Resumo
Objetivo Comparar a influência de fatores ambientais na funcionalidade de pessoas idosas institucionalizadas (I) e não institucionalizadas (NI).
Método Estudo transversal com 208 pessoas realizado entre 2020 e 2021. A caracterização sociodemográfica incluiu: sexo, idade, estado civil, escolaridade, peso, altura e hábitos de saúde; a funcionalidade, avaliada pelo WHODAS 2.0 de 36 itens, incluiu os domínios: cognição, mobilidade, autocuidado, relações interpessoais, atividades de vida e participação social; e o impacto ambiental foi mensurado por um formulário baseado em 20 categorias dos Fatores Ambientais da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF), validado por especialistas. As análises estatísticas envolveram testes Qui-quadrado, Exato de Fisher e U de Mann-Whitney. Modelos de regressão logística univariada e multivariada identificaram preditores de incapacidade, com p<0,2 para inclusão e significância de 5%
Resultados As "atitudes individuais de conhecidos, companheiros, colegas, vizinhos e membros da comunidade" foram preditoras de incapacidade nos NI (OR 5,25; IC 1,40-20,72; p=0,01). A dor foi preditora nos dois grupos (NI- OR 3,65; IC 1,22–8,21; p=0,01 e I- OR 10,06; IC 2,47–40,93; p<0,001). A polifarmácia aumentou a chance de incapacidade para I (OR 4,59; IC 1,05–20,05; p=0,04), enquanto a autoavaliação de saúde para NI (OR 3,10; IC 1,01–9,51; p=0,04
Conclusão Pessoas idosas institucionalizadas têm maiores dificuldades funcionais em mobilidade, autocuidado e participação social, mas se beneficiam de rotinas estruturadas e cuidados profissionais. Não institucionalizados, embora mais autônomos, enfrentam barreiras como isolamento social e acesso limitado a cuidados de saúde, impactando negativamente sua funcionalidade.
Palavras-Chave:
Pessoa Idosa; Instituição de Longa Permanência Para Idosos; Vida Independente; Classificação Internacional de Funcionalidade; Incapacidade e Saúde
Abstract
Objective "Individual attitudes of acquaintances, peers, colleagues, neighbors, and community members" were predictors of disability in NI individuals (OR 5.25; CI 1.40–20.72; p=0.01). Pain was a predictor in both groups (NI- OR 3.65; CI 1.22–8.21; p=0.01 and I- OR 10.06; CI 2.47–40.93; p<0.001). Polypharmacy increased the likelihood of disability in I individuals (OR 4.59; CI 1.05–20.05; p=0.04), while self-rated health was a predictor for NI individuals (OR 3.10; CI 1.01–9.51; p=0.04).
Method "Individual attitudes of acquaintances, peers, colleagues, neighbors, and community members" were predictors of disability in NI individuals (OR 5.25; CI 1.40–20.72; p=0.01). Pain was a predictor in both groups (NI- OR 3.65; CI 1.22–8.21; p=0.01 and I- OR 10.06; CI 2.47–40.93; p<0.001). Polypharmacy increased the likelihood of disability in I individuals (OR 4.59; CI 1.05–20.05; p=0.04), while self-rated health was a predictor for NI individuals (OR 3.10; CI 1.01–9.51; p=0.04).
Results "Individual attitudes of acquaintances, peers, colleagues, neighbors, and community members" were predictors of disability in NI individuals (OR 5.25; CI 1.40–20.72; p=0.01). Pain was a predictor in both groups (NI- OR 3.65; CI 1.22–8.21; p=0.01 and I- OR 10.06; CI 2.47–40.93; p<0.001). Polypharmacy increased the likelihood of disability in I individuals (OR 4.59; CI 1.05–20.05; p=0.04), while self-rated health was a predictor for NI individuals (OR 3.10; CI 1.01–9.51; p=0.04).
Conclusion Institutionalized older adults face greater functional challenges in mobility, self-care, and social participation but benefit from structured routines and professional care. Non-institutionalized individuals, despite being more autonomous, encounter barriers such as social isolation and limited access to healthcare, negatively impacting their functionality.
Keywords
Older Adults; Homes for the Aged; Independent Living; International Classification of Functioning; Disability; and Health
INTRODUÇÃO
À medida que as pessoas envelhecem, sua capacidade de manter a independência funcional torna-se cada vez mais moldada por fatores ambientais1. Barreiras ambientais presentes em residências e espaços públicos têm demonstrado influenciar negativamente a saúde e o bem-estar de pessoas idosas. Exemplos incluem obstáculos arquitetônicos, deterioração de propriedades, falta de acessibilidade, ruas inseguras, transporte inadequado e dificuldades no acesso a serviços de saúde2.
Em populações idosas, particularmente aquelas que estão em ambientes institucionalizados, barreiras como mobilidade limitada, acesso restrito a cuidados de saúde e isolamento social pode diminuir significativamente a qualidade de vida. Por outro lado, facilitadores como suporte familiar sólido, atitudes sociais positivas e infraestrutura acessível podem mitigar esses desafios e promover a autonomia3,4. Compreender os diversos impactos dos fatores ambientais na funcionalidade e como eles afetam as pessoas idosas em diferentes ambientes, como as que vivem em instituições ou na comunidade, é essencial para desenvolver estratégias que melhorem sua funcionalidade e bem-estar geral, permitindo que vivam com segurança e independência5.
No Brasil, o envelhecimento populacional acelerado apresenta um desafio único. Embora muitas pessoas idosas permaneçam em ambientes comunitários, uma parcela significativa é institucionalizada devido à saúde debilitada, falta de suporte familiar ou restrições financeiras6. A institucionalização frequentemente resulta em maior dependência de cuidadores e redução da autonomia diária, impactando negativamente o engajamento social e o autocuidado7. No entanto, as condições ambientais nesses locais, como rotinas estruturadas e cuidados profissionais, podem oferecer suporte significativo, ausente em ambientes comunitários. Rotinas estruturadas e suporte de gestão em instituições promovem resultados de cuidados melhores, oferecendo uma atenção personalizada e humanizada que pode aliviar os desafios enfrentados por pessoas idosas8.
A Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF), publicada pela Organização Mundial da Saúde em 2001, oferece uma estrutura padronizada para documentar a funcionalidade humana. Organizada em componentes como funções corporais, estruturas corporais, atividades e participação e, fatores ambientais, utiliza um sistema de codificação universal e escalas quantificáveis para classificar a funcionalidade ao longo da vida9. Diferentemente de modelos de saúde tradicionais, a CIF enfatiza que a incapacidade surge da interação entre condições intrínsecas de saúde (ex.: funções corporais, estruturas corporais e atividades e participação) e fatores extrínsecos (ex.: fatores ambientais e pessoais)10,11. Essa abordagem tornou-se uma ferramenta essencial para compreender a funcionalidade em pessoas idosas, oferecendo insights críticos sobre como elementos como nutrição, auxílios de mobilidade e acesso a cuidados moldam a vida diária e a qualidade do cuidado em populações institucionalizadas e não institucionalizadas12–14.
Este estudo tem como objetivo comparar o impacto de barreiras e facilitadores ambientais na funcionalidade de pessoas idosas institucionalizadas e não institucionalizadas no Brasil. Utilizando a estrutura da CIF, a pesquisa busca identificar os fatores ambientais que mais afetam a funcionalidade, com o objetivo de informar futuras intervenções e políticas para melhorar a qualidade de vida e a autonomia de pessoas idosas em diferentes contextos de moradia.
MÉTODO
Este estudo transversal incluiu 208 pessoas idosas (com idade superior a 60 anos de idade), residentes em instituições de longa permanência ou em ambientes comunitários no sul do Brasil, no município de Curitiba e sua região metropolitana. Os participantes foram selecionados por conveniência. Para o grupo não institucionalizado, utilizou-se uma lista de 308 participantes de um centro comunitário na região metropolitana. Após tentativas de contato e recusas, 104 pessoas idosas não institucionalizadas foram recrutadas. Para equilibrar os grupos, um número igual de 104 participantes institucionalizados foi selecionado a partir de 13 instituições de longa permanência na mesma região.
Os dados foram coletados por meio de um questionário estruturado para capturar informações sociodemográficas, características individuais, funcionalidade e fatores ambientais. A triagem cognitiva foi realizada com o Mini-Exame do Estado Mental (MEEM), estabelecendo como critério de elegibilidade uma pontuação igual ou maior que 19 para os indivíduos analfabetos e igual ou maior que 23 para pessoas idosas com 5 anos ou mais de formação escolar, garantindo que os participantes tivessem capacidade cognitiva adequada para responder aos instrumentos do estudo15. Esse intervalo foi escolhido para assegurar que os participantes compreendessem e respondessem de forma precisa ao questionário. Pessoas idosas com comprometimento cognitivo moderado ou severo que afetasse percepção, raciocínio ou linguagem foram excluídas.
As variáveis sociodemográficas incluíram sexo (masculino, feminino), idade (em anos), peso (em quilogramas), altura (em metros), estado civil (casado, solteiro, separado/divorciado, viúvo), arranjos de moradia (morando sozinho ou com outras pessoas) e nível educacional (em anos). As características individuais avaliadas incluíram status de tabagismo (não fumante, ex-fumante, fumante), consumo de álcool (não consome ou consome pelo menos uma vez por semana), atividade física regular (nenhuma, aeróbica/treinamento de resistência) e estado de saúde autopercebido (ruim/regular, bom/excelente).
O Índice de Massa Corporal (IMC) foi calculado a partir de peso e altura autorrelatados e categorizado de acordo com os padrões de Lipschitz para pessoas idosas: baixo peso (<22 kg/m²), eutrófico (23–27 kg/m²) e excesso de peso (>27 kg/m²)16. Dados sobre comorbidades (por exemplo, hipertensão, diabetes, doenças cardíacas, doenças pulmonares crônicas, doenças cerebrovasculares, osteoporose e doenças articulares), também foram registrados relatos de dor no último mês e polifarmácia (definida como o uso de seis ou mais medicamentos17).
A funcionalidade foi avaliada utilizando o WHODAS 2.0, um questionário com 36 itens, que mede a dificuldade nas atividades diárias em seis domínios: cognição, mobilidade, autocuidado, relacionamentos interpessoais, atividades diárias e participação social. Os escores padronizados foram calculados para cada domínio, variando de 0 (nenhuma dificuldade) a 100 (máxima dificuldade). Os participantes foram dicotomizados em presença ou ausência de dificuldades funcionais específicas de cada domínio18.
Os fatores ambientais foram avaliados utilizando um questionário estruturado desenvolvido pelos pesquisadores e validado por cinco especialistas19. Esses especialistas, convidados por e-mail, avaliaram o construto, o conteúdo e a clareza de cada questão em uma escala de 10 pontos (0=inválido ou pouco claro; 10=válido e claro). Os itens que alcançaram pelo menos 80% de concordância entre os especialistas foram mantidos20. Os especialistas foram selecionados com base nos critérios de Fehring21, com adaptações de Melo et al. 22, exigindo mestrado e expertise na CIF.
Quanto a aplicação aos participantes, as pessoas idosas foram orientadas a refletir sobre os últimos 30 dias e indicar se cada fator ambiental atuava como facilitador, barreira ou não impactava suas vidas diárias. A magnitude de cada fator foi avaliada usando uma escala de qualificadores: 4 - barreira completa; .3 - barreira severa; .2 - barreira moderada; .1 - barreira leve; 0 - nem barreira nem facilitador; +1 - facilitador leve; +2 - facilitador moderado; +3 - facilitador severo; +4 - facilitador completo. Para a análise estatística, as variáveis ambientais foram dicotomizadas como “facilitadores” ou “barreiras”.
Os dados foram coletados entre agosto de 2020 e maio de 2021, por meio de entrevistas realizadas por telefone ou videochamada ao vivo, conduzidas por um único pesquisador para garantir consistência. As entrevistas tiveram duração de 30–45 minutos. Essa abordagem remota foi adotada devido às restrições impostas pela pandemia de covid-19. Todos os participantes forneceram consentimento informado após serem esclarecidos sobre os objetivos e procedimentos do estudo.
As variáveis categóricas foram resumidas em frequências absolutas e relativas, enquanto as variáveis contínuas foram apresentadas como médias com intervalos de confiança (IC). O teste de Shapiro-Wilk foi utilizado para avaliar a normalidade. Comparações entre grupos para variáveis categóricas foram realizadas utilizando os testes Qui-quadrado ou Exato de Fisher, enquanto o teste U de Mann-Whitney foi aplicado para variáveis contínuas não paramétricas. Modelos de regressão logística univariada e multivariada foram utilizados para explorar associações entre incapacidade funcional e variáveis independentes, incluindo fatores sociodemográficos, individuais e ambientais. Variáveis com valores de p<0,2 foram incluídas nos modelos multivariados, e a significância estatística foi definida em 5% (p<0,05).
Este estudo seguiu as diretrizes éticas das Resoluções nº 466/2012 e nº 510/2016 para pesquisas envolvendo seres humanos e foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Pontifícia Universidade Católica do Paraná sob o número de aprovação 4.209.905.
RESULTADOS
O estudo incluiu 208 pessoas idosas, divididas igualmente entre os grupos institucionalizados e não institucionalizados. Suas características sociodemográficas e de saúde estão resumidas na Tabela 1.
Os participantes institucionalizados eram geralmente mais velhos, predominantemente solteiros ou viúvos, e apresentavam menor desempenho cognitivo em comparação com os participantes não institucionalizados. Ambos os grupos tinham níveis educacionais semelhantes, com a maioria relatando até nove anos de escolaridade.
Diferenças relacionadas à saúde e ao estilo de vida foram evidentes: os participantes institucionalizados relataram maior frequência de dor musculoesquelética, taxas mais altas de polifarmácia, menor Índice de Massa Corporal (IMC) e menor prática de atividade física. Por outro lado, os participantes não institucionalizados demonstraram comportamentos mais saudáveis, como menor prevalência de tabagismo e maior engajamento em atividades físicas, destacando o impacto do ambiente sobre o estado de saúde e funcionalidade.
A Tabela 2 apresenta as pontuações padronizadas do WHODAS 2.0 em todos os domínios para os grupos não institucionalizados e institucionalizados. Os participantes institucionalizados demonstraram significativamente mais dificuldades em atividades da vida diária do que os não institucionalizados, com diferenças estatisticamente significativas em todos os domínios, exceto cognição.
Comparação de incapacidade entre pessoas idosas da comunidade e institucionalizados com base nos domínios do WHODAS 2.0 e pontuações resumidas (n=208) Curitiba, PR, 2021.
A Tabela 3 compara a percepção de barreiras e facilitadores relacionados a fatores ambientais entre os grupos.
Comparação da existência de uma barreira ou facilitador na vida diária para acessar fatores ambientais entre pessoas idosas residentes na comunidade e institucionalizadas (n=208). Curitiba, PR, 2021.
A Tabela 4 apresenta a distribuição dos qualificadores do questionário de fatores ambientais, utilizando uma escala que varia de 4 (barreira completa) a +4 (facilitador completo). Os dados são apresentados separadamente para pessoas idosas NI e I.
Distribuição dos qualificadores da CIF entre Não Institucionalizados e Institucionalizados para cada categoria do questionário de fatores ambientais. Curitiba, PR, 2021.
Os resultados indicam um predomínio de fatores ambientais facilitadores em todas as categorias para ambos os grupos. No entanto, diferenças notáveis entre os grupos surgem no capítulo 1 desse componente da CIF, que inclui categorias de produtos e tecnologia. Participantes institucionalizados identificaram com maior frequência os produtos e tecnologias para atividades culturais, recreativas e esportivas como facilitadores. Em contraste, os participantes não institucionalizados foram mais propensos a perceber os produtos e tecnologias relacionados a práticas religiosas e vida espiritual como facilitadores.
Observam-se diferenças significativas nas percepções de suporte familiar imediato. Participantes não institucionalizados foram mais propensos a selecionar qualificadores +4, refletindo percepções mais fortes de suporte familiar completo. Por outro lado, os participantes institucionalizados relataram níveis mais elevados de suporte de cuidadores e assistentes pessoais, destacando a importância dos cuidados profissionais em ambientes institucionais. O suporte de amigos, conhecidos e membros da comunidade também variou, com os participantes não institucionalizados expressando percepções mais fortes desses relacionamentos como facilitadores.
A análise de regressão univariada, expressa na Tabela 5, demonstrou associação estatisticamente significativa para o fator do ambiente “atitudes individuais de conhecidos, pares, colegas, vizinhos e membros da comunidade” no grupo não institucionalizado. Além dessa variável, a idade, o IMC, a dor e o estado geral de saúde foram fatores de risco sociodemográficos significativos para incapacidade funcional em pessoas idosas que vivem na comunidade. Para as pessoas idosas institucionalizadas, dor, comorbidades e polifarmácia foram identificadas como fatores de risco influentes.
Análise de regressão logística binária (univariada e multivariada) para fatores associados ao WHODAS 2.0 em pessoas idosas institucionalizadas e não institucionalizadas. Curitiba, PR, 2021.
Na regressão logística multivariada os preditores de incapacidade funcional para as pessoas não institucionalizadas foram o fator ambiental acima citado, dor e autopercepção de saúde. Já para as institucionalizadas foram a dor e a polifarmácia.
A dor aumentou a chance de incapacidade funcional em 3,16 vezes no grupo não institucionalizado, enquanto para o grupo institucionalizado o aumento foi de 10,06 vezes. A polifarmácia foi um fator de risco para incapacidade entre as pessoas idosas não institucionalizadas, com um OR ajustado de 4,59. Entre os fatores ambientais, as atitudes individuais de conhecidos, companheiros, colegas, vizinhos e membros da comunidade aumentaram em 5,28 vezes a chance de incapacidade funcional em pessoas idosas não institucionalizadas.
DISCUSSÃO
Este estudo analisou como os fatores ambientais impactam a funcionalidade de pessoas idosas institucionalizadas e não institucionalizadas no Brasil. Entre os participantes não institucionalizados, as atitudes individuais de conhecidos, companheiros, colegas, vizinhos e membros da comunidade emergiram como o único fator ambiental estatisticamente significativo no modelo de regressão logística multivariada. Participantes que percebiam essas atitudes como barreiras destacaram a falta de interações positivas, consideradas evitáveis ou modificáveis. Por outro lado, aqueles que as viam como facilitadoras enfatizaram a importância de comportamentos de apoio em momentos de necessidade, tanto no passado quanto no futuro.
Os fatores ambientais são cruciais para promover um envelhecimento saudável e ativo, abrangendo mais do que aspectos físicos ou tecnológicos. Eles incluem elementos como configurações naturais, modificações feitas pelo ser humano, redes sociais, atitudes e políticas públicas23. Reconhecer a importância desses fatores é essencial para reduzir a incapacidade e fomentar a participação das pessoas idosas18. Este estudo identificou produtos e tecnologias culturais, recreativos e esportivos como facilitadores significativos para ambos os grupos, reforçando o valor do engajamento social e cultural na manutenção da funcionalidade.
A dor surgiu como um fator destacado que diferencia os grupos. Pessoas idosas institucionalizadas relataram níveis mais elevados de dor, que estavam fortemente associados ao aumento da incapacidade. A dor crônica, particularmente a musculoesquelética, é prevalente entre pessoas idosas no Brasil e está consistentemente associada à redução da independência e qualidade de vida24,25. Neste estudo, as áreas da coluna lombar e os membros inferiores foram os locais de dor mais relatados, consistentes com achados que identificam essas áreas como contribuintes críticos para limitações funcionais26,27. O manejo eficaz da dor é essencial para melhorar a funcionalidade, destacando a importância de profissionais de saúde em lidar com esse problema tanto em contextos comunitários quanto institucionais.
Outro achado significativo foi a polifarmácia, que aumentou a probabilidade de incapacidade entre os participantes institucionalizados. Isso está alinhado com evidências que relacionam a polifarmácia a desfechos adversos, como maior número de comorbidades, pior autoavaliação de saúde, redução da atividade física e maiores riscos de quedas, depressão e dor28. Otimizar a gestão de medicamentos é, portanto, crucial para mitigar esses riscos e preservar a funcionalidade e a qualidade de vida dessa população.
A autoavaliação de saúde foi notavelmente melhor entre os participantes não institucionalizados, refletindo possivelmente os benefícios do engajamento comunitário em atividades realizadas nos centros comunitários. Essas atividades promovem bem-estar, confiança, adaptabilidade e resiliência. Programas educacionais, atividades físicas e oficinas culturais também contribuem para a funcionalidade ao permitir que pessoas idosas participem ativamente de iniciativas sociais e colaborativas, o que aumenta sua autonomia e autoestima29.
As condições de vida desempenharam um papel importante na funcionalidade. Participantes institucionalizados se beneficiaram de rotinas estruturadas e cuidados profissionais, que ajudaram a mitigar algumas limitações funcionais. No entanto, enfrentaram desafios como isolamento social e falta de presença familiar, impactando negativamente seu bem-estar emocional. Por outro lado, os participantes não institucionalizados, embora geralmente mais autônomos, enfrentaram barreiras como acesso limitado aos cuidados de saúde e isolamento social, que afetaram adversamente sua funcionalidade e qualidade de vida.
A funcionalidade, avaliada pelo WHODAS, revelou níveis moderados de incapacidade entre os participantes institucionalizados e níveis leves entre os não institucionalizados. Esses achados estão alinhados com pesquisas anteriores que relataram níveis mais altos de incapacidade em populações institucionalizadas, embora diferenças contextuais nas metodologias devam ser consideradas28,30. Neste estudo, a participação em atividades de centros comunitários, focadas em engajamento físico, cultural e recreativo, provavelmente contribuiu para os menores níveis de incapacidade observados entre os participantes não institucionalizados.
O desempenho cognitivo, medido pelo WHODAS, não diferiu significativamente entre os grupos. No entanto, os participantes institucionalizados obtiveram pontuações mais baixas no MEEM, consistentes com estudos que relatam taxas mais altas de comprometimentos cognitivos, como demência e depressão, entre pessoas idosas institucionalizadas no Brasil26,27. Isso destaca a importância de criar ambientes de suporte que promovam o engajamento cognitivo e atividades recreativas para mitigar o declínio cognitivo31.
As relações de apoio foram identificadas como facilitadores críticos em ambos os grupos. Participantes não institucionalizados contavam principalmente com o apoio familiar, enquanto os institucionalizados citaram cuidadores e assistentes pessoais como suas principais fontes de suporte. No entanto, atitudes sociais negativas em relação ao envelhecimento foram identificadas como barreiras em ambos os grupos, particularmente entre os participantes institucionalizados. Visões preconceituosas e estereótipos sobre pessoas idosas não apenas reforçam a discriminação, mas também diminuem a percepção de autonomia e independência32. Campanhas de conscientização pública e iniciativas educacionais são urgentemente necessárias para combater esses preconceitos, promovendo percepções sociais mais positivas sobre o envelhecimento e as pessoas idosas.
Este estudo tem algumas limitações. O desenho transversal restringe inferências causais entre incapacidade e fatores associados, limitando a compreensão de suas relações temporais. Além disso, a dependência de dados autorreferidos, como peso e altura, introduz um potencial viés de recordação. O uso de uma amostra de conveniência e a restrição geográfica à cidade de Curitiba também podem limitar a generalização dos achados para outras regiões do Brasil com diferentes contextos socioeconômicos. Pesquisas futuras com amostras maiores, mais diversificadas e desenhos longitudinais são recomendadas para melhor compreender os caminhos causais que influenciam a funcionalidade em pessoas idosas.
Este estudo destaca como os fatores sociodemográficos e ambientais influenciam a incapacidade entre pessoas idosas no Brasil, contribuindo para intervenções direcionadas que previnam o declínio funcional e promovam ambientes de vida mais saudáveis tanto para indivíduos comunitários quanto institucionalizados. O ambiente desempenha um papel vital na configuração da funcionalidade, especialmente à medida que as pessoas idosas priorizam simplicidade e conforto em seus arredores. Estratégias abrangentes de intervenção que abordem os facilitadores e mitiguem as barreiras podem melhorar a qualidade de vida, apoiar o envelhecimento no local e aprimorar o acesso aos cuidados.
CONCLUSÃO
Este estudo destaca o papel fundamental dos fatores ambientais na influência da funcionalidade de pessoas idosas institucionalizadas e não institucionalizadas. Indivíduos institucionalizados apresentam níveis mais elevados de incapacidade nos domínios de mobilidade, autocuidado e participação social. No entanto, eles se beneficiam de rotinas estruturadas e cuidados profissionais, que ajudam a mitigar alguns desafios. Em contrapartida, pessoas idosas não institucionalizadas, embora geralmente mais autônomas, enfrentam barreiras significativas, incluindo isolamento social e acesso limitado a cuidados de saúde, que impactam negativamente sua funcionalidade.
A principal contribuição deste estudo está na identificação de barreiras e facilitadores ambientais específicos que influenciam a funcionalidade. Facilitadores como o apoio familiar, atitudes sociais positivas e serviços acessíveis promovem a independência e a participação. Por outro lado, barreiras como acessibilidade inadequada e infraestrutura insuficiente de cuidados de saúde representam desafios significativos à autonomia das pessoas idosas. Esses achados oferecem insights valiosos para formuladores de políticas e profissionais de saúde, ressaltando a necessidade de intervenções direcionadas que enfrentem as barreiras ambientais ao mesmo tempo que aproveitem os facilitadores para promover a qualidade de vida e a autonomia entre pessoas idosas em diferentes contextos de convivência.
AGRADECIMENTOS
Gostaríamos de agradecer às instituições que participaram do estudo, ao centro de pessoas idosas e aos diversos profissionais que contribuíram para o contato com os participantes para que a coleta ocorresse.
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Financiamento da pesquisa: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES). Códigos: 001, 88887.357872/2019-00 e 88887.339996/2019-00.
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DISPONIBILIDADE DE DADOS
O conjunto de dados que embasa os resultados deste estudo pode ser disponibilizado mediante solicitação à autora correspondente Maria Isabel Barboza Silveira, respeitando-se os critérios éticos e legais aplicáveis.
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Editado por: Camila Alves dos Santos
O conjunto de dados que embasa os resultados deste estudo pode ser disponibilizado mediante solicitação à autora correspondente Maria Isabel Barboza Silveira, respeitando-se os critérios éticos e legais aplicáveis.
