2024
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