Open-access Cuidado com as pessoas idosas na covid-19 longa: compreensão do atendimento ofertado pelo sistema de saúde

Resumo

Objetivo  compreender o atendimento ofertado às pessoas idosas nos serviços de saúde em relação à covid-19 longa na análise dos usuários.

Método  A pesquisa utilizou-se de uma abordagem metodológica qualitativa, de caráter exploratório, realizada com 41 pessoas idosas do Estado do Paraná com diagnóstico de covid-19 no ano de 2020 e apresentaram resquícios sintomáticos cerca de 18 meses após a infecção. A coleta e análise dos dados ocorreram entre os meses de fevereiro e julho de 2022 por meio de entrevistas telefônicas semiestruturadas; na análise, foram utilizadas as etapas de codificação inicial e focalizada.

Resultados  Após a exploração dos resultados, despontaram três categorias para debate: atenção reativa episódica, que demonstra a forma com que o atendimento ocorreu; cuidado uniprofissional, que revela quais profissionais realizaram a assistência; e, por fim, refletindo acerca do cuidado recebido, que evidencia a satisfação com a atenção à saúde recebida.

Conclusão  A análise da pessoa idosa em relação aos atendimentos recebidos devido aos sintomas persistentes da covid-19 longa foi positiva, e ressalta ainda a presença da cultura de um atendimento de saúde reativo e episódico, em que consideram a procura do serviço apenas com cunho curativo.

Palavras-Chave:
Síndrome de Covid-19 Pós-aguda; Saúde do Idoso; Atenção Primária à Saúde; Satisfação do Paciente

Abstract

Objective  To understand the care provided to older adults in healthcare services concerning long Covid from the perspective of users.

Method  This study employed a qualitative methodological approach with an exploratory design, involving 41 older adults from the State of Paraná who were diagnosed with Covid-19 in 2020 and exhibited persistent symptoms approximately 18 months after infection. Data collection and analysis were conducted between February and July 2022 through semi-structured telephone interviews. The analysis followed initial and focused coding steps.

Results  After exploring the results, three categories emerged for discussion: episodic reactive care, which demonstrates how care was delivered; uniprofessional care, which reveals which professionals provided assistance; and reflecting on the care received, which evidences satisfaction with the healthcare services provided.

Conclusion  The analysis of older adults' perspectives regarding the care received for persistent long Covid symptoms was positive, while also highlighting the presence of a reactive and episodic healthcare culture, where services are sought primarily for curative purposes.

Keywords
Post-Acute Covid-19 Syndrome; Health of Older Adults; Primary Health Care; Patient Satisfaction

INTRODUÇÃO

Cerca de um ano após o início da pandemia da covid-19 começaram a surgir, em meados de 2021, demandas ao sistema de saúde relacionadas às suas consequências em longo prazo, ainda pouco elucidadas. A denominada covid-19 longa, passou a ser observada, principalmente, nas pessoas que desenvolveram quadros moderados e/ou graves após o período de isolamento1.

Essa é uma condição crônica, tardia à covid-19, caracterizada pela presença de sinais e sintomas que podem surgir em até três meses após a infecção e perdurar por pelo menos dois meses sem algum diagnóstico alternativo que os fundamente. Os sintomas podem surgir novamente após uma recuperação completa inicial, ou persistir a partir da fase aguda da doença (quatro semanas)1,2.

A covid-19 e, por consequência, a covid-19 longa podem afetar pessoas de qualquer idade, porém indivíduos com mais de 65 anos possuem uma carga desproporcionalmente alta da doença3. Sintomas como tosse, febre, dispneia, fadiga, mialgia e dores nas articulações são comumente relatadas por pessoas idosas acometidas pela covid-19 longa e, em um estudo transversal com 165 pessoas idosas acompanhadas após a alta de internamento hospitalar devido covid-19 aguda, detectou que 80% dos pacientes relataram a persistência de algum sintoma4.

No Brasil, o sistema de saúde coexiste entre o serviço público - representado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), gratuitamente - e o serviço de saúde suplementar, representado pelas Operadoras de Plano de Saúde (OPS), contratado pelo usuário e ainda, atendimentos particulares, sob pagamento de mensalidade e/ou por consulta. Esses serviços são ofertados à população de forma que não se anulam entre si e disponibilizam uma grande diversidade de profissionais e atendimentos em saúde e dá a possibilidade de o usuário utilizar as duas modalidades de serviço concomitantemente, de acordo com suas necessidades e possibilidades financeiras5,6.

A população idosa possui o histórico de frequentar o sistema de saúde de maneira mais recorrente em relação aos demais grupos populacionais devido sua característica de declínio progressivo do sistema imunológico, multimorbidades, vulnerabilidade a infecções e periodicidade de acompanhamento em saúde. Tendo sido considerado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como grupo de risco para a covid-19, as pessoas idosas passaram a necessitar ainda mais de atenção em relação às necessidades de saúde que surgiram, ligadas aos sintomas da covid-19 longa7,8.

Devido à sua extensão continental, desigualdades e particularidades de cada unidade federativa, o sistema de saúde do Brasil possui grande dificuldade em responder de forma uniforme às necessidades de saúde da população no geral, e especificamente às demandas trazidas pela população idosa em relação a covid-19 longa - acarretando um grande desafio de adaptação e manutenção da qualidade e resolutividade do atendimento9,10.

O entendimento acerca da forma de atendimento realizado por um serviço de saúde, integra um conjunto de características relevantes da qualificação do cuidado centrado no paciente, sendo este constituído de quatro princípios básicos: tratamento com dignidade, apoio coordenado, cuidado personalizado e estímulo ao autocuidado e autonomia. A ótica do usuário do sistema é muito valiosa no que se refere à essa qualidade, pois considera o ponto de vista de quem recebe o atendimento e legitima a perspectiva do usuário11,12.

Este estudo surge da relevância em compreender a oferta de serviços de saúde pública, conveniada e privada, suas convergências, distinções e articulações do ponto de vista de quem os recebeu e apresentavam sintomas da covid-19 de longo prazo. Ademais, fortalece o centro de funcionamento do sistema de saúde nacional, principalmente em situações críticas como uma pandemia, podendo alicerçar fundamentos para a organização de novas estratégias para casos futuros.

Assim, questiona-se: como foi o atendimento ofertado pelos serviços de saúde às pessoas idosas em relação à covid-19 longa, segundo a análise dos usuários? Nesse sentido, o estudo tem o objetivo de compreender o atendimento ofertado às pessoas idosas nos serviços de saúde em relação à covid-19 longa na análise dos usuários.

MÉTODO

Pesquisa de abordagem qualitativa, pautada na Teoria Fundamentada nos Dados (TFD) em sua vertente construtivista13, desenvolvida com pessoas idosas residentes no Estado do Paraná, Brasil, que no ano de 2020 obtiveram Rt-PCR positivo para covid-19 que 18 meses após a infecção aguda ainda apresentavam sintomas que foram atribuídos a covid-19 longa.

Este estudo é parte integrante da dissertação de mestrado “Atendimento às necessidades e demandas de saúde de idosos na covid-19 longa” a qual está vinculada ao projeto de pesquisa “Acompanhamento longitudinal de adultos e idosos que receberam alta da internação hospitalar por covid-19 - Coorte covid-19 Paraná/UEM”, desenvolvido em parceria com a Secretaria de Saúde do Estado do Paraná (SESA/PR).

Os participantes foram selecionados por conveniência no banco de dados das pessoas acompanhadas pela Coorte covid-19 Paraná/UEM com sintomas relacionados à covid-19 longa 18 meses após a infecção aguda da doença. A seleção de pessoas idosas que apresentaram caso leve da doença com tratamento ambulatorial10 ocorreu por meio do “Notifica Covid-19 Paraná”, um banco de dados paranaense e traz informações síncronas da covid-19 no Estado.

Por sua vez, os casos de pessoas idosas com intensidade média e grave da doença que necessitaram de atendimento em enfermaria ou Unidade de Terapia Intensiva (UTI)10, respectivamente, foram selecionados no Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica da Influenza (SIVEP-Influenza), um banco de dados nacional que faz a vigilância da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) gerada por vírus respiratórios.

Como critério de inclusão considerou-se: pessoas idosas moradoras do Estado do Paraná, com diagnóstico de covid-19 confirmado por meio de exame laboratorial no ano de 2020 que passaram por atendimento ambulatorial, enfermaria e/ou em UTI na fase aguda e foram notificados à SESA/PR, e após 18 meses apresentam sintomas atribuídos à covid-19 longa.

Os participantes que foram atendidos no Paraná, mas não residem no Estado e os em que o óbito foi identificado no momento do contato telefônico foram excluídos deste estudo; o cuidador principal foi entrevistado em nome das pessoas idosas que apresentaram condições limitantes referentes à fala e cognição.

Foram elegíveis para o estudo 104 pessoas idosas, destas, 41 participaram utilizando a saturação teórica como estratégia de encerramento da coleta. A saturação teórica é um método sistematizado utilizado para o estabelecimento da amostra qualitativa utilizando-se de oito passos procedimentais, sendo eles: disponibilização de registro de dados brutos; imergir em cada registro; compilação das análises individuais; reunião dos temas; nominação dos dados; alocação dos dados; constatação da saturação teórica; e, por fim, visualização da saturação teórica14.

O contato com os participantes foi feito por meio de ligação telefônica, com gravação em aparelho eletrônico pelo aplicativo Android Cube ACR®; na mesma ligação, era realizado o convite à pessoa idosa para participar do estudo e, somente após o aceite verbal, procedia-se à entrevista, a qual se iniciava com a leitura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e, ao fim da ligação, o TCLE era encaminhado por correio convencional ou eletrônico, conforme escolha do participante. Em seguida, realizava-se a transcrição das entrevistas na íntegra e a checagem em relação à fidelidade do seu conteúdo.

As entrevistas ocorreram entre os meses de fevereiro e julho de 2022, por volta de 18 meses após a infecção aguda, foram realizadas por um grupo de pesquisadores, incluindo mestres, mestrandos, doutores e doutorandos em enfermagem participantes do mesmo grupo de pesquisa, utilizando um roteiro semiestruturado de entrevista intensiva13 constituído por uma parte que recolhe dados objetivos de caracterização sociodemográfica, como idade, sexo, estado civil, renda familiar, escolaridade, município de moradia, intensidade da covid-19, município de tratamento e tipo de serviço de saúde utilizado; e a segunda parte possui perguntas abertas que nortearam o entrevistador no recolhimento sistematizado de informações subjetivas que respondam ao objetivo proposto.

A entrevista foi iniciada com uma questão mais ampla em relação ao estado de saúde da pessoa idosa: “Conte-me como está/ficou a sua saúde depois que teve covid-19”; seguida de questões mais direcionadas ao atendimento recebido pelo serviço de saúde: “Depois que teve covid-19, o(a) senhor(a) precisou utilizar algum serviço de saúde para atender às suas novas condições de saúde? Se sim, por quê? Se não, por quê?”, “Quais serviços de saúde o(a) senhor(a) tem buscado ou buscou? Como conseguiu o atendimento nesses serviços?” e “Os serviços de saúde que tem buscado ou que buscou atenderam às suas necessidades de saúde após a covid-19? Por quê? Comente sobre o atendimento de saúde recebido”.

A apreciação dos dados ocorreu concomitantemente com a coleta, conforme os pressupostos da TFD, utilizando as técnicas analíticas da codificação inicial e focalizada propostas por Charmaz13. Para apoio à análise dos materiais, utilizou-se o software MAXQDA® 2022 (licença nº333214973), que propicia uma investigação mais aprofundada dos dados qualitativos.

A codificação inicial compreende a análise minuciosa de cada palavra e fragmento da entrevista, trazendo conhecimento aprofundado do conteúdo, após é feita a condensação dos dados que mais se repetem e com isso são formados os códigos provisórios; na codificação focalizada é realizada a identificação dos códigos mais recorrentes e relevantes, que são refinados em uma análise mais profunda e formam-se os códigos-fonte, ou categorias dos resultados13.

A base conceitual pauta-se no atributo da qualidade de atendimento “Cuidado Centrado na Pessoa”, que é voltado ao cuidado individual, assegurando o respeito aos valores e preferências do paciente11. Utilizou-se para o relato dos resultados neste manuscrito a verificação Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research (COREQ), de modo a garantir a confiabilidade e qualidade do percurso metodológico15.

Na apresentação dos resultados, os discursos foram editados sem distorção do conteúdo original e codificados com a letra “E” (entrevistado), seguidos de numeração arábica sequencial conforme a ordem de realização das entrevistas, e o local de tratamento designados como amb. (ambulatório), enf. (enfermaria) e UTI.

Ao considerar a base conceitual empregada, o atributo do cuidado centrado na pessoa baseia-se em quatro princípios básicos: tratamento com dignidade, apoio coordenado, estímulo ao autocuidado e autonomia e cuidado personalizado; compatibilizando-se com o intuito deste estudo de entender, pela ótica da pessoa idosa, o cuidado recebido em relação à covid-19 longa12. Ademais, o referencial metodológico escolhido permitiu o aprofundamento do tema de maneira coerente e trouxe robustez à exploração dos dados13.

Foram cumpridas todas as exigências da resolução 466/12 e 510/16 do Conselho Nacional de Saúde que regula as pesquisas envolvendo seres humanos, bem como a resolução 738/2024 acerca do uso de banco de dados envolvendo pesquisas com seres humanos, foi aprovado pelo Comitê de Ética da Secretaria de Estado da Saúde (parecer nº 4.214.589 e CAAE 34787020.0.3001.5225) e, também, pelo Comitê de Ética da Universidade Estadual de Maringá (parecer nº 4.156.272 e CAAE 34787020.0.0000.0104).

RESULTADOS

Participaram 41 pessoas idosas que tiveram covid-19 longa, a faixa etária predominante foi 60-69 anos (28; 68%), sendo 22 (54%) homens e 19 (46%) mulheres. Com prevalência de entrevistados casados 30 (73%), com ensino fundamental incompleto 15 (37%) e renda familiar entre um e dois salários-mínimos 13 (32%). Do total, 10 (24%) moram no município de Curitiba e apresentaram a forma moderada da covid-19 em sua fase aguda com tratamento em enfermaria 14 (34%), 24 (58%) foram tratados no município de moradia e quatro (10%) tiveram necessidade de se deslocar para outra cidade e obter tratamento. Dentre estes, 29 (71%) utilizaram exclusivamente o SUS e 12 (29%) referiram possuir plano de saúde, utilizando de forma mista os dois serviços.

Demonstraram-se caminhos diferentes percorridos pelas pessoas idosas em relação à procura de atendimento pelo serviço de saúde. Para atendimento do SUS, os resultados constatam que as pessoas idosas fazem a procura inicial do serviço na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) ou pelas Unidades Básicas de Saúde (UBS), com posterior encaminhamento do médico generalista para os especialistas, por meio do Sistema de Regulação e Marcação de Consultas (SISREG).

Já a procura do serviço privado e/ou das OPS foi realizada de maneira menos enredada, ou seja, buscando diretamente o profissional de saúde especializado na área desejada pela pessoa idosa. Indiferentemente do serviço de saúde, os participantes buscavam atendimento devido a sintomas específicos da covid-19 longa, na pretensão de atendimento de profissionais, também específicos. Não houve relatos de busca ativa do serviço aos usuários e/ou programação do atendimento em saúde, tanto público quanto privado.

Portanto, ao avaliar as entrevistas, surgiram três categorias a serem discutidas: atenção reativa e episódica; cuidado uniprofissional; e analisando o cuidado.

A categoria ‘atenção reativa e episódica’ demonstra que o sistema atuou em resposta aos sintomas específicos apresentados pelos usuários, sem busca ativa e sem apresentar uma programação de atendimentos que permita o primeiro acesso e a continuidade deste, conforme citado:

“Não fui atrás e nem o pessoal do postinho veio aqui. Fui na UPA por causa da tremedeira e da dor nas costas que estava sentindo, mas me deram um remedinho e a dor melhorou a tremedeira nem tanto” (E11; enf.).

Já a categoria ‘cuidado uniprofissional’ retrata que o foco no profissional médico, sobretudo especialista, prevaleceu:

“Eu só fui em consulta de rotina, pneumologista, cardiologista, mas só rotina mesmo [...]. Eu faço tudo pelo plano de saúde” (E5; UTI).

“Fui no Oftalmologista, no médico da diabetes [Endocrinologista], o próprio médico do postinho me encaminhou” (E36; enf.).

Porém, por vezes, outros profissionais - como fisioterapeutas e fonoaudiólogos - também foram procurados. Em algumas situações, os usuários foram atendidos por mais de uma categoria profissional, mas de forma isolada:

“Hoje em dia eu continuo fazendo o acompanhamento do meu problema crônico do rim, e da diabetes que agora eu tenho, também faço fisioterapia” (E15, UTI).

“Eu vou procurar uma fonoaudióloga porque senti que a minha língua ficou meio adormecida, ela não funciona muito direito” (E39; enf.).

Por fim, a categoria ‘refletindo acerca do cuidado recebido’ demonstrou que, de modo geral, as pessoas idosas ficaram satisfeitas com a atenção recebida tanto pelo SUS quanto pelas OPS, e esse contentamento esteve diretamente ligado ao potencial de resolutividade do serviço/profissional:

“[...] Agora todo ano eu vou no posto e faço uns exames, para ver como é que está” (E6; enf.).

“Como eu tenho convênio, eu sempre vou ao médico, faço meus exames. Até o tempo que eu fiquei internada foi pelo convênio. Eles sempre me atendem bem” (E15; UTI).

Houve falas ratificando que, dentre os condicionantes para a satisfação das pessoas idosas em relação ao sistema de saúde, estavam igualmente a intensidade/urgência dos sintomas apresentados e tempo de espera e acolhimento recebido:

“[...] Eles me atenderam, fui ali ontem já resolvi, fiz os exames e vou ter o resultado, então eu não posso me queixar” (E32; amb.).

“[...] Passei por médicos muito atenciosos do postinho que a gente frequenta” (E36; enf.).

Da mesma forma, alguns trechos demonstraram gratidão ao acolhimento dos profissionais e serviços que prestaram o atendimento à pessoa idosa:

“Mas o atendimento foi muito bom, o carinho das enfermeiras e dos médicos, eu tive muito apoio deles enquanto estava internada” (E15; UTI).

“[…] Eu agradeço ao SUS que cuidou de mim e se não fosse o SUS eu não teria condições de ter um tratamento adequado porque a situação financeira da gente não compete para isso e eu sei que internamento pago é caro” (E38; enf.).

Por fim, surgiram falas que demonstram algum descontentamento com a assistência recebida durante o período pandêmico, ligadas à alta demanda de atendimento, porém com manifestações de que essa insatisfação já se arrasta desde antes do advento covid-19:

“Eu ia no plano mas agora não tenho mais, e no posto estava difícil e ainda está difícil você chegar lá. É mais a prioridade” (E2; enf.).

Diante do exposto, a Figura 1 apresenta o percurso de decisão dos usuários idosos em sua busca pelo serviço de saúde:

Figura 1
Diagrama do percurso de decisão da busca pelo serviço de saúde. Paraná, 2022.

Vale ponderar, que tanto os usuários do SUS quanto de plano de saúde, em algum momento, estavam sujeitos a, por conta própria, utilizarem o serviço privado.

DISCUSSÃO

Este estudo buscou desenvolver uma compreensão acerca do atendimento dos serviços de saúde ofertados à pessoa idosa que teve covid-19 aguda no ano de 2020 e manifestaram sintomas da covid-19 longa 18 meses após a doença, na análise do próprio usuário, visto que o conhecimento da perspectiva do usuário dá embasamento para o seguimento de tratamento voltado às reais necessidades do indivíduo ou de um grupo de indivíduos com características semelhantes, como as pessoas idosas12.

As duas primeiras categorias retratam as maiores preocupações do SUS desde muito antes da pandemia, e um dos problemas que o sistema mais tem se esforçado para combater: a atenção reativa e episódica, e o cuidado uniprofissional. Essas se encaixam no modelo de atenção curativo, focado na doença e não no indivíduo e que não propõe prevenção, proteção e recuperação da saúde16.

Ainda que o Brasil se qualifique como um país de terceiro mundo, possui um sistema de saúde consolidado com o SUS e os serviços de saúde suplementares e, do ponto de vista técnico, é suficientemente estruturado para oferecer resposta adequada a uma emergência sanitária da magnitude que foi, e continua sendo, a covid-1917.

Entretanto, a falta de mediação por parte dos órgãos federais fez com que os Estados e Municípios agissem de maneira isolada e heterogênea, trazendo disparidade de resposta e repercussão ao longo do território nacional18.

Para que a operacionalização de ações em saúde ocorra de maneira minimamente equivalente, são necessários recursos financeiros, estruturais, humanos e profissionais, gestão adequada e insumos suficientes - o que de forma gradual e sutil vem sendo retirados do SUS e trazendo subfinanciamento, mesmo antes da pandemia. Esse desmonte do SUS traz com ele desafios crônicos a serem superados desde sua idealização, que foram agudizados pela chegada da pandemia, e novos obstáculos que surgiram(ão)17.

No início da pandemia, os investimentos foram, principalmente, focados no cuidado imediato e especializado, na criação de UTIs e priorização de leitos hospitalares para o tratamento agudo e de urgência; paralelamente houve redução dos atendimentos eletivos e dos acompanhamentos presenciais de condições crônicas, com significativo aumento da fila de espera para especialidades ligadas ou não ao tratamento da covid-1918.

No que concerne à saúde suplementar, as pessoas idosas que possuíam contrato com as OPS têm migrado para o uso exclusivo do SUS, devido às restrições financeiras impostas pelo mercado, com aumento das taxas de adesão e mensalidades com valores extras para idade e condições crônicas já existentes. Os atendimentos pelas OPS e atendimentos particulares pautam-se na lógica de assistência curativista, sendo essa mais difundida à população idosa quando comparada ao modelo assistencial que envolver ações de promoção, prevenção, proteção e recuperação2.

Essa característica assistencial de tratamento a condições agudas dificulta o atendimento longitudinal adequado às condições crônicas necessário às pessoas idosas, que demandam programação e seguimento a médio-longo prazo, reforçando o modelo de atendimento reativo e episódico para a população idosa fornecido pelas OPS6.

Somado a isso, existem relatos de que os profissionais da saúde se sentem despreparados e em quantitativo insuficiente para lidar com essa necessidade de atenção ao pós-covid-19, visto que as outras demandas continuam existindo. Esse contexto reforça nas pessoas idosas a cultura do cuidado reativo episódico, uniprofissional e sem acompanhamento regular - muitas vezes por agudização das condições crônicas ou sintomas relacionados à covid-19 longa19.

O conhecimento da população sobre o funcionamento do sistema de saúde, no geral, é limitado e torna-se ainda mais insuficiente quando se trata de pessoas idosas. Dessa forma, o entendimento acerca de como o serviço de saúde deve portar-se (em relação à busca-ativa, acompanhamento de condições crônicas e outras situações preconizadas pelo SUS) limita-se ao que é visto na televisão e rádio - apesar de ser uma fonte considerável de informação, nem sempre essas são fidedignas e/ou completas20.

Ao considerarmos tanto o contexto da covid-19, quanto da covid-19 longa, houve uma infodemia em relação às informações sobre a doença e o vírus - com diversas considerações falsas a respeito de prevenção e tratamento. Frente a esse cenário, a educação em saúde da população passou a ganhar destaque na tentativa de combate a tais fake news 21.

Durante o período pandêmico, e que se estende até os dias atuais, houve aumento do uso de tecnologias de informação e de comunicação tanto para a interação com familiares e amigos, quanto com o contato e atendimento dos serviços de saúde pelas pessoas idosas. Várias foram as finalidades dessa ampliação da comunicação por intermédio da tecnologia, como uma estratégia de ampliar o contato social e reduzir a solidão, principalmente durante as recomendações de isolamento, e otimizar os atendimentos em saúde - destacando e fortalecendo a prática da saúde digital, e enfatizando a necessidade de manter as pessoas idosas engajadas tecnologicamente22.

É notório que a satisfação dos usuários em relação ao atendimento está intimamente ligada à capacidade de resolutividade de suas demandas. Geralmente, essa satisfação não depende da forma como o serviço é buscado pelas pessoas, seja de maneira programada ou reativa. Embora considera-se que variáveis como agilidade e cordialidade possam influenciar o grau de satisfação, o fator principal para o contentamento do usuário é a efetiva resolução do seu problema de saúde22.

Este estudo possui como limitação a coleta de dados realizada por meio de ligações telefônicas devido ao período de isolamento social durante a pandemia da covid-19, o que talvez exclua pessoas sem acesso a essa tecnologia e pode não refletir aspectos adicionais das experiências dos participantes. Além disso, o uso frequente de telefone para golpes e telemarketing no Brasil pode ter grado desconfiança no início da coleta. No entanto, essa abordagem permitiu a participação de pessoas idosas de diferentes regiões do Estado. Também é importante destacar que, embora o estudo tenha considerado diversas características dos participantes, não foram analisados fatores socioeconômicos, de saúde e culturais, que podem impactar tanto a trajetória da covid-19 longa, quanto a experiência com os serviços de saúde.

As limitações não invalidam o ponto alto do trabalho que é a compreensão das pessoas idosas que tiveram a covid-19 longa acerca do atendimento recebido na RAS (Rede de Atenção à Saúde), apontando questões importantes e fragilidades dos serviços de saúde, permitindo análise dos mesmos para melhorar a qualidade dos serviços ofertados à população, especialmente às pessoas idosas.

CONCLUSÃO

A análise da pessoa idosa em relação aos atendimentos recebidos em detrimento aos sintomas persistentes que caracterizam a covid-19 longa evidenciou que, apesar de haver heterogeneidade do tipo de serviço procurado (público, privado e/ou Operadoras de Plano de Saúde), as pessoas idosas demonstraram satisfeitas com o atendimento recebido, mesmo considerando as particularidades de suas experiências, desde as demandas levadas pelos próprios usuários, quanto ao percurso assistencial como um todo.

Ademais, ressalta a cultura das pessoas idosas em relação ao atendimento reativo e episódico, em que consideram a procura do serviço apenas com cunho curativo, com pouca compreensão da importância das ações em nível de prevenção e promoção de saúde, bem como a demonstração da confiança centrada no profissional médico, não alcançando atributos essenciais da Rede de Atenção à Saúde que abrange uma assistência interprofissional. A percepção dos usuários do serviço dá aos profissionais subsídios para o direcionamento de ações de saúde e reforça a importância da prática do cuidado centrado na pessoa e com ênfase na educação em saúde.

  • Financiamento da pesquisa: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) Nº do Processo: 402882/2020-2 e Fundação Araucária Nº do processo: SUS2020131000103.
  • DISPONIBILIDADE DE DADOS
    O conjunto de dados não está publicamente disponível devido ao fato de conter informações que comprometem a privacidade dos dados dos participantes da pesquisa, o estudo está disponível mediante solicitação à autora correspondente Jessika Cavalaro.

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Editado por

  • Editado por: Rayssa Horacio Lopes

Disponibilidade de dados

O conjunto de dados não está publicamente disponível devido ao fato de conter informações que comprometem a privacidade dos dados dos participantes da pesquisa, o estudo está disponível mediante solicitação à autora correspondente Jessika Cavalaro.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Mar 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    20 Ago 2024
  • Aceito
    14 Jan 2025
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