Resumo
Objetivo Avaliar o consumo de alimentos ultraprocessados (AUP) e sua associação com fatores sociodemográficos, de estilo de vida e condições de saúde em pessoas idosas brasileiras.
Métodos Estudo transversal com dados de 22.728 pessoas idosas participantes da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019. Foi estimado um escore de consumo de AUP, considerando o consumo de dez alimentos no dia anterior, sendo considerado elevado quando ≥5 AUP. O consumo foi avaliado segundo variáveis sociodemográficas (sexo, idade, cor/raça, escolaridade, região e área geográfica, viver com companheiro), de estilo de vida (prática de atividade física, tempo de televisão e tela, uso tabaco e bebida alcoólica), doenças crônicas autorreferidas (diabetes, hipertensão e depressão) e estado nutricional. A associação foi avaliada por modelos de regressão logística brutos e ajustados considerando a complexidade da amostra e os pesos amostrais.
Resultados Observou-se que 7,1% das pessoas idosas apresentaram consumo elevado de AUP. Após ajustes, ter nível de escolaridade maior ou igual ao ensino fundamental completo, viver nas regiões Sul, Sudeste e Centro-oeste, em áreas urbanas e passar tempo ≥3 horas/dia assistindo televisão aumentam as chances de consumo elevado de AUP, enquanto ter diabetes foi inversamente associado ao consumo de ≥5 AUP.
Conclusão O consumo elevado de AUP entre pessoas idosas foi associado a maiores níveis de escolaridade, viver em regiões consideradas mais desenvolvidas e em centros urbanos, passar muitas horas em frente a televisão e à ausência de diagnóstico de diabetes. Os achados inéditos deste estudo de representatividade nacional contribuem para a vigilância alimentar da pessoa idosa brasileira.
Palavras-Chave:
Consumo Alimentar; Saúde da Pessoa Idosa; Inquérito Nacional de Saúde
Abstract
Objective To assess the consumption of ultra-processed foods (UPF) and its association with sociodemographic factors, lifestyle, and health conditions in Brazilian Older Adults individuals.
Methods Cross-sectional study with data from 22,728 aged participants of the 2019 National Health Survey. A UPF consumption score was estimated based on the consumption of ten foods from the previous day, with elevated consumption defined as ≥5 UPF. Consumption was evaluated according to sociodemographic variables (sex, age, color/race, education, region and geographical area, living with a partner), lifestyle variables (physical activity, television and screen time, tobacco and alcohol use), self-reported chronic diseases (diabetes, hypertension, and depression), and nutritional status. The association was assessed using crude and adjusted logistic regression models, considering sample complexity and sample weights.
Results It was observed that 7.1% of the Older Adults had elevated UPF consumption. After adjustments, having an education level equal to or greater than complete elementary education, living in the South, Southeast, and Central-West regions, in urban areas, and spending ≥3 hours/day watching television increased the chances of elevated UPF consumption, while having diabetes was inversely associated with the consumption of ≥5 UPF.
Conclusion Elevated UPF consumption among the Older Adults was associated with higher education levels, living in more developed regions and urban centers, spending many hours in front of the television, and the absence of a diabetes diagnosis. The novel findings of this nationally representative study contribute to the dietary surveillance of Brazilian Older Adults individuals.
Keywords
Eating; Health of the Aged; National Health Survey
INTRODUÇÃO
No Brasil, de acordo com dados do Censo demográfico realizado em 2022, a população idosa é composta por 32.113.490 indivíduos, o que corresponde a 15,6% da população nacional, demonstrando acréscimo de 56,0% em relação ao Censo anterior, realizado em 20101. Tal mudança vai ao encontro do observado no cenário global. A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), destaca que o aumento da expectativa de vida vem crescendo de forma acentuada em países de média e baixa renda, como em países das Américas e Caribe2.
Envelhecer é um processo natural, marcado por mudanças físicas, fisiológicas, psicológicas e sociais3,4. Entre os fatores envolvidos no processo de envelhecimento e, consequentemente, no aumento da expectativa de vida, a alimentação adequada e saudável possui papel indiscutível, sendo fortemente recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que subsidia as políticas de saúde de seus países membros5. Essas recomendações unem-se ao estímulo à prática de atividade física, cessação do tabagismo e do consumo abusivo de bebidas alcoólicas, pois há consenso na literatura científica de que esses são fatores de risco modificáveis para o desenvolvimento da obesidade e das Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT), sendo estas mais prevalentes entre pessoas idosas6,7.
As recomendações brasileiras oficiais para alimentação adequada e saudável estão publicadas no Guia Alimentar para a População Brasileira de 2014, que adota pela primeira vez a classificação de alimentos segundo grau, extensão e propósito de processamento industrial. Dentre as categorias, destacam-se os alimentos ultraprocessados (AUP), que são formulações industriais feitas com ingredientes, em sua maioria, de uso exclusivamente industrial, como aditivos alimentares. São alimentos que se caracterizam por perfil nutricional desfavorável, contendo alta densidade energética, altos teores de sódio, açúcares e gorduras, e baixos teores de vitaminas, minerais e fibras alimentares8.
Uma das formas de realizar vigilância das DCNT e de seus fatores de risco, como a alimentação inadequada, de forma representativa da população de um país, é por meio de inquéritos populacionais7, como a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS). No Brasil, Inquéritos populacionais têm analisado o consumo de AUP e associação com o perfil sociodemográfico, de estilo de vida e presença de DCNT7,9,10. Os achados mostram que o consumo de AUP é mais elevado entre adolescentes e diminui com o aumento da idade11-13. Dados de uma revisão sistemática que englobou 55 estudos de diversas nacionalidades, corroboram esses achados ao constatar que 16 deles encontraram associação inversa consistente entre o consumo de AUP e a idade14.
No entanto, nota-se que poucos estudos com dados de representatividade nacional têm por finalidade avaliar o consumo de AUP especificamente na população idosa, sendo essa fase da vida analisada, geralmente, como parte do grupo de adultos (com idade maior ou igual a 18 anos). Entende-se que o aprofundamento da caracterização do consumo de AUP e seus fatores associados entre pessoas idosas brasileiras é fundamental levando-se em consideração o envelhecimento populacional e a importância da atenção à pessoa idosa no âmbito da saúde coletiva, especialmente na Atenção Primária à Saúde. Essa caracterização pode fortalecer as políticas e os programas voltados à promoção e recuperação da saúde das pessoas idosas contribuindo para o ciclo da gestão e do cuidado dessa população. Assim, este artigo tem por objetivo analisar o consumo de AUP e sua associação com fatores sociodemográficos, de estilo de vida e condições de saúde de pessoas idosas brasileiras participantes da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019.
MÉTODO
Trata-se de um estudo transversal com dados da população idosa participante da PNS realizada em 2019. Esta é uma pesquisa de base domiciliar e representatividade nacional, realizada pelo Ministério da Saúde com parceria do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que visa avaliar, a cada cinco anos, o desempenho do Sistema Nacional de Saúde e as condições de vida e saúde da população15. O banco de dados utilizado para as análises foi extraído da base de dados de domínio público do IBGE (https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/saude/9160-pesquisa-nacional-de-saude.html?edicao=29270&t=downloads).
A amostra da pesquisa foi realizada por meio de conglomerados em três estágios. No estágio (i) foram selecionadas as Unidades Primárias de Amostragem (UPAs), por amostragem aleatória simples, sendo as UPAs formadas por setores censitários. No estágio (ii) um número fixo de domicílios particulares foi selecionado aleatoriamente em cada UPA, e no estágio (iii) foi sorteado um morador com 15 anos ou mais de idade, em cada domicílio, para responder ao questionário. Maiores detalhes sobre o processo amostral e desenvolvimento e realização da PNS encontram-se publicado por Stopa et al.15
A amostra prevista da PNS 2019 foi de 108.525 domicílios, porém foram coletados dados de 94.114 domicílios e realizadas 90.846 entrevistas9. Para as análises do presente estudo, considerou-se apenas as entrevistas de moradores com 60 anos e mais, totalizando 22.728 indivíduos.
No presente estudo considerou-se como variável desfecho o consumo de AUP. Para isso, utilizou-se as 10 questões incluídas na edição de 2019 da pesquisa especificamente para avaliar o consumo de AUP da população brasileira. As perguntas eram referentes ao consumo no dia anterior à pesquisa (Ontem, o(a) Sr(a) tomou ou comeu), com opções de resposta dicotômica (sim e não) para cada um dos seguintes AUP: (1) refrigerante; (2) suco de frutas de caixinha/lata/refresco em pó; (3) bebida achocolatada/iogurte com sabor; (4) salgadinho de pacote/bolacha salgada; (5) bolacha doce/recheada/bolo de pacote; (6) sorvete/chocolate/gelatina/flan ou outra sobremesa industrializada; (7) salsicha/linguiça/mortadela/presunto; (8) pão de forma/de cachorro-quente/de hambúrguer; (9) margarina/maionese/ketchup/outros molhos industrializados; (10) macarrão instantâneo/sopa de pacote/lasanha congelada/outros congelados industrializados.
Para a construção da variável desfecho foi estimado um escore, obtido pelo somatório das respostas positivas dadas às questões do consumo de AUP, podendo a pontuação final variar de 0 a 10 pontos. Posteriormente os valores obtidos no escore foram dicotomizados em menos de cinco AUP (< 5 AUP) e cinco ou mais AUP (≥ 5 AUP), utilizado por Costa et al.12 em estudo com dados da PNS de 2019.
As variáveis de exposição consideradas foram:
a) Variáveis sociodemográficas: sexo (masculino e feminino), local de moradia (urbana e rural), região geográfica (Norte, Nordeste, Sul, Sudeste e Centro-oeste), idade (60-69 anos; 70-79 anos e 80 anos ou mais), cor ou raça (branca e não branca), escolaridade (sem instrução; fundamental incompleto ou equivalente; fundamental completo ou equivalente; médio completo ou equivalente; superior completo), mora com cônjuge/companheiro (sim ou não).
b) Comportamentos do estilo de vida: 1. Prática de atividade física ao lazer foi avaliada pela pergunta “Quantos dias por semana o(a) sr(a) costuma praticar exercícios físicos ou esportes?”. Se a resposta para essa questão foi maior ou igual a 1 (um) foram analisados os dados obtidos por meio da pergunta “Qual o exercício físico ou esporte que o(a) sr(a) pratica com mais frequência?” e, posteriormente “Em geral, no dia que o(a) sr(a) pratica exercício ou esporte, quanto tempo dura essa atividade?”. Foi multiplicado o tempo praticado pela quantidade de dias praticados na semana. A prática de atividade física foi classificada considerando esse somatório, de acordo com as recomendações de atividade física no lazer de ao menos 150 minutos semanais de atividades leves ou moderadas, ou 75 minutos semanais para as vigorosas9; 2. Tempo de uso de televisão (<3 horas/dia ou ≥3 horas/dia); 3. Tempo de tela (<3 horas/dia ou ≥3 horas/dia); 4. Uso atual de tabaco (sim ou não), obtido por meio da pergunta: “Atualmente, o(a) Sr(a) fuma algum produto do tabaco?”; e 5. Consumo abusivo de bebida alcoólica, quando maior de 5 doses por ocasião nos últimos 30 dias (sim ou não).
c) DCNT, por meio de informações autorreferidas (Algum médico já lhe deu o diagnóstico de): diabetes (com diabetes e sem diabetes), Hipertensão Arterial (com hipertensão e sem hipertensão) e depressão (com depressão e sem depressão).
d) Estado Nutricional: obtido pelo cálculo do Índice de Massa Corporal (IMC = Peso / (Estatura)²) calculado utilizando-se peso (quilograma) e altura (metros) autorreferidos, sendo classificado em baixo peso (≤22,0 kg/m²), peso adequado (>22,0 kg/m² a <27,0 kg/m²) e sobrepeso (≥ 27,0 kg/m²)16.
Os microdados da PNS foram importados para o Programa Statistical Package for Social Science for Windows (SPSS®), versão 22 (licença institucional perpétua, série 10101121278). Para as análises estatísticas foram considerados os pesos amostrais e a complexidade da amostra. Nesse sentido, todas as análises foram realizadas no módulo “Complex Samples” do SPSS®. Primeiramente, foram identificadas as prevalências, e Intervalos de Confiança de 95% (IC 95%), do consumo de cada um dos 10 grupos de AUP pelos participantes. Após dicotomização da variável desfecho (<5 AUP e ≥ 5AUP), foi avaliada a prevalência de consumo elevado de AUP (≥ 5AUP).
Na análise bivariada foram estimadas prevalências e IC95% da variável desfecho, segundo cada uma das variáveis sociodemográficas, de estilo de vida e condições de saúde de interesse, sendo a diferença estatística avaliada por meio da não sobreposição dos IC95%. Em seguida, para a análise múltipla, as variáveis associadas ao desfecho na análise bivariada (que não apresentaram sobreposição de IC95%) foram incluídas em modelos de regressão logística brutos e ajustados.
Os modelos ajustados foram realizados em blocos, seguindo o modelo hierarquizado, para obtenção da Odds ratios (OR) e seus respectivos IC95%. O bloco distal foi composto apenas pelas variáveis sociodemográficas, seguido pelo bloco intermediário, formado por variáveis de estilo de vida e, em seguida, pelo bloco proximal, composto pelas variáveis de condições de saúde. Foram mantidas nos blocos intermediário e proximal as variáveis que apresentaram significância a nível de 5% nos blocos anteriores.
A PNS de 2019 teve a aprovação da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), em 23 de agosto de 2019, sob o Parecer nº 3.529.376. Todos os participantes que consentiram em participar assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido15.
Para o presente estudo foi dispensada a apreciação em comitê de ética em pesquisa, pois foram utilizados dados públicos da PNS, sem identificação dos sujeitos, estando em conformidade com a Resolução CNS nº 466/2012.
RESULTADOS
A Figura 1 apresenta a prevalência (%) de consumo dos AUP pelas pessoas idosas, sendo observado que o alimento/grupo mais consumido foi composto por margarina/maionese/ketchup e outros molhos industrializados (35,8%), seguido de pães industrializados (forma/cachorro-quente/hambúrguer), com 26,8%. Os quatro grupos seguintes (refrigerantes, embutidos, bolachas e salgadinhos) foram consumidos por cerca de 20,5% dos participantes.
Prevalência (%) de consumo de alimentos ultraprocessados entre pessoas idosas brasileiras. Pesquisa Nacional de Saúde, 2019.
Quanto as características sociodemográficas apresentadas na Tabela 1, observa-se que a população idosa participante da PNS de 2019 era composta, em sua maioria, por mulheres (56,7%), indivíduos de 60-69 anos (56,3%), brancos (50,5%), com ensino fundamental incompleto ou equivalente (46,5%), moradores da região sudeste (46,4%) e da zona urbana (85,5%) e viviam com cônjuge/companheiro (56,3%). A Tabela 1 também apresenta a prevalência do consumo de AUP de acordo com as variáveis sociodemográficas. Do total de participantes, 7,1% consumiram 5 ou mais grupos de AUP, sendo mais frequente entre brancos (8,3 vs. 5,9%), com níveis de escolaridade mais elevados quando comparados aos seus pares com menos estudo, moradores das regiões Sul e Sudeste, e da zona urbana (7,8% vs. 3,3%) quando comparados aos seus pares.
Frequência de consumo de alimentos ultraprocessados segundo características sociodemográficas de pessoas idosas brasileiras. Pesquisa Nacional de Saúde, 2019(n=22.728).
Quanto aos comportamentos do estilo de vida, a frequência do consumo de 5 ou mais grupos de AUP foi maior entre as pessoas idosas que faziam o uso de televisão por tempo ≥3 horas/dia (9,5%), comparado àqueles que utilizavam por menos de 3 horas (6,1%), e entre aqueles que faziam o uso de tablet, computador ou celular por tempo ≥3 horas/dia (11,3%) quando comparado àqueles que usavam menos esses equipamentos (6,9%) (Tabela 2). Em relação às DCNT avaliadas, observou-se que aqueles que possuíam Diabetes Mellitus apresentaram menor consumo de ultraprocessados (5,4%) do que aqueles sem diabetes (7,6%) (Tabela 3).
Frequência de consumo de 5 ou mais grupos de alimentos ultraprocessados segundo características de estilo de vida de pessoas idosas brasileira. Pesquisa Nacional de Saúde, 2019(n=22.728)
Frequência de consumo de 5 ou mais grupos de alimentos ultraprocessados segundo estado nutricional e Doenças Crônicas Não Transmissíveis autorreferidas em pessoas idosas brasileiras. Pesquisa Nacional de Saúde, 2019(n=22.728).
Nos modelos de regressão logística ajustados (Tabela 4) observou-se que ter escolaridade a partir do ensino fundamental completo, viver nas regiões Sul, Sudeste e Centro-oeste quando comparada a Nordeste (maior OR na região Sul), morar em áreas urbanas (OR=1,60) e assistir televisão por tempo ≥3 horas por dia (OR=1,47), aumentam as chances de consumo elevado de alimentos ultraprocessados. Além disso, nota-se que ter diagnóstico de diabetes foi inversamente associado ao maior consumo de AUP (OR=0,67).
Odds Ratio (Razões de chances) brutas e ajustadas para o escore de alimentos ultraprocessados (≥5) segundo variáveis sociodemográficas e de estilo de vida de pessoas idosas brasileiras. Pesquisa Nacional de Saúde, 2019(n=22.728).
DISCUSSÃO
Na Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 foi observado que 7,1% da população idosa brasileira consumiu cinco ou mais grupos de AUP no dia anterior à pesquisa e que esse consumo difere entre as pessoas idosas segundo níveis de escolaridade, região e área geográfica, tempo de uso de televisão e presença de diabetes. Dentre os 10 grupos avaliados, os dois de maior consumo foram o de margarina/ketchup/maionese, molhos artificiais e pães industrializados.
De forma semelhante, no Inquérito Nacional de Alimentação (INA), realizado no Brasil em 2017-2018, referente ao consumo de AUP entre as pessoas idosas, foi observado maior consumo de bolachas salgadas, pães industrializados, seguidos de doces e guloseimas10. Estudos de representatividade nacional, que estratificaram o consumo de AUP por faixa etária, demonstraram que o consumo diminui com o aumento da idade quando incluem adultos mais jovens11,12. Tais achados também têm sido observados em outros estudos17-19.
Ao avaliar subcategorias de idade entre pessoas idosas no presente estudo, não foram encontradas diferenças significativas entre aqueles com mais ou menos idade, demonstrando que a associação inversa linear entre consumo de AUP e faixas de idade não se mantém em idades mais longevas. No estudo de Camargo e Bós19, com pessoas idosas de cinco regiões brasileiras, os resultados foram nesse mesmo sentido. Estudo de Silva et al.20 também demonstrou que não houve diferença significativa no consumo de AUP entre idosos de 60 a 64 anos, comparado a longevos de mais de 75 anos.
Esse perfil pode refletir maior preocupação com a saúde pelas pessoas idosas, independentemente da idade, uma vez que apresentam maiores prevalências de morbimortalidade por DCNT quando comparado as demais fases da vida. O menor consumo de AUP é reconhecido como fator protetor para essas condições11. Além disso, na PNS 2019, ao avaliar as orientações recebidas de profissionais de saúde para controle de DCNT, tais como diabetes e hipertensão, constatou-se que mais de 80% dos indivíduos foram aconselhados a manter uma alimentação saudável, reduzir o sal, evitar o consumo de açúcar, bebidas adoçadas e doces, como os AUP9.
Em relação à escolaridade, observou-se que ter concluído o ensino fundamental aumenta as chances de consumo de AUP entre pessoas idosas quando comparado àqueles de menor escolaridade. Ao analisar estudos de representatividade nacional, que incluem na amostra pessoas idosas e adultas, foram encontrados resultados controversos. Louzada et al.13, com dados provenientes do INA, encontraram que o consumo de AUP aumentou à medida que os níveis de escolaridade aumentaram. Já Costa et al.11, com dados do Vigitel (2019), encontraram associação inversa entre o nível de escolaridade (12 ou mais anos de estudo) e o consumo de AUP. Costa et al.12, ao analisar dados da PNS (2019) revelaram que, após ajustes, não houve associação entre escolaridade e consumo elevado de AUP.
A aparente controvérsia entre os estudos pode ser explicada pela mudança no perfil de consumo de AUP ao longo dos anos no Brasil. Louzada et al.13, em sua análise temporal com dados do INA, discutem que, embora os segmentos socioeconômicos e demográficos com menor renda e escolaridade ainda apresentem menor consumo de AUP, esses grupos foram os que experimentaram o aumento mais expressivo entre 2008 e 2018. Isso indica uma tendência de padronização nacional para um patamar de consumo mais elevado.
Quanto à área e regiões geográficas, nota-se que o consumo foi mais elevado na área urbana e nas regiões mais desenvolvidas do país, com destaque para a região Sul e Sudeste. Esse perfil se mantém quando avaliados adultos brasileiros (com 18 anos ou mais) também com dados da PNS12, o que vai ao encontro do observado por outros estudos que constataram que moradores de centros urbanos e de regiões mais desenvolvidas do país têm mais acesso a AUP13,17,19,21,22.
Esses resultados são corroborados pelo estudo com dados da PNS 201323, cujo objetivo foi comparar o consumo de marcadores de alimentação saudável e não saudável entre residentes de áreas urbanas e rurais. Os autores discutem que a urbanização altera os padrões de consumo alimentar ao facilitar o acesso a ambientes alimentares que promovem escolhas menos saudáveis, devido à disponibilidade mais ampla de AUP e à escassez de tempo para a preparação e compra de alimentos. Essas condições resultam em maior consumo de AUP nas áreas urbanas.
Em relação ao sexo, no presente estudo, homens apresentaram maior prevalência no consumo de AUP comparado às mulheres. Porém, após análises ajustadas, tal característica perdeu o efeito, demostrando que outras variáveis sociodemográficas como escolaridade, região e área de moradia possuíam impacto mais importante sobre o consumo elevado de AUP entre pessoas idosas. Em estudos de representatividade nacional que avaliam pessoas adultas a partir de 18 anos, incluindo maiores de 60 anos, Costa et al.11 e Costa et al.12 encontraram maior prevalência entre homens. Por outro lado, Louzada et al.13 e Silva et al.20 encontraram que o consumo de AUP foi maior entre as mulheres. Tal inconstância nos resultados demostra a importância da continuidade de estudo com foco em vigilância alimentar que caracterize, especificamente, a população idosa em estudos de representatividade nacional.
Em relação à cor da pele, não foi observada associação com o consumo de AUP. Costa et al.12, encontraram, em seu estudo de representatividade nacional, que indivíduos brancos e amarelos consumiam mais AUP, já os pretos e pardos mais alimentos in natura e minimamente processados. Porém, estudos como os de Costa et al.11 e Louzada et al.13, destacam que a participação dos AUP vem aumentando significativamente entre pessoas de raça/cor negra, indígena e amarelas, mas não entre pessoas brancas no período analisado (de 2008–2009 a 2017–2018), mas que os brancos ainda consomem mais AUP.
Em relação às características de estilo de vida, o tempo de televisão se manteve associado ao maior consumo de AUP. Estudos de representatividade nacional, com maiores de 18 anos, corroboram esses achados24,25. Maia et al.25 em análise de tendência temporal, encontraram que indivíduos que faziam uso de três horas ou mais de televisão por dia, apresentaram menor frequência de marcadores de alimentação saudável e maior de marcadores não saudáveis, independentemente do sexo. Martins et al.24 revelaram que a frequência de consumo elevado de AUP entre brasileiros foi 35% maior entre aqueles que assistiam TV e 21% maior entre usuários de dispositivos eletrônicos, em comparação com aqueles que não apresentavam tempo elevado de uso.
Considera-se importante salientar que apesar do aumento no uso de outras telas, como celulares, estudo de tendência temporal (2016-2021) revelam que 25% das pessoas adultas, principalmente idosas (mais de 30% em todo o período), apresentaram uso excessivo de TV26. Esse cenário, além de promover o sedentarismo, resulta na diminuição da disponibilidade de tempo e esforços para o preparo de refeições, levando à percepção da necessidade de praticidade no preparo e/ou aquisição dos alimentos. Destaca-se ainda que o consumo de alimentos pode, frequentemente, ocorrer em frente à tela. Esse comportamento é agravado considerando as características dos AUP, que são hiperpalatáveis e, portanto, facilmente consumidos em grandes quantidades. Outro fator relevante é a exposição ao marketing desses alimentos, que pode influenciar e moldar os padrões de consumo alimentar24. Um estudo conduzido por Guimarães et al.27 revelou que mais de 90% dos anúncios de alimentos incluíam pelo menos um AUP.
O presente estudo não encontrou associação entre o consumo de AUP e outras variáveis relacionadas ao estilo de vida. Sobre o tabagismo, por exemplo, não há consenso entre maior consumo de AUP e o hábito de fumar18,21. No estudo de Crisóstomo et al.18, em Teresina, Piauí, observou-se que o consumo de AUP era significativamente maior entre pessoas idosas que não eram fumantes. Assumpção et al.21, em seu estudo sobre a qualidade global da dieta de pessoas de 60 anos e mais, residentes no Município de Campinas, São Paulo, destaca que pessoas idosas que fumavam e tinham preferência por bebidas alcoólicas e refrigerantes apresentaram pior qualidade da dieta inferior, demonstrando um padrão de hábitos de vida não saudáveis.
Em relação à presença de DCNT, constatou-se que as pessoas idosas que referiram ter diabetes apresentam menores chances de consumo de AUP. No mesmo sentido, Assumpção et al.21, observou associação entre o consumo de AUP e a prevalência de doenças crônicas, como diabetes, entre pessoas idosas, em que dietas de melhor qualidade foram constatadas entre aqueles que referiram o diagnóstico de diabetes e a presença de três ou mais doenças crônicas. Acredita-se que tal fato seja decorrente da preocupação com o estilo de vida que portadores de DCNT têm com a saúde e as orientações que já receberam quanto à importância de hábitos de vida saudáveis para controle/remissão da doença. Contudo, no presente estudo as demais DCNT avaliadas não apresentaram associação com o consumo de AUP entre pessoas idosas.
De todo modo, revisões sistemáticas e meta análises realizadas com o objetivo de avaliar evidência científica disponível sobre a associação do consumo e AUP e desfecho desfavoráveis, reforçam a associação principalmente com DCNT28,29 e mortalidade28-30, em especial, por doenças cardiovasculares. Considerando que pessoas idosas apresentam as maiores prevalências de DCNT e, consequentemente, mortalidade por DCNT, tais evidências endossam a necessidade de formulação de estratégias de políticas públicas que considerem ações para o fortalecimento da redução de consumo de AUP7, como a taxação de alimentos não saudáveis, aumento de subsídios para aquisição de alimentos in natura e minimamente processados, principalmente para populações em contextos socioeconômicos mais desfavoráveis, e estimulo a promoção de hábitos de vida saudáveis que envolvam a atividade física e da alimentação adequada e saudável31.
É importante considerar as limitações deste estudo. O uso de dados autorrelatados pode estar sujeito a vieses de memória e a uma possível subestimação/superestimação das variáveis informadas, tanto para desfecho quanto para exposição. Contudo, o rigor metodológico e o controle do trabalho de campo realizado pelo IBGE, assim como sua experiência na condução de inquéritos com representatividade nacional e o uso de questões utilizadas também em outros inquéritos podem demonstrar/assegurar a qualidade das informações analisadas e dos resultados encontrados.
Por outro lado, este estudo apresenta pontos fortes, como o ineditismo do estudo com a população idosa em nível nacional e a inclusão de uma amostra representativa, o que aumenta a capacidade em generalizar resultados para essa faixa etária. Além disso, a utilização de técnicas estatísticas robustas, como modelos de regressão ajustados, permite a análise do impacto das variáveis no consumo de AUP na população idosa.
Espera-se que estes resultados possam contribuir com o arcabouço da vigilância alimentar de pessoas idosas no Brasil. Ademais, considerando que o processo de vigilância deve ser permanente e contínuo, estudos futuros devem ser realizados com o intuito de avaliar o consumo alimentar e o planejamento de ações e estratégias voltadas para o cuidado da pessoa idosa no âmbito da saúde coletiva.
CONCLUSÃO
Constatou-se que 7,1% da população idosa brasileira consumiu cinco ou mais grupos de AUP no dia anterior a pesquisa. Esse consumo elevado está diretamente associado a fatores como ter escolaridade a partir do ensino fundamental completo, residir em regiões mais desenvolvidas e urbanizadas, passar mais de 3 horas por dia assistindo televisão e não ter diagnóstico de diabetes.
Este estudo é pioneiro na avaliação da população idosa em âmbito nacional. Recomenda-se que os resultados obtidos sejam considerados na formulação de estratégias de saúde coletiva, especialmente no que se refere à Vigilância Alimentar e Nutricional e à Promoção da Alimentação Adequada e Saudável, ambas diretrizes da Política Nacional de Alimentação e Nutrição32. Sugere-se rigorosa vigilância dessas estratégias no âmbito da Atenção Primária à Saúde, que é a principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS), e amplamente utilizada pela população idosa em todo território nacional. Iniciativas como o Programa Academia da Saúde e a atuação das equipes multiprofissionais (eMultis) são estratégicos para a execução de atividades direcionadas a esse público. Além disso, espera-se que este trabalho inspire novos estudos acerca desta temática.
AGRADECIMENTOS
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.
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Não houve financiamento para a execução deste trabalho.
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DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi disponibilizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e pode ser acessado em https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/saude/9160-pesquisa-nacional-de-saude.html?=&t=microdados.
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Editado por
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Editado por: Yan Nogueira Leite de Freitas
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi disponibilizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e pode ser acessado em https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/saude/9160-pesquisa-nacional-de-saude.html?=&t=microdados.


