Open-access Autopercepção de saúde bucal em pessoas idosas atendidas em um centro especializado em geriatria: prevalência e fatores associados

Resumo

Objetivo  Avaliar a autopercepção de saúde bucal (ASB) e os fatores associados entre pessoas idosas atendidas em um centro especializado em geriatria no norte do estado de Minas Gerais, Brasil.

Métodos  Trata-se de um estudo observacional, transversal e analítico. Empregou-se o Oral Health Impact Profile (OHIP-14) para avaliar a autopercepção de ASB. As variáveis independentes referiram-se aos fatores sociodemográficos, subjetivos, práticas de autocuidado bucal e aspectos relacionados à condição clínica. Desenvolveram-se análises de regressões de Poisson simples e múltipla, para investigar associação entre a ASB e as potenciais variáveis preditoras.

Resultados  Participaram do estudo 277 pessoas idosas, destas a maioria apresentava idade entre 60 e 73 anos (52,7%), eram do sexo feminino (78,0%) e alfabetizados (85,6%). A prevalência de ASB negativa foi de 37,5% e os fatores associados à pior ASB foram: maior idade (RP: 1,73; IC95%: 1,05-2,88; p=0,033), menor nível de letramento em saúde bucal (RP: 1,71; IC95%: 1,00-2,92; p=0,050), pior percepção do estado de saúde geral (RP: 1,26; IC95%: 1,12-1,41; p<0,001) e presença de sarcopenia (RP: 2,19; IC95%: 1,09-4,39; p=0,027).

Conclusão  Ressalta-se a necessidade de uma coordenação do cuidado integrado bem instituída e preparada para atender as demandas particulares de saúde bucal da população idosa.

Palavras-Chave:
Saúde Bucal; Odontogeriatria; Autopercepção; Saúde do Idoso; Saúde Pública

Abstract

Objective  To evaluate self-perception of oral health (SOH) and associated factors among elderly people treated at a center specialized in geriatrics in the north of Minas Gerais, Brazil

Methods  This is an observational, cross-sectional, and analytical study.

Results  A total of 277 elderly individuals participated in the study, the majority of whom were between 60 and 73 years old (52.7%), were female (78.0%) and literate (85.6%). The prevalence of negative ASB was 37.5% and the factors associated with worse ASB were: older age (PR: 1.73; 95% CI: 1.05-2.88; p=0.033), lower level of oral health literacy (PR: 1.71; 95% CI: 1.00-2.92; p=0.050), worse perception of general health status (PR: 1.26; 95% CI: 1.12-1.41; p<0.001) and presence of sarcopenia (PR: 2.19; 95% CI: 1.09-4.39; p=0.027).

Conclusion  The need for well-established integrated care coordination and preparation to meet the particular oral health demands of the elderly population is highlighted.

Keywords
Oral Health; Geriatric dentistry; Self-perception; Elderly Health; Public health

INTRODUÇÃO

O aumento da expectativa de vida mundial e no Brasil1 exige a implementação de estratégias intersetoriais com o objetivo de produzir e disseminar conhecimentos sobre saúde física, psicológica e, particularmente, bucal (muitas vezes esquecida por serviços públicos assistenciais) os quais propiciem o envelhecimento bem-sucedido, qualidade de vida e prevenção de morbidades ou agravos, sempre vislumbrando a manutenção da autonomia e independência na pessoa idosa2.

Nessa direção, estudos sugerem que o cuidado com a saúde bucal está atrelado a melhora das funções estomatognáticas3-10, da condição nutricional7 e da estrutura muscular6,7, além de outros mecanismos que estão intimamente relacionados à arcada dentária, como a quantidade de dentes presentes na cavidade bucal e à qualidade da atividade mastigatória7.

Pesquisadores5,7 alertam que disfunções bucais (como doença periodontal, gengivite, cárie dentária e edentulismo) podem provocar hipofunção bucal, dificuldade ou incapacidade de mastigação, gerar dor e desconforto, resultar em insatisfação psicoemocional, motivação diminuída para o autocuidado e para procurar serviços de saúde odontológicos5,7.

A saúde bucal é fundamental para o bem-estar geral das pessoas idosas, com influência importante na qualidade de vida e nos aspectos psicossociais, tais como autoestima, autoimagem, relações interpessoais, além de repercussões econômicas (custos com a saúde) para indivíduos e comunidades4,9,10. Fatores psicossociais, como suporte social, resiliência, nível de estresse, percepção de controle sobre a saúde e satisfação com a vida, são considerados elementos cruciais, os quais contribuem, muitas vezes, para a prevenção e o enfrentamento de problemas de saúde geral e bucal1,4.

Neste contexto, a autopercepção de saúde (AS) que compreende elementos objetivos e subjetivos avaliados pelo indivíduo10, tem sido um constructo amplamente empregado em pesquisas para avaliar e compreender o comportamento de indivíduos no contexto de vida diária, sua capacidade de adotar padrões de vida saudáveis, bem como suas experiências, influências sociais e culturais sobre seu estado de saúde9,10.

No campo da odontologia, a autopercepção da saúde bucal (ASB) representa um indicador relativo do processo saúde-doença bucal10. Somado a isso, investigações destacam que o reconhecimento oportuno dos fatores determinantes da ASB auxilia na condução de intervenções e iniciativas de ensino em saúde mais eficazes9,10. Embora existam estudos que abordam a ASB entre pessoas atendidas na Atenção Primária à Saúde (APS)10, e em pessoas idosas institucionalizadas11, são escassos os estudos que focam em pessoas idosas assistidas em centros de atenção secundária e sob a perspectiva de um modelo teórico conceitual.

O conhecimento sobre a ASB em pessoas idosas possibilitará obter um panorama sobre as condições de saúde com indicações das necessidades de tratamento, de forma rápida, acessível e econômica2,10, uma vez que, a saúde bucal é parte integrante da saúde das pessoas idosas e proporciona uma manutenção da qualidade de vida. Portanto, explorar sobre essa temática permite, avaliar e monitorar melhorias no estado bucal, além da adesão ao tratamento após a implementação de intervenções em saúde, sendo relevante para o planejamento da assistência pelos serviços de saúde7-10. À vista disso, este estudo objetivou avaliar a autopercepção de saúde bucal e os fatores associados entre pessoas idosas atendidas em um centro especializado em geriatria no norte de Minas Gerais, Brasil.

MÉTODO

Este estudo é parte integrante de um projeto maior “Prevalência e fatores associados ao letramento e a autopercepção em saúde bucal de idosos atendidos em um centro”, realizado entre junho e agosto de 2023. Trata-se de um estudo transversal, epidemiológico, descritivo e analítico, conduzido com pessoas idosas atendidas em um centro especializado em geriatria e gerontologia, o qual seguiu os critérios da lista de verificação do Strengthening the Reporting of Observational studies in Epidemiology (STROBE) para descrição de pesquisas observacionais12.

A investigação foi desenvolvida no Centro de Referência em Assistência à Saúde do Idoso (CRASI) Eny Faria de Oliveira, responsável pelo atendimento referenciado de 86 municípios da macrorregião norte do estado de Minas Gerais, Brasil, cuja população total é estimada em 1.676.413 habitantes13. Destaca-se que o serviço conta com equipe assistencial multiprofissional, constituída por geriatras, enfermeiros, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, odontólogos, nutricionistas, educadores físicos, assistentes sociais e técnicos de enfermagem. O CRASI possui casa de apoio, realiza exames especializados, oferece planos terapêuticos individualizados, procedimentos odontológicos e contrarreferência às equipes de saúde da família (eSF), além de atividades de educação permanente e apoio técnico-pedagógico (matriciamento). Desta forma, incorpora-se ao serviço de Atenção Primária à Saúde (APS), à Rede de Atenção à Saúde (RAS) e à assistência hospitalar, na tentativa de integrar os diferentes níveis do cuidado.

A população-alvo deste estudo foi constituída por pessoas idosas que realizaram agendamentos prévios para consultas odontológicas no centro de referência, durante o período de junho a agosto de 2023. Salienta-se que a instituição efetua, em média, 140 consultas por dia, sendo 12 consultas odontológicas diárias. Ressalta-se ainda que, nos últimos 3 meses que antecederam o estudo, 720 pessoas idosas foram atendidas em consultas odontológicas no serviço. Para estimar o tamanho mínimo da amostra, aplicou-se a fórmula de estudos transversais com população finita. Assumiu-se uma prevalência estimada de 50% para o evento estudado, considerando que este estudo é parte integrante de um projeto maior onde avaliaram-se diferentes desfechos, e por ser um valor que fornece o maior número amostral14. O nível de confiança assumido foi de 95% e o erro amostral de 5%. Obtendo-se um número mínimo de 251 pessoas idosas. Estimando-se perdas, acrescentou-se 10%, sendo esperado que no mínimo 276 participantes fossem avaliadas.

Foram incluídas na pesquisa pessoas idosas, de ambos os sexos, com idade ≥60 anos, atendidas no CRASI. Excluíram-se participantes que estavam impossibilitadas de participar da investigação, devido a diagnóstico de demência, e que apresentavam incapacidade cognitiva, de compreensão de raciocínio e/ou de comunicação (relatado pelo acompanhante ou comprovado por laudos médicos, quando disponível).

Os pacientes foram entrevistados e avaliados, nos períodos de espera por atendimento no centro (estratégia utilizada para não prejudicar a dinâmica do serviço) por cirurgiões-dentistas e estudantes de cursos de graduação da área da saúde (enfermagem, medicina e odontologia), previamente treinados quanto à aplicação dos instrumentos e à abordagem ética na pesquisa.

A variável desfecho autopercepção de saúde bucal (ASB) foi avaliada por meio do emprego do Oral Health Impact Profile (OHIP-14), o qual determina o impacto da condição de saúde bucal autoavaliada15,16. Originalmente, o instrumento é composto por 49 questões, desenvolvido em 1994 por Slade e Spencer17. Uma versão reduzida do OHIP-49 foi elaborada por Slade em 199715, constituída por 14 itens, cuja validação para língua portuguesa foi descrita por Afonso e et al.16.

O OHIP consiste em um indicador subjetivo, cuja finalidade é proporcionar uma medida de incapacidade, desconforto e desvantagem atribuída à condição de saúde bucal, por meio da autopercepção. As respostas dos itens são configuradas em escala tipo likert e suas pontuações variam entre zero (0) a quatro (4). As pontuações das questões são somadas e o escore total do questionário pode variar entre 0 e 56 pontos. Valores mais altos atribuídos pelo respondente sugerem pior ASB e seus impactos psicossociais15,16. Neste estudo, a autopercepção de saúde bucal foi dicotomizada, a partir da mediana dos escores totais do OHIP-14, em: positiva (boa/muito boa/excelente) e negativa (ruim/regular)9.

As variáveis independentes referiram-se aos fatores sociodemográficos, subjetivos, práticas de autocuidado em saúde bucal e aspectos relacionados à condição clínica. As caraterísticas sociodemográficas analisadas foram: idade (dicotomizada a partir da mediana); sexo (feminino e masculino); escolaridade (alfabetizado e analfabeto); cor da pele autorreferida (branca e não branca); e arranjo domiciliar (reside com familiares/cônjuge e reside sozinho).

As variáveis subjetivas avaliadas foram: letramento em saúde bucal (LSB) e autopercepção da saúde geral (ASG). O LSB foi investigado por meio da aplicação do Health Literacy in Dentistry instrument (HeLD-14)18, validado para o português brasileiro19, constituído por 14 questões as quais mensuram, subjetivamente, a habilidade do indivíduo em procurar, compreender e utilizar informações de saúde bucal, para tomar decisões de saúde bucal adequadas. São avaliados sete domínios de letramento em saúde bucal (LSB): compreensão, comunicação, acesso, receptividade, suporte, utilização e barreiras econômicas. Cada item é configurado em escala tipo likert, com pontuações que variam entre zero (0) e quatro (4). As pontuações dos itens são somadas e o escore total pode variar entre 0 a 56 pontos, sendo que elevados escores indicam alto LSB18,19. A autopercepção da saúde geral (ASG) foi aferida por meio da seguinte questão: Como você considera seu estado de saúde atualmente? (dicotomizada em excelente/boa e ruim/regular)20.

Foram avaliadas as seguintes variáveis em relação às práticas de autocuidado bucal: uso de escova de dente (sim e não); uso de dentifrício (sim e não); uso de fio dental (sim e não); e hábito de escovação (≥3 vezes ao dia e ≤2 vezes ao dia).

As condições clínicas foram avaliadas por meio o Simple Questionnaire to Rapidly Diagnose Sarcopenia (SARC-F)21, em sua versão proposta para o idioma português21, para pesquisar o risco de sarcopenia. O SARC-F é composto por cinco componentes de avaliação: força, assistência na deambulação, levantar da cadeira, subir escadas e quedas. Cada elemento é configurado em escala tipo likert, com pontuações que variam entre zero (0) a dois (2). As pontuações dos componentes são somadas e escores totais de quatro (4) pontos ou mais indicam sarcopenia21,22. Além disso, a presença de diabetes e/ou hipertensão foi avaliada por meio da pergunta: algum médico já disse que o (a) senhor (a) possui diabetes ou hipertensão? (dicotomizada em não e sim)23.

Nesta investigação, as variáveis independentes foram organizadas em quatro níveis, conforme o modelo de Oliveira-Júnior e Mialhe10. Além disso, foi incluída a variável sarcopenia visto que alguns estudos demonstram uma relação entre saúde bucal e a sarcopenia e/ou seus fatores diagnósticos, como força de preensão manual, velocidade de caminhada e massa muscular24. Vale destacar que este modelo teórico conceitual é, seguramente, desenvolvido para avaliações no contexto odontológico10. Foram consideradas as variáveis conforme a melhor adaptação aos componentes do modelo e, adicionalmente, de acordo com consulta à literatura científica em odontologia25.

Dividiu-se as variáveis em quatro níveis: 1º - Fatores sociodemográficos (idade, sexo, escolaridade, cor da pele e arranjo domiciliar); 2º - Fatores subjetivos (letramento em saúde bucal e autopercepção de saúde geral); 3º - Práticas de autocuidado em saúde bucal (uso de escova de dentes, uso de dentifrício, uso de fio dental e hábito de escovação); 4º - Fatores clínicos (doenças crônicas e risco de sarcopenia), conforme exibido na Figura 1.

Figura 1
Modelo teórico conceitual empregado para investigar os fatores associados à autopercepção de saúde bucal entre pessoas idosas atendidos em um centro de atenção secundária. Montes Claros, MG, 2023.

Inicialmente, realizaram-se análises descritivas (frequências absolutas e relativas) das variáveis estudadas, medidas de tendência central e medidas de dispersão. Para as análises das associações entre as variáveis independentes com a ASB, aplicaram-se modelos de regressão de Poisson, com análises simples e de múltiplos fatores hierarquizados, estimando-se as razões de prevalência (RP) brutas e ajustadas, com respectivos intervalos de confiança de 95% (IC95%).

Ressalta-se que foram incluídos nos modelos multivariados hierarquizados as variáveis que se mostraram associadas, nas análises simples, até o nível de 20% (p≤0,20). Foram mantidas nos modelos finais apenas as variáveis associadas até o nível de 5% (p≤0,05). Os fatores foram inseridos nos modelos múltiplos a partir do primeiro até o quarto nível, com ajuste para as variáveis do mesmo nível e de níveis anteriores.

Esta pesquisa seguiu os preceitos da resolução nº 466/12 do Conselho Nacional de Saúde (CNS), para a condução de pesquisa com seres humanos. Apresentou-se ao Centro de Referência em Assistência à Saúde do Idoso (CRASI), o Termo de Concordância da Instituição (TCI), e aos participantes, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

O estudo conta com aprovação em Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) do Centro Universitário UNIFIPMoc, sendo deferido parecer consubstanciado integrado à plataforma Brasil de nº 6.101.412/2023.

RESULTADOS

Foram avaliadas 277 pessoas idosas atendidas no serviço de atenção secundária, com predomínio do sexo feminino. De modo majoritário, os participantes apresentavam idade entre 60 e 73 anos, observando-se uma média de idade de 73,82 no grupo total avaliado (IC95%: 72,89-74,74; DP=7,79). Em relação à escolaridade, as pessoas idosas eram, expressivamente, alfabetizadas. A maioria declarou cor da pele não branca e residir com familiares/cônjuge.

Verificou-se que 50,5% dos indivíduos apresentaram valores do HeLD-14 abaixo da mediana da amostra, indicando baixo letramento em saúde bucal. Além disso, a maior parte dos participantes autoavaliaram sua saúde geral como regular ou ruim.

A prevalência da autopercepção da saúde bucal das pessoas idosas investigadas demonstrou que 37,5% avaliaram negativamente a sua saúde bucal. Nas análises brutas, as variáveis associadas à ASB negativa até o nível de 20% (p<0,20), foram: idade ≥73 anos; analfabeto; baixo LSB; ASG regular/ruim; e risco de sarcopenia (Tabela 1).

Tabela 1
Características eassociações brutas dos fatores sociodemográficos, subjetivos, práticas de autocuidado bucal e aspectos clínicos com autopercepção da saúde bucal em pessoas idosas atendidos em um centro especializado (N=277). Montes Claros, MG, 2023.

O modelo multivariado hierarquizado (ajustado) revelou que pessoas idosas com idade maior ou igual a 73 anos (RP: 1,73; IC95%: 1,05-2,88; p=0,033), com baixo letramento em saúde bucal (RP: 1,71; IC95%: 1,00-2,92; p=0,050), pior percepção do estado de saúde geral (RP: 1,26; IC95%: 1,12-1,41; p<0,001) e com risco para sarcopenia (RP: 2,19; IC95%: 1,09-4,39; p=0,027) apresentaram maiores prevalências de ASB negativa. Essas e outras características do grupo avaliado estão expostas na Tabela 2.

Tabela 2
Associações ajustadas dos fatores sociodemográficos, subjetivos, práticas de autocuidado bucal e aspectos clínicos com autopercepção da saúde bucal em pessoas idosas atendidos em um centro especializado (N=277). Montes Claros, MG, 2023.

DISCUSSÃO

O presente estudo verificou uma prevalência de 37,5% de ASB negativa entre pessoas idosas usuárias de um centro especializado em geriatria e gerontologia no norte de Minas Gerais, Brasil. Além disso, observou-se que pessoas idosas com idade ≥ 73 anos, com baixo letramento em saúde bucal, ASG ruim/regular e com risco de sarcopenia apresentaram maiores prevalências de ASB negativa.

De modo semelhante, outras investigações desenvolvidas com pessoas idosas na Tailândia e Malásia constataram prevalências elevadas de ASB negativa, respectivamente, 45,8%25 e 33,0%10. No Brasil, um estudo transversal realizado com idosos institucionalizados no estado do Paraná registrou prevalência de ASB ruim de 35,1%26. Outra pesquisa produzida com dados de base do Estudo Longitudinal Brasileiro do Envelhecimento (ELSI-Brasil), observou prevalência de autopercepção da saúde bucal ruim de 43,8% em idosos residentes de 70 municípios em todas as regiões brasileiras27. A prevalência de ASB negativa entre as pessoas idosas deste estudo pode ser justificada pela presença de condições bucais mais complexas, como perda dentária e doenças periodontais, que são comuns entre idosos que buscam atendimento em um centro de referência secundário. Esses fatores refletem a gravidade das condições de saúde bucal que levam esses pacientes a procurar cuidados especializados, contribuindo para uma percepção negativa de sua saúde bucal10.

A ASB incorpora aspectos físicos, cognitivos e psicoemocionais do indivíduo, destacando-se como um abrangente indicador de saúde. As concepções ampliadas de saúde bucal são voltadas a uma perspectiva biopsicossocial e devem ser consideradas às percepções do paciente sobre sua condição, bem como o efeito das alterações estomatognáticas no seu bem-estar funcional e psicológico28.

A intelecção do indivíduo sobre sua necessidade de saúde bucal pode determinar o seu comportamento, hábitos de autocuidado e sua adesão ao tratamento odontológico. Uma razão frequente para indivíduos não procurarem serviços odontológicos está atrelada à percepção equivocada ou distorcida da sua própria necessidade. Assim, considera-se que a avaliação desse indicador pode auxiliar os profissionais durante a prática clínica odontológica, na compreensão das carências de pessoas idosas, na escolha do melhor tratamento e no monitoramento do estado de saúde bucal, além de possibilitar a realização de ações preventivas no desenvolvimento de agravos2,8.

A maioria da amostra avaliada demonstrou baixo letramento em saúde bucal e ASG ruim/regular. Outros estudos conduzidos com idosos no Brasil também registraram que pessoas idosas com menor nível de LSB (53,3%)10 e autopercepção da saúde geral desfavorável foram majoritárias (54,2%)29. Além disso, destaca-se que o relato expressivo, neste estudo, da não utilização de fio dental e de escovação bucal duas vezes ou menos por dia também são comportamentos que alertam para a necessidade de ações de educação em saúde direcionadas ao público idoso9,10.

O modelo multivariado revelou que os idosos mais velhos apresentaram maiores prevalências de pior autopercepção de saúde bucal. Esse achado corrobora com um estudo anterior realizado com idosos comunitários, que constatou correlação entre idade e ASB13. Outras produções internacionais sugerem que a qualidade de vida em saúde bucal (QVSB) diminui frequentemente com o avançar da idade, especialmente em idosos com 75 anos ou mais, muitas vezes, em função de agravos como o edentulismo, atrelado também à condição socioeconômica, o que influencia negativamente na ASB30,31.

O letramento em saúde bucal foi outra variável determinante com impacto significativo no escore de ASB neste estudo. O baixo LSB também é descrito como um fator relacionado ao maior risco de ASB negativa em estudo produzido no Brasil com adultos e pessoas idosas usuárias dos serviços odontológicos da APS10. Resultado congruente foi registrado em pesquisa multicêntrica com pessoas idosas desenvolvida em Portugal32. Esse achado pode ser explicado pela dificuldade que indivíduos com baixo LSB têm em compreender e seguir orientações sobre cuidados com a saúde bucal, o que pode levar a uma menor adesão às práticas de higiene bucal e ao uso inadequado ou insuficiente dos serviços de saúde9. Além disso, pessoas idosas podem enfrentar barreiras no acesso à informação e na capacidade de tomar decisões sobre sua saúde bucal, devido a desigualdades no acesso a serviços e à educação em saúde, o que contribui para uma percepção negativa da condição de sua saúde bucal10.

As competências de letramento em saúde são primordiais para manter e melhorar a saúde bucal da população idosa. Conforme os indivíduos envelhecem, o letramento em saúde torna-se uma ferramenta ainda mais valiosa para a compreensão e a capacidade da pessoa idosa em adotar hábitos de vida saudáveis e autocuidado bucal adequado33. Entender os conhecimentos, atitudes e crenças sobre a saúde bucal entre as pessoas idosas consiste em uma etapa crucial para projetar programas e iniciativas de promoção à saúde ao público idoso9,10.

A pior percepção do estado de saúde geral manteve-se associada à ASB negativa. Achados similares foram verificados em estudos anteriores9,34. Pesquisadores afirmam não haver dissociação entre os construtos subjetivos, ou seja, indivíduos com percepções negativas em relação à própria saúde geral tendem a autoavaliar a saúde bucal como ruim10. Dessa forma, a saúde subjetiva se torna essencial não apenas para o diagnóstico e tratamento das necessidades das pessoas idosas, mas também para a formulação de planos educacionais, sociais e preventivos34.

Outro fator que também demonstrou associação estatística significante com a ASB foi a presença de sarcopenia. Essa relação é reafirmada em em estudo anterior, a qual também empregou o OHIP-14 e registrou que pacientes com sarcopenia apresentaram piores percepções do estado de saúde bucal e qualidade de vida relacionada à saúde bucal35. Estudos alertam que a condição de saúde bucal prejudicada pode levar à desnutrição, especialmente na pessoa idosa, e, consequentemente, reduzir a ingestão de proteínas e vitaminas, fatores os quais são de risco para sarcopenia4,5. Logo, há a possibilidade de a qualidade de vida relacionada à saúde bucal deficiente predispor à sarcopenia. Por outro prisma, a sarcopenia pode causar disfagia, dificuldade mastigatória e hipofunção bucal. Diante disso, considera-se que a perda progressiva da massa muscular possa resultar em agravos à saúde bucal35.

Os resultados desta investigação devem ser considerados à luz de algumas limitações. Trata-se de um estudo transversal, com análises específicas, o qual não permite determinação da causalidade. Além disso, somente indivíduos que frequentavam o centro de saúde foram convidados a participar do estudo, o que pode ter introduzido um viés na autopercepção de saúde bucal, já que esses participantes podem ter uma percepção diferente daqueles que não buscavam atendimento.

CONCLUSÃO

O presente estudo registrou elevada prevalência de autopercepção de saúde bucal negativa, associada, principalmente, à maior idade, ao menor nível de letramento em saúde bucal, à pior percepção do estado de saúde geral e à presença de sarcopenia. Destaca-se que este estudo pode auxiliar os gestores de saúde no planejamento assistencial e na elaboração de estratégias de ensino em saúde, contribuindo para a aplicação da Prática Baseada em Evidência (PBE), sempre pleiteando a melhoria da condição de saúde bucal da população.

Além disso, os resultados reiteram a necessidade de educação permanente e de apoio técnico-pedagógico (matriciamento) aos serviços e aos profissionais de saúde envolvidos no contexto assistência odontológica, buscando estabelecer uma coordenação do cuidado integrado, que seja sólida e apta a atender às necessidades específicas da população idosa. Neste sentido, estudos futuros devem aprofundar os achados do presente estudo, como os mecanismos de relação entre sarcopenia e saúde bucal.

  • Não houve financiamento para a execução deste trabalho.
  • DISPONIBILIDADE DE DADOS
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi disponibilizado no Figshare e pode ser acessado em https://doi.org/10.6084/m9.figshare.27224406.

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Editado por

  • Editado por: Larissa Neves Quadros

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi disponibilizado no Figshare e pode ser acessado em https://doi.org/10.6084/m9.figshare.27224406.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Mar 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    01 Maio 2024
  • Aceito
    04 Nov 2024
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