Open-access Polifarmácia associada a baixa capacidade funcional em pessoas idosas: resultados do estudo SHIP-Brazil

Resumo

Objetivo  Investigar a associação entre a polifarmácia e baixa capacidade funcional entre pessoas idosas, residentes no sul do Brasil.

Método  Estudo do tipo observacional seccional realizado com 511 pessoas idosas participantes do estudo “Vida e Saúde em Pomerode-SHIP Brazil”. Uma entrevista com questionário estruturado foi realizada, contendo variáveis sociodemográficas, comportamentais, condições gerais, de saúde e assistenciais. A capacidade funcional foi estimada em escala de zero a 100 e quartis com base no questionário SF-36. A associação entre a polifarmácia (cinco medicamentos ou mais) e baixa capacidade funcional (quartil 25 ou menos) foi estimada por regressão logística. Resultado: Dentre os participantes, 48,3% utilizavam 5 ou mais medicamentos. A mediana da capacidade funcional foi de

Conclusão  Há uma associação entre polifarmácia e baixa capacidade funcional, mesmo após ajuste por fatores socioeconômicos, de estilo de vida, condições gerais, de saúde e assistenciais. Faz-se necessário implementar ações de promoção a saúde direcionadas à população de 60 anos ou mais que utilizam medicamentos, de modo a garantir tratamento efetivo, seguro e que evite a baixa capacidade funcional.

Palavras-Chave:
Polimedicação; Desempenho Físico Funcional; Saúde do Idoso; Medicamentos de Uso Contínuo

Abstract

Objective  To investigate the association between polypharmacy and low functional capacity among older adults residing in southern Brazil.

Method  This cross-sectional observational study involved 511 older adults participating in the Study of Health in Pomerode (SHIP-Brazil) study. A structured questionnaire interview was conducted, including sociodemographic, behavioral, general health, and healthcare variables. Functional capacity was assessed using a 0-to-100 scale and quartiles based on the SF- 36 questionnaire. The association between polypharmacy (five or more medications) and low functional capacity (25th percentile or lower) was estimated using logistic regression.

Results  Among the participants, 48.3% used five or more medications. The median functional capacity was 65 (IQR 40–85). A negative correlation was observed between the functional capacity scale and the number of medications (rho = -0.3068; p > 0.001). The likelihood of having low functional capacity was 2.8 times higher (95% CI 1.8–4.1) among those consuming five or more medications compared to those consuming four or fewer. This association remained significant across all adjusted models, with the greatest reductions observed for clinical (OR = 1.6; 95% CI 1.1–2.6) and healthcare-related variables (OR = 1.8; 95% CI 1.2–2.9).

Conclusion  There is an association between polypharmacy and low functional capacity, even after adjusting for socioeconomic, lifestyle, general health, and healthcare-related factors. It is essential to implement health promotion actions targeted at the population aged 60 years or older who use medications, ensuring effective and safe treatment while preventing low functional capacity.

Keywords
Polypharmacy; Functional Physical Performance; Older Adult Health; Chronic Medication Use

INTRODUÇÃO

A Capacidade Funcional da população com 60 anos ou mais de idade pode ser atribuída a interação da sua capacidade e condições do ambiente em que vive, de modo a poder realizar suas atividades da vida diária (AVD). No envelhecimento, as alterações hormonais e fisiológicas, associadas à ocorrência de múltiplas doenças e ao uso concomitante de vários medicamentos, comprometem a autonomia e independência de pessoas idosas e reduzem sua capacidade funcional1.

A incapacidade funcional é um conceito que vem sendo ampliado ao longo dos últimos anos e representa a dificuldade de uma pessoa executar suas tarefas cotidianas básicas ou complexas de modo a ter uma vida independente na comunidade2. Em estudo com 22 países da Europa, foi observado que 27,7% da população com 60 anos ou mais eram incapazes de realizar as AVD1.

Paralelamente, revisões de literatura3 afirmam que a incapacidade funcional em idosos pode estar associada ao número de medicamentos consumidos. Na literatura o uso de cinco ou mais medicamentos utilizados por um indivíduo é conceituado como polifarmácia4. Um estudo realizado em dez países localizados em três continentes diferentes (América, Europa e Oceania), mostrou que a prevalência da polifarmácia aumentou em todos os países, e os que tiveram o maior aumento na prevalência da polifarmácia foram a Irlanda (42,6%), a Suécia (38,3%) e os Estados Unidos (26,2%)5. Na Alemanha, cerca de 66% dos idosos fazem uso de polifarmácia6. Já no Brasil, a prevalência de polifarmácia, na população com 65 anos ou mais, é 18,1%7.

Além disso, estudos na Inglaterra8 e na Alemanha9 encontraram associações entre o uso de medicamentos e a incapacidade funcional na população com 60 anos ou mais. A identificação dessa associação contribui para o uso apropriado de medicamentos e melhor capacidade funcional para as pessoas idosas. Conhecer a origem, descendência, crença ou cultura das populações são outros temas que contribuem para compreender a realidade da população e quais melhores abordagens os profissionais de saúde precisam adotar para os tratamentos em saúde serem mais eficazes10.

Estudos sobre polifarmácia e incapacidade funcional, em destaque para os descendentes de imigrantes, podem contribuir para identificar fatores que predispõem o consumo de múltiplos medicamentos e incapacidade funcional nessas populações. Contudo, não identificamos estudos de base populacional sobre a associação entre esses dois temas em população de descendentes germânicos residentes no Brasil. Desse modo, esse estudo tem como objetivo analisar a associação entre polifarmácia e a baixa capacidade funcional entre em pessoas idosas residentes em Pomerode, Santa Catarina, Brasil.

MÉTODO

Este é um estudo observacional seccional, de base populacional, com participantes do estudo de coorte “Vida e Saúde em Pomerode – SHIP Brazil”, que é uma parceria realizada pela Universidade de Greifswald, na região da Pomerânia na Alemanha, e a Universidade Regional de Blumenau (FURB), com participação de pessoas residentes no município de Pomerode, SC. A cidade de Pomerode está localizada no estado de Santa Catarina, no Médio Vale do Rio Itajaí e foi colonizada por alemães da região da Pomerânia.

Os procedimentos metodológicos foram previamente descritos11. Resumidamente, a amostra do SHIP-Brazil foi estimada por meio de amostragem aleatória simples, estratificada com pessoas de ambos os sexos e idade de 20 a 79 anos (n=3678). Foram incluídos aqueles participantes que residiam no município de Pomerode, Santa Catarina, há pelo menos 6 meses e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Os critérios de exclusão foram: possuir limitação física ou cognitiva autodeclarada ou declarada por familiar responsável que impedisse de responder aos questionários ou realizar exames.

A coleta de dados da linha de base do SHIP-Brazil ocorreu entre os anos de 2014 e 2018. O recrutamento dos participantes foi realizado por contato telefônico seguido de visita domiciliar onde foi realizada a aplicação do TCLE. Os participantes foram entrevistados com questionários estruturados. A duração média das entrevistas foi de 2 horas (com dois momentos de interrupção para maior conforto aos participantes). No final da visita, os participantes foram convidados a realizar exames no Centro de Exames (CE) localizado no Hospital Universitário de Blumenau, Santa Catarina, em dia e horário pré-agendado. No início da manhã, após a chegada ao CE, os voluntários eram esclarecidos sobre cada exame e procedimento a ser realizado e, caso concordassem, assinavam um novo TCLE. Os exames e a coleta de dados foram realizados por pessoal treinado e certificado, após a realização de estudo piloto. Ao final, participaram 2488 pessoas.

Todos os procedimentos de coleta de dados e informações sobre os testes realizados estão descritos em detalhes nos Procedimentos Operacionais Padrão da pesquisa (www.furb.br/vspomerode). O SHIP-Brazil atende a Declaração de Helsinque e foi aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Regional de Blumenau (parecer 2.969.842).

Para esse estudo, foi utilizada parte da amostra do SHIP-Brazil, que corresponde aos idosos entre 60 e 79 anos de ambos os sexos (n=733).

Os participantes foram questionados, na visita domiciliar, quanto a utilização eventual de medicamentos nos últimos 15 dias e sobre o uso contínuo de medicamentos. Àqueles que mencionavam o uso de medicamentos, foi solicitado que apresentassem as receitas e respectivos medicamentos. Com relação aos medicamentos de uso contínuo foram registrados o nome, forma farmacêutica, dose e posologia. O número total de medicamentos contínuos por participante foi calculado. A polifarmácia foi definida como o uso de cinco ou mais medicamentos de uso contínuo pelo indivíduo4.

A capacidade funcional foi estimada pelo primeiro bloco do questionário SF-36, adaptado e validado em língua portuguesa12. Esse instrumento possui 10 perguntas relativas a atividades básicas e instrumentais de vida diária, que são precedidas da pergunta “Devido a sua saúde, você tem dificuldade para fazer essas atividades?”. 1. Atividades vigorosas, que exigem muito esforço, tais como correr, levantar objetos pesados, participar em esportes árduos; 2. Atividades moderadas, tais como mover uma mesa, passar aspirador de pó, jogar bola, varrer a casa; 3. Levantar ou carregar mantimentos; 4. Subir vários lances de escada; 5. Subir um lance de escada; 6. Curvar-se, ajoelhar-se ou dobrar-se; 7. Andar mais de um quilômetro; 8. Andar vários quarteirões; 9. Andar um quarteirão; 10. Tomar banho ou vestir-se. Os entrevistados tinham três opções de resposta: nenhuma dificuldade, alguma dificuldade e muita dificuldade para realizar cada atividade. A pontuação resultante foi somada e, convertida numa escala com valores de 0 (menor capacidade funcional) a 100 (maior capacidade funcional). Foi definido como baixa capacidade funcional os valores abaixo do quartil 25.

As variáveis sociodemográficas e estilo de vida foram: sexo biológico (masculino/feminino), idade (em anos completos e por faixa etária de 60 a 69 anos e 70 a 79 anos), escolaridade, classe econômica, cultura germânica (sim/não), risco de consumo de álcool, hábito de fumar (nunca fumou/ ex fumante/ fumante atual). A escolaridade foi estimada com base nos anos de estudos completos e agrupados em nenhum (analfabetos), 1 a 4 anos, 5 a 8, 9 a 11 e 12 ou mais. Na Classe Econômica de Consumo13, o participante foi classificado em categorias de A1(melhor) a E (pior) com base na escolaridade do chefe da família e na quantidade de bens de consumo declarados. Com base na análise descritiva, os participantes foram reclassificados em três estratos agrupados (A1/A2, B1B2 e C/D/E). A presença de cultura germânica foi definida quando o participante relatasse falar regularmente a língua alemã em casa; e participar de algum tipo de associação comunitária/cultural germânica14.

O consumo de álcool foi avaliado por meio do questionário AUDIT-C adaptado e validado em língua portuguesa15. O questionário conta com três perguntas cujas resposta geram uma pontuação final que varia de zero a doze pontos. Os participantes são então classificados em risco baixo, moderado, alto e severo. O hábito de fumar foi classificado em fumante atual, ex-fumante e não fumante. A atividade física foi estimada a partir da aplicação do questionário International Physical Activity Questionnaire (IPAQ-versão curta)16. Esse instrumento mede a quantidade de atividade física realizada em minutos ao longo dos últimos sete dias considerando a frequência, duração em minutos e intensidade. Foram considerados suficientemente ativos aqueles que relataram praticar atividades físicas moderadas ou vigorosas por 150 minutos por semana ou mais17

A força muscular foi estimada pelo teste de Força de Preensão Palmar (FPP). O teste de FPP foi medido com dinamômetro digital Jamar® Plus+ e seguiu as recomendações da Sociedade Americana de Terapeutas de Mão18,19. Foram realizadas três medidas de ambas as mãos, com o participante na posição sentada, coluna ereta, sem apoiar as costas no encosto da cadeira, pés apoiados no chão, e cotovelo do membro a realizar a medida dobrado em ângulo de 90 graus. Dentre as medições registradas, foi tomado o maior valor em kilogramas (kg). O estado nutricional foi definido com base no índice de massa corporal (IMC) estimado pela divisão da massa corporal dividido pelo quadrado da estatura. Os participantes foram classificados como: baixo peso (IMC22), eutrófico (IMC=22-27) e sobrepeso (IMC27)20.

As variáveis assistenciais e de condição de saúde incluíram utilização de serviço de saúde nos últimos 30 dias (sim/não), internação hospitalar no último ano (sim/não), plano de saúde (sim/não), doença osteomuscular (0 ou1/2 ou mais), dor nos últimos 30 dias (sim/não) e autopercepção de saúde (muito boa/boa, regular, ruim/muito ruim). As informações sobre as variáveis desse grupo foram coletadas durante entrevistas com os participantes.

Os dados foram testados quanto a sua distribuição (que não se aproximavam da distribuição Normal de acordo com o teste K2 de D”Agostino), examinados por meio de estatística descritiva (mediana e intervalo interquartílico [IQ]) e apresentados em forma tabular e/ou gráfica. A correlação entre o número de medicamentos consumidos e a capacidade funcional foi estimada pela correlação de Spearman (rho). A interpretação da correlação de Spearman foi realizada de acordo com Harris e Taylor21.

A associação entre a escala da capacidade funcional e número de medicamentos (categorizado em nenhum, 1 a 4 medicamentos e 5 ou mais) foi examinada com o teste Kruskal-Wallis, seguido do teste U de Mann-Whitney.

A associação entre baixa capacidade funcional (variável dicotômica) e a polifarmácia (variável dicotômica) foi estimada pelo “Odds Ratio” obtido por regressão logística bruta e ajustada (variância robusta) por blocos: 1. sexo e idade; 2. sexo, idade, escolaridade, hábito de fumar, consumo de álcool; 3. sexo, idade, atividade física moderada ou severa, força de preensão palmar, estado nutricional; 4. sexo, idade, doenças osteomusculares, dor nos últimos 30 dias; 5. sexo, idade, uso de serviço de saúde, plano de saúde, autopercepção de saúde. O ajuste dos modelos foi estimado pelo teste de Hosmer-Lemershow. Foi aceito como estatisticamente insignificante um p-valor 0,05.

RESULTADOS

Das 733 pessoas idosas entrevistadas nos domicílios, 677 compareceram ao centro de exames, 166 pessoas idosas se recusaram a responder o questionário de avaliação da capacidade funcional e a amostra final foi composta por 511 participantes. A mediana da idade dos participantes da amostra final foi mais baixa (67,0 vs 70,8; p0,0001) e a mediana do uso de medicamentos consumidos entre os participantes foi maior (4 vs 3; p0,001) comparado àqueles que recusaram responder o questionário. A capacidade funcional não apresentou diferença estatisticamente significante entre os grupos.

A Tabela 1 apresenta as características sociodemográficas, de estilo de vida, assistenciais e de condição de saúde de acordo com a quantidade de medicamentos utilizados.

Tabela 1
Características dos participantes de acordo com número de medicamentos utilizados (N=511). Pomerode, SC, 2014 – 2018.

A mediana do número de medicamentos utilizados foi de 4 (IQ= 2-7). 49 participantes (9,6%) relataram não tomar nenhum medicamento, 215 (42,1%) utilizaram de 1 a 4 e 247 (48,3%) utilizaram 5 ou mais medicamentos (polifarmácia). A mediana da escala de capacidade funcional dos participantes foi 65 (IQ 40–85). Entre a escala de capacidade funcional e o número de medicamentos há uma baixa correlação negativa (rho= -0,3068; p0,001).

A Tabela 2 mostra as correlações entre a escala de capacidade funcional e o número de medicamentos estratificada por algumas variáveis de estudo. As maiores correlações negativas entre número de medicamentos utilizados e o escore de capacidade funcional foram observadas entre pessoas do sexo feminino (rho=-0,3222), de 60 a 69 anos (rho=-0,3554) e que não são de cultura germânica (rho=-0,3534).

Tabela 2
Correlação entre escala de capacidade funcional e número de medicamentos utilizados estratificado por algumas variáveis de estudo (N=511). Pomerode, SC, 2014 – 2018.

Em relação à totalidade dos participantes, aqueles que não utilizaram medicamentos apresentaram mediana da escala de capacidade funcional maior quando comparados com quem utilizou 1 a 4 medicamentos (capacidade funcional 85 vs 75; p0,0212) e quem utiliza 5 ou mais medicamentos (capacidade funcional 85 vs 60; p0,0001). A mediana da capacidade funcional foi maior entre quem utilizou 1 a 4 medicamentos comparado com aqueles que consumiam 5 ou mais (75 vs 60; p0,001).

A Figura 1 mostra a distribuição da escala de capacidade funcional dos participantes de acordo com o número de medicamentos utilizados agrupados por faixa etária e sexo.

Figura 1
Distribuição da Capacidade Funcional e Número de medicamentos por sexo e faixa etária, SHIP-Brazil, 2014-2018.

Os participantes do sexo masculino que não utilizaram medicamentos apresentaram a mediana da escala de capacidade funcional maior comparada com quem utilizou 4 ou mais medicamentos (capacidade funcional 85 vs 75; p0,0235) e quem utilizou 5 ou mais medicamentos (capacidade funcional 85 vs 70; p0,0014). As mulheres que consumiram 1 a 4 medicamentos apresentaram a mediana da escala de capacidade funcional maior comparado com quem consumiu 5 ou mais medicamentos (70 vs 45; p0,0001). Na faixa etária 60 a 69 anos, quem não consumia medicamentos apresentou a mediana da escala de capacidade funcional maior comparado com quem consumia 5 ou mais medicamentos (85 vs 60; p0,0001) e o mesmo padrão foi observado entre os participantes da faia etária de 70 a 79 anos.

A frequência de pessoas com polifarmácia foi maior entre aqueles com baixa capacidade funcional (39,7 vs 19,3; p0,001). A Tabela 3 apresenta a frequência de baixa capacidade funcional e sua associação com algumas características dos participantes.

Tabela 3
Frequência de baixa capacidade funcional e respectivos odds ratio de acordo com características dos participantes (N=511). Pomerode, SC, 2014 – 2018.

A Tabela 4 apresenta modelos de regressão logística da associação bruta e ajustada entre presença de polifarmácia e baixa capacidade funcional. A chance de ter baixa capacidade funcional foi 2,8 vezes maior entre quem consumia 5 ou mais medicamentos, quando comparados aos que consumiam 4 ou menos medicamentos. A associação bruta observada (OR=2,8) se mantém em todos os modelos ajustados, com maior redução nos modelos 4 e 5.

Tabela 4
Odds ratio e respectivos Intervalos de 95% de Confiança dos modelos de regressão logística bruta e ajustadas da associação entre polifarmácia e da baixa capacidade funcional. Pomerode, SC, 2014 – 2018.

DISCUSSÃO

No presente estudo, a polifarmácia se mostrou associada à baixa capacidade funcional em pessoas idosas, considerando características demográficas, comportamentais, de saúde e assistenciais. A correlação negativa observada entre o número de medicamentos e a escala de capacidade funcional, mostram-se consistentes com achados de estudos prévios22,23​. Algumas classes de medicamentos podem estar relacionadas a incapacidade funcional em idosos, devido aos eventos adversos dos medicamentos e longo tempo de uso dos mesmos, como é o caso da classe de benzodiazepinicos e das drogas z23.

As pessoas do sexo feminino e aquelas com 60 a 69 anos apresentaram uma correlação negativa e menor valor de mediana entre a escala de capacidade funcional e o número de medicamentos. As alterações hormonais em mulheres, como a diminuição de estrogênio, decorrentes da menopausa, podem predispor o declínio da massa muscular, o aumento de peso e a predisposição para doenças osteomusculares, como a osteoporose24. Estudos de base populacional, com 22 países da Europa​1 e no Brasil7​, encontraram que uma das principais características que interferiram para o declínio da capacidade funcional na escala utilizada foi ter idade acima de 60 anos. Os fatores sexo e idade podem favorecer o declínio da capacidade funcional, contudo podem haver outros fatores associados.

Observou-se que pessoas de cultura germânica faziam uso de maior número de medicamentos, mas sem diferenças quanto a capacidade funcional. É lícito supor que pessoas idosas de cultura germânica em Pomerode possuem, além de um possível legado de ancestralidade germânica e de herança cultural14, uma melhor condição socioeconômica, de acesso e cuidado à saúde11. Estas características têm sido associadas à polifarmácia e a incapacidade funcional8,25. Uma condição de maior vulnerabilidade social26 poderia explicar, ao menos em parte, a correlação negativa observada entre número de medicamentos consumidos e a escala de capacidade funcional ter sido maior entre pessoas que não eram de cultura germânica.

Quanto a nossa hipótese principal, a polifarmácia se mostrou significantemente associada à baixa capacidade funcional em todos os modelos estudados. É importante mencionar que há uma associação bidirecional entre a polifarmácia e a função física na população com 65 anos ou mais25​. De um lado, os fatores genéticos, ambientais e sociais são considerados fatores predisponentes para o indivíduo ter diminuição das funções fisiológicas e reduzir sua capacidade funcional27​. Por outro lado, é papel dos serviços de saúde a prevenção e controle de doenças, e o uso de medicamentos na quantidade, dose e frequencia apropriados é uma ferramenta a disposição dos profissonais de saúde.

Estudos26,28 relatam que as variáveis sexo, idade, escolaridade, hábito de fumar e consumo de álcool se mostraram associadas com a polifarmácia e a incapacidade funcional. Variáveis como consumo de tabaco e álcool, podem predispor a população com 60 anos ou mais a terem doenças, e, como consequência, utilizar medicamentos. As condições socioeconômicas tambem são determinantes para o acesso a medicamentos bem como melhor capacidade funcional9. Apesar disso, essas características parecem não ter interferido de forma substancial na associação entre polifarmácia e baixa capacidade funcional entre os participantes do estudo.

Por outro lado, variáveis que buscavam estimar as condições físicas gerais dos participantes, como atividade física, força muscular e estado nutricional, promoveram um maior ajuste na associação entre polifarmácia e baixa capacidade funcional. O nível de atividade física realizado pelo indivíduo pode ter efeito de proteção no envelhecimento, na preservação da capacidade funcional e no número de medicamentos consumidos pelos indivíduos29​. A força muscular e a composição corporal são componentes importantes para a preservação da capacidade funcional em idosos28,30,31. Assim, ações dos agentes públicos de estímulo à prática de atividade física e alimentação saúdável voltadas às pessoas idosas podem contribuir para promoção da saúde em geral, recuperar e/ou preservar a força muscular e minimizar possíveis negativos da polifarmácia.

Os modelos que produziram maior ajuste na associação entre polifarmácia e a baixa capacidade funcional foram os modelos compostos por condições clínicas (doenças osteomusculares e dor) e assistência à saúde (ter plano de saúde, uso de serviços e autopercepção de saúde). As doenças osteomusculares estão presentes na população com 60 anos ou mais e associam-se com a utilização de medicamentos e incapacidade funcional25​. Do mesmo modo, a presença de dor é um fator limitante as atividades diárias32. Ambas condições potencializam o uso de medicamentos analgésicos e antiinflamatórios, muitas vezes de modo irracional e inapropriado. Estudos identificaram que as maiores chances de um indivíduo ter incapacidade funcional associada a polifarmácia está entre os que possuem plano de saúde33, relatam pior percepção do seu estado de saúde34​ e utilizam o sistema de saúde​ (no âmbito ambulatorial35 ou hospitalar​34​). Os serviços de saúde se propõem a prevenir e cuidar das pessoas idosas, ao mesmo tempo que potencializam a utilização de medicamentos7. O uso racional e apropriado de medicamentos23 por parte de uma equipe assistencial qualificada pode resultar em uma polifarmácia adequada, com melhora das condições clínicas e melhor percepção da saúde.

O Sistema Único de Saúde fornece atendimento à população de maneira universal e integral. É necessário que seus serviços tenham conhecimento do histórico do paciente, como seu estilo de vida, doenças existentes e medicamentos em uso, principalmente se ele utilizar cinco ou mais medicamentos e apresentar dificuldades para realizar atividades do seu dia-a-dia. Destacam-se aqui os serviços de atenção primária, que por sua abrangência e por ser porta de entrada do sistema, devem estar capacitados para avaliar a capacidade funcional26,35 e prescrever e dispensar medicamentos racionalmente23.

Este estudo apresenta algumas limitações. Por se tratar de um estudo do tipo seccional não é possível estabelecer relações de causalidade. Uma limitação na coleta dos dados foi a opção por excluir pessoas com limitação física ou cognitiva que impedisse as respostas aos questionários e exames, o que pode ter ocasionado um viés de seleção. A coleta de dados ocorreu em extenso período (4 anos) que poderia gerar distorções na estimativa de prevalência. Contudo, nesse estudo a ênfase foi a associação entre variáveis de estudo. As várias formas de mensurar capacidade funcional e a variedade de conceitos de polifarmácia existentes dificultaram a comparação dos resultados com outros autores. Apesar disso, nossos resultados foram consistentes com outros estudos nacionais e internacionais, mas não identificamos estudos com descendentes germânicos que permitissem comparação. Por fim, não ter analisado a associação estudada, estratificada pelas classes dos medicamentos consumidos, pode ter limitado a compreensão do fenômeno.

CONCLUSÃO

Em nosso estudo, a polifarmácia se mostrou associada à baixa capacidade funcional em pessoas idosas após ajuste por diversas variáveis sociodemográficas, de estilo de vida, condições de saúde e assistenciais. Mulheres, pessoas com 60 anos e mais de idade, com doenças osteomusculares e que não são de cultura germânica apresentam maior correlação negativa entre número de medicamentos consumidos e baixa capacidade funcional. Estudos longitudinais, que aprofundem as informações quanto aos medicamentos utilizados (classes terapêuticas, por exemplo) devem ser implementados para elucidar a causalidade da associação observada. Por fim, recomenda-se que os serviços de saúde implementem ações direcionadas às pessoas que utilizam cinco ou mais medicamento e apresentam baixa capacidade funcional.

  • Financiamento da pesquisa: O SHIP-Brazil foi apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Santa Catarina (FAPESC), Departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde do Brasil (MSDECIT), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina (SES-SC) através do Programa de Pesquisa para o Sistema Único de Saúde (PPSUS) (número 003/2012)
  • DISPONIBILIDADE DE DADOS
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente [Ana Beatriz dos Santos].

REFERÊNCIAS

  • 1 Guidet B, de Lange DW, Boumendil A, Leaver S, Watson X, Boulanger C et al. The contribution of frailty, cognition, activity of daily life and comorbidities on outcome in acutely admitted patients over 80 years in European ICUs: the VIP2 study. Intensive Care Med 2020; 46: 57–69.
  • 2 Alves LC, Leite IDC, Machado CJ. Conceituando e mensurando a incapacidade funcional da populaçã o idosa: Uma revisão de literatura. Ciencia e Saude Coletiva 2008; 13: 1199–1207.
  • 3 Janice Jia Yun Toh, Hui Zhang, Yang Yue Soh, Zeyu Zhang XVW. Prevalence and health outcomes of polypharmacy and hyperpolypharmacy in older adults with frailty: A systematic review and meta-analysis. Ageing Res Rev 2023; 83. doi:https://doi.org/10.1016/j.arr.2022.101811.
    » https://doi.org/10.1016/j.arr.2022.101811
  • 4 Masnoon N, Shakib S, Kalisch-Ellett L, Caughey GE. What is polypharmacy? A systematic review of definitions. BMC Geriatr 2017; 17: 1–10.
  • 5 Wastesson JW, Morin L, Tan ECK, Johnell K. An update on the clinical consequences of polypharmacy in older adults: a narrative review. Expert Opin Drug Saf 2018; 17: 1185–1196.
  • 6 Mielke N, Huscher D, Douros A, Ebert N, Gaedeke J, Van Der Giet M et al. Self-reported medication in community-dwelling older adults in Germany: Results from the Berlin Initiative Study. BMC Geriatr 2020; 20: 1–12.
  • 7 do Nascimento RCRM, Álvares J, Guerra Junior AA, Gomes IC, Silveira MR, Costa EA et al. Polypharmacy: A challenge for the primary health care of the Brazilian Unified Health System. Rev Saude Publica 2017; 51: 1s–12s.
  • 8 Rawle MJ, Cooper R, Kuh D, Richards M. Associations Between Polypharmacy and Cognitive and Physical Capability: A British Birth Cohort Study. J Am Geriatr Soc 2018; 66: 916–923.
  • 9 Buttery AK, Busch MA, Gaertner B, Scheidt-Nave C, Fuchs J. Prevalence and correlates of frailty among older adults: Findings from the German health interview and examination survey. BMC Geriatr 2015; 15. doi:10.1186/s12877-015-0022-3.
  • 10 McQuaid EL, Landier W. Cultural Issues in Medication Adherence: Disparities and Directions. J Gen Intern Med 2018; 33: 200–206.
  • 11 Santa Helena ET, Sousa CA, Silveira JLGC da, Nunes CRO, Azevedo LC De, Nilson LG et al. Study of Health in Pomerode (SHIP-Brazil): aims, methodological issues and descriptive results. Scielo Preprints 2023; 22: 1–34.
  • 12 Ciconelli, Rozana Mesquita; Ferraz, Marcos Bosi; Santos, Wilton; Meinão, Ivone; Quaresma MR. Tradução para a língua portuguesa e validação do questionário genérico de avaliação de qualidade de vida SF-36 (Brasil SF-36). Rev bras reumatol 1999; 39: 143–150.
  • 13 ABEP. Critério de Classificação do Brasil. Ibope. 2014; : 1–5.
  • 14 Maltzahn P. The German language as a defining feature of ethnic identity in Pomerode. Pandaemonium Germanicum 2017; 21: 113–135.
  • 15 Lima CT, Freire ACC, Silva APB, Teixeira RM, Farrell M, Prince M. Concurrent and construct validity of the audit in an urban Brazillian sample. Alcohol and Alcoholism 2005; 40: 584–589.
  • 16 Matsudo S, Araújo T, Matsudo V, Andrade D, Andrade E, Oliveira LC et al. Questionário Internacional De Atividade Física (Ipaq): Estupo De Validade E Reprodutibilidade No Brasil. Revista Brasileira de Atividade Física Saúde 2012; 6: 5–18.
  • 17 World Health Organization. WHO guidelines on physical activity and sedentary behaviour: at a glance. Geneva, 2020.
  • 18 Fess ECM. American Society of Hand Therapists Clinical Assessment Recommendations. 2016.
  • 19 Roberts HC, Denison HJ, Martin HJ, Patel HP, Syddall H, Cooper C et al. A review of the measurement of grip strength in clinical and epidemiological studies: Towards a standardised approach. Age Ageing 2011; 40: 423–429.
  • 20 Lipschitz DA. Screening for nutritional status in the elderly. Primary Care: Clinics in Office Practice 1994; 21: 55–67.
  • 21 Harris M, Taylor G. MEDICAL STATISTICS MADE EASY. Taylor and Francis Group: London, 2003 doi:https://doi.org/10.3109/9780203502778.
  • 22 Frochen S, Mehdizadeh S. Functional Status and Adaptation: Measuring Activities of Daily Living and Device Use in the National Health and Aging Trends Study. J Aging Health 2018; 30: 1136–1155.
  • 23 Fick DM, Semla TP, Steinman M, Beizer J, Brandt N, Dombrowski R et al. American Geriatrics Society 2019 Updated AGS Beers Criteria® for Potentially Inappropriate Medication Use in Older Adults. J Am Geriatr Soc 2019; 67: 674–694.
  • 24 Minkin MJ. Menopause: Hormones, Lifestyle, and Optimizing Aging. Obstet Gynecol Clin North Am. 2019; 46: 501–514.
  • 25 Katsimpris A, Linseisen J, Meisinger C, Volaklis K. The Association Between Polypharmacy and Physical Function in Older Adults: a Systematic Review. J Gen Intern Med. 2019; 34: 1865–1873.
  • 26 Cabral JF, Silva AMC da, Andrade AC de S, Lopes EG, Mattos IE. Vulnerabilidade e Declínio Funcional em pessoas idosas da Atenção Primária à Saúde: estudo longitudinal. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia 2021; 24. doi:10.1590/1981-22562021024.200302.
  • 27 World Health Organiation. WORLD REPORT ON AGEING AND HEALTH. 2015 https://reliefweb.int/sites/reliefweb.int/files/resources/world-report-ageing-exs-embargo-en.pdf
    » https://reliefweb.int/sites/reliefweb.int/files/resources/world-report-ageing-exs-embargo-en.pdf
  • 28 Jyrkkä J, Enlund H, Lavikainen P, Sulkava R, Hartikainen S. Association of polypharmacy with nutritional status, functional ability and cognitive capacity over a three-year period in an elderly population. Pharmacoepidemiol Drug Saf 2011; 20: 514–522.
  • 29 Fernández-Araque A, García-de-Diego L, Martínez-Ferrán M, Diez-Vega I, Yvert T, Mingo-Gómez MT et al. Physical Condition and Risk of Hospitalization and Polypharmacy in Older Adults. Rejuvenation Res 2022; 25. doi:https://doi.org/10.1089/rej.2021.0030.
    » https://doi.org/10.1089/rej.2021.0030
  • 30 Melo Filho J, Moreira NB, Vojciechowski AS, Biesek S, Bento PCB, Gomes ARS. Frailty prevalence and related factors in older adults from southern brazil: A cross-sectional observational study. Clinics 2020; 75: 1–8.
  • 31 Makizako H, Kubozono T, Kiyama R, Takenaka T, Kuwahata S, Tabira T et al. Associations of social frailty with loss of muscle mass and muscle weakness among community-dwelling older adults. Geriatr Gerontol Int 2019; 19: 76–80.
  • 32 Mallon T, Ernst A, Brettschneider C, König HH, Luck T, Röhr S et al. Prevalence of pain and its associated factors among the oldest-olds in different care settings - Results of the AgeQualiDe study. BMC Fam Pract 2018; 19: 1–9.
  • 33 Silva IR, Giatti L, Chor D, da Fonseca M de JM, Mengue SS, Acurcio F de A et al. Polypharmacy, socioeconomic indicators and number of diseases: Results from elsa-Brasil. Revista Brasileira de Epidemiologia 2020; 23: 1–14.
  • 34 Oliveira A, Nossa P, Mota-Pinto A. Assessing functional capacity and factors determining functional decline in the elderly: A cross-sectional study. Acta Med Port 2019; 32: 654–660.
  • 35 Silva AM de M, Mambrini JV de M, Peixoto SV, Malta DC, Lima-Costa MF. Use of health services by Brazilian older adults with and without functional limitation. Rev Saude Publica 2017; 51: 1S-9S.

Editado por

  • Editado por: Andressa Coelho Gomes

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente [Ana Beatriz dos Santos].

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Mar 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    12 Maio 2024
  • Aceito
    02 Jan 2025
location_on
Universidade do Estado do Rio Janeiro Rua São Francisco Xavier, 524 - Bloco F, 20559-900 Rio de Janeiro - RJ Brasil, Tel.: (55 21) 2334-0168 - Rio de Janeiro - RJ - Brazil
E-mail: revistabgg@gmail.com
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro